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“Depois de três fracassos profissionais e um período sabático, minha vida finalmente floresceu”

- 6 de novembro de 2015
Delza com o marido, Elcio, e o filho Lorenzo. Ao fundo, a Harbour Bridge, na Austrália.

Sou dessas acham que as histórias da minha vida dariam um bom enredo de livro, de filme, de mini série, e, principalmente, de uma novela, com seus vários personagens e núcleos diversos.

Enredos não faltariam.

Pode ser a saga de uma família que sai de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais e segue pra capital, no ano de 1975, com seus 12 filhos.

Pode ser o romance: a história de um casal, que se conhece ainda na infância, se casa, e 21 anos depois se tornam os grandes protagonistas das muitas outras histórias que tenho a contar.

Pode ser uma aventura: desse mesmo casal, que depois de viver, por 18 anos, os sabores e dissabores de uma vida sem filhos, se tornam uma prova de que a vida começa para valer depois dos 40.

Pode ser uma história de uma heroína qualquer: que apesar dos tropeços, trapaças, começos e recomeços que a vida foi lhe apresentando, ainda encontra motivos pra ser feliz.

Não por acaso escolhi ser jornalista, ingressando no curso da PUC0-MG em 1989. Estava convencida de que havia feito a escolha certa. Mas lá pela metade do curso, me dei conta da dificuldade de arrumar estágios ou trabalho, já que na faculdade em que estudava, o curso só era oferecido no período da manhã. E daí fui me dando conta de que a vida não se resumia em escola pela manhã e boteco à tarde (e justo eu que nem bebia nessa época!). Decidi que era hora de ir à luta e à labuta. Fui então “forçada” a mudar de turno e de curso, me formando em Relações Públicas em 1993.

Nessa mesma época, engatei um romance com Elcio, o meu atual marido. E nisso já se vão 21 anos. Um paulista (era assim que as pessoas o chamavam na época), com origens mineiras, sobrinho de uma tia “torta”. Em janeiro de 1994, de mala, cuia e diploma na mão, desembarquei em São Paulo pra viver esse amor e entender, definitivamente, que a melhor escola é a da vida.

Em 1996, cansada da vida agitada, de pegar metrô todos os dias, do frio (que nessa época ainda fazia), da garoa, da falta da família e dos amigos, voltamos pra minha Beagá. De 1996 a 2001, seguimos carreiras paralelas, passando por grandes empresas, trilhando caminhos nas áreas comerciais e marketing.

Em 2001, meu marido foi convidado a prestar consultoria de gestão comercial à uma pequena indústria de cosméticos da minha cidade natal. Sua tarefa era implantar uma metodologia de gestão junto aos distribuidores da marca e sua missão era convencer um jovem universitário, herdeiro dessa indústria, a largar o violão e a bola e fazer com que ele pudesse se interessar pelos negócios da família.

Missão dada, missão cumprida! O jovem aprendiz, em pouco tempo assumiu a função de diretor comercial, abraçando de vez os negócios da família. Mal sabíamos que um dia, anos depois, o “pupilo” do meu marido na empresa viria a ser o nosso algoz.

A parceria, que durou 12 anos, foi um divisor de águas em nossas vidas e ao longo desse tempo contabilizamos sucesso, conquistas pessoais, crescimento financeiro. Afinal, sem falsa modéstia, sabíamos o caminho das pedras e onde queríamos chegar. Em encontros anuais, promovidos pela indústria, fomos por diversas vezes premiados e reconhecidos por isso, recebendo prêmios das mesmas mãos de quem um dia nos tiraria tudo isso…

Tudo ia bem em nossas vidas profissionais e, para tornar esse momento ainda mais especial, em 2012, de forma inesperada, engravidei! Contrariando até mesmo as nossas próprias expectativas e, principalmente, todos os prognósticos médicos tidos até então. Emoção e comoção pra todos os lados. Em outubro de 2012, nosso filho, Lorenzo, nasceu.

Pela primeira vez em tantos anos, me afastei da empresa, por uma causa nobre e momento sublime. Mas o trabalho não se afastou de mim, e entre uma troca de fralda e uma mamada, lá estava eu, cuidando do contas a pagar e receber. Foi quando comecei a perceber que havia muito mais contas a pagar do que receber na empresa. Uma luz amarela acendeu.

