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Do queijo minas para o tofu, ou como transformar um negócio familiar centenário: a história da UAI Tofu

- 7 de janeiro de 2019
Laércio cresceu vendo a família tirar o sustento da produção de leite e queijos, mas acabou se tornando vegano e mudou o rumo do negócio junto com a sócia e esposa Hanna e o investidor Elder.

Por mais de um século, os laticínios sustentaram três gerações da família Almeida, em Santa Bárbara do Monte Verde, no interior de Minas Gerais. Com uma centena de vacas, seu Adão, que aprendeu a tirar leite e fabricar queijos ainda criança, criou seus seis filhos. O negócio se mantinha com alguns clientes fiéis e provavelmente continuaria sendo uma pequena empresa local e familiar por mais algumas décadas se não fosse por uma ironia: um dos filhos de seu Adão, 66, Laércio, 33, resolveu se tornar vegano (deixou de consumir qualquer item com ingredientes de origem animal) e ir contra o tradicional ofício da família, ou melhor, provocar a pivotagem do negócio.

Hoje, os Almeida aposentaram as vacas, abandonaram a produção de leites e queijos, arrendaram as terras e se dedicam à fabricação de tofu (queijo feito à base de soja), ainda em Minas, mas agora em Juiz de Fora. Com mais de 300 pontos de revenda espalhados pelo país, a UAI Tofu, que começou a operar no formato atual em 2012, no ano passado faturou 500 mil reais — e as projeções de crescimento são grandes. “A gente tem crescido pelo menos 10% a cada mês. São raros os dias em que não fecho um cliente novo, inclusive, aos domingos. No último mês, produzimos 1,5 tonelada de tofu”, conta Laércio.

O segredo da receita que faz tanto sucesso está na fusão de duas culturas tradicionais: a oriental de fazer tofu, e a mineira de fazer queijo minas. Laércio conta: “Lembro quando me tornei vegano e provei tofu pela primeira vez. Foi uma frustração”. E continua:

“Se quisesse mostrar que as pessoas não precisavam consumir queijo, precisaria criar algo que fosse tão saboroso e proteico quanto”

Laércio foi, então, trabalhar em restaurantes taiwaneses e aprendeu a preparar o tofu. Depois, ele decidiu desenvolver uma fórmula que misturava o processo de fabricação dos dois produtos, o queijo tradicional e o feito de soja. Os primeiros testes foram feitos há mais ou menos dez anos, no improviso mesmo, com um botijão de gás, uma panela, um liquidificador e um fogareiro emprestados pela sua sogra na época. Como quase todo começo, os primeiros clientes foram familiares, amigos e conhecidos.

Nesse começo, Laércio ainda trabalhava como técnico de informática. A produção de tofu era algo para depois do expediente e não era raro ele entrar a madrugada na cozinha. O empreendedor lembra:

“Eu trabalhava o dia todo e à noite fazia tofu. A vida de quem está começando um negócio é sempre difícil”

“É nessa hora que você vê quem é seu amigo de verdade, porque você perde sua vida social, primeiro, porque não dá tempo de fazer mais nada e, depois, porque todo o dinheiro que entrava, eu investia de volta na empresa”, prossegue. Foi somente há dois anos que Laércio finalmente conseguiu largar o trabalho antigo e passou a se dedicar 100% à UAI Tofu.

EM BUSCA DE UM MAQUINÁRIO PRÓPRIO PARA SEUS PRODUTOS

A empresa tem hoje três produtos: o frescal (que se assemelha muito ao queijo minas e custa de 40 a 90 reais o quilo), o tofu defumado em peça (que lembra muito um queijo provolone ou até mesmo bacon, dependendo da forma de preparo, sai por 50 a 100 reais o quilo e é o queridinho dos clientes, representando 80% das vendas) e o tofu defumado fatiado. Seu custo é de 70 a 120 reais o quilo.

A UAI Tofu possui três variações do produto. O frescal, na foto acima, custa entre 40 e 90 reais o quilo.

