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Começar do zero é fácil. Difícil é começar do menos 50 mil…

- 16 de abril de 2015
Johnny Dias viu o pai falir algumas vezes. Até virar ele próprio um empreendedor – e falir também. Ele se deprimiu. Mas não desistiu. E deu a volta por cima.
Johnny Dias viu o pai falir algumas vezes. Até virar ele próprio um empreendedor – e falir também. Ele se deprimiu. Mas não desistiu. E deu a volta por cima.

 

Por Johnny Dias

 

Sou, como a grande maioria dos brasileiros, filho de uma classe média recém-saída da pobreza. Gente que sonha com uma prosperidade da qual sempre esteve distante.

Cresci numa família que só tinha seu tempo e sua força de trabalho para vender. Então trocávamos isso por dinheiro, naquele tipo de negociação que enriquece o patrão e empobrece o empregado.

Mas havia em minha família, desde que me lembro, um certo espírito empreendedor. Isso levou meu pai a ter seu primeiro negócio – uma loja de presentes. Morávamos em Ribeirão Preto, no interior paulista, corria o ano de 1996 e o empreendimento foi parido a toque de caixa, sem planejamento nem qualquer tipo de aconselhamento mais técnico. Só havia a vontade, nossa velha conhecida, de fazer as coisas acontecerem, de mudar o rumo da própria vida.

Ao longo da minha infância, e durante o início da minha juventude, sofri com os investimentos de meu pai – um empreendedor incansável no desejo, mas um desconhecedor de qualquer regra matemática ou gerencial. A ideia do meu pai era investir e aguardar o lucro, computado em uma calculadora antiga. Nem sempre o lucro vinha – investimento e boa vontade não são garantias de retorno. E isso não basta também para desenvolver uma organização.

Vivi alguns momentos prósperos, oriundos dos negócios do meu pai – ele também empreendeu com roupas e transportes. Minha mãe muitas vezes organizava o terreno para ele, que se dedicava a ter ideias e a executá-las na base do “vamos que vamos”. Esses momentos de equilíbrio e felicidade não aconteceram muitas vezes. Nem duraram muito tempo.

Ao final, uma certeza se estabeleceu na minha cabeça: empreender é falir, é não ter êxito.

Movido por essa certeza – com jeito de medo, quase trauma – segui pelo caminho tradicional. Estudei e sempre fui um dos primeiros da minha turma. Minha aposta era que, com comportamento e notas exemplares, meu futuro estaria assegurado. Escolhi cursar Filosofia, seguindo a minha paixão por conhecer melhor o comportamento humano.

Formado, trazia na bagagem cartas de recomendações de professores, e busquei trabalho na própria Academia. No tempo de dois trabalhos de pesquisa, me vi enleado por uma infinidade de formalismos. A universidade, como instituição e como ambiente de trabalho, estava longe de oferecer as oportunidades e o ambiente para um trabalho criativo que eu procurava para me desenvolver.

Menos de três anos depois de formado, eu já estava matriculado em cursos de extensão da Fundação Getúlio Vargas, em Gestão de Pessoas, Ética Empresarial, Atendimento e Serviços, entre outros. Depois disso apareceu o meu primeiro emprego corporativo – a oportunidade de trabalhar num projeto de humanização em uma empresa de engenharia.

Pouco tempo depois, numa tarde qualquer, sofri um grave acidente de trânsito, que me impediu de continuar trabalhando. Foram meses no estaleiro, dedicados à recuperação.

Foi nesse cenário caótico que me iniciei no empreendimento. O desejo de fazer um mestrado no exterior, por estar desempregado, era quase uma impossibilidade. Pensei em uma forma de ganho rápida. Minha irmã atuava na área de estética, então imaginei que comercializar alguns produtos para suas clientes seria uma boa saída certeira. Para perplexidade geral, formado e pós-graduando, comecei a trabalhar com a venda de cosméticos.

Com uma lista de nomes de possíveis clientes, agendava uma visita a domicílio e fazia pequenas apresentações sobre os produtos.

Contar para os meus conhecidos o que eu estava fazendo era quase como declarar o próprio fracasso. O fantasma do “coitadismo” me assombrava. E eu tinha que enfrentar declarações do tipo: “ah, isso é para te ajudar a pagar os estudos?”. Ou “mas e a sua faculdade?”

Foram dois anos dedicados às vendas, sem entender muito da área. Ganhei na proporção do meu conhecimento. Eu era um amador, logo ganhava como um amador.

Tocava esse empreendimento na paralela, enquanto seguia com um trabalho tradicional – nessa época, como coordenador de Recursos Humanos numa empresa. Não dedicava muito tempo às vendas, não focava em minha iniciativa – porque, afinal, “empreender é falir”. Essa convicção martelava em minha cabeça. E como uma profecia autorrealizável, nesse período o dinheiro das vendas só foi bom para eu pagar meu mestrado – me pós graduei em 2012, sem defender a tese final, pois sentia que o mestrado ainda não era o meu caminho.

Mas eu não assumia isso como profissão. Eu via isso, ainda, com os olhos das outras pessoas. E havia muito preconceito nessa visão – ou seja, eu mesmo colocava para baixo aquilo que estava fazendo. Eu sentia vergonha do meu negócio.

