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Conheça os franceses que investem, e lucram, vendendo tênis bacanas e ecológicos na Vert

- 29 de junho de 2015
Os sócios François-Ghislain e Sébastien na entrada da Reserva Chico Mendes, onde compram borracha certificada.
Os sócios François-Ghislain e Sébastien na entrada da Reserva Chico Mendes, onde a Vert compra borracha certificada.

No começo dos anos 2000, François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp estavam onde muitos queriam estar. Administradores recém-formados aos vinte e poucos anos, os franceses faziam estágio em Nova York em gigantes do mercado financeiro, como Morgan Stanley e Société Genérale. Em resumo, vida ganha. Ou não.

“Já sentíamos que não era nossa praia, mas seguíamos naquilo”, conta François. O estopim para a mudar a tal vida ganha veio em uma sexta-feira de primavera, num topo de prédio em Manhattan. François e Sébastien, amigos de infância em Paris, mataram uma garrafa de vodka e lançaram o balde longe, rumo ao que seria uma nova vida profissional para ambos, como sócios da Vert.

O primeiro tênis fabricado por eles seria apresentado ao mercado em grande estilo 2004, na Semana da Moda de Paris. Ganhou as ruas em fevereiro de 2005 e a marca decolaria, lançando coleções em parcerias a estilista francesa Agnes B e a famosa loja de bikes parisiense Cyclope. A marca abriu showroom em Londres em 2008, e três anos depois, uma loja conceitual própria em Paris, chamada Centre Commercial, que dá espaço a conversas e exposições destacando os elos sociais e ambientais da cadeia de produção da empresa. Mas, de volta a Nova York, François, hoje com 36 anos, lembra da conversa que culminaria na Vert:

“Começamos a desabafar: vamos dar um chute nesta vida. Achávamos tudo vazio, superficial. O interesse principal das pessoas era dinheiro, o objetivo maior era conseguir mesa num restaurante da moda. Aos 24 anos, não conseguíamos nos projetar adiante na vida”

A sintonia entre os amigos era forte. Colegas de infância em Paris, compartilhavam interesses e leituras em comum – um tema sempre presente era a sustentabilidade sob o prisma econômico. Em geral, naquela bolha do mundo AAA, sentiam-se distantes do mundo real. Como exemplifica François, era tudo “dentro daquelas torres de vidro, longe do ser humano, sem compartilhar experiências do mundo”.

A VIAGEM QUE DEU ORIGEM A TUDO

A ressaca da vodka rendeu um plano de voo: ambos deixaram os empregos e se lançaram a planejar uma viagem de 1 ano pelo mundo, para conhecer projetos de sustentabilidade e montar uma consultoria nesta área. O ano de 2002 foi dedicado a contatos com empresas, e os dois caíram na estrada no ano seguinte, rumo a quatro países: China, Índia, África do Sul e Brasil.

Em cada país, os amigos franceses se dedicaram a analisar a pegada de algumas empresas em relação à sustentabilidade. Visitaram mineradoras na África do Sul, têxteis na China. Em geral, o cenário que encontraram era desanimador. “As empresas não consideravam sustentabilidade dentro do quadro de negócio. Queriam fazer ‘business as usual’ e tocar um projetinho de vez em quando, mais como marketing mesmo”, diz François.

Clássicos da Vert em versão masculina e feminina

Clássicos da Vert em versão masculina e feminina

 

O pessoal do Carrefour na China, por exemplo, achava que já fazia muito ao vender broches do WWF (World Wildlife Fund) e reverter alguns trocados para a ONG. François lembra: “Dizíamos que não era assim. Propusemos integrar agricultores orgânicos na cadeia deles, construímos uma metodologia e entregamos”.

Na real, o único projeto – dentre 56 visitados – que fez a cabeça dos franceses foi no Brasil. Uma empresa francesa de comércio justo, a Alter Eco, comprava palmito pupunha de uma cooperativa de Ji-Paraná, em Rondônia. Sem intermediários, pagavam um preço justo aos produtores, que conseguiam manter a floresta em pé. “Era um projeto sustentável nos três pilares: econômico, ambiental e social, e sem cheques milionários de ONGs, nada”, diz François, num português quase sem sotaque.

TÊNIS FABRICADOS COM “DESOBEDIÊNCIA COMERCIAL”

O passo seguinte era tentar adaptar o modelo econômico que haviam descoberto na Amazônia a um produto que os dois futuros empreendedores gostariam de colocar no mercado. Não foi preciso muito brainstorm para decidirem que a aposta seria em calçados, mais precisamente em tênis – ambos são fissurados pelos pisantes desde a adolescência.

Pesou ainda o fato de a indústria calçadista não raro ser associada à exploração de mão de obra – foi um dos primeiros setores da indústria global, por exemplo, a transferir produção ao Sudeste Asiático para reduzir custos e poder investir montanhas de dinheiro em propaganda. Os franceses queriam mudar o ciclo de valor neste setor: queriam mais foco no produto e menos no marketing. Batizaram essa postura de “desobediência comercial”, pois vira os sistemas econômicos vigentes de cabeça para baixo.

Decididos a produzir no Brasil, os sócios optaram pelo Rio Grande do Sul, pelo histórico de lutas sindicais e boas condições de trabalho no polo calçadista de lá. Faltava o tênis. Para fazer um, é preciso algodão, borracha e, eventualmente, couro. Na busca pelo conceito da marca, os franceses queriam encontrar uma matéria-prima premium, mas cuja extração e produção tivesse um impacto social e ambiental positivo. Foram da borracha ao algodão.