Há anos vínhamos questionando a diretoria a respeito de algumas decisões e práticas mercadológicas por eles implantadas e das quais fazíamos algumas ressalvas. Meu marido, na sua posição de ex-consultor, apresentava a eles números e projeções que demonstravam perdas significativas do nosso mercado, decorrentes dessa política.

Tudo isso somado, ainda, ao cenário econômico que começava a se projetar, fez com que a empresa entrasse cada vez mais fundo no poço. Passou a acumular dívidas e fazer empréstimos bancários para cobrir perdas, começou a negociar as compras, dando sinais de que precisava de socorro. Mostramos nossa situação de forma limpa e transparente, na esperança de sermos compreendidos.

Mas, aos poucos, fomos entendo que para nos mantermos de pé, outros teriam que, supostamente, perder. E é, justamente, aí que você percebe que mudar o status quo de uma situação pode dar tanto trabalho que é melhor deixar como está — e que os incomodados devem se retirar. Ou serem retirados, como foi o nosso caso.

E assim, fomos nos tornando personas non gratas, tornando nos indesejáveis. E no auge da inconveniência e da falta de compostura, chamados de “laranja podre”. Como foi dolorido pro meu marido ouvir daquele, que um dia fora um garoto, que não o queria mais como distribuidor.

Em 5 de dezembro de 2013, recebemos o tiro de misericórdia. Nos informaram através de uma notificação extrajudicial, que estávamos sendo destituídos do posto que ocupamos durante 12 anos

Fomos “demitidos”, por justa causa, sem direito a qualquer tipo de indenização. Nesse dia, que ficará em nossa memória: coube-nos, ainda, a difícil tarefa de comunicar ao nosso grupo de mais de 20 funcionários (alguns com quase o mesmo tempo da empresa), que chegávamos ao fim. Mal conseguíamos encará-los e, antes de terminarmos o discurso, eles já estavam com os olhos mareados e com expressões de espanto e medo.

Foi o pior final de ano das nossas vidas. E, justo eu, que gosto tanto de Natal, de enfeites e luzes, nesse ano, decorei a casa só pelo meu filho, mas estava torcendo para tudo acabar logo, para que as luzes da árvore fossem desligadas e que pudéssemos chorar no escuro.

Finalmente veio o mês de janeiro e o ano de 2014. Assim, como muitos, também acredito que o badalar da meia noite, traz uma energia que julgamos ser renovadora.

Reabrimos uma nova empresa. Mas nesse momento só nos restava vontade, dignidade e a compreensão de pessoas dispostas a nos ajudar, pois sequer tínhamos nome pra isso. Readmitimos alguns colaboradores, mas perdemos peças preciosas também. E começamos tudo de novo, com a autoconfiança necessária para provar a todos que podíamos continuar sendo o que éramos, ainda que não fôssemos mais os mesmos. Era fato e, como dizem, por aí, todo processo de autoconhecimento começa com uma perda.

Nove meses depois desse recomeço, após inúmeras tentativas de reconstruir o que nos restou, decidimos por um fim em tudo novamente. Dessa seria definitivo, pois já acumulávamos dívidas de, agora, duas empresas. Vendemos os bens que restaram de ambas, nos desfizemos de bens pessoais para quitar os débitos, entregar o imóvel e encerrar tudo.

Nessa época, meu irmão, que reside no interior de SP, queria empreender na área de cosméticos, expandindo os negócios da família. A proposta era justa e digna: ele investia na estrutura e estoque e nós levaríamos, além das marca de cosméticos, nossa expertise. A princípio, resisti à mudança. Mas fui vencida pelos argumentos de que era uma terra de oportunidades, que teríamos uma vida mais tranquila para recomeçar e, de quebra, a tão sonhada qualidade de vida.

Argumentos aceitos, comecei a me desapegar da casa (como eu amava minha cobertura em BH!), de coisas (fiz bazares, doei) e principalmente de pessoas. Foi dolorido, mas hoje entendo que isso me serviu como um estágio pro que veio a acontecer depois.

Chegamos à pequena Mirassol, próxima à São José do Rio Preto e distante 450 km de São Paulo, em outubro de 2014, véspera do aniversário de 2 anos do pequeno, que nesse ano ganhou festinha na casa dos avós em São Paulo.

Aos poucos, fui vendo as vantagens que me falaram. Morávamos numa ampla casa térrea, tínhamos quintal e pegávamos nosso filho às 17 h e em quinze minutos já estamos em casa, algo inimaginável há um tempo atrás.

