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Contra a ditadura dos unicórnios

- 31 de outubro de 2019
O valor de um negócio não pode se resumir aos seus resultados financeiros.
O valor de um negócio não pode se resumir aos seus resultados financeiros.

Você pode ver o dinheiro como um fim, como a coisa mais legal que alguém pode produzir na vida.

Você pode ver o dinheiro como a única forma de reconhecimento capaz de lhe garantir autoestima.

Ou você pode ver o dinheiro como um meio para construir coisas legais.

Aí ele não será a única régua capaz de medir a sua estatura profissional, mas um combustível importante para que você gere as realizações que, essas sim, estabelecerão o tamanho que você teve em sua carreira.

A discussão em torno do empreendedorismo sempre esteve muito ligada ao dinheiro. De modo geral, as pessoas veem as empresas como o equivalente de máquinas registradoras. E boa parte dos empresários se atira ao torvelinho da iniciativa privada movidos por sonhos de enriquecimento.

A Nova Economia, que eu tenho seguido de perto desde 2014, quando lançamos o Projeto Draft, plataforma de conteúdo dedicada a cobrir a expansão dos negócios pós-industriais no Brasil, prometia rever a estreiteza dessa visão e atualizar a conversa sobre empreendedorismo com ingredientes mais contemporâneos.

É fato que as empresas, historicamente, sempre se deixaram medir pelo tamanho do seu faturamento. Ou da sua margem de lucro. Ou do seu valor de mercado. Essa é uma visão clássica do capitalismo – você investe numa empresa e deseja obter o máximo retorno sobre o capital investido.

Então a pressão pela expansão dos negócios cascateia pela organização, às vezes na forma de cenoura, às vezes na forma de chicote. Estabeleceu-se que as empresas não podem parar de crescer. Que as melhores empresas são as maiores e as que mais crescem. E que uma empresa precisa crescer acima da média de crescimento do mercado em que está inserida – caso contrário, estará perdendo espaço e importância.

Ainda que, como li esses dias, seja incongruente projetar o crescimento infinito das organizações num planeta cujos recursos são finitos – e em que a população está parando de crescer, e em que a economia em diversos países já atingiu um nível de abundância muito acima daquilo que seres humanos necessitam para viverem bem.

(Ou seja: o paradigma do crescimento será forçosamente revisto nos próximos anos. Na era da abundância, nem mesmo a expansão tecnológica poderá nos garantir avanços exponenciais – e esse conceito fará cada vez menos sentido.)

E ainda que a relevância – e a sobrevivência – de uma empresa dependa muito menos da sua quantidade de clientes e consumidores (market share) do que da qualidade com que consegue atender os desejos e expectativas de seus clientes e consumidores – sejam eles quantos forem.

O QUE VOCÊ BUSCA NO EMPREENDEDORISMO: RIQUEZA, REALIZAÇÃO OU RELEVÂNCIA?

Empresariar, no sentido clássico do capitalismo industrial do século 20, sempre foi apresentar um novo produto ou serviço ao mercado e, uma vez tendo essa solução aceita por clientes ou consumidores, escalá-la ao máximo.

Essa lógica, que nasce com a criação da linha de produção, por Henry Ford, em 1913, é a mesma que move as Startups em 2020: validar uma proposta de valor e então acelerar para crescer. Não por acaso, o mundo das Scale-ups (o nome que as Startups ganham na fase em que já validaram seus produtos ou serviços e partem para a expansão do seu negócio) é o território da Nova Economia mais bem compreendido pela turma da economia tradicional.

Os outros tipos de empresa da Nova Economia – segundo a modelagem do Projeto Draft para mapear e compreender os negócios que surgem no capitalismo do século 21 – enfrentam um pouco mais de dificuldade para terem o seu modelo de negócios, e sua lógica interna, entendidos e aceitos pela economia convencional. Basicamente, porque não operam com a premissa do faturamento acima de tudo e da escala acima de todos.

Os Negócios Criativos, por exemplo, se pautam pela tentativa de transformar aquilo que o empreendedor mais gosta de fazer na vida num meio de vida. São negócios que têm a ver com propósito. É o chamado Lifestyle Business – a empresa cabe nos interesses, nos talentos e na própria rotina diária dos seus fundadores.

Os Negócios Sociais, outro território da Nova Economia, se pautam pela transformação do mundo ao redor. Têm a ver com a geração de um legado. Essas empresas não surgem exatamente da vocação dos seus fundadores, mas do desejo dos empreendedores de resolver os problemas da comunidade em que estão inseridos.

