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Conheça o Tradr, um aplicativo de compra, troca e doação de objetos incubado em Harvard

- 18 de março de 2016
Jéssica Behrens, de 24 anos, e o aplicativo que criou: uma mistura da ideia do Tinder, mas para que as pessoas troquem, doem e vendam objetos entre si.
Jéssica Behrens, de 24 anos, e o aplicativo que criou: uma mistura da ideia do Tinder, mas para que as pessoas troquem, doem e vendam objetos entre si.

Jéssica Behrens, 24 anos, é uma jovem comum. Durante o curso de comunicação na UnB, em Brasília, onde nasceu, ela sempre se questionou sobre o caminho profissional que queria seguir. Já tinha trabalhado com inclusão digital no Ministério das Comunicações, em ONGs, e como gerente de marketing da Adidas na Copa de 2014. Mesmo depois de ter transitado por áreas tão diferentes (setor público, terceiro setor e uma grande corporação), Jéssica ainda não tinha se encontrado.

“Eu ficava pensando que ou eu não gostava mesmo de trabalhar ou eu estava fazendo algo errado, porque eu já tinha tentado de tudo”, diz ela, que finalmente se encontraria como empreendedora e inovadora social: Jéssica é a criadora do Tradr, um aplicativo baseado em economia colaborativa, que conecta pessoas que querem comprar, vender, trocar ou doar objetos usados. Ela, é claro, ainda não tem todas as respostas sobre o novo negócio, mas a dúvida sobre o que fazer da vida profissional dissipou-se graças a um processo iniciado há dois anos. 

Em agosto de 2014, Jéssica trancou a faculdade e foi fazer um curso de liderança e empreendedorismo na Nova Zelândia. Lá, teve acesso a uma educação que considerou diferente, prática e palpável, com foco em aprendizagem de campo. Ao voltar para o Brasil, no entanto, seus questionamentos continuaram. Quando não se sabe o que fazer, muitas vezes, o melhor é não fazer nada.

O Tradr serve para as pessoas trocaram objetos e tem uma usabilidade bem parecida com a do Tinder, que o inspirou.

O Tradr serve para as pessoas trocarem objetos e tem uma usabilidade bem parecida com a do Tinder, que o inspirou.

“Voltei perdidona. Nessa época, encontrei um desafio de desapego na web. A proposta era se livrar de um objeto por dia durante um mês. Percebi que eu tinha muitas coisas legais, que nunca usaria”, conta. Ela separou uma pilha de itens que não usava mais, criou um grupo no Facebook para doá-las e incentivou que os amigos fizessem o mesmo. Quando percebeu que o grupo não estava tão movimentado quanto desejava, passou a deixar uma coisa por dia em um ponto de ônibus que sempre usava, junto com um bilhete que explicava porque aquele objeto estava lá. “Comecei a me questionar se, em pleno século 21, não existia jeito melhor de fazer aquilo, conectar as pessoas por meio das coisas”, conta.

O desafio minimalista foi a semente de tudo, mas a ideia do Tradr só foi brotar alguns meses depois, em janeiro de 2015, em um encontro com o amigo de infância Lucas Freitas, 23, que na época estava fazendo ciências da computação em Harvard e visitava a família na capital federal.

“Estávamos em um bar com um grupo grande de amigos. Uma parte da mesa estava falando sobre o Tinder, e outra parte me ouvia falar sobre o processo de doação das minhas coisas. Foi quando me deu um estalo: e se existisse algo que usasse a dinâmica do Tinder para coisas?”

Foi assim, entre amigos, que a concepção do Tradr nasceu: um aplicativo que aplica a lógica do Tinder, mas para produtos usados, conectando pessoas por grau de proximidade e geolocalização para que elas possam fazer transações de compra e venda, troca ou doação de objetos que já não usam mais.

DE REPENTE, UM TURBILHÃO

A partir daí, tudo començou a acontecer muito rápido para Jéssica. Em uma semana, o assunto virou tema do TCC na faculdade e ela conheceu, através de uma ponte feita por Lucas, Zaki Djemal, 28, que cursava economia comportamental em Harvard, e Eddy Lee, 22, também em Harvard, no curso de economia e estatística. Os três conversaram por skype e resolveram inscrever a ideia no Laboratório de Inovação de Harvard, o i-lab, como é conhecido. Logo o projeto foi aprovado e, no fim daquele mês, Jéssica já estava nos Estados Unidos para desenvolver a startup, junto com Zaki, Lucas e Eddie.

“Fiquei morando um semestre no sofá do Lucas, infiltrada no dormitório da universidade. Foi incrível. Lá eu não precisava me preocupar com nada material. O i-lab é todo equipado com comida, café, esteiras para exercícios, video games e fica aberto 24 horas, todos os dias. Também, tem uma lista dos melhores especialistas em várias áreas, é só marcar reunião para trocar ideia e pronto”, diz, impressionada com a estrutura oferecida aos estudantes.

Lucas, então, programou a primeira versão do app para testar dentro de Harvard, no mês da chamada Senior Sales, momento em que os alunos mais velhos estão saindo dos dormitórios e vendem suas coisas para os que ficam. “O app estava cheio de bugs. Mesmo assim, em 5 dias, 600 pessoas usaram, apontaram os problemas e deram feedbacks”, conta Jéssica.