Entendi que casas são feitas de concreto e que cabe a nós dar-lhes vida com objetos, cores e luzes. Entendi que os amigos sempre estarão por perto, basta chamá-los

Descobri que é possível ser feliz em qualquer lugar. Tudo estava indo bem: tínhamos de novo um lar, um trabalho para nos sustentar, uma chance de recomeçar. Uma estória que tinha tudo para também finalizar em “happyend”… Mas tudo deu errado de novo. A sociedade não deu certo. Declinamos do projeto. A empresa ficara com eles, assim como as marcas que iniciamos a sociedade. Saímos com menos do que quando entramos.

E aí, o que fazer? Estávamos em janeiro de 2015 e mais uma vez, era hora de renovarmos as esperanças de um ano que começava…

Pensamos em colocar, de novo, nossa vida em cima de um caminhão de mudanças e voltar pra BH. Me arrepiava só de pensar nas caixas, em guardar tudo de novo. Decidimos ficar. Afinal, em alguma coisa todos estavam certos: ali conseguíamos ao menos enxergar algumas oportunidades. Bastava saber observá-las.

Fizemos isso e nos permitirmos, depois de 15 anos, cultivar um certo ócio. Decidimos que não teríamos mais pressa de agir, como fizemos todas as vezes e demos errado. Aqui, longe de tudo e de todos, tínhamos tempo para pensar.

Pensar exige silêncio, serenidade, um respirar mais profundo e depois esvaziar, pondo para fora o ar que pode até nos sufocar

Nessa busca de autoconhecimento e de entendimento de propósitos, fomos procurar respostas que pudessem resignificar nossa vida profissional. Como dizem por aí: Out of the Box. Saímos da caixa que, supostamente, nos sentíamos protegidos e partimos para pesquisas e rapidamente para o campo de ação.

Nesse momento, já havíamos decidido o que NÃO queríamos SER ou FAZER pelo resto de nossas vidas, e isso já é um começo. Encerrávamos um ciclo profissional e de vida. Comecei a mergulhar em sites e conteúdo de negócios, de gestão e de empreendedorismo. E uma palavra nos regia e nos movia para um novo projeto: COLABORAÇÃO.

Conheci pessoas, estórias e projetos incríveis nesses últimos tempos. Participei de grupos, de encontros e tive a chance e o privilégio de ver pessoas se movimentando e buscando saídas para um mundo melhor. Conheci jovens que já adotaram a palavra como estilo de vida. E muita gente madura, com carreiras estáveis, abandonarem tudo em busca de um “tal propósito”.

Novas palavras e termos começaram a fazer parte do meu vocabulário e mergulhei de vez nesse “blue ocean” que se apresentava à minha frente. Pimba! Era isso o que queríamos pra nós: empreender e fazer o bem. Começamos a pensar num projeto, demos nome, forma e conteúdo. Buscamos referências de pessoas que pudéssemos nos ajudar a criar um canvas colaborativo. Conhecemos e agregamos pessoas que foram se interessando pelo projeto. Estávamos empolgados e felizes como nunca.

Mas, eis que antes que algo não desse certo, de novo, paramos com tudo e escrevi um post em minha timeline que explica bem o momento que passávamos: “No mundo judaico antigo, um de cada sete anos era destinado por lei ao repouso compulsório. A terra não podia ser cultivada, as dívidas se extinguiam, os escravos conquistavam a liberdade. Não era permitido, sequer, colher os frutos das árvores. Terminado o período, conhecido como ano sabático, inicia- se um novo ciclo de vida”.

Fazendo uma breve analogia à nossa vida: Nossa “terra” foi cultivada e rendeu bons frutos por dois ciclos de 7 anos (exatamente o tempo que nos dedicamos a ela e dela vivemos), mas a “natureza” cobra os males que sofre e era hora de pararmos tudo e deixá-la descansar, até que possa voltar a dar frutos.

Confesso que sempre achei que esse lance de ano sabático era coisa de executivo estressado que decide dar um tempo na carreira, sabendo que ao voltar seu cargo continuará lá à sua espera e que seus ganhos e bônus lhes garantiriam uma aventura pelos caminhos do mundo.

