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Como Beia Carvalho deixou a publicidade e se tornou, ela mesma, um produto: palestrante futurista

- 6 de março de 2018
Aos 63 anos, ela fala das experiências de vida, e da carreira premiada na publicidade, que a levaram a se tornar um "farol" para empreendedores sobre o que será o amanhã (foto: Laureni Fochetto).
Aos 63 anos, ela fala das experiências de vida, e da carreira premiada na publicidade, que a levaram a se tornar um "farol" para empreendedores sobre o que será o amanhã (foto: Laureni Fochetto).

Há quase dez anos Beia Carvalho não escreve mais “publicitária” ao preencher uma ficha de cadastro em hotel — e deixa o pessoal da recepção cheio de dúvidas ao anotar sua profissão: “palestrante futurista”. Aos funcionários desses locais que ficaram com vergonha de perguntar, já posso adiantar que a moça de 63 anos de cabelo arrepiado vermelho não lê mão, passa longe do tarô e não é a Rita Lee. Pode ser até que Beia tenha tido uma bola de cristal. Mas se existiu, deve ter ficado para trás, junto com a loja de bugigangas antigas que teve início da carreira, antes da vida nas agências de propaganda. E isso não importa agora. O que importa é contar como ela deixou um mercado que estava (está) ainda se perguntando para onde ir e especializou-se em estar o tempo inteiro com as antenas ligadas para o novo, ganhando a vida ao contar, nas empresas, o que vem por aí.

As boas novas têm sempre como referência o meio profissional, do empreendedorismo. As palestras que são hoje o seu meio de vida são divididas em três macrotemas. No primeiro, “Gerações”, ela aborda o conflito que existe entre as diferentes faixas etárias, as mudanças no modo de funcionamento de uma empresa (de uma estrutura hierárquica para um modo de pensar horizontal) e a necessidade de estar engajado com essas transformações. No segundo, “Inovação”, fala-se do risco que existe em se transformar, o medo que há em mudar, e da necessidade de arriscar para não morrer. Por fim, em “Futuro”, ela aborda como a empresa se vê daqui alguns anos, como estará funcionando, e questiona: será que o seu modelo de negócio ainda será o mesmo?

São macrotemas, ela diz, porque sempre tenta colocar essas ideias no palco de acordo com o local em que vai falar. Ou seja, a palestra tem uma espinha dorsal e a partir dessas ideias centrais, que também são repensadas regularmente, torna-se mais palatável para cada público. Por exemplo, se for uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher, como a que acontece nesta quinta-feira, ela falará, por exemplo, sobre as conquistas das mulheres através das gerações, a mudança do discurso sobre gênero, preconceito, enfim. Conforme ela conta, o importante é trazer aos funcionários da empresa as constantes mudanças:

“O que brilha, ao dar as palestras, é compreender cada vez mais onde está a resistência em entender que o mundo muda exponencialmente”

Ela prossegue: “É necessário prestar atenção e pensar adiante. Porque, se deixar de se atentar a isso, quando você for ver, estará vivendo em um mundo distópico”.

Cada palestra da Beia dura em média uma hora, fora os acréscimos da troca de ideias com o público, e custa 15 mil reais — ainda que, ela diz, eventualmente negocie descontos no valor total. O preço faz jus ao currículo de quem viveu a vida a olhar para o que está mais adiante: ela ganhou quatro leões em Cannes (o principal prêmio da publicidade no mundo) e também faturou, em 2010, o Prêmio Excelência Mulher, da FIESP. Desde que começou na nova profissão, ela já palestrou para empresários do Itaú, Bradesco, Rede Globo, Microsoft, Johnson & Johnson, entre muitos outros.

No palco: Beia deu quase 40 palestras no ano passado. Em pauta: choque de gerações, inovação, a nova sociedade.

No palco: Beia deu quase 40 palestras no ano passado. Em pauta: gerações, inovação, futuro.

Neste novo formato de carreira, em que se é ao mesmo tempo o meio e a mensagem, não há equipe. “Não tenho funcionários e peço todo dia para Papai Noel, para o Coelhinho da Páscoa, um agente igual a esses dos filmes, que ficam vendendo você. Ainda não ganhei, então faço tudo, também virtualmente. Tenho apresentações que podem ser vistas no Youtube, uso muito as redes sociais, tenho meu site. Se o cliente está em dúvida, ele consegue me ver atuando.”

