SPONSORS:

De mochileiros a empreendedores sem sair da estrada. Conheça o casal do Vem Comigo Para Índia

- 27 de fevereiro de 2019
Desde 2017, Larissa Filappi e Roberto Cagliari Junior levam pequenos grupos em viagens temáticas pelo país. Acima, no Ganges, em Varanasi.

Quando Larissa Filappi, 28, e Roberto Cagliari Junior, 41, decidiram vender todas as coisas do apartamento onde viviam em São Paulo para fazer um mochilão, não tinham ideia de que essa decisão viraria um negócio no futuro, o Vem Comigo Para Índia, que leva grupos de oito pessoas, no máximo, para mergulhar na cultura local deste país.

Em 2015, começaram a viagem, que passou por Itália, Espanha, Turquia, Myanmar, Nepal, Tailândia, Laos, Vietnã e Índia (tudo registrado em um blog pessoal). Dos 15 meses na estrada, cinco foram passados no país asiático, já que era o destino mais esperado por Larissa.

A terra de Gandhi superou todas as expectativas dela e, no retorno ao Brasil, em outubro de 2016, os dois começaram a pensar na possibilidade de voltar para lá, mas dessa vez levando pequenos grupos junto com eles. Larissa fala a respeito:

“Tínhamos zero pretensão de empreender, só queríamos viajar e pensar sobre o que fazer da vida na volta. Foi aí que o Roberto pensou em oferecer essa experiência para outras pessoas, do nosso jeito”

Ela continua: “Fiquei muito em dúvida, me perguntando se seria capaz de virar uma espécie de guia”. Mesmo na incerteza, os dois, publicitários de formação, ele diretor de arte e ela redatora, começaram a estruturar a ideia por conta própria para evitar qualquer gasto inicial.

ELES SE DEFINEM COMO UMA “NÃO-AGÊNCIA” DE VIAGENS

O primeiro passo foi de muita pesquisa, analisando o serviço de várias agências de viagem, como conta Larissa: “Vasculhamos muito, muito mesmo e percebemos que tudo era similar, vendendo exatamente a mesma coisa com pacotes de luxo, disponíveis em qualquer época do ano. Aquele tour padrão, sem temperinhos”. Depois da análise de mercado, entenderam qual seria o público-alvo do negócio:

“Não queríamos focar nem no mochileiro, que é um perfil que não quer gastar muito, nem nos que preferem ficar em hotel cinco estrelas. A partir daí foi um processo natural”

Assim surgiu o Vem Comigo Para Índia, uma não-agência de viagens, como os próprios fundadores definem. O primeiro roteiro foi divulgado no dia 31 de dezembro de 2016 no Instagram, em parceria com um fotógrafo (um atrativo a mais para tornar a experiência ainda mais personalizada).

Buzinas, tuk tuks, vacas nas ruas: uma imersão na cultural local da Índia que, segundo os fundadores da empresa, promete transformar os viajantes.

Até a primeira viagem, que aconteceu, de fato, em setembro de 2017, foi quase um ano na expectativa, como lembra Larissa: “Não sabíamos se daria certo ou não, afinal estávamos vendendo uma coisa na qual não tínhamos experiência ainda, então foi muito delicado, porque no início a gente precisava ganhar a confiança das pessoas. De janeiro a julho, ficamos fazendo pesquisa de hotéis, organizando tudo aqui de São Paulo”.

E deu certo. Depois do primeiro grupo, o negócio começou a ganhar visibilidade, especialmente depois que Larissa guiou Otávio Albuquerque, na produção da série Coisas Que Nunca Comi, da Tastemade Brasil. Em dez dias de viagem, gravaram 12 episódios na Índia, entre eles o Comida Sagrada no Templo Sikh.

