SPONSORS:

Economia colaborativa é legal, mas não é o único caminho: como a Carioteca virou Decah para evoluir

- 20 de dezembro de 2018
Marcos e Vinicius na EBAC, em São Paulo, em uma cocriação com atletas amadores sobre transformação social e novos formatos e conteúdos para o Globo Esporte SP.

Há cinco anos nascia a Carioteca, uma empresa que nasceu para facilitar processos de cocriação se valendo de diversas metodologias e da inteligência coletiva para gerar soluções de acordo com a demanda de cada cliente — seja um novo produto, serviço, planejamento estratégico ou plataforma de conteúdo. Ela, por sua vez, é cria de um ecossistema de empreendedores que floresceu próximo da região portuária do Rio de Janeiro, a GOMA, sobre a qual falamos no Draft lá em 2014. O tempo passou e é hora de ver como parte dessa rede evoluiu e se desdobrou.

A história da GOMA saiu no Draft em 2014. Clique na imagem para ler.

Hoje, os dois sócios da agora chamada Decah, (remanescentes dos quatro originais), Vinicius de Paula Machado, 37, e Marcos Salles, 31, entendem que estão finalizando um “arco de aprendizagem” que começou justamente com a co-fundação da GOMA, um ícone da economia colaborativa e das relações em rede.

Eles, que fizeram parte das primeiras gestões, como membros da diretoria, continuam ocupando uma mesa em um dos casarões históricos do coworking, e fazendo parte dos entusiastas da rede e sua expansão.

“A GOMA é a matéria-prima original, nosso DNA que orgulhosamente levamos a todo lugar que vamos. Apostamos na cocriação profunda e no caos que se fez presente para fazer emergir aquilo de mais potente e autêntico que cada um de nós ofertou e oferta ao sistema”, diz Vinicius.

Durante a transição empresarial, ocorrida no fim do ano passado, primeiro eles revisitaram todos os projetos executados pela Carioteca nos últimos anos: ao todo, mais de 150 implementados em startups, multinacionais, instituições do terceiro setor e órgãos públicos. A partir daí, contam, passaram a investir tempo e recursos no que fazia mais sentido como proposta de valor e no aprimoramento das soluções para o mercado. Em termos de faturamento, desde a reestruturação, não houve perdas: em 2017 computaram 337 mil reais e fecharam este ano com 380 mil reais. “Estamos realizando menos projetos em números absolutos, mas em compensação são mais estruturantes, duradouros e rentáveis”, afirma Marcos.

O portfólio de produtos da Decah, que acaba de receber sua recertificação do Sistema B, está estruturado em três verticais: Negócios, que engloba inovação em serviços, produtos e modelos de negócios; Cultura de Inovação, vertente na qual atuam como facilitadores de experiências que valorizam a inteligência coletiva e a diversidade nas relações de trabalho e, por último; Alinhamento de Causas e Coerência Institucional, que dá suporte à investigação do propósito de empresas e faz o alinhamento de suas causas. Nesta última “caixinha”, para exemplificar o tipo de entrega, eles citam a moderação de diálogo que foi feita com jovens e a equipe da série televisiva Malhação Vidas Brasileiras, da Rede Globo, sobre temas sociais relevantes para serem tratados nas narrativas da trama deste ano.

A moderação de diálogo entre jovens e a equipe do programa Malhação Vidas Brasileiras, da Globo, realizado na Decah este ano, é um tipo de entrega da empresa.

Além dos projetos próprios, os sócios contam que as parcerias com outras empresas representam uma parte expressiva do trabalho. Um exemplo disso é o projeto realizado junto à Rastro para a Incorporadora Brookfield, atual Tegra. “Fizemos a consultoria para o desenvolvimento de uma nova unidade de negócio, como estratégia de captação de novos nichos de mercado e posicionamento de marca”, conta Vinicius.

Uma preocupação deles é que as práticas de cocriação sejam de fato legítimas, por isso, uma das missões da Decah é ajudar as empresas a não propagar o que eles chamam de “we washing”, que é adotar um discurso colaborativo para projetar uma imagem mais atrativa e descolada de suas instituições e produtos, sem que ajam ações reais nesse sentido. “Muitas empresas continuam mantendo de forma incoerente as mesmas formas centralizadas, rígidas e com baixa transparência, na forma de se fazer negócio e manifestar suas culturas organizacionais”, observa Marcos.

NÃO HÁ UM CAMINHO ÚNICO PARA A COMPLEXIDADE DO MUNDO

Uma das lições aprendidas durante a trajetória dos empreendedores, eles refletem, é a de que não existe uma resposta única e padronizada para a complexidade do mundo, muito menos para os desafios de negócios e as relações humanas. “Levamos sempre conosco uma frase do (psicoterapeuta Carl) Jung que diz assim: conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”, fala Vinicius.

