SPONSORS:

Costuras de vida, parte 3 – Bert Hellinger e as Constelações Sistêmicas

- 21 de junho de 2017
Andréa Fortes, fundadora da Sarau, escreve sobre as quatro teorias que transformaram sua vida. Este artigo é parte da série intitulada "Costuras de Vida". (ilustração: Alessandra Lago)
Andréa Fortes, fundadora da Sarau, escreve sobre as quatro teorias que transformaram sua vida. Este artigo é parte da série intitulada "Costuras de Vida". (ilustração: Alessandra Lago)

Quando há cinco anos, grávida da Carolina, fiz uma formação chamada “Inquietações Existenciais” em uma escola para Executivos, já imaginava que algo inusitado estava por acontecer. Os encontros, aos sábados, eram um pouco “fora da grade” da Escola de Marketing Industrial, ainda que eu não ouse dizer que a EMI caiba “numa grade”. Quem conduziu os encontros foi o Marcelo Cardoso, na época, VP da Natura, e a Delmar, esposa e companheira de jornada. Meses antes, quando o meu sócio, o Paulo, o conheceu, ele comentou que eu ia gostar do “jeito” do Marcelo. Não deu outra. Os encontros foram fortes, provocativos e transformadores. Lá, constelamos. Eu sabia que a minha médica antroposófica, a doutora Sônia Fornazari, era também consteladora. Mas sabia pouco da tal teoria. Tampouco, da prática que pude vivenciar logo em seguida.

Tempos depois, filha nos braços e ideias borbulhando, soube pela mesma doutora Sônia que ela faria um grupo de estudos sobre o tema Constelações Familiares. Ela acompanha os movimentos do Bert desde que chegaram no Brasil e, naquela época, não havia uma formação “oficial” do tema por aqui (hoje tem).

Durante pouco mais de um ano, entre 2014 e 2015, nos reunimos num pequeno grupo para estudar e vivenciar as tais Constelações

Para quem nunca ouviu falar, vou tentar contar um pouco do que entendi do assunto: “constelação” não foi, necessariamente, a melhor palavra para descrever o que seria esta teoria/filosofia. Como foi criada na Alemanha, a tradução para o português de certa forma tirou a força da palavra. Traduzir do alemão não é mesmo uma coisa fácil. Um bom termo seria “dar um lugar” aos excluídos. Não tem a ver com as estrelas do céu ou com Astrologia, enfim.

O criador Bert Hellinger chegou a esta espécie de terapia há alguns bons anos, depois de ter vivenciado muitas coisas na própria vida. A constelação trata de fenômenos da vida. E algo fenomenológico não dá para explicar. Quando uma lâmpada acende, ela acende. Quando o sol aquece, ele aquece. São fenômenos que sentimos e vivenciamos todo dia e dos quais não temos, necessariamente, conhecimento teórico. No caso das Constelações, é como se pudéssemos, depois de passar pela vivência, criar uma nova foto de algum fato, na família, na empresa, na vida. Muita gente tenta explicar racionalmente do que se trata (quadrante direito superior da Teoria Integral, que vou explicar num outro texto, logo mais).

Mas há coisas que precisam ser apenas sentidas

Grandes artistas, com sua intuição apurada, retratavam verdadeiras Constelações antes mesmo da teoria ter sido nomeada. A mexicana Frida Kahlo trazia em seus quadros imagens das gerações de uma família, numa lógica de precedência e de pertencimento. As árvores da vida, árvores genealógicas, também ilustram bem tudo isto.

Fui participar do grupo de estudos sobre Constelações com a pretensão de ampliar a minha bagagem profissional e a de “curar” as pessoas. Acabei me curando. Descobri, por exemplo, que tenho traços de co-dependência, esta coisa de querer sempre ajudar os outros, esquecendo, eventualmente, de mim mesma. Numa outra formação, alguns poucos anos depois, em Facilitação Integral, também conduzida pelo Marcelo Cardoso, constelávamos quase toda noite.

Hoje a palavra ganhou outro acompanhamento (passou de Constelações Familiares para Constelações Sistêmicas) e, a teoria, mais sutilezas. A entrada da Sophie na vida do Bert, há alguns anos, trouxe novas cores aos saberes deste grande homem. Não é algo a ser explicado, mas sentido. Ainda assim, vou procurar esboçar aqui alguns dos meus aprendizados com o tema e algumas leis que gerem as Constelações, do jeito que eu costumo contar nas minhas aulas de costuras. Nas minhas palavras, OK?

