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Como a Bioporã faz manteigas veganas em Alto Paraíso e, ao mesmo tempo, ajuda a preservar o Cerrado brasileiro

- 17 de dezembro de 2018
Thiago Noguchi e Lívida de Paula resolveram empreender depois de passar dois anos viajando pelo Brasil.

Bioporã é uma palavra em guarani que significa “vida verdadeira” ou “beleza da vida”. Ela é dita em uma música que os adeptos da alimentação viva costumam cantar antes de tomar o suco verde, feito de folhas, raízes, frutas e sementes. É, também, o nome que Thiago Cesare Noguchi, 40, e Lívia de Paula, 36, deram para a empresa que fundaram em 2013. A Bioporã produz cremes veganos em Alto Paraíso, Goiás, cidade com pouco mais de 7 mil habitantes na Chapada dos Veadeiros, destino turístico que une natureza e espiritualidade.

O negócio é o resultado de dois anos sabáticos que o casal passou viajando pelo Brasil, visitando espaços que fossem referência em permacultura, yoga e alimentação. Foi na ecovila de Piracanga, no sul da Bahia, que eles conheceram um moinho de pedra usado por um sul africano para fazer chocolate.

Os produtos da Bioporã são veganos e os insumos vem de manejo agroecológico.

Lívia aproveitou o instrumento para fazer um creme de castanha, vendido por ela na feirinha da comunidade, e teve muita aceitação. Foi aí, conta Thiago, que houve o clique para começar a Bioporã: “Há anos a gente tinha o desejo de se estabelecer em Alto Paraíso, mas ainda existia a dúvida do que fazer para gerar receita. Quando a Lívia começou a fazer esses cremes e a saída foi boa, vimos uma oportunidade”.

Juntos, o casal investiu 50 mil reais para começar o negócio e, hoje, a Bioporã tem uma linha com 15 sabores diferentes de cremes veganos, como amêndoa (29,80 reais), macadâmia com castanha de caju (32,80 reais), manteiga de coco (29,80 reais) e ganache de cacau com castanhas (32,80 reais). Tem, também, a linha Choconibs, lançada este ano, que são nibs de cacau cobertos com chocolate 100% e as opções de cobertura de paçoca de castanha de baru, coco ralado ou especiarias indianas (15,90 reais, qualquer tipo) e a de mostarda rústica, um creme de castanha de caju e semente de mostarda (29,80 reais).

PARA DESFRUTAR DO CERRADO, É PRECISO AJUDAR A PRESERVAR O BIOMA

Viver no Cerrado brasileiro, poder acessar suas belezas naturais e, ao mesmo tempo, ver de perto sua destruição fez com que Lívia e Thiago quisessem que a Bioporã fosse uma empresa que contribuísse para o uso sustentável e a proteção desse bioma. Para isso, eles utilizam, prioritariamente, insumos vindos da produção agroecológica local ou do extrativismo comunitário.

O açúcar, por exemplo, é comprado de um vizinho que, segundo Thiago, mantém uma área de Reserva Legal maior do que a exigida por lei. A castanha do Baru vem do extrativismo comunitário de uma comunidade quilombola e eles consideram que, ao negociar com estes produtores, estão ajudando a manter o baruzeiro de pé. “Caso contrário, eles poderiam arrendar aquela terra para outra atividade ou mesmo plantar outras coisas”, diz Thiago. Esses insumos locais representam de 7 a 10% do que a Bioporã usa, uma porcentagem pequena, mas com potencial para crescer gradativamente. O empreendedor fala:

“O desafio de produzir algo que depende de insumos oriundos do extrativismo é lidar com a irregularidade. São produtos sazonais e a produção é pouco estruturada”

O sonho é conseguir trabalhar, futuramente, com a capacitação desses produtores. Quando não conseguem os insumos na região, eles compram de produtores brasileiros de outros lugares, com exceção da amêndoa, o único ingrediente importado. “Abrimos esta exceção porque é um sabor clássico que a gente gosta muito. Ainda assim, ela vem da América do Sul”, conta Thiago, que procura buscar os ingredientes o mais próximo possível.

Outro desafio de ser uma empresa mais sustentável e ajudar na preservação do bioma é conseguir insumos vindos apenas do manejo agroecológico. Hoje, 50% é fruto desse tipo de produção, enquanto os outros 50% são oriundos de grandes cultivos. Um dos motivos para comprarem de grandes produtores são os laudos técnicos exigidos por questões sanitárias, como o da aflatoxina, uma toxina muito ligada ao amendoim. “Não é fácil encontrar produtores agroecológicos de médio porte que possuam esse laudo.”

DEPOIS DE INOVAR, FOI PRECISO PENSAR EM ESTRATÉGIAS DE MERCADO

A Bioporã começou na cozinha da casa que Thiago e Lívia alugaram para viver em Alto Paraíso. As vendas eram feitas pelo e-commerce e pelo Facebook e os dois estavam à frente de tudo. Nos primeiros anos, a demanda era maior do que a oferta e isso foi ótimo para o negócio, como fala o empreendedor:

“Gozamos por dois anos dessa situação privilegiada de oferecer algo que só a gente produzia e ter uma demanda além da nossa capacidade de oferta”

O crescimento impulsionou o casal a construir uma fábrica própria e tirar a produção da cozinha de casa. A obra começou em 2016, ano em que o faturamento da Bioporã quase chegou a 1 milhão de reais. A meta do primeiro milhão certamente seria batida em 2017, eles pensaram, mas a realidade foi bem diferente e o faturamento daquele ano ficou em 700 mil reais.

