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Como a Primeira Guerra uniu Ernest Hemingway e a Fiat

- 16 de março de 2018
A Cruz Vermelha dos Estados Unidos ofereceu ajuda à italiana, e enviou o jovem tenente Hemigway em junho de 1918.

Aos 18 anos de idade, um jovem americano que havia sido dispensado do exército de seu país por problemas de visão insistiu e se voluntariou para dirigir ambulâncias da Cruz Vermelha dos Estados Unidos em território italiano, durante a Primeira Guerra Mundial. O jovem era o futuro escritor e vencedor do Nobel de Literatura Ernest Hemingway e as ambulâncias que ele dirigiu eram fabricadas pela Fiat.

“Eu viera guiando. O motorista levou os papéis para dentro, enquanto eu permanecia sentado dentro do veículo. Era um dia bem quente, com o céu brilhando muito, e todo azul, e a estrada seca e empoeirada. Afundei no assento dianteiro do Fiat, sem pensar em coisa alguma”.

O trecho foi escrito pelo próprio Hemingway na introdução de um de seus livros mais famosos: Adeus às Armas (1929). Esta tradução é de Monteiro Lobato. Trata-se de um romance que tem como tema central a experiência de um jovem motorista de ambulâncias em território italiano na Primeira Guerra. Parece familiar? O nome do personagem é Frederic Henry e a história é de ficção, mas a inspiração é sem dúvida a experiência de vida do próprio autor. Tanto ele quanto seu personagem foram, por exemplo, feridos em combate, levados a um hospital em Milão e se apaixonaram por uma enfermeira. A verdadeira, a americana Agnes von Kurowsky, recusou o pedido de casamento de Hemingway. Já a fictícia, a inglesa Catherine Barkley, corresponde à paixão de Henry e rende um dos cenários românticos mais elogiados da literatura mundial.

 

As ambulâncias Fiat dirigidas por Hemingway eram como essas, construídas sobre os chassis do “Fiat 15 ter”.

Essas ambulâncias também serviam de estações de raios-X quando necessário. Hemingway as descrevia com entusiasmo. Por exemplo, em seu livro póstumo Paris é uma festa (cujo título original é A moveable feast), Hemingway conta que as ambulâncias anteriores sofriam nas estradas montanhosas e seus freios se desfaziam com frequência, até serem substituídas pelos modelos da Fiat, que tinham freios e câmbio melhores. “Eu lembrei como elas [as ambulâncias anteriores] costumavam perder o freio ao descer as ladeiras da montanha, lotadas de feridos, freando até em baixo e por fim usando a marcha a ré, e como as últimas foram conduzidas vazias pela montanha para que pudessem ser substituídas por grandes modelos Fiat com um bom câmbio H e freios de metal”, escreveu Hemingway no livro (tradução livre). As ambulâncias italianas modernas ainda são produzidas pela Fiat.

Os motoristas de ambulância da Cruz Vermelha, embora não comandassem tropas, eram oficiais: recebiam o título de segundo tenente. De acordo com o professor de literatura americana Alex Vernon, do Hendrix College, Estados Unidos, em artigo publicado no livro Ernest Hemingway in Context, publicado pela universidade de Cambridge, Reino Unido, Hemingway foi enviado para a Itália por causa da decisão da Cruz Vermelha Americana de colaborar com os esforços médicos do país, que estavam sobrecarregados, até que as tropas americanas, que ainda estavam se mobilizando, chegassem ao território europeu (os americanos só combateram no final da guerra). A decisão era também “uma prova do compromisso [americano] para encorajar os italianos a resistirem”, diz Vernon.

“O tenente Hemingway chegou a Paris na primeira semana de junho de 1918, quando os alemães começavam a bombardear a cidade com sua artilharia de longo alcance Big Bertha. Em seu primeiro dia em Milão, ele foi enviado para ajudar os feridos e recolher os mortos de uma fábrica de munições explodida. A cena horrível foi especialmente chocante para o jovem, porque os mortos eram mulheres, como ele nos conta em História Natural dos Mortos“, escreve Vernon, que também esclarece o episódio em que Hemingway foi ferido. De acordo com Vernon, após dirigir ambulâncias, “Hemingway se voluntariou para uma tarefa temporária com o serviço de cozinha de campanha em Fossalta di Piave, um vilarejo modesto e desgastado pela guerra no rio próximo à ação nas montanhas acima”. Ele supria as tropas com comida, café quente, chocolate, cigarros e outros sustentos. “Por causa da localização próxima ao front e às estradas (frequentemente em interseções), essas operações eram bastante perigosas. Os primeiros americanos mortos na Itália eram justamente operadores desse tipo de estação no Piave”, contextualiza Vernon. Hemingway foi ferido por estilhaços de um morteiro austríaco que explodiu ao seu lado, matando um soldado italiano e ferindo outro. Mesmo com 227 fragmentos de estilhaços nas pernas, Hemingway conseguiu carregar o colega ferido até ser atingido no joelho direito por um tiro de metralhadora. Ele ainda conseguiu rastejar e puxar o colega por cerca de 100 metros antes de desmaiar. Depois, foi resgatado e levado ao hospital em Milão, onde passou por cirurgias e ficou em recuperação. Foi lá que ele conheceu e se apaixonou pela enfermeira. Pela bravura, Hemingway foi o primeiro americano a receber a respectiva medalha de prata italiana.

O Nobel de Literatura foi por O Velho e o Mar (1952), mas Adeus às Armas é considerado uma de suas obras-primas, juntamente com Por Quem os Sinos Dobram (1940). Hemingway também escreveu contos e artigos jornalísticos. Para um escritor, ele teve uma vida bastante agitada. Após a experiência na Itália, foi correspondente de guerra, sofreu pelo menos três acidentes (um de carro, que lhe rendeu uma concussão assim que chegava a Londres para cobrir a Segunda Guerra, e dois de avião, no mesmo dia, que surpreendentemente não o mataram, mas o deixaram com três fraturas e ferimentos nos rins e fígado), teve livros queimados pelo nazismo e até um asteroide batizado com seu nome. Ele sofria com o alcoolismo e dizem que ninguém conseguia beber como ele, que tomava uma garrafa de uísque e nem parecia ser afetado. O escritor, que hoje tem uma sociedade de sósias, tirou a própria vida, aos 61 anos, com uma arma de fogo.

 

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