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Da pré-escola ao doutorado: robôs ajudam a desenhar a educação do futuro

- 14 de agosto de 2018
Robô em ação na sala de aula da escola Oca dos Curumins, em São Carlos (crédito: Denise Casatti/Assessoria de Comunicação do ICMC)

É impressionante: hoje, parece até que as crianças já nascem sabendo manusear um tablet ou smartphone, tamanha a naturalidade que demonstram no domínio dos aparelhos. Que tal, então, aproveitar essa aptidão para a tecnologia e a curiosidade própria da infância para estimular o aprendizado apresentando, ainda cedo, os pequenos à robótica? Essa é a proposta de um projeto que impacta 20 crianças de 4 a 6 anos de uma creche em São Carlos, a 230 quilômetros da capital paulista.

A iniciativa foi idealizada por Roseli Romero, professora titular do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo e membro do Centro de Robótica da USP, o primeiro do país, que reúne docentes e estudantes do ICMC e da Escola de Engenharia de São Carlos para atuar na formação de alunos e no desenvolvimento de pesquisas.

“As crianças que atendemos ainda não aprenderam a ler, mas conseguimos propor uma nova metodologia de ensino, inserindo o robô na aprendizagem de conceitos tanto da matemática quanto do dia a dia, como lateralidade: esquerda e direita”, diz Roseli. “Aos poucos, introduzimos noções de contagem: quantos sensores tem esse robozinho que a gente montou? Quantas rodas ele possui? E vamos evoluindo para noções de distância e de tempo, desenvolvendo tudo com a inserção dos robôs. As crianças ficam muito empolgadas, é um ‘projetinho’ que tem dado bastante certo!”

A professora conta que a turminha consegue realizar até tarefas como fazer um robô andar num labirinto, dando os comandos por meio de teclas com setas que indicam direções. E a animação repercute mais tarde, em casa. “Recebemos muitos depoimentos dos pais”, conta a professora. “Teve um pai, por exemplo que ficou surpreso com a filha falando sobre as aulas de robótica: ‘Agora que eu aprendi a montar o robozinho, vou querer usar as suas ferramentas, viu papai?’

Os encontros são semanais e duram em média uma hora. A cada uma ou duas semanas, um questionário aplicado junto às crianças ajuda os responsáveis pelo projeto a quantificar e avaliar sua evolução. “Detectamos um aprendizado dos conceitos trabalhados em cada tópico”, diz a professora, que está preparando um artigo com a análise dos resultados.

Há três anos, no escopo do Projeto Pequeno Cidadão da USP de São Carlos (que desde 1997 oferece atividades extracurriculares a crianças de baixa renda), o ICMC vem ministrando aulas de introdução à robótica para alunos do Ensino Fundamental e Médio de duas escolas públicas da cidade. O interesse só fez crescer no período.

“Em 2018, pela primeira vez conseguimos montar uma turma do Pequeno Cidadão para disputar a etapa regional da Olimpíada Brasileira de Robótica, em São Carlos”, diz a professora. E o desempenho superou a expectativa: o grupo ficou em 16º lugar entre uma centena de equipes. “Ficamos muito surpresas! Apesar de não terem se classificado para a etapa estadual, foi um ótimo resultado. Vamos seguir com as aulas no segundo semestre para que no ano que vem eles estejam ainda melhores!”

Roseli prepara atualmente um livro sobre Robótica Educacional para reverberar experiências inovadoras com robôs em colégios pelo país afora; em 2015, outro livro seu, Robótica Móvel (organizado junto com os professores Fernando Osório e Denis Wolf, do ICMC, e Edson Prestes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), conquistou o segundo lugar em sua categoria no Prêmio Jabuti.

Ela pontua benefícios da inserção da robótica em sala de aula, como promover a cooperação, a capacidade de enfrentar desafios e o contato mais intenso com a tecnologia. Para os mais velhos, prestes a escolher uma carreira, esse contato pode  ajudar inclusive na tomada de decisão, aproximando os jovens das áreas de Exatas.

“Hoje, todo aluno tem um celular no bolso, existe muito conteúdo disponível na internet, então há um apelo grande para o surgimento de novas ferramentas de ensino. E a inserção da robótica vai nessa direção. Ela proporciona que o aluno aprenda, de forma lúdica, noções de lógica, programação, hardware, além de uma formação complementar dos conceitos ensinados na escola. Eles ficam tão motivados em usar o robô que a aula não se torna cansativa!”

O entusiasmo com a robótica parece ser unânime entre as crianças e adolescentes – mas não é exclusividade dos jovens. Aos sábados, o ICMC oferece um curso de extensão para docentes do Ensino Médio e Fundamental da rede pública de São Carlos. “Estamos trabalhando para formar professores com competências em diversos kits robóticos. Queremos incentivá-los a inserir a robótica nas escolas.”

Ter um robô-professor para ajudar nas aulas de matemática: esse é o foco de dois doutorandos do ICMC, Daniel Tozadore e Adam Moreira Pinto, que trabalham no tema desde o mestrado. “Estamos desenvolvendo um software de reconhecimento de figuras geométricas e uma metodologia para atuar em exercícios de fixação com uso do robô humanoide NAO”, diz Roseli, orientadora da dupla.

Em 2016, Adam programou o robô (de fabricação francesa) para desafiar 62 alunos de 13 e 14 anos a decifrar enigmas, identificando figuras com base em pistas sobre sua área ou perímetro, por exemplo; dependendo da resposta, certa ou errada, o robô abria os braços e piscava luzes, em sinal de “aprovação”, ou acendia os olhos vermelhos e baixava a cabeça. Os alunos que interagiram com o robô se saíram melhor na solução dos problemas do que os demais (84% contra 60% de acertos).

“Agora, vamos entrar na fase de testes com professores”, diz Roseli. “A ideia é colaborar com o ensino de geometria – não para substituir o professor, mas em complementação às aulas.”

Desmistificar a tecnologia sem abrir mão do elemento humano: eis a chave para tornar a robótica bem-vinda nas salas de aula e preparar as crianças de hoje para o mundo de amanhã.

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