Só quando entendi e aceitei que um sabático pode ser um momento para quem quer se descobrir é que tudo passou a fazer sentido

Um sabático pode ser um período de contemplação, de não fazer nada. Pode ser de trabalho árduo. Pode ser de estudo e de novos aprendizados. Pode ser um período de introspecção ou de expansão. Uma pausa antes de uma nova etapa, e que não se trata de deixar a terra inculta ou improdutiva.

A meta é cultivar o espírito, para que algo novo floresça em você.

E isso pode durar o tempo que se fizer necessário: um mês, um ano, ou mais, a depender das resposta à suas angústias ao se sentir esmagado por uma rotina que não faz mais sentido, de ser prisioneiro de decisões tomadas num passado que já não é possível se identificar mais. É se libertar para viver novas experiências. E tanto faz que se faça isso sem sair do lugar ou em qualquer parte do mundo, pois trata se de uma viagem ao seu interior.

Muita água rolou embaixo da ponte, e nesse momento, as águas continuam rolando, mais precisamente embaixo da Darling Harbour.

Faz 40 dias que chegamos em Sydney. Viemos com o projeto de estudar e trabalhar, ganhando a vida como fazem muitos aqui, para nos manter nesses meses de visto.

Porque a Austrália? Por motivos óbvios e já conhecidos por muitos, e outros não tão óbvios assim: o clima semelhante ao Brasil (o que contesto desde já, pois em pleno setembro a temperatura não passava dos 15ºC), país friendly com imigrantes, oportunidades de trabalho e de novos negócios?

Trouxemos na bagagem um novo projeto, pois após pesquisarmos o mercado de beleza australiano, identificamos um grande potencial e interesse sobre os produtos fabricados no Brasil, principalmente, os que tem proposta de sustentabilidade e respeito ao meio ambiente.

Abrimos uma empresa, algo que é bem simples e bem menos burocrático por aqui, e começamos a trabalhar. Nosso propósito é representar empresas e marcas que estão em sintonia com esse mercado e desejem expandir seus negócios nesse continente. Nosso papel é negociar e oferecer oportunidades à investidores e importadores que desejam fazer negócios com o Brasil.

Mas as coisas aqui acontecem num tempo diferente (parece não ser à toa que estamos 13 horas à frente do Brasil) e logo percebemos que todos têm pressa em realizar seus projetos. Nada fica para “amanhã” ou “passa daqui uns dias”.

E assim, fomos conhecendo pessoas importantes que foram nos ajudando a abrir novos caminhos. Uma delas com um papel importante na Câmara de Comércio Brazil Austrália e sócia numa empresa, da qual, inclusive fomos clientes: a Quantum Expats, que faz dentre tantas coisas um trabalho pras famílias que aqui chegam como nós: que precisam de coisas práticas, como o primeiro aluguel, até uma recolocação profissional. Mas, no nosso caso, queríamos orientações pra abrir nossa empresa e iniciar o negócio. A outra sócia cuida também da parte de orientações de visto e planos de estudo.

Certos de que estávamos em boas mãos, abrimos nossa vida, nossos planos e, principalmente, nossas esperanças a um recomeço de vida — longe de tudo que nos tirou o sono e sossego nos últimos meses

Boas energias se atraem e, rapidamente, fomos nos conhecendo e percebendo que essa relação já vinha extrapolando aquilo à que se propôs no início. E assim surge uma nova idéia, um novo projeto, construído e sustentado por quatro pilares, quatro pessoas que se encontraram do outro lado do mundo (elas já residentes há mais tempo) e nós que acabávamos de chegar, mas que tinham propósitos parecidos.

A Tenda é um projeto de empreendedorismo que pretende ajudar e auxiliar pessoas em seus projetos, que assim como nós, atravessaram o oceano em busca de uma nova vida e de novas oportunidades.

E o que era para ser um projeto para brasileiros, vem ganhando notariedade e atraindo a atenção de outros “hermanos” que decidiram se juntar a nós e formar uma grande rede de empreendedorismo latino americana, com o apoio de entidades ligadas a esses países.

E assim, uma semente plantada no Brasil, começa a germinar aqui, do outro lado do planeta.

Agora acho que posso, finalmente, colocar um ponto final à minha história e ter a honra e orgulho de vê-la publicada no Draft. Se bem, que, pensando melhor, em se tratando da minha vida, prefiro reticências à ponto final…

 

Delza Alessandra de Carvalho, 44, é a 11º filha de um casal de um comerciante e uma dona de casa. Formada em Relações Públicas, é administradora de empresas e sócia da Tenda.

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