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Eduardo Mufarej: não existe atalho para renovar o país

- 31 de julho de 2018
Eduardo Mufarrej: "Não estamos investindo na formação de lideranças públicas. Isso nos levou a ser governados por pessoas com as quais não nos sentimos conectados" (foto: Maurício Nahas).

O paulistano Eduardo Silveira Mufarej, 41 anos, descobriu aos 25 a vocação para gerir seu próprio negócio – impulsionada pela frustração de ver, no banco em que trabalhava, oportunidades perdidas por causa de decisões mal tomadas.

Sócio do fundo Tarpon Investimentos, Mufarej é o idealizador do RenovaBR, movimento criado em 2017 para estimular o surgimento de lideranças políticas, selecionando e capacitando pessoas comprometidas com o futuro do país. O grupo conta com um investimento robusto, de empresários como Jorge Paulo Lemann, Nizan Guanaes, Abílio Diniz e Armínio Fraga

Ao ser fotografado, ao som de “Snake Song”, de Isobel Campbell e Mark Lanegan, pelo fotógrafo Maurício Nahas para a campanha de lançamento da nova loja da Oficina (marca do Grupo Reserva), o empreendedor da convergência, do “juntos vamos mais longe”, conversou com Phydia de Athayde, editora-chefe do Projeto Draft. Confira a entrevista:

Por que você acha que está nessa campanha?
Imagino que seja por fazer parte de um projeto de empreendedorismo cívico, de alto impacto – uma instituição de formação e de desenvolvimento de novas lideranças políticas para o Brasil.

O Brasil tem medo de se renovar?
Não acho. O Brasil tem, hoje, a ambição de se renovar, mas não sabe muito bem o caminho. E vivemos um momento curioso. Nunca antes a sociedade brasileira desejou tanto a renovação de quadros e práticas; ao mesmo tempo, estamos tentando encontrar os caminhos para um desembarque tranquilo, sem grandes sobressaltos. Hoje, o desejo está embarcado, mas precisamos iluminar os caminhos.

O que um empresário que investe em educação, como você, pode ensinar à prática política do país?
Existe uma questão quase consagrada: não podemos nos omitir da formação das futuras gerações. E o Brasil tem sido omisso ao não investir, principalmente, nas crianças, nos jovens. Nosso ensino público tem uma qualidade muito aquém da desejada e isso nos distancia do desejo de país que todos temos.

Na política, não é diferente. Não estamos investindo na formação de lideranças públicas, e acho que, de certa forma, isso nos levou a ser governados por pessoas com as quais não nos sentimos conectados. Precisamos olhar com carinho para jovens lideranças e ajudar para que consigam desenvolver seu repertório – para que gente honesta e competente possa ocupar espaço dentro da política.

A impressão é que perdemos a capacidade de conversar. Qual seria o caminho para unir um país que se dividiu e desaprendeu a lidar com as diferenças?

As pessoas convergem muito mais do que divergem. O problema é que, no exercício da sua opinião e da voracidade do debate, muitas vezes elas se apegam aos pontos que criam diferença. Eu vejo gente que concorda em 80% e fica debatendo sobre os 20% de que discorda. Por que não pegamos esses 20% e fazemos com que, em cima dessa divergência, a gente possa evoluir e avançar? Por meio do diálogo, podemos perceber que há muito mais pontos que nos unir do que a nos separar.

Na sua trajetória, qual foi o “limão” que você transformou em “limonada”?
Uma experiência difícil e importante que vivi foi dar aula no cursinho Anglo. Pude ver a realidade de diferentes alunos, com desejos, ambições e vontades completamente distintos – e tentei encontrar onde eles, de fato, tinham visões concordantes. Acho que isso acabou criando um sentimento de que dá para pensarmos em pontos de conexão, um futuro de mais alinhamento. Isso ficou claro, numa sala de 150 alunos  – em que muitos se diziam, do ponto de vista ideológico, de pólos diferentes –, debatendo pontos de vista mais próximos. Transformar esse cenário adverso em um momento de trabalho em equipe foi muito gratificante.