Pertencemos. Somos parte de uma família, de uma história. Quantas pessoas tiveram que atravessar oceanos, quantas morreram, quantas participaram de guerras para que estivéssemos aqui? Por outro lado, quanto amor foi necessário para que, apesar das adversidades, nascêssemos e chegássemos onde chegamos? Se tivemos força para nascer, temos força para tudo na vida;

Há uma ordem. Os pais são maiores que os filhos. Vieram primeiro. Nunca iremos pagar a eles o valor da vida que nos deram. Para fazer valer, façamos valer então as vidas e as ampliemos. Estaremos, desta forma, honrando todos os que vieram antes. Numa empresa familiar, vale o mesmo. Quem chegou e desbravou, merece ser honrado e sempre lembrado;

Todos querem pertencer. Quando excluímos alguém, algo acontece (a Constelação “dá um lugar”, principalmente aos excluídos, esquecidos). Aquele tio desaparecido, a criança abortada, alguém de quem não falamos, eles precisam ser reconhecidos e honrados, segundo Bert. Assim, nos curamos;

Há leis naturais (diria que ancestrais) que regem as relações humanas;

Precisamos equilibrar as trocas. Quando damos mais do que podemos, nos esvaziamos e tiramos a força do outro. Todos somos capazes de dar conta dos nossos destinos. Emprestar dinheiro a alguém e não cobrar, por exemplo, tira a dignidade daquela pessoa. Esta doação pode ser energética, num relacionamento de casal ou outras relações;

 Reconheça o que é, sem lastimar. Muitas vezes não entendemos os nossos destinos ou sentimos pelo destino do outro. É o que é. Há um motivo. Há algo maior regendo isto tudo. Entender isto, acalma.

Como acontece, na prática, uma Constelação?

A prática pode ser individual (utilizando bonecos de Playmobil, por exemplo, que representem determinada família ou situação) ou em grupo. Como um grande teatro, pessoas se voluntariam para vivenciarem a situação do outro e, entregues ao “campo fenomenológico” que se forma, movimentam-se. Cada tema pode demorar minutos ou horas.

Como Bert Hellinger chegou nisso tudo?

Assim como Julia Cameron (autora do livro The Artist Way), Rudolf Steiner (pai da Antroposofia) o Ken Wilber (da Teoria Integral), Bert não teve uma biografia, digamos, tradicional. Costurou, ao longo de uma vida, uma série de vivências e estudos que “aparentemente não combinavam”, do front de guerra a grandes aprendizados como educador em tribos africanas. A base das Constelações vem muito de suas vivências práticas e observações sobre a ancestralidade humana.

O que sei sobre Bert? O seguinte: nasceu em Leimen, Alemanha, em 18 de dezembro de 1925; aos 10 anos, foi seminarista em uma ordem católica não alinhada ao nazismo; aos 17 anos se alistou no exército e combateu com os nazistas no front, sendo preso na Bélgica; aos 20 anos, com o fim da guerra, tornou-se padre. Formou-se em Teologia e Filosofia; foi enviado como missionário católico com os Zulus, na África do Sul, onde atuou, por 16 anos, como diretor de várias escolas; em 1954, obteve o título de Bacharel de Artes da Universidade da África do Sul e, um ano depois, graduou-se em Educação Universitária; no final dos anos 1960, abandonou o clero e voltou à Alemanha, onde passou a estudar Gestalt-terapia; mudou-se para Viena para estudar Psicanálise; ali, conheceu sua primeira esposa, Herta, uma psicoterapeuta; em 1973, mudou-se para a Califórnia para estudar Terapia Primal com Arthur Janov. Lá, se interessou pela Análise Transacional; Hellinger se divorciou de Herta e casou-se com Marie Sophie, com quem mantém cursos, oficinas e seminários em vários países; já escreveu mais de 80 livros, traduzidos para 27 idiomas, dentre eles, Árabe, Mongol e Chinês.

Hoje, o Bert Hellinger está com 91 anos e, junto com a Sophie, tem vindo muito ao Brasil

Lançaram recentemente uma formação em Direito Sistêmico, que busca uma conciliação nos processos judiciais. E estão trabalhando fortemente com a Pedagogia Sistêmica, com frentes no Brasil e México (me lembra muito os conceitos da Antroposofia). Tem construído uma bela biografia e, através dela, mexido na biografia das pessoas. Falo por mim.

Citar Constelação, até bem pouco tempo, era “coisa de bruxa”, assunto estranho e que “não combinava” com assuntos corporativos ou certos grupos. Eu tinha a bagagem, tinha sentido na pele as mexidas das Constelações, mas não falava do assunto em alguns fóruns. Hoje, a conhecida empresa GE usa Constelações em processos de RH. Em maio agora, 2017, o programa Fantástico, TV aberta, fez uma reportagem sobre o assunto. No meio de uma crise enorme de Brasil e mundo, um tema com este em destaque! É, parece que crises trazem, sim, uma cura e uma abertura para a Humanidade.

 

Andréa Fortes é fundadora da Sarau. Este artigo é parte da série de artigos intitulada “Costuras de Vida”, todos disponíveis abaixo:
COMO TUDO SE CONECTA
JULIA CAMERON e o Caminho do Artista
BERT HELLINGER e as Constelações
RUDOLF STEINER e a Antroposofia
KEN WILBER e a Teoria Integral

5707 Total Views 2 Views Today
Veja também:

“Aprendi tanto que seria um crime não compartilhar: eis as quatro teorias que me transformaram”

- 21 de julho de 2017
Andréa Fortes, da Sarau, conta como o "resgate do artista", a Antroposofia, as Constelações Sistêmicas e a Teoria Integral transformaram sua vida - para melhor - nos últimos anos. Para ler e mergulhar.

Costuras de vida, parte 5 – Ken Wilber e a Teoria Integral

- 21 de junho de 2017