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“É fascinante como, mesmo na adversidade, o brasileiro ainda mostra a sua alegria e jogo de cintura”

- 21 de junho de 2018

 

por Bertrand Cocallemen

Desde pequeno, recebi muito amor. Sempre fui grudado na minha mãe e guardo uma doce lembrança do meu avô – ele falava no ouvido de cada neto que era ele o seu preferido, destacando o que cada um tinha de especial. Isso me deu um empurrão para acreditar que eu era realmente especial e me tornou uma pessoa confiante (às vezes até demais). Também me trouxe essa energia vital de seguir sempre em frente. Todas as vezes que me machuquei ou corri perigo de vida (e foram várias), sempre recorri imediatamente a pensamentos positivos. Principalmente na adversidade, sempre fui otimista. E enxergo isso também no brasileiro.

É fascinante como, mesmo na adversidade, o brasileiro ainda mostra a sua alegria e jogo de cintura

Cheguei ao Brasil, vindo da França, em 1989. Ainda era criança e minhas primeiras recordações são: cheiro de terra vermelha e etanol, calor úmido, estranhos falando comigo e, principalmente, me tocando. Sentia meu espaço constantemente invadido. Depois de alguns meses você se acostuma. Hoje, sou eu quem toca as pessoas no estrangeiro. Tudo era novo, fascinante, uma sensação de que tudo era possível. Além disso, o Brasil é superlativo, mesmo a chuva molha mais que a do meu país. Fui me apaixonando por esta terra. A natureza sempre me fascinou e aqui é incontestável: ela é exuberante. Basta pegar o carro e se deparar com a Mata Atlântica para a ficha cair.

Vivi os anos da hiperinflação, quando era preciso carimbar as notas, de tão rápido que a moeda se desvalorizava. Só havia quatro marcas de carro nas ruas. Parecia um país do leste europeu, isolado. E era. Não me dava conta porque era pirralho, mas o Brasil tinha saído de um regime militar há pouco tempo. Aos 13 anos, me revoltei com uma vizinha que não quis que a funcionária que trabalhava na minha casa subisse pelo elevador social comigo. Fiquei chocado.

O racismo está em todo lugar por aqui, em uma toada passiva-agressiva. Existe, mas não é assumido. Pouco a pouco, as coisas estão mudando, mas ainda bem devagar

Voltei para a Europa para estudar e a decisão de morar, de novo, no Brasil aconteceu na fila do check-in do aeroporto Charles de Gaulle (em Paris). Estava indo passar férias no país e aquela musiquinha do português do Brasil falada entre os passageiros me dizia, bem lá no fundo, que eu estava voltando para casa. Três anos depois, ao concluir a faculdade, consegui levar a cabo o projeto de morar aqui. Muita gente me ajudou. Além de meu pai, pessoas como Sonia e Fabrice Antonio, Renata e Francisco, Pati e Rafael Monteiro de Castro. Foram, cada um a sua maneira, minha família. Devo muito a eles.

Fui educado “à la française” e, por mais que meus pais tenham feito isso sem “mimimi”, franceses são existencialistas. Estamos o tempo todo sofrendo por algo, reivindicando algo, querendo algo.

Parece clichê, mas não é. O francês reclama mesmo, bufa e briga quando vê algo que considera injusto. Já o brasileiro evita o conflito, se deixa levar pelo ritmo da bossa nova e releva

Nós brasileiros demonstramos carinho com estranhos, abraçamos, festejamos, mesmo quando não temos tanta intimidade assim. Levamos a vida com mais leveza. Sobre trabalho, de todas as agências onde trabalhei, a primeira foi a que mais impacto teve na minha vida. A ponto de eu permanecer por lá durante seis anos, um recorde pessoal! A F/Nazca é para mim a “Meca” da publicidade brasileira. Fiz muitos amigos e tive o privilégio de trabalhar com muitos talentos que estão por aí brilhando. Nunca falei isso para o Fabio Fernandes: ele foi e ainda é uma das pessoas que mais admiro e isso vai além do talento criativo. Fabio é uma pessoa livre. Ele pratica a sinceridade radical, uma qualidade tão rara quanto valiosa.

No retrospecto dos 24 anos em que morei aqui, acho que o Brasil me ajudou a colocar um pouco de água no vinho. Uma expressão tipicamente francesa para dizer que me tornei menos radical. Acredito que a gente carrega a síndrome dos “primos pobres da publicidade”, mas a verdade é que a gente é foda. Não apenas na contagem de leões, nosso mercado é único.

Uma característica peculiar foi a proibição da atuação no país dos bureau de mídia, unindo nas agências as áreas de criação e mídia debaixo do mesmo teto. Isso nos trouxe um grande diferencial, pois permitiu o surgimento de gerações de publicitários com uma visão mais ampla, capazes de integrar disciplinas derrubando os silos. Uma abordagem cada vez mais essencial em todo o mundo.

Agora, apesar de toda esta jornada vivida aqui, chegou a hora de eu encarar outra fila de check-in — novamente, com uma passagem só de ida. O destino agora é Nova York mas, desta vez, não estou sozinho: levo comigo as três mulheres da minha vida. E não estou nem um pouco deslumbrado com esta mudança.

Com o passar dos anos, entendi que felicidade não é uma questão de geolocalização

Além disso, encaro como mais uma aventura. Sei o quanto sair da zona de conforto estimula e ensina. Sempre gostei de aprender na prática. Como os gringos falam, “walking the talk“, e é bem por aí. Minhas novas responsabilidades vão me levar a conciliar as duas coisas que mais me estimulam na vida: trabalhar com clientes em briefings desafiadores e fomentar soluções que combinem criatividade e tecnologia.

Vou sentir saudades. Saudades de torcer e carregar o Brasil dentro de mim. Ainda que a minha brasilidade seja adotiva, vou me esforçar para representar da melhor maneira possível tudo aquilo que nos torna tão valiosos, Brasil afora.

 

Bertrand Cocallemen, 42, é diretor global de criação do Teads Studio. Especialista em publicidade digital e design thinker, está envolvido com marcas como ABI, Nike, Samsung, FCA, Unilever e P&G. Francês nascido em Madagascar, viveu no Brasil por mais de 20 anos.

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