Como modelo de negócio, eles adotaram o “hibridismo metodológico”, ou seja, a cada desafio proposto por um novo cliente é feita uma curadoria de métodos, ferramentas e abordagens, que leva em conta todos os envolvidos. “Por isso, não vendemos apenas ‘design sprint’ ou qualquer outra metodologia da moda”, diz Marcos.

Vinicius conta que, ao olhar um pouco para trás, uma das certezas ingênuas que ele tinha, lá em 2014, era a de que a economia colaborativa seria uma solução-chave no sentido de impactar mais realidades e democratizar as possibilidades de se gerar valor.

“Com o tempo, percebi que a economia colaborativa não é o único caminho, por isso nossos estudos concentraram em desafios de colaboração em larga escala, novos formatos de organizações co-proprietárias e modelos de gestão mais horizontais e participativos”

Outro aprendizado, fruto das experimentações e muita mão na massa, é o de que todo processo de cocriação é alimentado pela vulnerabilidade e pelo caos — e isso não é ruim. Nosso segmento não precisa de solidez para se manifestar, pelo contrário. Quanto mais instável e desafiador for o contexto, mais somos necessários e atrativos. O caos acaba sendo nossa matéria prima”, diz Vinicius.

Co-criação tem a ver com colocar muita gente para participar efetivamente da elaboração de algo novo, uma arte delicada e caótica, na qual Vinicius e Marcos se especializaram.

Em tom de brincadeira, os sócios da Decah dizem que todo facilitador de processos, liderança criativa ou inovador social deve ser e atuar como um software livre com obsolescência programada. Mas afinal, o que isso quer dizer? Eles explicam que o objetivo é que, com o tempo, a função do facilitador externo não seja mais necessária e seja absorvida por todos os envolvidos no processo de cocriação. 

É por esse mesmo motivo que eles valorizam (e praticam) o compartilhamento de ferramentas, metodologias e processos, para que clientes e parceiros possam absorver o máximo de cada experiência e tenham condições de replicar e internalizar o que fizer sentido.

Torcemos para que cada empresa e profissional que trabalha com cocriação, cultura de inovação e novos modelos de governança possa ter muito sucesso naquilo que faz e que seja ousado em suas provocações”, fala Vinicius.

O FUTURO É TECNOLÓGICO E ACONTECE EM REDE

Entre as apostas para o futuro próximo da Decah está o desenvolvimento e aplicação de soluções em blockchain. Para isso, estão se aproximando de iniciativas como DAOStack e BitNation. O tema também está sendo estudado por Marcos em sua dissertação de mestrado pela FGV, mais especificamente ele está debruçado sobre a aplicação de blockchain para registros de imóveis e terras.

Outra agenda prioritária de 2019, dizem, é a ampliação de parcerias e da rede de profissionais que possam atuar em projetos conjuntos. Alguns deles já estão em andamento, como a parceria com Paulo Loiola, empreendedor ligado à RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), para formação de lideranças de base periférica, ou ainda com Murilo Sabino, do programa RUAS, com quem estão trabalhando na construção de novas experiências educacionais e abordagens em formato de consultoria. Da experiência com a co-fundação da GOMA, os sócios da Decah e Danilo Filgueiras do Estúdio Guanabara, de arquitetura e urbanismo, estão juntos para formatar e oferecer metodologias e soluções para codesign de espaços colaborativos.

Sobre o futuro como donos de um negócio, Vinícius e Marcos acreditam que o espírito empreendedor de rebeldia, criatividade e vontade de fazer são características que eles sempre levarão consigo, independentemente dos caminhos que possam se abrir. “É difícil prever por quanto mais tempo estaremos liderando nossos próprios negócios, mas é uma certeza que onde quer que estejamos estaremos sempre carregando esse mindset conosco”, diz Vinícius que, por fim, dá um conselho precioso a quem está começando nessa estrada. “Lembre-se que autocuidado e auto-responsabilização são a chave para uma carreira saudável e coerente. Nenhum CNPJ vale um AVC”.

Veja também:

“Quando decidi empreender, eu só sabia o que não queria mais. Hoje sei que essa já é uma grande decisão”

- 23 de novembro de 2018

Como, em menos de dois anos, o Instituto Procomum viu seus projetos de transformação social ganharem peso

- 22 de novembro de 2018

Sempre sonhou em ter um sítio? Não precisa mais: na Sta. Julieta Bio é possível ser “sócio” da produção

- 19 de novembro de 2018
Rafael Coimbra fala como largou uma agência de publicidade para produzir cestas de alimentos livres de agrotóxicos em um sistema colaborativo e com compradores conscientes do propósito do negócio.

A Bhava Biocosméticos Livres precisou romper as barreiras de uma ecovila para crescer

- 4 de outubro de 2018