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Como a Fjord traz inovação (e uma turma de “descolados”) para dentro da Accenture

- 27 de março de 2018
Claudia Niemeyer no lago glacial Jökulsárlón, na Escandinávia, onde a Fjord nasceu.
Claudia Niemeyer no lago glacial Jökulsárlón, na Escandinávia, onde a Fjord nasceu.

Um braço de mar fluido, em constante movimento, que passa entre duas grandes montanhas gigantes e firmes. Assim é um fiorde, formação geográfica que pode se constituir em regiões frias. A descrição serve também para a Fjord, consultoria de design e inovação fundada entre a Inglaterra e a Escandinávia (onde, adivinhem, os fiordes são mais comuns). Assim como a água que corre entre duas montanhas, no caso do acidente natural, o objetivo da iniciativa é levar novas correntes para o meio das grandes empresa. A tarefa começa dentro de casa, com a Accenture, gigante da área de consultoria de gestão e negócios — e controladora da Fjord desde 2013.

A Fjord hoje faz parte do núcleo Accenture Interactive, uma das maiores agências digitais do mundo, e chegou ao Brasil em março de 2015, trazendo o estúdio de design, que tem sede em Londres. Depois de ser comprado, o negócio cresceu em ritmo acelerado e soma mais de mil funcionários pelo mundo e 26 estúdios instalados em cidades como Berlim, Nova York, Hong Kong, Sidney e, claro, São Paulo, de onde é coordenada toda a operação na América Latina. “A Fjord é um agente de mudanças na Accenture e nos clientes”, conta Claudia Niemeyer, 37, líder da Fjord para a América Latina.

É com esse olhar que Claudia se adaptou a uma rotina bem distante da que tinha até então. Formada em Desenho Industrial pela PUC-Rio, ela trabalhou com estratégia e design para clientes como Procter&Gamble, Coca-Cola e Nokia. Decidiu, então, fazer um MBA na Berlin School of Creative Leadership, escola que se propõe a formar líderes com novas capacidades e tem módulos em várias cidades do mundo.

Foi para a capital alemã passar apenas alguns meses e, no fim das contas, ficou por três anos. “Terminei o curso e comecei a trabalhar como consultora de negócios criativos.” Chegou a ser contratada por uma empresa russa para cuidar da área de branding, mas logo foi chamada para um processo seletivo na Fjord. “No começo era para uma vaga em Berlim, mas depois me convidaram para assumir essa posição no Brasil e eu aceitei”, diz a intraempreendedora.

DESIGN DO OIAPOQUE AO CHUÍ

Ela arrumou as malas e desembarcou de volta no Brasil em 2015. Se fosse simplesmente para voltar para casa, Claudia talvez não tivesse topado o desafio, mas outro aspecto fez os olhos dela brilharem. Ela fala que sentiu o enorme potencial de escalar soluções aqui:

“Uma coisa é levar design para os Jardins ou o Leblon, outra é ajudar a desenvolver soluções que melhoram a vida de quem está no Acre”

Assim, topou o desafio, mas não sem sentir algumas dores da adaptação. “Foi engraçado sair de Berlim, onde é cafona usar maquiagem e ninguém usa salto alto porque está sempre de bicicleta, e chegar aqui, em um universo de pessoas engravatadas”, diz. Ela conta que, apesar do alcance relevante da Fjord, as proporções da empresa de design são ínfimas perto dos mais de 300 mil funcionários que a Accenture tem globalmente, por isso conta que o caminho para buscar sinergias e aproveitar todo o potencial da relação entre as duas companhias ainda está sendo pavimentado, principalmente por aqui.

“Há diferenças enormes na cultura e até nas roupas. Um dos chefões ingleses da Fjord certa vez foi barrado ao tentar entrar no estúdio vestindo bermuda em um dia de muito calor. Somos mais informais e, pela nossa cultura, trabalhamos sempre de forma colaborativa, com a preocupação de não deixar que ninguém fique especialista em apenas uma área ou setor. Queremos a diversidade de visões”, diz ao destacar que o esquema é outro na Accenture. “Lá estão os times super experts em cada indústria. A empresa faz muito bem o que se propõe, por isso enfrentamos alguma resistência. Mudar é sempre difícil”, fala Claudia.

Após uma reforma recente, o estúdio da Fjord ganhou um ambiente mais descolado e em sintonia com a equipe.

Segundo ela, no começou havia certo preconceito de um lado e do outro, uma birra tanto dos “arrumadinhos da consultoria” quanto dos “descolados da Fjord” em formar times para trabalhar em regime de colaboração.

A maneira mais eficaz de acabar com o “bode”, conta, foi justamente mostrar os bons resultados que a atuação coletiva poderia gerar. “O nosso trabalho é usar design para criar serviços para as empresas. Nosso core é o humano, a experiência dos consumidores e usuários. A Accenture tem uma entrega muito competente e carrega o ponto de vista das empresas, dos nossos clientes. Quando unimos isso temos os dois lados do balcão e a capacidade de alcançar resultados muito melhores.” A consultoria também é o principal caminho para a chegada de novos projetos, cerca de 90% das demandas começam por ali.

COLOCANDO OS “ARRUMADINHOS” PARA TRABALHAR JUNTO COM OS “DESCOLADOS”

A Accenture Interactive fica em um escritório separado da consultoria, na Vila Olímpia, em São Paulo. Cláudia conta que, no começo, até o ambiente era meio careta demais para uma empresa criativa, algo que afirma estar mudando bastante. Recentemente, uma reforma deixou o espaço bem mais parecido com as pessoas que trabalham ali, com a instalação de um espaço para eventos e um bar onde rola happy hour para que o time se encontre, troque experiências. “Estamos crescendo muito rápido. Quando cheguei eram 20 pessoas, hoje já são 50 colaboradores que passam grande parte do tempo fora do estúdio, nos clientes. Se o nosso foco é o humano, precisamos garantir que todo mundo se conheça, converse, interaja”, diz Claudia, esclarecendo que ter um bar no espaço de trabalho não é só “um capricho hipster”.