Claro que, tanto aos Negócios Sociais quanto aos Negócios Criativos, interessa crescer. E é claro que a lógica da escala não está totalmente ausente dessas empresas – escalar um negócio social significa levar ajuda a um número muito maior de pessoas que anseiam por ela; escalar um negócio criativo é ampliar a comunidade que a empresa beneficia com a sua oferta.

Mas em nenhum desses dois territórios a principal missão dos empreendedores é crescer as receitas em saltos quânticos e captar mais dinheiro de investidores e inflar o seu valor mercado. Isso tudo é, no máximo, a consequência de um trabalho bem feito. Não é o trabalho que precisa ser feito.

Enquanto Negócios Criativos e Negócios Sociais nem são muito vendáveis, porque dependem muito da visão e da atuação de seus fundadores, as Startups e Scale-ups parecem muitas vezes terem sido criadas para serem passadas adiante. Eis aí uma oposição interessante, no coração da Nova Economia: de um lado, empresas para viver; de outro, empresas para vender.

CRESCIMENTO ACELERADO E INFINITO, RECEITAS QUE SE EXPANDEM COM CUSTOS MARGINAIS – OU NEM FALE COMIGO

Toda a cadeia montada para o fomento aos empreendedores – aceleradoras, fundos de investimento, investidores-anjos etc –, direcionam seu olhar para as Startups e tendem a igualar o próprio significado do termo “empreendedorismo” às empresas que se pautam pela geração de riqueza e que, portanto, se engajam desde cedo em loucas cavalgadas atrás de dinheiro.

Num primeiro momento, a alavancagem vem de sócios capitalistas, o que dobra a aposta e multiplica a pressão pela “maximização financeira” das operações (problema apontado por Yancey Strickler, fundador do Kickstarter, talvez a maior plataforma de crowdfunding do mundo, em seu primeiro livro, recém-lançado).

Depois, vem a aquisição rápida de consumidores e de participação de mercado, às vezes de modo pouco sustentável financeiramente – um paradoxo, já que essas são justamente as empresas que têm cifrões impressos na medula.

O uso de termos como Fintechs, Healthtechs, Cleantechs, Retailtechs – a lista é enorme – agudiza essa visão de que uma Startup, para ser boa, tem que estar montada sobre uma solução tecnológica altamente escalável. Crescimento acelerado e infinito – ou nada.

No corredor Toronto/Waterloo, onde estamos lançando o Draft Canada, a conversa é toda voltada para as “techs”. O que o ecossistema valoriza são as empresas que desenvolvem IPs (Intellectual Properties), ou seja, tecnologias próprias sobre as quais os negócios possam buscar crescimentos exponenciais. Esses são os projetos desejados pelos investidores – modelos de negócio em que as receitas prometam ser crescentes e os custos, marginais.

EMPREENDEDORISMO É TAMBÉM UM EXERCÍCIO DE CRIATIVIDADE E DE EXPRESSÃO INDIVIDUAL, DE DESENVOLVIMENTO PESSOAL, UM MODO DE PRODUZIR E COMPARTILHAR FELICIDADE

Nada contra esse estilo de empresa. Muito ao contrário. Precisamos de organizações crescendo rapidamente e gerando empregos e impostos na mesma velocidade. Meu ponto aqui é que esse não é o único modelo viável ou válido de empresa.

Essa miopia tem deixado a conversa monotemática. E temas fundamentais têm sido jogados para fora da caçamba: o empreendedorismo como uma forma de expressão e de criatividade, como um espaço para a realização pessoal e para a geração de um legado, para crescimento e desenvolvimento individuais, como uma forma de contribuir para a construção de um mundo melhor, como um modo de produção e compartilhamento de felicidade humana.

Os negócios da Economia Criativa, por exemplo, estão aí para nos provar que o empreendedorismo pode salvar vidas e reinventar carreiras – e que nunca é tarde para se perguntar: “o que eu realmente gostaria de fazer com a minha vida?”

E os Negócios Criativos, paradoxalmente, também podem ser muito escaláveis. Há no mundo, e sempre haverá, muito mais espaço e demanda para pessoas serem felizes e ganharem dinheiro, às vezes num negócio de um indivíduo só, num modelo de self-employment, do que para unicórnios avaliados em 1 bilhão de dólares.

Eis a equação: dois mil microempreendedores faturando 500 mil por ano geram muito mais prosperidade e bem-estar do que uma única megacorporação faturando um bilhão. No entanto, o mercado coloca toda a sua atenção, seus recursos e sua torcida no fomento à criação de empresas de 1 bi, e considera empresas menores como coisa banal ou, talvez, como empreendimentos que não deram tão certo quanto deveriam.

O futuro dos negócios não está na concentração do poder econômico e dos recursos – nesse sentido, unicórnios se pautam por uma lógica tão velha quanto a que criou a Standard Oil (1870) ou a United Fruit Company (1899).

