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Ele tentou inovar na imobiliária do avô, não conseguiu. Então abriu a Livima: digital e sem cobrar comissão

- 23 de outubro de 2018
Quando viu que não conseguiria romper com o modelo tradicional da empresa familiar, Felipe Bogoricin foi atrás de um novo conceito e fundou a startup.

Desde sua criação, em fevereiro do ano passado, a Livima, que já saiu aqui em Acelerados, buscava facilitar a compra e venda de imóveis no Rio de Janeiro. Fazia, digamos, um “arroz com feijão” bem feito, usando a internet para facilitar as transações imobiliárias. Recebia as porcentagens clássicas de 5% sobre os imóveis vendidos e 100% sobre o valor do primeiro aluguel.

Não estava indo mal, segundo o fundador Felipe Bogoricin, 28, mas era hora de inovar. Este ano, o negócio mudou de rumo e, inspirada por exemplos internacionais, a startup aboliu a comissão, sendo, segundo o fundador, a primeira do Brasil a adotar essa prática. Os clientes pagam uma taxa única de 594 reais, caso queiram vender um imóvel, e de 199 reais para alugar.

A trajetória de Felipe é, no mínimo, irônica. Formado em Economia e Políticas Sociais pela Boston University, nos Estados Unidos, ele resolveu fazer uma pós-graduação em Belas Artes, especializando-se em pintura a óleo e escultura de metal e madeira.

Trabalhou em um museu de Boston e em uma galeria, montou o próprio ateliê, mas, em 2014, teve o visto de trabalho vetado. “Voltei ao Brasil, tentei achar alguma coisa para fazer com arte no Rio de Janeiro, apliquei projetos para a Lei Rouanet, mas não fui aceito”, conta. A alternativa mais prática foi trabalhar na empresa da família: a imobiliária Julio Bogoricin, que pertence ao avô.

A PRIMEIRA EXPERIÊNCIA NA ÁREA IMOBILIÁRIA DESAPONTOU

“Comecei trabalhando na área de seguros da empresa e tivemos um crescimento astronômico em três meses. Depois, me envolvi com locação, lidando direto com empreiteiras, e passei a tentar trazer renovação.” Ele prossegue: “Eu falava: ‘Vamos fazer atendimento via Whatsapp? Criar uma página no Facebook?’, isso só pra citar o básico, mas a galera não entendia meu projeto”, conta o empreendedor.

Essa pegada de transformação tecnológica não era com eles. “Foi uma das melhores experiências da minha vida, porque aprendi muito, mas entendi que não tinha um motivo para ficar ali”. Ele fala:

“O mercado imobiliário tinha muito dinheiro, mas muita ineficiência também”

Para “curar um pouco dessa ineficiência”, ele investiu 200 mil reais e montou a primeira versão do que seria a Livima. “Oferecíamos atendimento personalizado, automação de e-mail, inbound. Era uma imobiliária tradicional, mas com as coisas bem feitas.” Porém, algumas experiências ruins (a exemplo de um corretor que começou a trabalhar para a concorrência sem avisar) fizeram Felipe achar que estava “entrando em uma furada de novo”.

ANTES DE DESISTIR, ELE ACHOU INSPIRAÇÃO PARA MUDAR

A sensação coincidiu com uma ideia nova que um amigo viu em Londres: uma imobiliária, a Purple Bricks, cujo modelo de negócio era baseado em não cobrar comissão. Já que o empreendedor era motivado por inspiração e inovação tecnológica, foi fácil reconhecer que era hora de mudar. “Comecei a ver as referências de imobiliárias estrangeiras, como a própria britânica Purple Bricks e a espanhola Housfy, e percebi que fazia sentido para mim. Foi assim que a gente deu uma pivotada geral”, afirma.

Ao lado do COO Carlos Fernando (à direita) e do CTO Roberto Cunha (à esquerda), Felipe toca a startup Livima, uma imobiliária sem comissionamento.

Com o apoio de colaboradores que se engajaram na mudança — Carlos Fernando, 39, COO, e Roberto Cunha, 28, CTO, — além da equipe de programação que conseguiu repaginar todo o sistema, Felipe consolidou, enfim, o plano de negócio, após levantar 100 mil reais com investidores.