UM TEMPERINHO A MAIS NA VIAGEM, OU COMO FUGIR DOS ROTEIROS PADRÃO

Os roteiros, que variam de dez a 20 dias, sempre tem alguma temática envolvida — aquele “temperinho” a mais que Lari comentou acima sobre ser o diferencial em relação às agências tradicionais. Já aconteceram viagens com foco em fotografia, aventuras nos Himalaias, práticas de yoga e estão programadas para este ano ainda vivências no festival Holi e uma imersão de autoconhecimento com um coaching.

Quando os interessados entram em contato, Larissa e Roberto agendam um Skype para alinhar as expectativas e explicar sobre como funciona a programação: “O roteiro que a gente faz é a base, com alguns pontos turísticos, mas as experiências vão mudando de grupo para grupo”. Ela prossegue:

“O chai, o chá indiano, que algumas famílias locais nos convidam para beber em suas casas, por exemplo, não faz parte do pacote, são coisas que vão acontecendo”

Ela ainda diz que as viagens de trem são uma vivência à parte. “É quando a gente entende a realidade local de verdade. Nada é previsível na Índia.” Os tours, que geralmente ocorrem entre janeiro e março e depois entre setembro e novembro (no meio do ano, quando faz muito calor por lá, eles não fazem roteiros), variam de 1.800 a 2.600 dólares, incluindo hospedagem, deslocamentos domésticos, entradas em atrações, acompanhamento 24h, auxílio pré-viagem, entre outros itens.

O rio Ganges, em Varanasi, não poderia faltar no roteiro do Vem Comigo Para Índia.

Todas as experiências começam por Nova Delhi e Larissa conta o porquê: “É mais fácil chegar por ali pela proximidade com Agra, onde fica o Taj Mahal e também pela região do Rajastão, que representa aquele imaginário indiano dos bigodes, turbantes e elefantes. Aí depois fazemos a região de Varanasi, do rio Ganges, e mais ao norte, que é quase fronteira com o Paquistão, já fizemos trekking nos Himalaias. Para 2020, estamos planejando um roteiro para o sul”. Simultaneamente são sempre dois grupos viajando, já que Lari e Roberto se dividem.

Ela diz que recebe muitas perguntas de mulheres com dúvidas e medos sobre irem sozinhas, mas Larissa desmistifica logo: “Claro que o início foi difícil, mas hoje me sinto super segura. Aprendi a me impor como mulher, a negociar e ter cuidados básicos, mas não tenho nenhum medo em guiar sozinha. Eu e o Roberto achamos importante dividir os grupos, até porque a gente consegue fazer o que cada um prefere. Às vezes, nem nos encontramos e, financeiramente, esse modelo é interessante também”.

DE MOCHILEIROS A EMPREENDEDORES

Sobre a rotina do Vem Comigo Para Índia como um business, a empreendedora conta que ela e o companheiro ainda acham estranho pensar que eles têm uma empresa, já que o processo aconteceu de forma natural. Hoje possuem um MEI e trabalham com um visto de tour leader na Índia.

Lari fala como eles lidam com a questão financeira: “Ainda estamos entendendo como é cuidar da parte financeira do próprio negócio. Sabemos que nosso investimento inicial foi os 99 dólares do preço anual para manter o site, mas não conseguimos dimensionar o todo ainda”.

Ela afirma que, no início colocavam um valor nas viagens e, depois, percebiam que tinha sido mal calculado (leia-se: prejuízo). Mas aos poucos, as coisas foram se ajustando:

“Ano passado, chegamos em um valor que representa nosso trabalho, mas é sempre difícil cobrar. Estamos aprendendo a valorizar todo o processo de pesquisa e o tempo que doamos a isso”

Em 2018, eles  levaram mais de 60 pessoas para descobrir a Índia, o que representou um faturamento líquido de cerca de 66 mil dólares. No momento, Larissa e Roberto não têm endereço fixo. Ficam nos hotéis junto com os viajantes e, entre abril e setembro, que é quando não estão em roteiros, viajam para outros países e planejam os próximos passos. “Nesse período, procuramos um lugar que tenha um bom wi-fi, estudamos mais sobre o país e damos conta da parte burocrática, das planilhas, dos contatos com hotéis e dos próximos roteiros que vamos lançar”, diz ela. Hoje, não terceirizam nenhuma parte do serviço, mas já pensam em chamar alguém para ajudar no marketing de conteúdo e, talvez, buscar outro guia, já que a demanda é cada vez maior.

