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Com um premiado hardware nacional, a Pluvi.On consegue dizer onde, quando e quanto vai chover

- 15 de agosto de 2018
Pedro, Diogo, Mariana, Hugo e Murilo (a partir da esq.) queriam mudar o rumo de suas carreiras quando fundaram a Pluvi.On.

Em maio, a ONU lançou, na Áustria, a plataforma United Smart Cities, que busca projetos urbanos inteligentes e sustentáveis de impacto global. Entre os selecionados, estava um representante brasileiro, a startup Pluvi.On, que só não faz chover, mas se especializou em monitoramento climático preciso. Com um hardware 100% nacional, ela oferece previsões acuradas, localizadas e a baixo custo — que podem ajudar a alertar a população em caso de enchentes e deslizamentos.

Curiosamente, a empresa, começou em 2016 como um projeto de impacto social de residência da Red Bull Basement, em São Paulo, sem contar com um único meteorologista em seu quadro (hoje, já possui um profissional da área no quadro da startup). O CEO Diogo Tolezano, 35, formou-se em Engenharia de Produção no Instituto Mauá de Tecnologia e fez uma pós-graduação em Administração no Insper. Pedro Godoy, 34, que responde pela Operação, é engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP. Além deles, há outros três sócios: Murilo Souza, 34 (financeiro), Mariana Marcílio, 31 (comunicação), e Hugo Santos, 35 (tecnologia).

Em dois anos, eles desenvolveram um pluviômetro – medidor de chuvas – que segundo os próprios, é mais econômico e prático em relação aos equipamentos importados, além de oferecer dados mais precisos sobre o clima e um sistema que permite emitir alertas por região.

NO COMEÇO, ELES NÃO SABIAM A DIREÇÃO E TIVERAM VONTADE  DE DESISTIR

Hoje, os sócios já passaram por acelerações no Google, no Facebook, na Artemisia e na Din4mo e são vistos como inovadores pela ONU. Mas quase deixaram a ideia de lado antes de dar o primeiro passo. A inspiração para o negócio veio quando conheceram o Safecast, uma iniciativa que se seguiu ao vazamento nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011. Como o governo negligenciava informações sobre os riscos, a população se organizou, criou um medidor de radiação de baixo custo e o instalou nas janelas dos carros. Em três meses, tinham o país inteiro monitorado e os dados disponíveis na mídia. “Pensamos que se esse descaso acontecia no Japão, imagine no Brasil”, diz Diogo. Ele continua:

“Era 2016 e a gente saía daquela crise hídrica em São Paulo. Resolvemos estudar o tema da água até chegar à questão das enchentes e dos deslizamentos”

Mas, pesquisando o número de vítimas fatais nessas ocorrências, avaliaram que não era um índice tão expressivo e desanimaram. “Foi um amigo que trabalha em seguradoras que nos alertou sobre o quanto a nossa solução poderia ajudar vários setores da sociedade”, conta Pedro. Na época, os futuros sócios buscavam uma virada nas carreiras. Diogo havia trabalhado nas indústrias de bebidas e automotiva quando, em 2008, experimentou a vida de consultor. Na consultoria, conheceu Pedro, que vinha da área bancária, e Murilo, há anos no papel de analista financeiro. “Cada projeto era um desafio intelectual muito grande, mas, depois de cinco anos, aquilo parou de fazer sentido para mim. Eu estava acordando todo dia e trabalhando muito para dar mais dinheiro para quem já tinha”, afirma o CEO.

De olho em negócios de impacto social, ele tentou seu primeiro negócio – a Jets, startup no setor de ensino, que durou apenas oito meses. Também foi sócio de uma empresa de alimentos orgânicos – a Sementes da Paz, que vendeu em 2014. No fim, Diogo acabou como diretor de Educação na Artemisia. Com o “bichinho do empreendedorismo ainda coçando”, recebeu uma ligação de Pedro.

O amigo também tinha largado a consultoria, em 2011. Havia crescido na empresa, tocando projetos até no exterior. Mas estava insatisfeito. “Vi um gerente de conta ouvir a voz da filha pela primeira vez no telefone e percebi que não queria essa vida para mim.” Passou por uma pequena representante comercial, responsável pelo famoso Tatuzão, o equipamento que perfura os buracos do metrô. “Era gerente de negócios e viajava muito pela América Latina. Ficava fora três semanas por mês, não tinha qualidade de vida.” Até que aceitou o convite de voltar à engenharia, em uma das obras mais grandiosas e polêmicas dos últimos anos: a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. “Vi todo um lado bastante ruim da engenharia civil e me incomodava muito com a ineficiência e o desperdício”, conta.