As vendas da Bioporã são feitas pela internet, em pontos de venda espalhados pelo Brasil e, também, em feiras do setor.

“Começamos a obra sabendo que não teríamos recursos para acabar, mas acreditamos que iríamos conquistar o necessário no decorrer da jornada”, diz Thiago. Só que a construção só terminou no momento em que o mercado tinha esfriado e as vendas caído em torno de 40%. O empreendedor atribui essa queda não apenas ao cenário econômico do País, mas também à entrada de novos players no mercado.

Para conseguir finalizar a obra, inaugurada este ano, e manter a empresa de pé, o casal recorreu à ajuda de amigos e familiares e, agora, trabalham na construção de uma área comercial mais sólida e que os ajude a atingir a meta de crescer 40% em 2019. Uma das estratégias são parcerias com distribuidoras, que acabam funcionando como um departamento comercial (gerando melhores condições para os compradores, além de mais agilidade na entrega).

Para este ano, o faturamento projetado é de 900 mil reais. Thiago afirma:

“Como a vida, o mercado é uma onda com altos e baixos”

Ele prossegue: “Nosso momento de baixa no mercado foi justamente quando a gente se descapitalizou para concluir a obra e não estávamos conseguindo faturar para pagar as nossas despesas fixas. Foi um bailado com família e amigos para manter a empresa viva. Agora, existe a esperança de que em 2019 as coisas melhorem um pouco, não tanto pelo contexto socioeconômico e político, mas porque vamos consolidar uma estrutura bem mais madura”.

CRESCER BASEANDO-SE NO PRÓPRIO CONCEITO DE SUCESSO

A meia tonelada de cremes produzida mensalmente pela Bioporã é feita usando um processo de moagem lento e frio, o que, segundo Thiago, garante o valor nutricional do produto. A desvantagem é que eles levam cerca de oito horas para produzir o creme de amêndoas, por exemplo, e levariam cerca de 40 segundos se usassem um processador em vez do moinho de pedra.

Apesar da diferença de tempo, os sócios não abrem mão desse processo mais artesanal e Thiago conta o porquê: “Quando se expõe um ingrediente qualquer a um calor acima de 43º grau ou a forças físicas muito fortes, como as facas de processador, acaba-se destruindo moléculas de nutrientes biodisponíveis que auxiliam o processo de digestão e de absorção de nutrientes”.

Para uma empresa que tem no nome “vida verdadeira”, não faria sentido vender um alimento que não esteja com todo seu potencial disponível. “A gente segue firme em não abrir mão de utilizar esse processo pela qualidade e pelos nossos valores”, diz. Para eles, o sucesso do negócio não se limita ao faturamento, alcance, distribuição ou pontos de venda. A proposta é outra:

“Sucesso é construir um negócio viável, que pague nossas necessidades e nos permita viver em Alto Paraíso, com cachoeiras e uma convivência intensa com os amigos”

Segundo Thiago, o desafio principal é conseguir comunicar para o mercado a qualidade e os benefícios que o produto tem, tanto para o consumidor quanto para o cerrado. “O lojista é muito focado em margens, o consumidor em preço. No fim, manter o produto minimamente processado no mercado é um grande desafio porque os parceiros comerciais têm uma tendência a não entender esse diferencial e não repassar isso para os clientes.”

VIRADAS: DE PUBLICITÁRIO A MONGE E, DEPOIS, EMPREENDEDOR

Formado em Publicidade, Thiago trabalhou por oito anos em agência nas cidades de Curitiba e Brasília. Até que parou de ver sentido no que fazia:

“Agradeço à propaganda por ter me levado a um estado de insatisfação plena que me fez questionar qual vida eu queria levar”

Ao sentir esse desencanto, ele decidiu que seria monge e passou quatro anos morando em mosteiros budistas na Califórnia. Até que conheceu Lívia, uma jornalista gaúcha que já tinha deixado sua área de formação para trabalhar com alimentação viva, e assim, ele acabou desistindo do caminho monástico.

Antes da Bioporã, eles gerenciaram um espaço cultural em Brasília por quatro anos e se capitalizaram para desfrutar do período sabático pelo Brasil em busca de permacultura, yoga e alimentação. “A gente morava no próprio espaço de trabalho e dessa forma conseguimos juntar dinheiro para ficar viajando dois anos sem ter receita”, conta Thiago.

Os anos no mosteiro entram na conta da atual vida de empreendedor, já que é necessário paciência para lidar com o mercado e suas oscilações. “É aqui fora, lidando com as negociações e os desafios diários que praticamos verdadeiramente a serenidade”, diz Thiago. Nada melhor do que entrar no modo zen para continuar empreendendo sem estresse.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Bioporã
  • O que faz: Manteigas veganas
  • Sócio(s): Thiago Cesare Noguchi e Lívia de Paula
  • Funcionários: 10 (com os sócios)
  • Sede: Alto Paraíso (GO)
  • Início das atividades: 2013
  • Investimento inicial: R$ 50.000
  • Faturamento: R$ 900.000 (em 2018)
  • Contato: contato@biopora.com
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