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Criador do Smile Flame, Daniel Mattos realiza sonhos impossíveis

- 9 de março de 2016
“Quando tu cria um projeto que força a união entre dois mundos surge algo interessante” (foto: Tedx Unisinos)

 

“Filho, não importa a profissão que você escolher. Qualquer que seja, daqui a dez anos você não vai mais trabalhar com isso.” Foi o que Daniel Mattos ouviu do pai quando passava pela indecisão da escolha do curso superior. A previsão se cumpriu mais cedo do que o esperado. Em 2010, no ano em que concluiu a graduação em publicidade, o jovem porto-alegrense pediu demissão da DCS, a então maior agência publicitária do Rio Grande do Sul.

O motivo da saída: o jeito de pensar de Daniel não batia com o da empresa. “Eu achava muito estranho que a comunicação da marca criasse alguns discursos no mínimo suspeitos.” Para o rapaz, o consumidor deveria ser visto como um parceiro. E ele tentava convencer os colegas: “Eu dizia, ‘cara, tu tá louco! A gente só tem sustentabilidade financeira porque tem uma pessoa do outro lado que está comprando…’ Criava projetos que visavam um retorno para o consumidor, mas eles nunca saiam da gaveta.”

Na canseira de ser o incompreendido da agência, Daniel teve um estalo: os outros funcionários estavam felizes e a empresa ia bem (embora tenha fechado as portas três anos depois). “Quem não estava bem era eu! Eu é que devia sair.”

Fase de experimentações

Hoje, aos 29 anos, Daniel entende a mensagem paterna. Fernando, o pai visionário, trabalhava com consultoria e inovação, e colocou desde cedo na cabeça do filho a sementinha de uma ideia que muitas empresas não tiveram (e que algumas têm dificuldade de aceitar até hoje). “Esqueça o computador. Pense na internet. O computador é apenas um meio, que vai perder o valor; logo, a internet vai estar em todos os eletrodomésticos da casa.”

Naturalmente, vinte anos atrás Daniel achava o discurso um pouco maluco, mas não deixou de ouvi-lo. Herdou os olhos de lince do pai e se jogou na web de todas as formas que pôde: de sorteios de prêmios surpresa no Twitter a crowdfunding de nudez. Esse período serviu como uma espécie de fase de laboratório, em que o jovem começava a investigar os alcances e as possibilidades da internet.

O jeito irrequieto é mesmo de família. Daniel tem dois irmãos igualmente inspirados. Diego, de 33 anos, coleciona graduações em arquitetura, economia e engenharia. Tiago, de 36, como bom irmão mais velho, serviu de modelo para a escolha de Daniel pela publicidade – e, assim como o caçula, fugiu da carreira tradicional. Em 2007, Tiago montou a Perestroika, escola descolada e inovadora de cursos livres presente em Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. As atividades propõem imersões no processo criativo e novas formas de solucionar problemas em tempos digitais.

Participando de cursos na Perestroika, Daniel conseguiu a clareza de que precisava para entender como ir além da publicidade focada principalmente no lucro. As atividades na escola deram embasamento filosófico às suas inquietações e maior lucidez sobre como se posicionar-se na web. “Pude refletir sobre o modo de me relacionar com o novo mundo, este mundo que já está acontecendo.”

“Fábrica de sonhos impossíveis”

O jovem personifica muito bem a fusão entre o que se espera de uma geração que nasceu com a web e de uma juventude “cabeça”, de barba por fazer, que não vira as costas para o problema alheio. Preocupa-se com as questões sociais, mas propõe soluções que fogem do óbvio. Soma à visão aguçada do pai o lado humano, sensível e reflexivo da mãe, Vera, professora aposentada de história e geografia.

Após dois anos fazendo o reconhecimento do terreno virtual, Daniel chegou à síntese de seu projeto. Não só profissional, mas de vida. Em 2013, criou o Smile Flame em parceria com o irmão Diego. A organização elabora e executa projetos “do bem”; nas palavras de Daniel, é uma “fábrica de sonhos impossíveis”. Disponível no site, sua missão – impactar positivamente a sociedade através de projetos divertidos e descontraídos – é traduzida perfeitamente numa iniciativa que começou a dar visibilidade à empreitada, em 2013: um campeonato de skate em um lar de idosos.

Imagine a cena: senhorinhas e senhorzinhos octogenários, que até o dia anterior levavam suas vidas tranquilas e pacatas, se veem de repente na função de jurados encarregados de avaliar manobras radicais – em uma competição realizada na própria casa de repouso. Batizado de Skate no Asilo, o evento, hoje anual, teve a presença de um DJ e de centenas de espectadores em sua terceira edição, no Asilo Padre Cacique, em Porto Alegre, em junho de 2015.

Encurtar a distância entre o universo dos idosos e o dos skatistas é o objetivo da iniciativa – e a ambição de Daniel. “Quando tu cria um projeto que força a união entre dois mundos surge algo interessante, do qual as pessoas vão querer saber mais.” Erguendo placas bem-humoradas, com frases como “Não era um campeonato de bocha?” ou “Chupa Tony Hawk”, os residentes do asilo davam notas para os concorrentes e caíam na farra, interagindo com o público.

O sucesso e o burburinho da mídia espontânea encorajaram Daniel a seguir em frente, abraçando sua vocação de empreendedor social. Seguiram-se outras ações, igualmente extrovertidas: a Corrida Maluca, em que meninos e meninas cadeirantes se fantasiam e ganham adereços e customizações em suas cadeiras de rodas, numa mistura de corrida, concurso de moda e desfile de Carnaval; e a Bota do Mundo, um campeonato de cobranças de pênaltis para crianças com deficiência, que chutam a bola calçando uma bota acoplada à de um adulto. Em uma edição realizada na cidade de Santos, coube a Neymar premiar a galera.

“Processo de empatia”

Os três projetos se consolidaram e agora fazem parte do calendário anual do Smile Flame. Em paralelo, o grupo realiza a cada dois meses rápidas ações pontuais, chamadas de “beta”, que vão de uma geladeira abastecida por colaboração voluntária para consumo de moradores de rua à criação de um “Parque dos Dogssauros”, para chamar atenção para a adoção de cães. No início, o financiamento era por crowdfunding, via plataformas como o Catarse; hoje, as iniciativas contam com patrocínio de diversas empresas (o apoio de pessoas físicas ainda é muito bem-vindo).

O Smile Flame rendeu a Daniel visibilidade e a chance de ser um TEDx speaker. Para alguém que busca “sentido e alguma moral para existir no mundo”, como ele, melhor do que a chancela de “inovador” são as histórias e experiências que coleciona a cada evento. Desde o carinho de Seu Paulino, um senhor que não consegue pronunciar a palavra “hashtag” mas que se divertiu como não acontecia há anos durante o Skate no Asilo, até a emoção de crianças para quem dar um chute a gol é como mover uma montanha.

“Uma mãe me disse, sobre o Bota do Mundo: ‘Vocês criaram um segundo Natal. Essas crianças esperam tanto ou mais por esse dia’. Ao ouvir isso, entrei num processo de empatia emocionante e lembrei de como, pequeno, eu contava os dias para o Natal.”

 

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