Depois de todas essas experiências e desiludido com a carreira, Pedro, sem muitas perspectivas, resolveu ligar para Diogo.  Qual não foi sua surpresa ao encontrá-lo em um momento muito parecido. O primeiro empurrão da Pluvi.On surgiu desse reencontro, em 2015, e do fato de ambos quererem investir em algo que envolvesse tecnologia e gerasse impacto social. “Naquele primeiro momento, a gente não sabia direito o que queríamos, só tinha umas pirações, então, montamos uma consultoria, que pagou nossas contas e nos ajudou até a fazer um pezinho de meia por um tempo”, diz Diogo. Enquanto isso, Murilo também vivia a ruptura a seu modo, tirando uma licença da consultoria e se isolando por oito meses no Uruguai para praticar meditação. Funcionou, pois, de volta, pediu as contas e se juntou aos amigos.

Sem ter certeza de que caminho seguir, eles fizeram o Friends of Tomorrow, curso de futurismo da escola de inovação e criatividade Aeroli.to. Tiveram contato com tudo que estava acontecendo, de nano-robótica à inteligência artificial, e também conheceram Mariana e Hugo. Ela vinha do mundo da moda, como designer de produto, e estava frustrada com essa indústria. Resolveu estudar como a tecnologia poderia ser aplicada à vestimenta, com os wearables. Já ele, que é cientista de dados, trabalhou com tecnologia na Mapfre, na Bovespa e na Oracle, e revelou que pensava em se demitir. Pronto, o time estava montado! Faltava entender apenas com o que estavam jogando.

O PROTÓTIPO ERA MUITO SIMPLES, MAS ANIMOU O GRUPO NA BUSCA POR CLIENTES

Em meados de 2016, surgiu o papo do medidor de radiação de Fukushima que levou à epifania do pluviômetro. A primeira estação de monitoramento pluvial foi montada quase no improviso, com uma embalagem de luminária e o resto de um acrílico. No laboratório do Insper, usaram uma máquina de corte a laser e fizeram as pás da gangorrinha que mede a chuva. A programação ficou a cargo de Pedro.

Parece um trabalho de feira de ciências, mas o protótipo das estações da Pluvi.On provou que era viável medir a chuva em tempo real.

Hoje, perto das versões mais modernas que eles produzem, o protótipo parece uma peça de trabalho de feira de ciências escolar. Serviu, porém, para provar que era viável medir a chuva em tempo real.

Quando fizeram o protótipo do produto, usavam o espaço de um coworking para trabalhar e as economias juntadas com a consultoria, cerca de 300 mil reais, ajudaram a manter a operação no primeiro ano.

Em poucos meses de atividade, se mudaram para o Red Bull Basement, localizado no centro paulistano, onde como residentes, puderam usar o espaço por dois meses e receber orientações de mentores. Foi a primeira aceleração da equipe. Pedro conta mais a respeito:

“A fase inicial de um negócio é um momento difícil de credibilidade. Ter alguém para te ajudar a sair desse looping de ter ideias e não conseguir executá-las é muito importante”

O empurrão serviu não só para aprimorarem os testes, mas também para buscarem potenciais clientes, em 2017. “A gente saiu da residência, tinha ganhado uma exposição super legal, então empresas nos procuravam para aplicar essa solução na prática”, diz Diogo. “No começo, ficamos muito tempo indo atrás de cidades. Conversamos com umas 15. Até descobrirmos que, pela nossa legislação, prefeituras não podem contratar startups, pois uma empresa tão nova não tem o histórico de balanço que eles exigem.” Ao calcular a perenidade do negócio, voltaram-se para quem também tem dinheiro e é afetado pelo clima: o setor privado. Para isso, precisariam investir em uma estação mais robusta, que resistisse bastante tempo em campo e levasse a produção para uma escala industrial.

UM BOM EMPURRÃO PARA ESCALAR: PARCERIAS E TROCA DE EXPERIÊNCIAS

Mais do que nunca, foi necessário ir atrás de parcerias. Entre elas, institutos como o CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações), de Campinas (SP), que têm acesso a fundos disponíveis para pesquisa e desenvolvimento do país. De um deles, o Embrapii, do Ministério da Ciência e Tecnologia, captaram uma verba para investir no desenvolvimento da nova estação, no valor de 1,6 milhão de reais. Foi a primeira rodada de investimento da Pluvi.On, no final de 2017. Também firmaram acordo com uma empresa da Islândia, por conta do poder computacional deles, que permite entregar uma previsão do tempo mais precisa do que a disponível no Brasil.

Outro acerto estratégico foi com a empresa de telecomunicações Icatel. Especializada na instalação e manutenção de telefones públicos pelo Brasil, um ramo que está naturalmente morrendo, eles puderam emprestar a experiência no posicionamento das estações.

Hoje, a Pluvi.On conta com 120 estações de monitoramento em quatro estados.

Tudo isso permitiu que eles desenvolvessem uma nova aparelhagem, já com capacidade para ser distribuída a partir do final deste mês. “Com a estação nova, a gente começa a escalar de verdade, vendendo muito forte para todos os mercados”, afirma, animado, Diogo.

Atualmente, eles trabalham com uma cartela modesta de cinco clientes, com cerca de 120 estações espalhadas pelos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Paraná. “Por enquanto, nosso faturamento é irrisório, algo como 60 mil reais por ano. Mas já projetamos romper a barreira dos 10 milhões até 2022.” Com contratos de pré-venda valendo, eles selecionaram 13 empresas que poderão começar a atender.