Toda a produção é feita pela família. O que começou em um quartinho improvisado, com o investimento de 10 mil reais, foi se profissionalizando aos poucos e, hoje, eles têm uma pequena planta industrial. “Quando papai fazia queijo, ele usava utensílios muito simples, coisa da roça mesmo. Com o tempo, conseguimos investir e melhorar a estrutura”, diz.

Para vender para o Brasil inteiro, eles precisaram se profissionalizar. “No começo, a gente fazia o leite de soja manualmente e conseguíamos produzir 20 litros em uma hora. Hoje temos um maquinário capaz de fazer 300 litros nesse mesmo tempo.” O negócio conta com duas máquinas e os empreendedores já pensam em comprar uma terceira. A equipe também deve crescer em breve. Além dos três sócios, a UAI Tofu conta com três funcionários na produção e mais dois parceiros trabalhando na logística. “Estamos contratando um quarto funcionário em regime temporário e, se tudo der certo, ele fica com a gente em 2019.”

Apesar de cuidar de toda a parte de vendas e relacionamento com clientes, Laércio ainda é muito envolvido na produção. Todos os dias, ele acorda antes da cinco horas da manhã e chega na pequena fábrica antes mesmo dos outros funcionários. À tarde, ele participa de reuniões e de telefonemas com novos clientes. Já pela noite, ainda encontra tempo para responder as mensagens que chegam pelas redes sociais. Ele afirma: “A gente nem dá conta de buscar clientes ativamente. Conseguimos atender quem nos procura.”

Para 2019, Laércio tem planos de triplicar a operação da UAI Tofu, tanto no que diz respeito a número de clientes como equipe e capacidade de produção. No entanto, para alcançar essa meta, eles precisam superar um desafio importante: a automatização.

“Como nossa forma de fazer tofu mistura parte do processo tradicional do queijo minas com a receita oriental do tofu, não existe um maquinário capaz de automatizar a produção”

A empresa ainda precisa fazer uma parte manualmente, o que torna o processo limitador. “Precisamos encontrar alguém que produza essas máquinas especialmente para nós”, fala Laércio. Outro plano para os próximos anos é tornar a UAI tofu autossuficiente nos insumos. Hoje, a soja usada por eles já é orgânica e certificada, mas o empreendedor conta que, até 2025, eles querem ter o próprio plantio.

COMO ELE SE DESCOBRIU VEGANO E ATIVISTA

Crescido na roça, Laércio conta que passou a infância em um ambiente que hoje considera muito predatório. Ele lembra de ver as pessoas derrubando árvores com motosserra e também da relação com os animais como se fossem objetos. “Além das vacas, minha família criava porcos e acontecia de nascerem, às vezes, mais de dez filhotes e a mãe não conseguir amamentar todos. Aí a gente criava dentro de casa esse porquinho e logo ele adquiria comportamentos como se fosse um cachorrinho. No fim esse, era o único que não era vendido, mas eventualmente ele acabava na panela de qualquer maneira.”

O tofu defumado, com sabor parecido com o queijo provolone ou até mesmo bacon, é o carro chefe e representa 80% das vendas da empresa.

Foi na adolescência, quando se mudou para Lima Duarte, uma cidade mineira um pouco maior, que Laércio começou a estudar ética e filosofia e a se questionar sobre comer certos animais. “Me lembro exatamente do dia em que me deu esse estalo. Eu tinha uma namorada que estava estudando psicologia e, por isso, tinha aulas de anatomia. Um dia, ela disse que não iria mais comer carne porque estava associando a comida ao tecido muscular que via nas aulas.”

O empreendedor quis provar que a namorada estava “louca” e que tinha que comer carne sim, senão iria ficar doente. Decidiu, então, pesquisar  sobre o assunto. “Só que tudo o que encontrei me mostrou o contrário”, diz. Impactado com documentários que revelavam como os animais eram criados na indústria, ele quis convencer o pai de que precisavam mudar: “A primeira vez que fui conversar com meu pai sobre veganismo, deixei ele quase louco. Queria que minha família assistisse aos vídeos que eu tinha visto porque tinha certeza que eles mudariam de ideia”.

