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Conheça quatro femtechs pioneiras no Brasil e saiba como elas vão ajudar a revolucionar a saúde e o bem-estar feminino

Dani Rosolen - 21 jun 2021
Lettycia Vidal, fundadora da plataforma Gestar.
Dani Rosolen - 21 jun 2021
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Mulheres são metade da população mundial. Mesmo assim, por muitos anos a maioria dos produtos e serviços da área da saúde e bem-estar foi pensada, projetada e testada apenas por homens – e só depois adaptada para o público feminino (e nem sempre levando em conta as especificidades de seus corpos). Soluções feitas exclusivamente para elas, então, eram impensáveis até pouco tempo.

Essa realidade está mudando.

Desde 2013 já existe até um termo — femtechs — para definir empresas que usam a tecnologia para solucionar problemas relativos à saúde e bem-estar femininos, oferecendo maior controle sobre seus corpos e combatendo os tabus.

O conceito foi criado pela empreendedora dinamarquesa Ida Tin, fundadora e CEO de uma das primeiras femtechs do mundo, a Clue, aplicativo de controle menstrual e de ovulação.

Em quase dez anos, o mercado já evoluiu bastante, com produtos que atacam questões enfrentadas pelas mulheres, da menstruação à menopausa. Até 2025, de acordo com uma pesquisa da Frost & Sullivan, as femtechs devem movimentar 50 bilhões de dólares ao redor do mundo.

Conheça a seguir quatro femtechs pioneiras no Brasil:

UMA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA MOTIVOU O INTERESSE DE LETTYCIA PELO PARTO

Lettycia Vidal, 25, sempre sonhou em ter um irmãozinho. Quando sua mãe engravidou pela segunda vez, ela tinha 13 anos e já podia perceber que algo de errado havia se passado durante o parto.

“Minha mãe sofreu uma violência obstétrica, teve um corte na bexiga. Isso me deixou chocada, porque ela saiu de casa normal e voltou com uma sonda. Na época, fiquei pensando que, se tivesse quer ser assim, eu preferia não ter filhos”

Sua percepção mudou quando, aos 18, acompanhou a decisão de uma prima de realizar um parto domiciliar. “Depois disso, fui pesquisar a respeito e fiquei ‘a louca do vídeo de parto domiciliar’, via muitos”, conta.

Ela acabou prestando vestibular para Publicidade e Propaganda. Mesmo assim, o tema ficou na sua cabeça. No último ano da graduação, decidiu fazer uma formação de doula. E, no seu TCC, “pariu” o embrião da Gestar, uma plataforma que conecta profissionais que atuam com saúde materno-infantil de forma humanizada a mães e gestantes.

Depois de formada, Lettycia foi em busca de tirar o projeto do papel. Em 2019, passou pela aceleração da Shell Iniciativa Jovem e, em 2020, deu o pontapé inicial do negócio depois de participar do Pulse, programa de aceleração da B2Mamy.

“Em maio, começamos a testar a plataforma. A princípio, seriam cinco profissionais, mas uma foi chamando a outra e no final foram 15”, diz.

Lettycia investiu 30 mil reais de economias próprias e de familiares e, em novembro, pôs a plataforma no ar, com 34 profissionais de 20 especialidades (de ginecologia à educação parental).

“Selecionamos todos os possíveis serviços que podem acompanhar a mulher nessa trajetória, da gestação à primeira infância do bebê. Com isso, a mãe fica com a gente por cerca de seis anos”

Atualmente, são 24 profissionais assinantes, que pagam a partir de R$ 39,97 mensais, no plano mais simples, para usar a plataforma e expor seus serviços e agenda na Gestar. Pela plataforma, elas ficam visíveis para que as gestantes e mães (hoje são 125 mulheres na base) possam encontrá-las e então, decidir se a consulta será presencial ou virtual. Ao fim, as pacientes acertam os valores da consulta diretamente com as profissionais.

Além do match entre os profissionais e as pacientes, a startup promove eventos online, pela UniGestar; entre os eventos já realizados estão um curso de aromaterapia para especialistas focado na saúde da gestante e da mulher recém-parida e uma jornada de amamentação para brasileiras expatriadas.

Em fevereiro deste ano, a Gestar recebeu seu primeiro aporte do Black Founders Fund, do Google, de valor não revelado. O investimento está permitindo à empreendedora aumentar a equipe. Hoje, além dela e da nova sócia — a economista Giovana Milani, que chegou em maio –, há uma pessoa com dedicação integral à empresa e mais dois freelancers.

CORAGEM PARA ENFRENTAR TABUS SOBRE A SEXUALIDADE FEMININA

Foi em São Francisco, na Califórnia, que Marina Ratton, 35, descobriu o mercado das femtechs e sextechs. Ela estava em uma roda de conversa para aprimorar o inglês quando ouviu pela primeira vez, em 2018, os dois termos.