A nova estação foi pensada para ser de plástico injetado, um processo de industrialização mais escalável – uma máquina produz uma peça em questão de segundos, cerca de mil por dia. Eles já terceirizaram essa etapa. Mas ainda preferem fazer encomendas menores, um primeiro lote de 50 ou 100 peças, para atender a atual demanda.

COMO FUNCIONA, NA PRÁTICA, O SISTEMA DE PREVISÃO DE CHUVAS

Um exemplo do uso do produto da Pluvi.On é o atendimento na área portuária de Salvador, onde um navio pode ter problema para atracar se o nível chegar a 15 nós de vento. Na iminência do risco de acidentes, o sistema da empresa emite um alerta. Com as novas estações resultando em áreas de cobertura maiores e grande precisão, Diogo espera implementar alertas de vários tipos especificamente para a população. “A gente entende que a nossa inovação está na maior acuracidade e que, no final do dia, vai salvar vidas e poupar perdas financeiras.” Segundo estudo divulgado em 2017 pelo Banco Mundial, o Brasil perdeu 182,8 bilhões de reais com desastres naturais entre 1995 e 2014. Diogo vai longe:

“Quero ver chegar o dia em que alguém vai mandar uma mensagem e falar ‘obrigado por me avisar, salvei minhas coisas, minha família’ ou, que seja, ‘não molhei meu pé’”

Para ter acesso à plataforma da Pluvi.on, o cliente paga uma mensalidade. Eles se responsabilizam por toda a infraestrutura, estudo para determinar quantas estações são necessárias e onde será a implantação, além do serviço de fornecimento de dados. Segundo os sócios, um diferencial bastante destacado é o preço. O custo de uma estação importada, a solução mais comum no país, sem a instalação, fica de 8 mil a 10 mil reais. A alternativa nacional é oito vezes mais barata, permitindo que o proprietário de uma fazenda, por exemplo, compre mais pluviômetros e espalhe melhor pelo terreno.

A alternativa da startup tem se mostrado vencedora também no exterior. Quando se apresentaram no evento da ONU, na Áustria, os empreendedores ficaram surpresos ao ver que a solução tem apelo global. “Agora temos alguns desafios técnicos para chegar a outros países, como, por exemplo, o produto não ser pensado para a neve. Se aparecer alguma demanda assim, a gente precisa desenvolver um outro projeto.”

TUDO É QUESTÃO DE SABER O TAMANHO DOS PRÓXIMOS PASSOS

Os sócios sabem que agir com cautela é essencial para continuarem crescendo. Basta lembrar do quase tropeço logo no início, quando apresentaram um projeto grande demais para a Prefeitura de São Paulo, que acabou não indo para frente. “A gente ainda estava naquela fase maker e topou fazer mil estações”, conta Pedro. Outro erro de principiante foi ter assinado o primeiro contrato sem um advogado. Por outro lado, aprenderam a correr riscos calculados. “A menos que seja algo irreversível, uma decisão mal tomada ainda é melhor do que não tomar decisão nenhuma”, diz Diogo. O importante é que o aprendizado acumulado ao longo dos anos já está rendendo frutos para a startup.

Depois de passarem pelo Google e pelo Facebook, eles retornaram à Red Bull Station. A diferença é que a experiência deles ganha agora um peso maior lá dentro. Para Pedro, é uma conquista pessoal passar de residente para especialista. Até setembro, ele atua como mentor dos últimos projetos selecionados, ajudando outros negócios a darem o primeiro passo, como aconteceu com a Pluvi.on. “A gente quer tentar estimular o pessoal a errar muito rápido.”

Outro aprendizado é não tentar desenvolver tudo sozinho. Melhor ver se alguém já não teve aquela ideia antes. “Sempre tem um monte de referências que você pode usar e adaptar com o que tem em mãos”. Não por menos, Pedro fala que eles também disponibilizaram na internet o primeiro protótipo para qualquer maker reproduzir e espalhar a ideia.

Mesmo com todos os obstáculos burocráticos e estruturais, os sócios estão prestes a dar um grande salto. Mas sem esquecer o que os motivaram desde o início, quando nem tinham ideia de como monetizar. “Tudo isso aconteceu porque lá atrás a gente pensou ‘vamos fazer e aprender no caminho’”, afirma Diogo. “Se a gente não descobrisse nenhum modelo de negócio, pelo menos, deixaríamos uma rede para população poder usar e melhorar o que já existe.” Sim, os tropeços, o desânimo e, por que não, as tempestades podem acelerar um negócio.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Pluvi.On
  • O que faz: Monitoramento climático
  • Sócio(s): Diogo Tolezano, Pedro Godoy, Murilo Souza, Mariana Marcílio e Hugo Santos
  • Funcionários: 6
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2016
  • Investimento inicial: R$ 300.000
  • Faturamento: R$ 60.000 (em 2017)
  • Contato: oi@pluvion.com.br
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