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Com um app de monitoramento de barragens, a DSafeTech quer evitar tragédias como as de Mariana e Brumadinho

- 10 de julho de 2019
Guilherme Tomio (à esq. na foto), CTO, e Alexandre Paes, CEO da DsafeTech.

“Quando ocorreu a tragédia de Mariana, não há ninguém que não tenha ficado perplexo”, diz o empreendedor Alexandre Paes, 41. “Aquilo ficou na minha cabeça.”

A resposta de Alexandre veio por meio do empreendedorismo. Ele é o fundador e CEO da DSafeTech. Criada em 2018, a startup desenvolveu um aplicativo que permite relatórios diários e alertas em tempo real sobre o estado de barragens usadas por mineradoras e hidrelétricas, por exemplo. Nos moldes atuais, segundo o empreendedor (que realizou diversas entrevistas para validação técnica do produto), esses relatórios costumam ser gerados em intervalos de 20 a 30 dias.

A ideia é que a solução da DSafeTech ajude companhias a evitar a repetição de desastres como os provocados pelos rompimentos das barragens de mineração nas cidades de Mariana, em novembro de 2015, cuja enxurrada de lama deixou 19 mortos e contaminou o Rio Doce, e Brumadinho, em 25 de janeiro deste ano, que matou pelo menos 246 pessoas — dezenas de outras estão desaparecidas.

O BRASIL TEM MAIS DE MIL BARRAGENS COM ALTO RISCO DE RUPTURA

Hoje no Brasil existem cerca de 24 mil barragens, usadas para contenção de resíduos minerais e industriais, em hidrelétricas e também em sistemas de irrigação. Segundo um relatório da Agência Nacional de Águas (ANA) de 2017, há 1 124 barragens com categoria de risco alto de ruptura, considerando, por exemplo, idade, altura e material usado na construção.

Dessas, 45 estariam em estado  vulnerável, com problemas como rachaduras, buracos e equipamentos de segurança quebrados — a maior parte nas regiões Norte e Nordeste, em estados como Acre, Alagoas e Bahia.

“Além disso, há cerca de 20 mil barragens no Brasil que foram catalogadas, porém não vistoriadas, ou seja, não se sabe nem como estão”

Segundo o empreendedor, a maior parte das barragens no país usam dispositivos de leitura manual, que demandam profissionais responsáveis por checar in loco as informações desses equipamentos de controle. São, em média, 50 a 100 dispositivos por reservatório (mas o número pode superar 300), que monitoram desde as movimentações da barragem em milímetros até os níveis de infiltração de água no solo, entre outros parâmetros que indicariam possíveis riscos de ruptura.

“O leiturista vai até o equipamento, lê a informação, anota na prancheta, volta para o escritório e coloca o dado em uma planilha de Excel. Ao final de 20 a 30 dias é gerado um relatório para o engenheiro responsável”, diz o empreendedor.

ALERTAS POR EMAIL OU SMS PODEM ACIONAR PLANOS EMERGENCIAIS

A proposta da DSafeTech é tornar esse processo bem mais rápido. O aplicativo, desenvolvido ao longo de nove meses, é alimentado com dados do Plano de Segurança da Barragem (PSB), documento obrigatório por lei que deve apresentar dados técnicos de construção, operação e manutenção do empreendimento. É esse plano que determina a periodicidade de leitura dos equipamentos.

Seguindo essa diretriz, e munido de um celular com o app da DSafeTech, o leiturista pode escanear um QR Code junto ao dispositivo, que grava o dia e horário da leitura, fazer a medição e inserir os dados diretamente no aplicativo.

Segundo o empreendedor, o aplicativo permite tomadas de decisão mais assertivas, incluindo o acionamento de medidas emergenciais.

Caso o dado indique algum problema (por exemplo, nível alto de água embaixo do solo), é emitido um alerta por SMS ou email ao engenheiro responsável, que pode, então, acionar um plano emergencial, se for o caso. Há três níveis de alerta – amarelo, vermelho ou preto – de acordo com a gravidade da situação. “O que levaria de 20 a 30 dias, conseguimos em tempo real”, afirma Alexandre.

Os relatórios de inspeção são enviados aos engenheiros diária ou semanalmente, segundo o empreendedor verificou em visitas para validação de produto. Caso a barragem tenha equipamentos de leitura automática, o que demanda um investimento alto (de R$ 8 mil a R$ 30 mil por dispositivo, segundo Alexandre, dependendo de marcas e recursos), a informação é enviada diretamente para o sistema em nuvem da DSafeTech. “Basta sincronizar o equipamento com a nossa plataforma”, diz.

