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“Ei, não se preocupe: tudo vai dar errado e sairá diferente daquilo que você planejou”

- 2 de março de 2018
Felipe Bond revisita sua trajetória e compartilha as desilusões e aprendizados que o levaram a se encontrar como ator, diretor, roteirista e produtor de cinema e TV.
Felipe Bond revisita sua trajetória e compartilha as desilusões e aprendizados que o levaram a se encontrar como ator, diretor, roteirista e produtor de cinema e TV.

 

por Felipe Bond

Hoje acordei e fiz uma retrospectiva de todas as minhas escolhas artísticas e profissionais até este presente momento. Para escrever este artigo, redobrei a atenção, tentando me apegar aos mínimos detalhes para não deixar passar nada de fundamental desta história.

As primeiras lembranças me levaram, com imagens e sentidos, até aos meus 3 anos. Eu estava correndo na sala da casa para segurar uma porta, prestes a bater com a força de uma rajada de vento. Enfiei o braço no espaço vazio com entusiasmo e sensação de invencibilidade típicas de uma criança desta idade, acreditando que conseguiria impedir a batida da porta sem me machucar. Que ilusão!

A lembrança imediatamente me fez olhar para o meu braço direito, esfregando-o como se o incidente tivesse acabado de acontecer e pensei: “Foi este braço ou o esquerdo?” Me espantei com o fato de não saber e entendi que, por mais detalhista que fosse em relatar minhas memórias e escolhas, elas nunca seriam 100% recheadas de certezas!

Sendo assim, ouso contar aqui um pouco sobre como se deu o meu percurso de acertos e erros nos caminhos da vida, de aspirante a advogado, ator, diretor, roteirista e produtor. Quando olho para trás e vejo os percursos que passei, tenho a plena convicção que faria tudo novamente, de algumas maneiras diferentes, mas escolheria as mesmas coisas.

Sou natural de Curitiba, Paraná, nascido e criado lá. Sempre tive como sonho cursar a faculdade de Medicina. Um sonho que só depois de muitos anos fui entender que era muito mais do meu pai do que meu. Ainda lá, cursei a faculdade de Direito por motivos que até hoje não sei explicar. Não sei se era por que não queria fazer mais um cursinho de pré-vestibular ou por insistência da família, que o considerava um curso bom.

Em determinado momento, dentro do grupo do movimento estudantil do qual eu fazia parte, me deparei com um livro dado pelo professor da cadeira de Processo Penal, O Processo de Franz Kafka. O livro me instigou e não sei como nem quem do grupo que descobriu que havia uma trupe de teatro encenando uma peça baseada nele. Voilà, fomos atrás do grupo e levamos eles para uma única apresentação, com debate, dentro do campus da faculdade.

A partir daí, a história começa a se embaralhar ainda mais. Após testemunhar a encenação de Kafka, dei ouvidos a um comentário de minha irmã, de que eu deveria fazer um curso de Teatro/TV anunciado na rádio, além de engatar uma conversa com o meu pai, onde ele disse que não me via feliz na faculdade de Direito, me fazendo perceber que eu realmente não sabia o que estava fazendo com a minha vida.

Era isso: eu não sabia o que estava fazendo da vida. Nesse momento, disse para mim mesmo: preciso fazer algo que eu realmente ame, que me inspire!

E foi ali que tive certeza que o Teatro seria parte disso. Tentei criar estratégias. Me matriculei em diversos cursos na cidade. Quando isso não foi o bastante, me aconselhei com meu pai e com um grande amigo, que me impulsionaram a tentar a carreira em outro estado.

Optei pelo Rio de Janeiro, pois na cabeça de um jovem inebriado pela descoberta de sua vocação, sem conhecer nenhum outro estado no Brasil, acreditei que, se fosse viver de atuação, a sobrevivência seria mais fácil no Rio, já que nela está a maior emissora de TV do país.

Depois de meio ano matutando, transferi minha faculdade de Direito para o “Erre Jota”. Ali, em paralelo, fiz todos os cursos de teatro que podia e conseguia: Tablado, Laura Alvim, CAL, entre outros. Também passei por diversas agências de modelos que se encarregavam de me indicar a testes de publicidades e, por vezes, séries de TV ou teledramaturgias. Passei por vários agentes e bati na porta de muitos outros. Fui entendendo que as coisas não seriam tão simples como pensava.

 Me aborreci, fui enganado, fui invejado, passado para trás e acreditei em muitas, muitas histórias mal intencionadas

Percebi que o mercado e uma parte considerável das pessoas que trabalham nele são muito mais cruéis do que imaginava minha vã inocência de garoto romântico.

