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Como as coincidências foram importantes para a trajetória da Signa, que cria cursos online para surdos

- 20 de agosto de 2018
Leandro, Fabiola e Ícaro (a partir da esquerda) se conheceram em um Startup Weekend, mas já tinham muito mais em comum do que imaginavam para criar a Signa.

A história da Signa é um exemplo de como, às vezes, coincidências são essenciais para nos fazer enxergar algo que está diante do nosso nariz. A empresa é uma espécie de Netflix de cursos para surdos e surgiu de um encontro improvável, mas que uniu as pessoas certas para tocarem a ideia e fazê-la funcionar. No caso, a administradora Fabíola da Rocha Borba, 27, e os desenvolvedores Ícaro Queiroz Rezende, 31, e Leandro da Cunha, 32.

Em 2015, os três participaram do Startup Weekend, em Florianópolis, cuja temática geral era educação. Eles não sabiam exatamente o que gostariam de fazer, só tinham a certeza de que queriam empreender. Fabíola trabalhava na Fundação Certi (Centro de Referência em Tecnologias Inovadoras), que atua como uma ponte entre o conhecimento acadêmico e as necessidades do mercado. Ícaro e Leandro, na Softplan, uma das maiores empresas do país no desenvolvimento de softwares de gestão, embora não se conhecessem na empresa, que tem mais de 1 600 funcionários (primeira coincidência).

No Startup Weekend, a proposta era ensinar a metodologia de validação de ideias a pessoas que não sabiam como tirar seus projetos do papel. Ninguém podia ir com algo muito pronto ou já bastante pensado. No primeiro dia, cada um dos participantes tinha a oportunidade de apresentar um “pitch” sobre um problema que gostaria de resolver, com ou sem sugestões de soluções. Os dez mais votados se transformariam nos projetos sobre os quais os participantes, divididos em grupos, se debruçariam naquele fim de semana.

Fabíola desejava criar algo para melhorar o acesso de estudantes a editais de intercâmbio e bolsas, enquanto Leandro queria desenvolver uma plataforma para comparar preços de cursos online. Já Ícaro pretendia produzir algo que incluísse surdos no sistema de ensino. Ele fala de onde tirou a ideia:

“Quando estava no ensino médio, um colega namorava uma menina surda e ele me dizia que ela tirava ótimas notas, mas tinha que fazer leitura labial para acompanhar as aulas, pois não havia intérpretes”

A proposta de Ícaro ficou entre as mais votadas. Como não tiveram seus projetos escolhidos, Fabíola e Leandro precisaram escolher um grupo para se inserir. Ironicamente, Leandro conta que “nem escutou direito a ideia de Ícaro, muito menos tinha engajamento com a comunidade surda”, mas como um amigo em comum o apresentou ao desenvolvedor, resolveu se unir ao seu time. Já Fabíola tinha um motivo bastante pessoal para gostar da iniciativa: seu pai é surdo (segunda coincidência). Enfim, formou-se uma equipe de sete pessoas.

QUANDO O PROBLEMA ESTÁ NO DIA A DIA, ÀS VEZES, ELE PASSA IMPERCEPTÍVEL

“Parece que minha vida inteira fui preparada para criar a Signa, mas ninguém me contou isso”, conta Fabíola. Nascida e criada no Campeche, uma das praias de Florianópolis, a convivência com uma pessoa surda era tão natural que ela nunca parou para pensar muito sobre o assunto “Eu não sei dizer qual a diferença de crescer tendo um pai surdo, a condição dele nunca me fez entender tudo sobre a deficiência”, afirma. Embora percebesse as dificuldades pelas quais ele passava, a empreendedora não pensou que, a partir desse problema, poderia construir um negócio que ajudasse outras pessoas (inclusive o pai).

O time da Signa: Fabiola, a responsável pelo atendimento Luana Marquezi, Leandro, o estagiário de edição de vídeo Darley Goulart, Ícaro, a diretora de produção Jade Moia e o desenvolvedor Marcelo Brosowicz.

Neste contexto, não é exagero dizer que ela “se jogou” no projeto desde o início. Durante o Startup Weekend, o grupo fez todo o processo de criação do negócio: buscaram entender o problema indo a campo, encontraram uma solução, testaram e chegaram a um MVP.

A ideia final foi criar uma empresa que fizesse traduções de conteúdos online (principalmente do YouTube) para a comunidade surda. No fim de três dias, fizeram um novo pitch de cinco minutos para vender a ideia do negócio à uma banca avaliadora, que escolheria um vencedor para ganhar, entre outros prêmios, horas de consultoria e usar o espaço de um coworking. A Signa foi a selecionada e uma semana depois, o time se reuniu para ver quem gostaria de continuar tocando a ideia adiante, já que era incerto quem realmente se engajaria após o evento, como fala Fabíola:

“É difícil surgir um negócio depois de um Startup Weekend. Em geral, o objetivo é apenas o aprendizado, até porque ninguém se conhece, muito menos escolhe o próprio grupo”

Terceira feliz coincidência: parecia que todos os sete membros iniciais do projeto estavam em sintonia e disseram que sim, mas Fabíola foi a única a, de fato, a largar o emprego para se dedicar exclusivamente à startup. Eles começaram, então, a se dedicar a descobrir o que poderiam fazer com aquilo que tinham aprendido. Focaram em construir uma base sólida de networking com outros empreendedores e com a comunidade surda. Em 28 de agosto daquele mesmo ano, dia do voluntariado, promoveram o evento “Mãos para me Ouvir”, que tinha como objetivo integrar surdos e ouvintes.