Na sua opinião, a Fjord não tem concorrentes locais que façam uma entrega tão completa, o que é bastante desafiador: “Na Alemanha, quando se chega falando de design a conversa desenrola, todo mundo já conhece e entende o quanto é necessário. Aqui é preciso criar espaço, construir esse ambiente, educar o mercado”. Claro que, neste momento, estar sob o guarda-chuva de uma gigante como a Accenture é um adianto e tanto. “Os times começam a ver cada vez mais valor nesse trabalho coletivo e a incluir a Fjord quando entendem que faz sentido”, afirma.

Outro desafio está em encontrar os talentos certos. Cláudia se preocupou em formar uma diretoria forte, com nomes reconhecidos pelo mercado como o designer carioca Jaakko Tammela. A questão é que encontrar grandes talentos em um mercado que ainda não é maduro nesta área não é tão simples assim. Por causa disso, Claudia decidiu adotar outro olhar no processo seletivo e contratar por mindset e não por habilidades, como fala:

“Preciso encontrar pessoas dispostas a fazer algo novo, com criatividade forte e fome de se conectar com o mundo. Precisa gostar e saber trabalhar em equipe”

Segundo Claudia, se a contratação for certeira, em um ano ela consegue garantir que o profissional desenvolva as habilidades necessárias. O mindset, no entanto, precisa estar alinhado com o da empresa desde o início. Antes de entender isso, ela admite ter cometido erros, como o de trazer para a Fjord uma pessoa super talentosa, mas que simplesmente não sabia trabalhar em equipe. “Não deu certo”, diz. Apesar de a empresa ter certa hierarquia definida, as barreiras estão longe de serem rígidas. “As pessoas aqui precisam gostar de se conectar. Levo estagiário para conversar com o CEO de empresas clientes. Não há espaço para estrela, para ego.”

Diversidade e inclusão ainda são uma busca, tanto da Fjord como da Accenture, e um grande propósito para Claudia (no centro da foto, de verde).

Ela conta ter preocupação em desenvolver times diversos: enquanto a Accenture ainda é majoritariamente masculina (apesar de estar se esforçando para mudar, com meta de ter 50% da força de trabalho feminina em 2025), na Fjord metade das funções são desenvolvidas por mulheres. Os gays também tem presença próxima de 50%, de acordo com ela. Há pessoas de vários estados e países diferentes. O grande desafio ainda é racial. “Ainda que não contrate por habilidades, há uma diferença educacional muito grande que é um desafio. A questão é que diversidade é essencial para que a gente entregue inovação. Os clientes precisam destas novas perspectivas, senão teremos sempre o olhar enviesado”, diz. Ciente do ponto fraco, ela fala que está empenhada em mudar esse aspecto. “É algo que já estamos trabalhando, mas para ir em frente preciso que o time todo esteja comigo, disposto a ajudar nessa evolução.”

Outro ponto estratégico para a Fjord, conta Cláudia, é tropicalizar a atuação da empresa, adaptar a cultura inglesa e escandinava ao estilo latino. Neste aspecto, ela entende que a companhia já avançou bastante. “Temos entregas muito criativas aqui no Brasil e um jeito de trabalhar mais próximo e caloroso, que chama a atenção dos nossos outros estúdios no mundo. Sempre tem gringo querendo ser convidado para fazer projetos aqui”, ri.

COMO O DESIGN PODE AJUDAR NA INTELIGÊNCIA ESTRATÉGICA

Claudia conta que, mesmo com certa resistência, a forte cultura criativa da Fjord vem contagiando a Accenture – esta, afinal, era justamente a intenção quando a empresa foi comprada e não recebe para trabalhar para a gigante, mas pode ter outros clientes pagantes . Segundo ela, depois das barreiras iniciais, o valor dessa integração e flexibilidade já é bem mais reconhecido internamente. O processo da empresa inclui imersão profunda nos clientes. Por isso, o desafio é sempre precisar de mais tempo (e mais dinheiro) para ir em frente com os projetos. “Somos um funil, não conseguimos aceitar tudo.”

A parceria entre as duas empresas já rendeu cases importantes. Em um deles, feito em conjunto com um banco, Fjord e Accenture fizeram um trabalho para melhorar a performance da área de crédito. “Mapeamos e vimos que os clientes viam a instituição como vilã. Desenhamos uma política de mais transparência, de proximidade com os consumidores, e escrevemos um manifesto usado agora internamente e em campanhas de publicidade”, diz.

Todos os anos, também, a empresa lança o estudo Fjord Trends, que traz as tendências digitais emergentes para negócios, tecnologia e design para “sugerir como organizações podem navegar por essas correntes para gerar mudanças positivas”. A edição 2018, recém-lançada, destaca sete tendências e pode ser acessada aqui.

Na parte prática, o plano da empresa para este ano é fortalecer o time. “Queremos chegar a 60 funcionários até o fim de 2018”, diz Cláudia. Sua meta, ela conta, é aumentar as capacidades da Fjord, reforçando a habilidade da empresa para trabalhar com inteligência de dados, por exemplo. Outro objetivo é intensificar a colaboração com a Accenture para potencializar as entregas da empresa-mãe. Na visão de Cláudia, engravatados e criativos conseguem ir bem mais longe quando trabalham juntos.

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