Lá na ponta do país, na região amazônica do Acre, a empresa encontrou a borracha que garantiu o modelo de sustentabilidade que buscavam. Seringueiros da reserva extrativista Chico Mendes, que abrange sete cidades do Estado, fornecem a matéria-prima, mas com uma diferença fundamental.

EM CONTRAPARTIDA, INOVAÇÃO NOS MATERIAIS ECOLÓGICO

Os fornecedores da Vert usam um método de processamento chamado FDL (folha defumada líquida), desenvolvido na UnB (Universidade de Brasília), no qual comercializam a borracha já semi-processada e agregam valor ao produto: vendem por 9 reais o quilo, contra 2 o da borracha comum. No processo tradicional, o seringueiro colhe o látex e leva horas para colocar tudo num balde. O material vai oxidando e é entregue a intermediários, antes de chegar às usinas para processamento. Com a tecnologia do FDL, a primeira etapa da vulcanização é feita no próprio seringal, e as folhas de borracha são enviadas diretamente para a fábrica da Vert para moldar as solas dos tênis.

Sébastien Kopp e François-Ghislain Morillion, que viajaram o mundo em busca de projetos sustentáveis, acharam seu propósito no Brasil.

Sébastien Kopp e François-Ghislain Morillion, que viajaram o mundo em busca de projetos sustentáveis, acharam seu propósito no Brasil. Na foto, conhecendo algodão orgânico usado nos tênis da marca.

É um modelo que eleva a autoestima do agricultor, pelo maior valor agregado do trabalho. E que ajuda a manter as florestas intactas, já que o produtor da região consegue viver da borracha natural – que caiu muito em valor desde o avanço da borracha sintética, nos anos 1960 – e não precisa recorrer a atividades que degradam o ambiente, como a criação de gado e a extração de madeira. Conheça mais neste vídeo sobre esse processo inovador.

No caso do algodão, a Vert adquire o produto orgânico de cinco associações de pequenos produtores do Nordeste. A parceria começou em 2004, quando os sócios conheceram o trabalho da ONG Esplar, do Ceará, de combate à pobreza por meio da agroecologia, técnica que veta o uso de químicos e pesticidas. Os agricultores também evitam a monocultura e plantam o algodão ao lado de culturas de subsistência, como milho e gergelim, o que ajuda a preservar o solo.

A demanda da empresa é de até 17 toneladas de pluma de algodão por ano, e o preço pago aos produtores é de 8,5 reais o quilo, quase 50% a mais do que os 4,5 reais por quilo praticados no mercado. Este ano, com a seca histórica que atinge o Brasil e o Nordeste, a oferta caiu e a Vert teve de recorrer a material reciclado para suprir a linha de produção.

Quando passou a incorporar couro nos calçados, François e Sébastien encontraram, no Sul do país, couro curtido com tanino vegetal de acácia, sem metais tóxicos usados no processamento e que costumam poluir a água. Mas ainda buscam meios para conseguir um suprimento constante, pois a oferta desse tipo de material ainda é muito pequena.

ALÇANDO VOOS CADA VEZ MAIS ALTOS

Mesmo tendo sido lançados no mercado internacional há mais tempo, faz apenas dois anos que a marca franco-brasileira finalmente abriu as portas no Brasil. Por aqui, foi batizada com o nome Vert (verde, em francês), para evitar confusão com Veja, que é o nome global da empresa (o mesmo da revista da editora Abril).

Moldes usados para o corte da borracha dos solados.

Moldes usados para o corte da borracha dos solados.

A chegada ao país estimulou os sócios, que já viviam entre Paris, São Paulo e Campo Bom (RS), a pesquisar novos materiais para os calçados, tais como a resina de garrafas PET, que já rendeu uma linha jogging, com lona feita a partir de garrafas recicladas.

Tecidos reciclados também estão na mira de um novo projeto da marca para 2015, que é uma colaboração com o estilista brasileiro Alexandre Herchcovitch. Nos últimos anos, produção saltou de 5 000 para 130 mil pares por ano, e envolve uma logística incrível. As matérias-primas viajam todo o país até o Rio Grande do Sul. Os pares são embalados em caixas de papelão reciclável e seguem de barco até o porto de Le Havre, na França, onde são estocados e despachados pela Ateliers Sans Frontières, uma ONG francesa de auxílio social que emprega pessoas em situação de exclusão. Do porto, viajam em barcaças até Paris, para distribuição por 30 países.

No Brasil, os tênis da Vert podem ser encontrados em mais de 40 lojas e em showroom em São Paulo. Também há vendas online – cada modelo custa, em média, de 200 a 300. Há cerca de um mês, François e Sébastien levaram três funcionários – dois da França e um do Brasil – para conhecer a vida dos produtores da Amazônia que iniciam o ciclo de vida dos tênis da Vert. François conta:

“Ficamos encantados em ver os olhos deles enquanto conheciam as histórias dos seringueiros e viam de perto como a vida deles mudou”

E é por aí que a Vert se vê no mundo hoje, ciente da importância e do valor de cada passo, ainda que pequeno, numa história que em breve será contada em livro. François: “A gente criou uma aventura humana. Sabemos que não vamos mudar a face do planeta: é pouco algodão, pouca borracha. Mas acreditamos muito que podemos inspirar outras pessoas, repassar o bastão a quem vem, e isso para nós é a coisa mais rica desse negócio”.

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Vert Shoes/Veja Shoes
  • O que faz: calçados sustentáveis
  • Sócio(s): François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp
  • Funcionários: 32
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2004
  • Investimento inicial: 100 mil euros
  • Faturamento: 6 milhões de euros (em 2014)
  • Contato: www.vert-shoes.com.br/fale-conosco
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