UMA VIAGEM PODE MUDAR TUDO

Olhar para o novo e procurar caminhos pouco conhecidos parece ser uma sina na vida da palestrante. Beia nasceu Beatriz Messi Cesar de Carvalho e, até se formar em Publicidade na Escola de Comunicação e Artes da USP, a vida corria sem grandes sobressaltos. Ela conta que o primeiro dos três casamentos, quando ela tinha 21 anos, foi o início de toda a transformação.

Depois do “sim”, o jovem casal decidiu fazer uma dessas viagens sem lenço, com um ou outro documento, e mochila nas costas. Passaram a procurar algo desafiador até que leram no caderno de turismo do Estadão que uma dupla de repórteres viajou de São Paulo a Los Angeles por terra, durante três meses. Só de ônibus e trem. Isso em 1978.

Beia e o marido saíram da capital paulista em direção à Bolívia. Pegaram o Trem da Morte, espécie de rito de iniciação de todo mochileiro, que vai da cidade de Puerto Quijarro, na fronteira com o Brasil, à boliviana Santa Cruz de la Sierra. De lá, começaram a subir o mapa. Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala, México. Depois de quatro meses, chegaram a Los Angeles. Foi quando incrementaram a pauta dos jornalistas e ainda cruzaram o país até Nova York, onde permaneceram por quase um ano. Ela fala da “experiência inesquecível”, que completa 40 anos em 2018:

“Essa viagem me fez ser quem eu sou. Me fez muito cedo perceber que há muitos olhares para a mesma coisa”

E prossegue: “Ao chegar em um lugar, logo tem alguém para dizer: ‘o certo é assim. Tem que fazer desse jeito’. Não, não acho que seja só assim. Quando voltei, consegui notar que a gente está em constante mudança e é sempre importante observar diversos pontos de vista”.

De volta a São Paulo, com o inglês na ponta da língua, Beia decidiu fazer um curso de tradução simultânea, que serviu para conhecer uma amiga, que se tornaria sua sócia em uma loja de antiguidades na Oscar Freire chamada Naftalina. A loja foi inaugurada em 1981 e Beia empreendeu ali até 1984, quando desistiu do negócio. Nessa época, teve seus dois filhos: Galileo e Guido e fez uma nova pausa para repensar a vida.

SÓ AOS 30 COMEÇAR NA PROFISSÃO QUE ESTUDOU. E TUDO BEM

Como gostava de moda, foi trabalhar em lojas de roupas, fez contatos com agências de publicidade e, quando tinha quase 30 anos, em 1987, é que foi trabalhar pela primeira vez com o que tinha estudado por quatro anos na faculdade. Começou em uma agência pequena, com uma conta grande, a do sapato Samello. “Sei quantas semanas tem no ano por causa disso. A gente comprava 57 contracapas da Veja”, lembra.

Em 1991, a Wunderman a chamou para trabalhar. O aprendizado e a curiosidade, mais uma vez, levaram Beia para o novo e ela passou a se inteirar de um tal de marketing direto, que surgia como novidade no meio da comunicação. Dois anos depois, inteirada do assunto, recebeu um convite da Grottera para se tornar sócia e criar uma mini agência de marketing direto lá dentro. Foram 15 anos em um local que também buscava estar sempre à frente do seu tempo. Em 1999, Beia liderou a equipe que começou a trabalhar com digital.

Assim as coisas seguiram até que, em 2002, a norte-americana TBWA comprou 50% da Grottera. Dos cinco sócios, Beia era a única que falava inglês fluente, diferencial que a deixou próxima de todo o processo de mudança. A TBWA tinha como principal foco a inovação e, para manter os produtos de seus clientes sempre modernos, criaram uma metodologia chamada disruption, que consiste em reunir diretores de diferentes países em um hotel e, durante dois dias, deixá-los imersos em um produto. “Pega-se tudo o que existe de uma marca e pensa-se como ela poderia ser totalmente diferente. É uma ruptura total, enxergá-la de um modo completamente novo”, diz. Por conta da disruption, Beia viajou para oito países e liderou o encontro no Brasil.