HORA DE DECIDIR RUMOS

Em julho de 2015, a primeira fase da incubação no i-lab acabou. Todos estavam prestes a se formar (inclusive ela, que tinha acumulado créditos e precisava apenas apresentar o trabalho de conclusão de curso na UnB) e precisavam decidir como seguir. Foi aí que questões pessoais e a relação com dinheiro entrou no caminho. Ela conta:

“Em Harvard existe muita pressão para ser bem sucedido. As pessoas saem de lá e vão para Wallstreet, Vale do Silício ou Washington. Eu voltei para Brasília com um app cheio de bugs e o prestígio da experiência internacional”

Eddie seguiu a cartilha e resolveu trabalhar em Wallstreet, Lucas também decidiu que não queria lidar com instabilidade financeira naquele momento e aceitou uma proposta do Pinterest: foi para o Vale do Silício trabalhar no time de inteligência artificial da empresa, onde está até hoje. Apenas Zaki recusou uma proposta para ser gerente de operações no Uber para seguir no Tradr junto de Jéssica, apesar de continuar morando nos EUA.

Zaki Djemal, um dos sócios do Tradr.

Zaki Djemal, um dos sócios do Tradr.

Nesta fase difícil, com os sócios se espalhando pelo mundo e mais incertezas do que certezas, o Tradr recebeu o primeiro investimento. Alex Fuller, VP de investimentos da First Round Capital’s Dorm Room Fund e amigo de Zaki, já estava buscando investir em tecnologia e fez um aporte de 30.000 dólares. Além do valor, ele também orientou os sócios com alguns conselhos sobre quais outros investimentos eles deveriam aceitar e sob que condições.

Zaki e Jéssica ficaram sem programadores até junho de 2015, quando finalmente conheceram Caio Rhian, 20, Marcelly Luise, 27 e Jonathan Nobre, 23, todos formados em ciências da computação em Brasília. “Foi um dos nossos maiores desafios. Não é fácil encontrar bons desenvolvedores, comprometidos e também apaixonados pela ideia do negócio”, lembra a fundadora da startup. Em seguida, Gabrielle Borges, 22, formada em comunicação na UnB e amiga de Jéssica também se tornaria parte da equipe.

Foi quando o time decidiu que o app precisaria ser reprogramado para que o código ficasse realmente organizado. A jornada foi intensa e a versão final só ficou pronto em dezembro de 2015. Jéssica fala dessa fase:

“No começo, ingenuamente pensávamos que tudo seria muito mais simples: faríamos rapidamente um MVP, que o app ia rodar lindamente, que se tornaria um viral e que desfrutaríamos os louros da vitória sem muito trabalho”

Quando questionada sobre os motivos dessa visão de conto de fadas, Jéssica conta que a mídia glamuriza a vida dos empreendedores de startups. “A gente vê nas revistas as histórias daqueles jovens de sucesso que ficaram milionários com uma ideia e acha que é simples. A verdade é que ninguém fica rico com uma ideia. Para chegar lá é preciso trabalhar muito, se arriscar mais do que todo mundo e não desistir”, diz.

Com o app pronto, a equipe decidiu se mudar para São Paulo. Em janeiro desse ano, quase todos, inclusive Zaki, passaram a morar juntos em uma casa na Vila Madalena para trabalhar no negócio com força total. Eddie seguiu nos EUA e, de lá, representa a startup no i-lab e faz reuniões semanais com experts, para gerar insights ao grupo brasileiro.

Hoje, o app roda gratuitamente para iOS e Android. São 25 mil usuários e 15 mil produtos de todos os tipos cadastrados, com a possibilidade de venda, doação e troca. A princípio, a monetização será feita a partir de uma taxa cobrada nas transações feitas pelo celular. Outros caminhos considerados pela equipe são a criação de perfis profissionais para pequenos produtores e serviços com base na inteligência de dados captados pelo sistema do app.

A equipe segue também buscando investimento, depois de um segundo aporte de 20.000 dólares, vindo da estrangeira First Round Capital. No momento, os sócios estão começando as conversas com investidores brasileiros, mas Jéssica já notou diferenças de abordagem. “Nos Estados Unidos existe uma mentalidade capitalista de longo prazo. Os investidores nos diziam para não nos preocuparmos com o modelo de monetização logo de cara e, sim, em construir algo relevante para as pessoas, que o resto seria consequência”, diz ela:

“Aqui no Brasil, a primeira pergunta que nos fazem é como vamos ganhar dinheiro. O interesse no negócio também só existe quando já tem um retorno significativo”

Sobre os desafios do negócio, Jéssica conta que o mais difícil é engajar as pessoas e mostrar o valor do app que, na visão dela, vai muito além de uma ferramenta para encontrar roupas bonitas e baratas. “Queremos que ele seja um movimento que leve as pessoas a repensarem seus hábitos de consumo. Não é só o que usamos que nos define, mas o que apoiamos e as consequências de nossas escolhas de consumo”, diz ela, com muito mais certezas do que dúvidas. Se ela vai conseguir? Não se sabe. Se ela trocaria isso por outra coisa? No way.

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Tradr
  • O que faz: Rede social de economia colaborativa
  • Sócio(s): Jéssica Behrens, Caio Rhian, Zaki Djemal e Edward Lee
  • Funcionários: 5
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: fevereiro de 2015
  • Investimento inicial: R$ 50.000
  • Faturamento: ainda não fatura
  • Contato: [email protected]
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