O que é, para você, ser empreendedor no Brasil?
É encontrar oportunidades e lacunas em determinado ecossistema e atacá-las. Me considero um resolvedor de problemas, e uso essa minha capacidade de realizar para resolvê-los. De certa forma, tudo o que fiz até hoje teve conexão com isso. Não tem empreendedor que não se conecte com realização. Me conecto muito com o fazer e pouco com o falar. Muita gente espera o momento da perfeição, mas gosto de uma frase que diz: “o feito é melhor do que o perfeito”. As ideias não constroem. E isso tem a ver com o Brasil, um lugar de infinitas oportunidades de empreender, já que temos tanto por fazer.

Quando você teve o estalo de começar a empreender?
Eu tinha uns 25 anos, tinha feito a carreira em serviços financeiros. Vinha de um momento profissionalmente frustrante, trabalhava num banco que estava reduzindo o tamanho da operação e eu via oportunidades que não estávamos capturando por conta de decisões mal tomadas. Cheguei à conclusão de que, para ser senhor da minha vida, eu precisaria me conectar com pessoas que estavam num momento de vida parecido ou entrar numa jornada profissional mais solitária. E foi aí que veio a decisão de empreender – que, obviamente, tem o lado que todos gostam de contar, mas também muitos momentos difíceis que deveriam estar registrados, porque são neles que a gente qualifica o processo de aprendizagem.

Pode listar três livros que te inspiraram nesse processo?
The Hard Thing About The Hard Things, do Ben Horowitz; Leading Change, de John P. Kotter, excepcional para qualquer empreendedor, e 10% Mais Feliz (Dan Harris), sobre como você pode ganhar mais consciência nas ações do dia a dia.

E outras frase bacanas?
Além de “O feito é melhor do que o perfeito”, gosto de “Podemos ir mais rápido sozinhos, mas, juntos, vamos mais longe”, porque, dentro das nossas escolhas, seja na vida afetiva ou profissional, é importante escolhermos bem nossos parceiros de jornada para, dentro dessa alquimia, termos um caminho de mais sucesso, virtude e prazer. A jornada é muito mais relevante do que atingir o sucesso.

O que o país perderia sem o seu empreendimento?
O país perderia a possibilidade de optar por pessoas incríveis, jovens talentos que futuramente serão lideranças cívicas e políticas. Essas pessoas dependem muito do apoio e do carinho que estamos colocando na relação com elas, e na relação delas conosco. O país ganha demais com a possibilidade de contar com essas pessoas servindo com seus propósitos e projetos.

O que você faria diferente se pudesse voltar atrás?
Depois de viver experiências múltiplas, tem uma questão de simetria de informação, ou seja, de que forma posso usar a informação que eu tenho hoje para me apoiar se estivesse fazendo a mesma coisa. Quando virei presidente de uma companhia com mais de 5 mil funcionários, tinha uma ignorância completa em relação ao tamanho do desafio – e do que eu precisava, do ponto de vista de organização e cabeça, para enfrentá-lo da melhor forma. O que mais me ajudaria hoje a encarar desafios seria o preparo mental. Às vezes a gente entra numa reunião, logo vai para outra e não reflete sobre o porquê de participar daquele encontro, quais são os objetivos. É muito importante não ficar só no fluxo e ter momentos de parada e reflexão.

Como você se vê daqui a dez anos?
O que eu gostaria é que as ações em que estou trabalhando hoje, que levam tempo para maturar, tenham amadurecido. Não tem atalho, mas espero que esse processo deixe um legado cada vez mais sólido para as futuras gerações. Se eu puder olhar para trás e saber que plantei árvores que talvez eu nem veja, mas que estão em terreno fértil, bem plantadas e constituídas, isso vai me dar paz de espírito. É minha missão.

 

Esta é uma das entrevistas que fazem parte da campanha da Oficina. Conheça a marca e leia o bate-papo com os outros empreendedores

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