Me frustrei e, por vezes, pensei em desistir, mas a força de querer sobreviver disto e o apoio da minha família me impulsionavam e me levavam a me reinventar.

Tive diversos tipos de empregos para conseguir me sustentar como ator em início de carreira. Entre outros, fui animador de festa infantil, garçom em eventos e vendedor em lojas de roupas. Depois disso, a publicidade começou a aparecer como uma saída para ganhar uma grana mais polpuda que pudesse me manter por alguns meses entre um trabalho e outro. Mas, até isso vingar, demorou um belo tempo.

Quando a conta estava no azul, meu tempo conseguia ser direcionado ao estudo, ensaios e a mais testes. Mas nem sempre era assim. Sentindo na pele todas as questões e dificuldades que envolviam o caminho do ser ator, me uni a um grupo de amigos atores e começamos a reivindicar uma união da classe e melhoria no tratamento dos atores nos testes de publicidades e filmagens no Rio de Janeiro.

Na época não conseguimos, mas recentemente um grupo de outros atores conseguiu realizar uma forte mobilização e mudar alguns itens que eram vistos como básicos em outros Estados, mas que no Rio eram ignorados. Me senti útil e um dos percursores deste debate para a mudança.

A publicidade, desde então, vem me dando muitas alegrias. Fiz e faço muitos trabalhos que me dão a possibilidade de exercer meu ofício de ator — além de serem extremamente necessárias para o orçamento cotidiano.

Com tantas prioridades, não tive como não trancar a faculdade de Direito e entrar para uma faculdade de Artes Dramáticas. Lá, aprendi as melhores coisas da minha vida, como ser um ser humano mais potente e atento, me entender como artista — além de fazer amigos irmãos. Durante quatro anos, os aprendizados foram muitos. Ao entregar minha pesquisa e apresentação de TCC, recebi uma nota com louvor, deixei a academia contratado em um espetáculo dirigido pelo mesmo diretor que montou nosso espetáculo de formatura.

Um mundo maravilhoso pela frente aos olhos daquele rapaz que recém tinha se formado, não é mesmo? Com meses de ensaios e pesquisas, apresentamos o processo do nosso trabalho, como um rascunho de várias obras do autor que estudávamos para montar um de seus espetáculos posteriormente. Fizemos algumas apresentações num teatro em Copacabana e depois de alguns meses voltamos a ensaiar.

O ensaio era repleto de exercícios circenses. Me dediquei o máximo que podia, pois queria crescer como artista e aquela era uma grande oportunidade. Tínhamos patrocínio, uma excelente casa de teatro para as apresentações, ensaios remunerados e a possibilidade de apresentação fora do país. No meio do processo, começaram os rumores de que seria preciso diminuir o número de integrantes por conta dos custos e, junto a isso, uma lesão na coluna, ajudaram a me colocar de fora da peça.

Um desespero bateu em mim e, como um viajante sem rumo, sentei na calçada e chorei, literalmente

Decepcionado, mas ao mesmo tempo entendendo que tinha que ocupar minha mente e produzir, optei em fazer um curso de Cinema.

A ideia surgiu de dois fatores muito simples: em primeiro lugar, eu iria ter conhecimento e técnica para começar a produzir meus próprios conteúdos audiovisuais, onde o meu “eu ator” poderia exercer seu trabalho sem precisar depender de ninguém! É: eu mesmo me contrataria. Em segundo, uniria o útil ao agradável, por já ser um cinéfilo de carteirinha. Todo conhecimento técnico e histórico só me acrescentariam mais como artista e, de quebra, assistiria a muitos filmes!

Na Escola de Cinema, encontrei amigos remanescentes da faculdade de Teatro. É sempre um plus de conforto entrar em uma nova jornada com rostos familiares em volta. Eu e meus amigos do teatro, agora sendo pesquisadores e curiosos estudantes de cinema, montamos um grupo com novos amigos do curso e começamos a produzir conteúdo. Era um filme atrás do outro. Curtas e mais curtas. Estávamos empolgados com a história de fazer cinema.

Participamos de editais e festivais, ganhamos alguns e outros ficaram pelo caminho. Com tanta empolgação, acabamos nos dividindo e cada um foi trilhando seu próprio caminho no mercado de trabalho. Me formei na escola de cinema, com a plena convicção que a escolha não poderia ter sido a mais acertada. Estava realizado e me sentindo de fato um realizador de cinema.