Ao voltar ao Brasil, começou a pesquisar a respeito do mercado e sobre marcas nativas digitais, paralelamente ao trabalho que realizava na área de marketing de uma indústria farmacêutica. Dois anos depois, ela viria a fundar a Feel, marca de cosméticos com fórmulas naturais para o bem-estar íntimo feminino.

Para chegar ao primeiro produto, a empreendedora mapeou o comportamento sexual das brasileiras, com o apoio da rede de contatos da B2Mamy, onde o projeto foi acelerado. Lá, Marina conheceu Dani Junco, CEO da aceleradora e hoje sua sócia na Feel.

Conversando com mais de 800 mulheres, Marina descobriu que, mesmo sentindo incômodo ou secura vaginal durante a relação, a maioria delas não usava lubrificante.

“Deduzi dessas conversas que a gente se acostumou a transar mal. Somos tão críticas com tantas áreas da nossa vida, mas para a sexualidade não buscamos ferramentas”

Também ouviu fisioterapeutas pélvicas e entendeu que havia uma oportunidade para desenvolver um lubrificante especial, feito à base de plantas (muitas mulheres têm alergia a ingredientes usados nos produtos de gôndola de farmácia) e com design discreto.

Marina e os produtos da Feel.

“Nossas embalagens podem ficar na bancada do banheiro ou ao lado da cama, pois são lindas e estudadas para uma melhor experiência com a fórmula.”

Assim foi criado o Gel Moist & Feel, desenvolvido a partir de aloe vera e com essências naturais de limão e baunilha (R$ 89,90).

O plano inicial era ser uma marca de apenas um produto, vendido online pelo próprio site da Feel. Marina, porém, notou outra demanda. Então, lançou o Óleo Relief & Feel, um óleo de coco para a região pélvica indicado para a hidratação da pele no pós-depilatório ou para a foliculite.

“A gente foi entendendo também que não é só sobre a vagina estar seca… Para uma mulher se sentir bem e segura numa relação sexual, a virilha não pode estar assada”

A produção é terceirizada. Aliás, levou um tempinho até que Marina encontrasse uma empresa que entendesse a proposta da Feel. “Os testes vinham com cheiro de chocolate, morango, na cor na vermelha ou rosa…”

Hoje, além do site próprio, os produtos da startup são encontrados na AMARO e em mais cinco sex shops. Para expandir o negócio ao longo de 2021, a Feel vai contar com um aporte de 550 mil reais recém-captados pela plataforma Wishe e os aprendizados adquiridos um processo de aceleração com um gigante do mercado da beleza, o Grupo Boticário. A expectativa de Marina é chegar ao fim do ano faturando 350 mil reais.

COMO TOMAR CONHECIMENTO SOBRE A PRÓPRIA FERTILIDADE

Formada em administração, Stephanie von Staa Toledo, 32, seguiu uma carreira tradicional na área, trabalhando em bancos de investimento, e-commerces e consultorias. Realizou um MBA em Wharton, nos Estados Unidos, e viveu e trabalhou em Nova York.

Stephanie, fundadora da Oya Care, uma clínica virtual de saúde da mulher.

Lá, começou a não se sentir mais realizada com a trajetória que tinha construído ao longo de dez anos. E percebeu que empreender poderia ser uma saída, encontrando rapidamente a área onde desejava atuar:

“Cheguei muito rápido à saúde feminina, pois vi que para ter autonomia e pé de igualdade nesse mundo, nós precisamos desse olhar para o nosso corpo”, afirma a fundadora da Oya Care, uma clínica virtual de saúde feminina.

A startup foi fundada no fim de 2019, quando Stephanie começou a pesquisar, ainda nos EUA, o mercado de femtechs. Interessou-se especificamente pelas startups que tratavam de fertilidade, e se pôs a testar seus serviços e produtos.

De volta ao Brasil, em 2020, fez pesquisas e viu que a fertilidade era, sim, uma questão para mulheres entre 30 e 40 anos. Segundo Stephanie, 70% das entrevistadas tinham dúvida sobre o tema, mas apenas 7% tinham feito algum exame relacionado à questão.

“Identifiquei que a fertilidade era um problema, mas não do ponto de vista da infertilidade — e sim de as mulheres não terem conhecimento sobre o tema”

O nome Oya tem total conexão com o assunto.

“Oyá, também chamada de Iansã, é uma orixá do candomblé que representa o poder e a energia feminina de grandes mudanças, das tempestades, dos ventos e dos rios Amazonas e Nilo, que por sua vez têm tudo a ver com a fertilidade”, conta Stephanie, que não segue a religião mas se diz adepta de várias crenças e filosofias.