ELES APRENDERAM A AMAR E RESPEITAR A CULTURA INDIANA

Ruas barulhentas, muita buzina, vacas andando pelas ruas, longas viagens de trem, comidas apimentadas, tuk-tuk para todo lado e vendedores querendo cobrar acima do preço real. Segundo Larissa, a Índia é mesmo um choque de realidade, mas que mudou completamente sua visão de mundo:

“A Índia sempre te traz algum aprendizado e mudou muito minha perspectiva sobre a vida, principalmente sobre lidar com o não-controle”

A empreendedora complementa: “Muita gente taxa como um país pobre, mas quando a gente está lá percebe que não é isso, é outra coisa, porque eles acreditam no karma, então se a pessoa passa fome é porque o karma dela é esse e eles aceitam isso, não encaram como pobreza. A gente passa a olhar os problemas de uma outra forma”.

O Vem Comigo Para Índia inclui em sua programação o Festival Holi, ou Festival das Cores. Acima, a edição de 2018 (foto: Silvio Piesco).

Para ela, a chave de tudo é respeitar uma cultura que é milenar, sem querer comparar com a realidade de outros lugares, mas sim exaltar as qualidades do país.

“As pessoas são muito abertas e curiosas com a gente. O mais legal é a rede de contatos que fizemos, os motoristas de tuk-tuk, os donos de restaurantes familiares, os donos dos hotéis, se conectar com essas famílias é muito gratificante. Sem eles a gente não seria nada”.

Larissa ainda conta que existe uma Índia moderna surgindo, que não aparece nos filmes: “As mudanças acontecem, devagar, mas acontecem. Por exemplo, antes o homossexualismo era crime, agora a lei de descriminalização foi aprovada. Esse já é um grande passo para uma sociedade patriarcal”.

Para o casal, o plano é seguir promovendo viagens transformadoras. Pelo menos até 2020, os roteiros estão finalizados, já que precisam lançar com antecedência para que os interessados se organizem. Para quem tem vontade de conhecer o país, fica a última dica de Larissa: “Essa é uma viagem que abre o olhar para muita coisa. Dá muito orgulho perceber que a nossa ideia deu certo, porque quem vai ganha uma experiência enriquecedora para a vida toda”. Vem Comigo para Índia — o nome do negócio já é o próprio convite!

4694 Total Views 2 Views Today

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Vem Comigo Para a Índia
  • O que faz: Leva pequenos grupos para experiências no país
  • Sócio(s): Larissa Filappi e Roberto Cagliari Junior
  • Funcionários: 2 (apenas os fundadores)
  • Sede: São Paulo / Índia
  • Início das atividades: Dezembro de 2016
  • Investimento inicial: US$ 99
  • Faturamento: US$ 66.000 (em 2018)
  • Contato: [email protected]
Veja também:

“Aprender a desfrutar o tempo e curtir o tão necessário ócio é uma das maiores riquezas que se pode ter”

- 19 de abril de 2019

“O meu problema não era ser uma garota comum — mas continuar fazendo coisas comuns”

- 11 de maio de 2018
Depois de anos se achando uma pessoa comum, Letícia Mello conta como descobriu seu potencial de fazer "coisas extraordinárias", após uma viagem de voluntariado pela Ásia que resultou em um livro e em um documentário.

Viagens com voluntariado: essa é a proposta da Vivalá para se destacar no mercado do turismo de experiência

- 22 de abril de 2016
Equipe do Vivalá e amigos, reunidos numa apresentação sobre a startup.