Em meados de 2012, recebi a visita de uma gestora da fábrica de cosméticos. Ela enalteceu meu potencial. Foi então que decidi tornar aquele potencial um ato. Abandonei o emprego para cair de cabeça na minha iniciativa – me tornei um diretor, um gestor de equipe, fazendo expansão do negócio pelo interior paulista.

Eu não era funcionário da empresa, ela apenas me oferecia a oportunidade de ganho de acordo com o volume de vendas gerado por mim e por minha equipe – formada também por empreendedores. Entrementes, eu tinha de desenvolver inúmeras habilidades, tais como: recrutar, desenvolver, vender, motivar, inspirar, atrair e reter.

Exatos 11 meses depois de me lançar no empreendedorismo, lá estava eu, seguindo à risca o exemplo de meu pai: estava falido, com uma dívida de 50 mil reais. Pronto. A sina se confirmava: “empreender é falir”.

A sensação de falência é uma realidade para mais de 95,9% dos empreendedores brasileiros de porte médio (com 10 ou mais colaboradores), que veem suas organizações irem à bancarrota nos primeiros 5 anos de vida, segundo recentes estudos do IBGE e do SEBRAE.

Desespero. Desamparo. Com menos de 23 anos, eu me considerava, exageradamente, o “falido” mais jovem do Brasil. E um cara que tinha caminhado para o cadafalso sabendo que havia uma forca ali.

Eu passava pela rua, na época, e pensava: “aquele mendigo não tem nada. E está melhor do que eu, que estou com saldo negativo de 50 mil reais”.

Pensamentos extravagantes (mas absolutamente naturais) à parte, e depois de idas ao hospital com alto índice de estresse, com crises de ansiedade e de depressão, resolvi reagir de outra forma.

Foram vários passos sequenciais, incluindo medidas financeiras e emocionais que fizeram toda a diferença. Cito algumas: negociar as dívidas, assumir sem medo a minha condição, sem falsear nada, nem para mim mesmo. E, mais importante, trabalhar a relação comigo mesmo, o que se passa por dentro, o meu estado mental, reorganizando as ideias e os sentimentos, analisando cada detalhe da história, mesmo os aparentemente mais irrelevantes, para entendê-los.

Com esse mapeamento feito, isolei os fatores que julguei preponderantes para a minha falência – de modo a não repeti-los. A partir daí consegui voltar a olhar, e a acreditar, no futuro. Fazer um pequeno quadro mental, do esperado para o ano. Fui mais longe: cheguei a colar figuras em um papel, com data para realizar cada uma daquelas metas – que não eram apenas financeiras, mas objetivos de melhoras físicas, emocionais, de hábitos pessoais e de negócios. Para resolver as partes foi preciso, no meu caso, trabalhar o todo.

Foi difícil aprender isso: eu tinha quebrado uma empresa, mas minha vida e minha carreira não tinham acabado. Eu ainda tinha muito a fazer. E a aprender. E a conquistar.

Iniciei um novo empreendimento. Esse é um detalhe interessante:

Quando você perde tudo, perde também boa parte do medo que lhe trava quando você ainda tem alguma coisa a perder.

Recomecei do zero. Inclusive em relação às minhas certezas. Era hora também de desaprender. Para absorver de verdade conceitos novos, eu precisava me desfazer dos antigos. Estudei. Li muito, assisti a muitos vídeos. Optei por sentar em mesas onde eu não era a pessoa mais inteligente. Esses são os ambientes que lhe fazem crescer. O resto é zona de conforto onde você permanece pequenininho.

Investi em livros, em cursos. Foram horas e horas dedicadas a essa expansão intelectual. E, passo a passo, após um ano, quando me dei conta, eu tinha construído uma organização que movimentara quase 1 milhão de reais em mercadorias no ano anterior.

Foi difícil reverter a quebra emocional pela qual passei. Tive de recuperar a autoestima. E entender a importância do investimento no marketing pessoal. As pessoas não querem comprar produtos – o que elas querem adquirir é inspiração. Aprendi que quem quer vender não pode sair por aí dando malho de vendas. Essa é uma contradição em termos que, a meu ver, encerra o fenômeno mais interessante em curso no comércio hoje. E que a maioria ainda não reparou.

Ao cabo, lhe digo que o fator mais fundamental para a minha reconstrução pessoal e profissional, aquilo que me permitiu não iniciar do zero, mas iniciar do menos 50 mil, foi o desenvolvimento pessoal. O processo, muitas vezes doloroso, do autoconhecimento. Eureka! Se estamos falando de inspirar, mover, conquistar e influenciar – era evidente a urgência de eu saber o que fazer, quando fazer e como fazer. Velho axioma: nada muda se você não muda.

E se desenvolver como pessoa é, com frequência, lutar contra a sua própria natureza. Quem mais cresce no empreendedorismo é quem mais luta pelo sonho dos outros – muito mais do que pelos seus próprios sonhos. Vence quem tem como desejo atender os desejos dos outros. Não é fácil pensar e agir assim. A nossa natureza é lutar pelo que é nosso. Mas eu lhe digo de peito aberto: quanto mais eu esqueci de mim, mais me aproximei de me realizar como empreendedor. Contradição? Sim. Só mais uma.

 

Johnny Dias, 25, é diretor de Expansão de Franquias Pessoais e treinador oficial da Hinode (em parceria com a BellaOggi , Firmenich e Fascinelle), e palestrante.

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