Depois de ouvir o público-alvo, ela consultou a comunidade médica de reprodução humana assistida e, com a ajuda de uma Ph.D, a Oya Care elaborou um dossiê técnico científico sobre fertilidade da mulher e hormônio anti-Mülleriano, principal indicador de reserva ovariana, ou seja “estoque” de óvulos da mulher.

Então, passou a oferecer como serviço a coleta em casa do exame de dosagem do hormônio anti-Mülleriano e uma teleorientação com uma especialista para entender em qual estágio a paciente está na sua vida fértil, informações sobre seu estilo de vida e histórico de saúde.

Com  esses dados em mãos, a Oya Care elabora um relatório sobre a estimativa da reserva ovariana da mulher (se está abaixo, acima ou dentro da média para sua idade); indica se ela vai chegar na menopausa antes, depois ou na média da idade; qual a faixa etária mais segura para planejar uma gravidez natural/ quando (e se) faria sentido congelar óvulos; se ela tem algum distúrbio hormonal; e dá indicações de hábitos que podem ajudar a prolongar a vida fértil.

“Quando a mulher faz sua jornada com a Oya e está tudo bem, a gente retoma o contato de seis meses a um ano para ela refazer o exame. Se não está tudo bem, indicamos que consulte um especialista e oferecemos uma curadoria de médicos e clínicas”

A startup afirma que esse processo todo, realizado de forma independente, custaria cerca de 2 mil reais. Pela Oya, o preço fica em apenas 199 reais.

Stephanie conta que o investimento inicial no negócio se resumiu mais ao tempo dedicado à pesquisa, criação do site e a 20 atendimentos gratuitos para testar o serviço. Em seguida, a startup, que opera desde agosto de 2020, recebeu um aporte de 800 mil dólares do fundo Canary.

Mais de 70 mulheres já foram atendidas até agora pela Oya. No futuro, Stephanie planeja oferecer outros serviços, como um plantão de dúvida ginecológico para temas pontuais, como corrimento, coceira e dor vaginal, além de dúvidas sobre contracepção.

ELA QUER COLOCAR NO MERCADO UM AUTOEXAME DE CÂNCER DE COLO DE ÚTERO

Caroline Brunetto de Farias, 38, é doutora em biologia celular e molecular. Há dez anos, ela tenta trazer para o mercado um autocoletor de secreção vaginal associado a um autoteste rápido para rastreamento de câncer de colo de útero.

Para perseguir esse objetivo, Caroline fundou a Ziel Biosciences, uma fábrica de soluções em oncologia e saúde da mulher, com sede em Porto Alegre. Ziel, em alemão, significa “alvo” e faz referência ao termo terapia-alvo.

As pesquisas de Caroline começaram com duas colegas na época do doutorado, que deixaram o projeto depois de um tempo. A partir de 2017, a empreendedora passou a se dedicar com exclusividade à empresa.

A Ziel já tem a patente e o protótipo de um kit com o autocoletor (batizado de SelfCervix), que se assemelha a um aplicador de creme vaginal, e o teste rápido (RapiCervix), similar a um exame de gravidez de farmácia.

“Nosso autocoletor já foi testado por mais de 300 mulheres na regiões Sul e Sudeste, e teve parcerias com o Hospital das Clínicas e o hospital universitário da USP. Também fizemos testes com mulheres da população ribeirinha de Manaus. Mais de 99,8% das mulheres conseguiram utilizá-lo sozinhas, coletando a quantidade de células necessária para realizar o exame”

A empreendedora busca investimento para testar o kit com uma amostragem ainda mais ampla, de mil mulheres, antes de levar o produto ao mercado por meio de licenças com farmacêuticas fabricantes de outros tipos de teste rápidos.

Caroline demonstrando como funciona o autocoletor da Ziel.

Para essa nova fase, a Ziel pretende captar entre 1,7 milhão e 2 milhões de reais. Desde o início da operação, lá em 2011, a startup já captou 5 milhões de reais, somando valores recebidos do Programa da Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP e um aporte recente do BiotechTown, para essas pesquisas e outras relacionadas à oncologia.

Hoje, segundo Caroline, o SUS paga R$ 19,85 pelo Papanicolau, exame de prevenção do câncer de colo do útero. A expectativa da empreendedora é que sua invenção chegue ao mercado por não mais do que 25 reais para ser um produto competitivo e que dê acesso a todas as 50 milhões de mulheres entre 25 e 64 anos que precisam realizar o exame anualmente no Brasil.

“Segundo determinações da OMS, pelo menos 80% dessas mulheres precisariam ser rastreadas. Hoje, porém, por diversos motivos, apenas 20% fazem o teste — e depois da pandemia, esse índice deve estar menor ainda”, diz Caroline. “Com o nosso kit, será mais fácil levar aos especialistas e hospitais apenas as mulheres que [de fato] apresentarem algum problema.”

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