Foi o primeiro passo para começarem a entender melhor as demandas dessa população. Até então, eles seguiam com a ideia fixa de traduzir conteúdos já existentes para plataformas de educação. O problema era que ninguém comprava essa proposta. Resolveram, então, ousar e produzir o próprio conteúdo com o investimento de 200 mil reais vindos de editais.

A DEDICAÇÃO EXCLUSIVA VIROU UMA EXIGÊNCIA

Dos sete integrantes que tinham topado levar o projeto adiante, restaram somente os três sócios atuais. E Fabíola, que havia largado o emprego, sentia-se cada vez mais pressionada com a falta de grana para se manter sem um trabalho fixo. O seu orçamento ia até o fim de março de 2016 e ela havia inscrito a Signa em diversos editais de bolsas para startups e inovação. O resultado dos dois principais sairia no dia 31 daquele mês — e eles foram aprovados em ambos. Quarta coincidência? A essa altura do campeonato, eles talvez já estivessem acostumados com isso.

Entre os cursos com libras e legenda oferecidos pela Signa estão o de edição de vídeo, matemática financeira e HTML.

Ao vencerem o Sinapse da Inovação e o Seed Minas Gerais, receberam como prêmio — além da bolsa — vivências e consultorias para montar o negócio. Foi a hora de Leandro dizer adeus ao emprego e se mandar para Belo Horizonte com Fabíola para participar do programa, com duração de seis meses.

Se para ela e Leandro o processo pareceu natural, Ícaro teve mais dificuldade de compreender a dinâmica. “Demorei a entender detalhes que achava burocráticos, porque queria colocar a mão na massa, mas agora compreendo a necessidade de se construir personas e por que eles tomaram algumas decisões, como vender cursos que ainda não temos, simplesmente para validar a ideia”, conta.

Quando chegou a hora de voltar para Florianópolis, uma nova surpresa: venceram outro Seed, dessa vez no Chile. Aí foi a vez de Ícaro abandonar a carteira assinada para acompanhar Fabíola nessa nova jornada (por ter tomado as rédeas do negócio desde o começo, ela sempre foi a responsável por inscrever a equipe nos editais e, portanto, precisava representá-la). Entre um dos principais aprendizados de Ícaro sobre a trajetória na vida de startup, ele afirma:

“Se pudesse fazer algo diferente, teria saído do meu emprego antes”

Ele também acredita que talvez devessem ter agilizado o desenvolvimento da plataforma, comprando algo já pronto em vez de criar a própria do zero, e corrido atrás de aconselhamento jurídico na tomada de decisões. Fato é que, apesar de alguns tropeços, a Signa decolou.

PARA ESCALAR, ELES QUEREM QUE OS PRÓPRIOS ALUNOS CRIEM CURSOS

Com código próprio e muito engajamento da comunidade, a startup é hoje uma das principais referências de educação online para surdos — e tem o objetivo de dar a eles oportunidades de adquirirem habilidades para a inserção no mercado de trabalho, com aulas de Excel, Photoshop, produção de conteúdo digital, entre outros. No total, são cerca de 21 cursos, com preços que variam de 40 a 160 reais, e alguns de longa duração que chegam a mil reais. Nestes dois anos de operação, a empresa atendeu 1 345 alunos e tem faturado cerca de 40 mil reais por mês.

O próximo passo é justamente abrir espaço para que os próprios alunos criem novos cursos em um esquema que é bom para todo mundo: eles ganham uma nova fonte de renda, pagando uma comissão por vendas para usar a plataforma e, com isso, a Signa aumenta seu portfólio e escala sua produção. O modelo mal começou a funcionar e tem dado resultados. Um dos estagiários da Signa, que conheceu a empresa fazendo aulas online, Darley Goulart, 23, foi um dos primeiros a lançar seu próprio curso na plataforma.

Outra meta mais ousada é expandir a proposta para outros países. Fabíola atualmente está passando uma temporada no Canadá para sentir o mercado local. Por enquanto, a Signa vai se destacando em editais e prêmios no Brasil e mundo afora. O reconhecimento mais recente veio do Massachusetts Institute of Technology (MIT), no qual a startup é uma das finalistas da América Latina do Inclusive Innovation Challenge, que premia empreendedores ao redor do mundo que usam a tecnologia para reinventar o futuro do trabalho. Não importa o resultado final, um fato já é certo: a história da Signa pode ter sido alavancada por boas coincidências, mas seu sucesso não foi por acaso.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Signa
  • O que faz: Cursos online para surdos
  • Sócio(s): Fabíola da Rocha Borba, Ícaro Queiroz Rezende e Leandro da Cunha
  • Funcionários: 7
  • Sede: Florianópolis
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: R$ 200.000
  • Faturamento: R$ 40.000 por mês (em média)
  • Contato: contato@signaedu.com
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