ERROS E ACERTOS NA TRAJETÓRIA DO EMPREENDEDOR

Formado em Ciência da Computação, com 15 anos de experiência como professor universitário E pós em Negócios na internet, Alexandre empreendeu a ASP Softwares, especializada no desenvolvimento de sistemas para a área fiscal das empresas. Ao longo das últimas duas décadas, no entanto, ele nunca se contentou em tocar uma ideia só.

“Algumas pessoas falam que não consigo colocar foco em um negócio. Brinco que sou multifocal. Se eu me concentrar em uma empresa só serei um cara triste. Às vezes surge uma solução para o mercado, encontro uma pessoa que queira apostar comigo, a gente vai lá e tenta”

Foi assim que ele criou empresas de back-up, manutenção de hardware e um software para medicamentos de manipulação. “Eu já quebrei umas seis vezes com isso. É aquela velha história: você tem uma ideia maravilhosa à noite, vai dormir rico, acorda no outro dia e está pobre”, brinca. Entre erros e acertos, fundou a Cliente Smile Pesquisas, uma plataforma web de monitoramento de satisfação de clientes, que hoje tem 15 funcionários. “Já fizemos mais de 200 mil pesquisas no Brasil”, diz.

A DSafeTech veio de mais uma dessas inquietações. Alexandre chamou o engenheiro mecânico Guilherme Tomio, 33, com quem já vinha trabalhando em outros projetos há cerca de dez anos, para embarcar na empreitada, como CTO.

UMA USINA DA CPFL EM SANTA CATARINA SERVIU COMO PROJETO-PILOTO

Em julho de 2018, eles apresentaram a ideia de um sistema de monitoramento e segurança de barragens à companhia de energia CPFL, que já era cliente de sua empresa de desenvolvimento de softwares.

“Engenheiros geotécnicos e civis da CPFL nos passaram as informações técnicas de monitoramento de barragens e nós fizemos o desenvolvimento do aplicativo. Assim que apresentamos o produto, fechamos o primeiro contrato com a CPFL”, conta.

No início o app era usado apenas na usina de Campos Novos, em Santa Catarina, com quase 300 equipamentos monitorados (em operação desde 2006, a hidrelétrica tem área inundada de 25,9 km e potência instalada de 880 MW). Depois foi feito um contrato de expansão para um total de seis usinas gaúchas e catarinenses.

“Criamos também um aplicativo para a CPFL oferecer à população que mora nas áreas abaixo das barragens, para facilitar comunicação em casos de risco”

Alexandre diz que está em fase final de negociação um contrato para atender cerca de 150 barragens, a cargo de outras companhias. Segundo Alexandre, há negociações também com a CPFL ampliar o contrato e abarcar outros reservatórios.

DESAFIO AGORA É ENCONTRAR INVESTIDORES E ESCALAR A STARTUP

A meta da DSafeTech é ambiciosa: nos próximos dois anos, a startup quer alcançar 500 barragens e alavancar o faturamento dos atuais R$ 240 mil para R$ 40 milhões.

No ano passado, a startup foi acelerada pela Spin, baseada em Jaraguá do Sul e focada em inovação para a indústria. “Entendemos de que forma os investidores pensam. O foco agora é captação de recursos para desenvolvimento de produto e ampliação do mercado”, afirma Alexandre.

Além da conquista de novos clientes, a estratégia passa por tornar-se referência na área. “Queremos aliar o conhecimento do engenheiro que está em campo com o que se pesquisa nas universidades sobre monitoramento e segurança de barragens e colocar esses atores em contato via uma nova função dentro do nosso aplicativo”, afirma o CEO.

Ainda em fase de planejamento (e na dependência de recursos), essa nova função serviria para agregar conteúdos técnicos e acadêmicos em um só canal, funcionando como uma rede de comunicação que incluiria os fabricantes de equipamentos de controle.

“Dentro desse universo existem dados confidenciais, mas aquilo que pode ser compartilhado para melhoria do ecossistema, queremos disponibilizar”, diz Alexandre. “Criando essa comunicação, não tenho dúvida que nossa ferramenta possa se tornar referência em normas de segurança e barragens.”

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  • Projeto: DSafeTech
  • O que faz: Aplicativo para monitoramento de barragens em tempo real
  • Sócio(s): Alexandre Paes e Guilherme Tomio
  • Funcionários: Não tem
  • Sede: Lages (SC)
  • Início das atividades: agosto de 2018
  • Faturamento: R$ 240 mil
  • Contato: [email protected]
Veja também:

Como a CPFL se aproximou de startups para acelerar seu processo de inovação

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