No meu filme de conclusão do curso, tive o imenso prazer de me deparar com a figura que até então não sabia que seria, além de um grande amigo , um grande parceiro de realização de trabalhos e sócio, o roteirista Henrique Amud.

Fizemos um curta metragem com direção minha e roteiro dele — e desde então seguimos juntos. Enquanto eu fazia meus trabalhos, participações, cursos e publicidades como ator, juntos elaborávamos e desenvolvíamos ideias de outros conteúdos audiovisuais. Fomos convidados a participar de um coletivo de artistas, depois de uma agência em São Paulo criando estes conteúdos, pensando em curtas, séries, videoclipes, comerciais, era uma demanda grande e vasta de criação. Demos aula para atores iniciantes, criamos espetáculos teatrais e participamos juntos de processos bem dolorosos para nos virar financeiramente.

Num destes caminhos, fiz um curta metragem que foi laureado em um festival e um dos prêmios foi um período de trabalho numa tradicional produtora de cinema no Rio de Janeiro. Ali, subi um degrau que acredito ser de extrema necessidade para o diretor cinematográfico: fazer a assistência de direção. Fiz assistência em uma série dentro desta produtora e, na sequência, peguei mais alguns trabalhos, até entrar como assistente de direção em uma grande emissora de canal aberto.

Para entrar lá, tive que abrir uma empresa, pois os contratos eram com pessoas jurídicas. Depois de um período em que tive um imenso prazer em aprender como se faz TV, com profissionais gabaritados e de muitos anos de TV, saí de lá repleto de histórias e folclores televisivos, uns jogados ao vento e desmascarados, outros só mais enaltecidos. Foi um belo período. Além disso, saí com o CNPJ na mão e com mais vontade de produzir.

Nesse caminho, eu e Henrique entendemos que, para contar as nossas histórias e produzir da maneira que queríamos, teríamos que arregaçar as mangas e acumular funções. Só dependeria de nós

Mesmo sem muito dinheiro, mas com a parte burocrática resolvida, eu e ele tiramos a empresa do papel e começamos a dar vida à Bond’s Filmes, agregando amigos que acreditavam nos nossos projetos e produzindo conteúdos para nós mesmos, vendendo-os para empresas canais e parceiros.

De lá para cá, nesses poucos mas intensos anos, fizemos juntos séries para canais fechados, clipes musicais, publicidades de marcas, filmes com grandes parceiros e temos ainda muitos projetos pela frente e em execução.

Recentemente, estreamos o longa metragem documental Como Você Me Vê, que ficou um mês em cartaz em circuito comercias de salas de cinema, tempo ótimo para um filme independente. Participamos de alguns festivais e fomos laureados com melhor roteiro e melhor filme.

No momento em que escrevo este artigo, estou terminando de arrumar minhas malas para representar o filme em um festival em Lisboa, Portugal, além de ir para ficar um tempo por lá e pela Europa filmando com parceiros e amigos.

Se eu, Felipe, ator, diretor, roteirista e produtor pudesse dar um conselho a mim mesmo no início de tudo isso, diria assim:

“Ei, não se preocupe, tudo vai dar errado e será diferente do que você planejou, até porque é assim que as coisas são na vida real. O acerto é precedido do erro.  Os caminhos se constroem a cada passo. Então, tente não se preocupar tanto, mas faça o que tiver de ser feito no momento, com muita paixão, porque só assim a estrada trilhada fica mais tranquila e os obstáculos ficam mais fáceis de serem ultrapassados e redimensionados”

Em resumo, a vida não é um mar de rosas e ser artista e empreendedor no Brasil, tampouco. Ao longos dos anos, fui descobrindo que temos pouquíssimo incentivo e apoio para nossa sobrevivência e feituras de nossas obras. Ou seja, cabe a nós e aos que simpatizam com nossas causas nos unirmos para buscar um futuro com melhores oportunidades, esclarecimentos, diversão e entretenimento a todos.

Hoje, se tenho a oportunidade de — através do meu oficio — fazer obras que tragam à tona discussão, reflexão ou diversão, me sinto um privilegiado e só tenho a agradecer a todos que cruzaram o meu destino e os que ainda irão cruzar, pois juntos fizemos e faremos algo não só para nós, mas para os outros também!

 

 

Felipe Bond, 36, é ator, diretor, roteirista e produtor de cinema e TV. Em 2014, fundou a produtora Bond’s Filmes. Dirigiu do longametragem documental Como Você Me Vê, lançado em janeiro deste ano. 

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