No entanto, ninguém levava o empreendedor muito a sério: “Achavam que era uma fase, um modismo e que ia passar.” Não foi o que aconteceu. Laércio se envolveu cada vez mais com o ativismo, dando palestras e até mesmo aulas de gastronomia vegana. Quanto mais conhecia sobre o veganismo, mais exemplos de empreendedores do ramo ele ia descobrindo.

“Tentava mostrar para papai casos de gente que estava se dando bem com produtos de origem vegetal e que era possível ter sucesso sem explorar os animais”

Levou um tempo, mas seu Adão se convenceu e, hoje, admite que a vida está mais tranquila fazendo leite de soja do que tirando leite de vaca, como é possível ver nessa conversa inspiradora entre ele e o filho no canal da UAI Tofu no YouTube.

QUANDO O DINHEIRO É CONSEQUÊNCIA DOS IDEAIS DO NEGÓCIO

Atualmente, Laércio divide a sociedade da UAI Tofu com a esposa, Hanna Benites, 29, e um sócio investidor, Elder de Paula, 36, que entrou no negócio há pouco mais de um ano e meio, financiando a compra da máquina para fazer o leite de soja. Mas até chegarem nessa configuração, foram muitas tentativas, frustrações e amizades perdidas.

Até que a família decidisse aposentar de vez as vacas, foram-se oito anos. Nesse meio tempo, Laércio teve vários sócios e muitos aprendizados. “Tentei sociedade com diversas pessoas, gente que eu achava que podia ajudar, mas que, no fim, não entendia meu jeito de querer fazer negócio, de querer ajudar as pessoas, de me envolver. Ouvi de muita gente que eu não chegaria a lugar nenhum querendo ajudar os outros, mas não estou nisso pelo dinheiro.” Ele fala mais a respeito:

“Para mim, a UAI Tofu é uma ferramenta para materializar um sonho, é a manifestação da mudança que queremos ver no mundo, o dinheiro é uma consequência”

Desde o tratamento dos colaboradores até o cliente final, valores como abundância, senso de justiça e generosidade, acompanham a cadeia da empresa, como conta Laércio. Prova disso é que a UAI Tofu doa parte da produção para santuários que cuidam de animais abandonados. “As pessoas que gerenciam esses locais passam por extrema dificuldade e ter um bom alimento à mesa já ajuda a pensar melhor nas soluções”, afirma.

Em 2018, no Dia Mundial do Veganismo, em 1º de novembro, a UAI Tofu sorteou um ano de tofu grátis para quem fizesse uma doação acima de 5 reais para o Santuário das Fadas, que resgata e oferece abrigo a animais que foram vítimas de abandono, negligência ou abuso.

Mas Laércio não se sente satisfeito e ainda acha que pode fazer mais. Quando perguntado sobre os aprendizados ou algo que se arrepende nessa trajetória, ele não cita os negócios que não foram fechados, nem os sócios que não deram certo. O que lamenta é não ter conseguido se esforçar mais. Mesmo trabalhando mais de 12 horas por dia, o empreendedor diz que gostaria de conseguir participar mais de eventos, palestras ou oportunidades em que pudesse levar não apenas seus produtos, mas a mensagem de que é possível viver bem sem causar danos aos animais. A começar pela família, ele está indo bem nessa missão. Dos seis filhos do seu Adão, dois já são veganos e dois vegetarianos. E assim, o negócio e a família seguem cada vez mais conectados com os mesmos propósitos.

DRAFT CARD

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  • Projeto: UAI Tofu
  • O que faz: Fabrica tofu
  • Sócio(s): Laércio Vinícius de Almeida, Hanna Stefanni Nunes Benites e Elder José Marcelino de Paula
  • Funcionários: 6
  • Sede: Juiz de Fora
  • Início das atividades: 2012
  • Investimento inicial: R$ 10.000
  • Faturamento: R$ 500.000
  • Contato: uaitofu@gmail.com
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