EMPREENDER SOZINHA ERA MAIS DIFÍCIL DO QUE PARECIA

Em 2007, a TBWA comprou 100% da Grottera e Beia deixou a agência. Ela conta que estava sentada na poltrona na sala de sua casa, “à procura do que fazer”, com o disruption da TBWA como inspiração, aí pegou o notebook e criou seu primeiro projeto de voo solo: o Five Years From Now (hoje um blog). A ideia, à época, era produzir workshops para donos de pequenas empresas, colocá-los para pensar como estaria o negócio deles daqui cinco anos. Beia fala do nome:

“Pensar em cinco anos é longe o suficiente para sonhar e perto o bastante para imaginar”

O erro inicial, ela afirma, foi não ter parado para respirar e repensar a vida com calma. O medo de ficar ultrapassada, de se sentir por fora a fez apressar e criar o próprio negócio do dia para a noite. Mas o workshop para o pequeno empresário não deslanchou como previsto.

Dois anos mais tarde, em 2009, com as redes sociais a todo vapor, os grupos de discussões acalorados, as bolhas sendo formadas, ela pensou em ganhar dinheiro com isso. Criou o Let’s Network Together. Ela pensava em um tema, criava um evento na página da rede social a ser discutido, colocava um preço para mediar as conversas e esperava os interessados. As reuniões eram presenciais, feitas em sua casa. Aconteciam em paralelo com o Five Years…

A nova maneira de tentar ganhar dinheiro também não engrenou e serviu ao menos para manter Beia inquieta. Como um freelancer que se preze, vivia naquela montanha russa, mês lá em cima, mês lá embaixo, dando looping para se manter com o negócio vivo.

Ainda em 2009, em uma conversa com um amigo, falou por alto durante um assunto que ela nem lembra mais qual era: “mas isso é coisa da Geração Y”. O amigo não sabia o que era Geração Y. Ela tentou explicar rapidamente que ele devia saber e só não estava ligando o nome à pessoa. Ele, que tinha uma revista sobre RH, insistiu que nunca tinha escutado aquilo e pediu a ela que fizesse uma palestra sobre o assunto. Ela aceitou a proposta: “Fiz a palestra sobre mercado de trabalho para 60 empresários de RH.”

A partir daí, as coisas fluíram. Beia pensou que se tinha uma palestra sobre geração, precisa fazer outra sobre inovação, porque remete ao novo, mas é diferente. E em seguida veio também a necessidade de falar sobre o futuro propriamente dito. As palestras, o Let’s e o Five Years tudo ao mesmo tempo agora não iam rolar. Então ela decidiu seguir a regra número um do manual do empreender: tenha foco.

LIÇÃO PARA O PRESENTE E O FUTURO: MANTENHA-SE CURIOSO

Beia deixou de lado o workshop, os grupos de discussão e passou a se dedicar inteiramente às palestras. A única coisa que manteve é o nome de sua marca inicial e passou a denominar suas apresentações como Palestras Five Years From Now. No ano passado, foram 37 ao todo. A expectativa é crescer exponencialmente nos próximos anos, buscar efetivamente um agente (deixar Papai Noel para lá) e, quem sabe, poder falar cada dia do ano em um lugar diferente do Brasil.

E se você, mesmo tendo lido tudo isso, ainda não faz ideia de como se inteirar do que acontece de novo no mundo, Beia tem uma dica essencial: “Existe uma habilidade atemporal que é fundamental sempre: a curiosidade. Todo mundo tem que ser curioso. Hoje é fundamental ter a curiosidade para aprender pelo menos uma nova tecnologia. Com alguma novidade tecnológica você vai se identificar. Para isso, é preciso se interessar, testar, tentar compreender um pouco como funciona cada uma e ir a fundo na que te impactar. É simples.” O futuro, 2023, os cinco anos à frente, começam hoje e estão ao seu alcance.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Beia Carvalho Palestras
  • O que faz: Palestras sobre o futuro no mercado de trabalho
  • Sócio(s): Beia Carvalho
  • Funcionários: 1 (a fundadora)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2009
  • Investimento inicial: US$ 2.000
  • Faturamento: R$ 500.000 (estimativa)
  • Contato: beia@5now.com.br
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