O futuro dos negócios parece estar na ponta oposta: na descentralização do poder econômico, na diversificação das oportunidades, na distribuição do acesso aos recursos e às ferramentas do empreendedorismo a um número cada vez maior de pessoas.

Os Negócios Sociais, por sua vez, nos mostram, talvez como nenhum outro tipo de empreendimento, como uma empresa pode oferecer significado a sua vida. Pense na recompensa diária de saber que você impacta positivamente a existência de um monte de gente. Esse tipo de empreendedor dificilmente se pergunta: por que eu estou fazendo isso que eu estou fazendo?

Do meu ponto de vista, não pode haver maior sucesso do que responder a essa pergunta de bate-pronto e com um sorriso – por mais que a empresa, na opinião do mercado, não esteja valendo 50 vezes o seu faturamento.

A MIOPIA DOS UNICÓRNIOS E O ENDEUSAMENTO DO DINHEIRO

O pano de fundo dessa hegemonia da lógica das Startups sobre os outros modelos de negócio da Nova Economia é o endeusamento do dinheiro, muitas vezes em detrimento da saúde física e mental das pessoas que trabalham na empresa, e das pessoas que consomem os produtos da empresa, e dos fornecedores da empresa.

Isso me parece tão velho quanto a Segunda Revolução Industrial. O que me soa como uma contaminação da Nova Economia pela lógica do velho capitalismo – que, de modo geral, quer nos fazer crer que se o bolso estiver razoavelmente cheio não faz mal que a alma esteja completamente vazia.

Penso que já está mais do que na hora de enxergarmos o óbvio: nós não somos um meio para a geração de dinheiro, em troca do nosso tempo de vida e dos sonhos que temos para nós mesmos. Ao contrário: o dinheiro é um meio para a geração de uma existência mais plena e feliz.

Temos abandonado, em nome da aceleração dos negócios, em nome de pressões (auto) impostas (tendo a escala com o santo gral a ser conquistado), premissas fundamentais como a satisfação no trabalho ou o equilíbrio entre o tempo dedicado à carreira e o tempo dedicado todos os seus demais interesses.

Esse olhar dinheirista sobre as empresas é, em suma, muito redutor e atrasado em termos do que significa empreender. Crescimento é bom, claro. Sem ele não se consegue, por exemplo, pagar melhor os colaboradores. A escala é bem-vinda, claro. Ela permite, por exemplo, que mais consumidores tenham acesso, a preços menores, às benesses que você produz.

Mas as empresas, especialmente no âmbito da Nova Economia, não podem ser medidas unicamente por seus balanços. O valor de um negócio não pode se resumir aos seus resultados financeiros. Faturamento e rentabilidade são réguas importantes – mas não são as únicas.

(Desconfio que criei o Draft, tanto no Brasil quanto no Canadá, também para disseminar essa mensagem. Essa talvez seja a grande disrupção do Draft, que tanto tem buscando curar e disseminar a disrupção trazida por outras empresas.)

Eis o que quero sublinhar: empresas são pessoas. Negócios são criados por pessoas para servir de pessoas. Tire as pessoas da equação e não teremos nada. Esmague as pessoas nesse processo, acabe com a sua alegria de trabalhar, e, onde antes havia um caixa bem fornido, não sobrará moeda sobre moeda.

Quando o dinheiro é o fim, o empreendedor vira um funcionário de sua própria empresa. Quando você trabalha sem paixão, sem uma causa, quando o negócio que você trouxe ao mundo não lhe oferece um significado maior do que aumentar as vendas, quando o seu trabalho fica sem propósito, quando você deixa de ter seu DNA impresso naquilo que faz, o empreendimento vira o pior dos empregos.

Empreender tem a ver com ambição, mas também com generosidade. Um empreendimento não é uma forma de atrair e acumular os recursos que circulam pelo mercado, mas um meio de servir a comunidade em que você atua, de entregar valor aos demais, de resolver problemas para os outros, de fazer diferença na vida das pessoas.

Empresas existem para gerar felicidade humana para todos os envolvidos – dos fundadores aos clientes, passando pelos colaboradores. Dinheiro é um meio para o empreendedor realizar esse objetivo – e se realizar no processo. Dinheiro nunca será um fim bom o suficiente. Nem nunca, jamais, poderá ser a realização em si.

 

Adriano Silva é Fundador & CEO do Projeto Draft. Esse texto faz parte de uma série de artigos produzidos em comemoração ao aniversário de 5 anos do Projeto Draft, que teve seu primeiro post publicado em 29 de agosto de 2014.

 

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