A startup passou a fazer uma ponte entre proprietários de imóveis e seus possíveis compradores ou inquilinos, com as taxas fixas já mencionadas (594 reais no caso de venda e 199 no caso de locação). A divulgação é feita nos principais sites do ramo (Zap, Viva Real, OLX, Mercado Livre, Storia Imoveis, ImovelWeb, Facebook e Google), que não são vistos como concorrentes, mas parceiros. Mas quanto tempo leva para fechar todo esse processo? “O prazo mais rápido foi dois dias”, conta Felipe sobre um cliente que conseguiu vender o imóvel através da startup. Ele ainda cita um exemplo para o melhor entendimento de seu sistema:

“No caso da venda de um imóvel que vale 1 milhão de reais, geralmente, a comissão é de 50 mil em imobiliárias tradicionais. Com a Livima, a pessoa só gasta os 594 reais do pacote”

A startup também oferece outros serviços adicionais às taxas, como fotos profissionais dos imóveis, que acabam sendo adquirido por 70% dos assinantes. A visão artística de Felipe dá o tom ao layout “clean” do site e das fotos que valorizam os produtos. “A gente também tem parcerias com corretoras de seguros que fazem seguro-fiança e título de capitalização e, para venda, oferecemos um checklist de todos os documentos necessários.”

CRESCIMENTO ACELERADO, MAS CAUTELA NOS PRÓXIMOS PASSOS

O resultado até aqui? Crescimento de 33% a 50% por mês no total de assinantes, com mais de 40 assinaturas no site no momento (quase metade delas, com êxito nas transações) e faturamento médio mensal de 30 mil reais. A maior parte desse desempenho se deve à famosa “divulgação no boca a boca.

Acima, o app da Livima mostra o que o cliente consegue economizar sem as taxas de comissionamento.

De acordo com Felipe, após conseguirem comprar, vender ou alugar imóveis pela plataforma, os clientes indicam o serviço para mais dois ou três amigos. E se para uma empresa tradicional a ideia é fixar a clientela, no caso da Livima, a lógica é oposta. “A ideia é fazer giro de pessoas. A gente quer que o cliente alugue ou venda com êxito e, assim, não fique por muito tempo com a gente. Mas já teve quem alugou um imóvel em 20 dias e aproveitou para já colocar outro em locação.”

Apesar de tudo parecer ir as mil maravilhas, o negócio de Felipe despertou a ira dos corretores imobiliários. O jornal O Globo chamou de “uberização” o processo de digitalizar e tirar o corretor das transações imobiliárias. Na reportagem, um representante do CRECI (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) disse que esse modelo não chega a preocupar as corretoras e imobiliárias, mas criticou o que chamou de “concorrência desleal e insegurança para o cliente”.

O CEO garante ter cautela com a expansão rápida para conseguir manter a qualidade no atendimento. Mas tem uma estratégia otimista, mesmo em tempos de crise: atualmente concentrada no atendimento à zona sul do Rio de Janeiro, a startup deve passar a atender toda a capital fluminense no mês que vem e estuda uma expansão também pelas regiões Serrana e dos Lagos. A projeção é crescer 50% ao mês, obtendo mil assinaturas ao ano só no Rio, além de, a longo prazo, abranger o competitivo território paulistano.

Por falar em território, por incrível que pareça, esse tem sido o maior obstáculo do empreendedor: “No Rio, ter um lugar para trabalhar sai muito caro. Acho os coworkings um pouco predatórios, pois cobram de 3 a 4 mil reais por mês. Prefiro dividir espaço com uma construtora, pois sai mais barato e é o que estamos programando”.

FÉ NO NEGÓCIO E EM UMA NOVA MENTALIDADE ECONÔMICA

Um ateliê dividido com outros artistas seria o espaço de trabalho dos sonhos para Felipe. Longe das baias de escritórios, pois o que o deixa feliz de verdade é a troca de ideias e inspirações com colegas. Quem sabe um dia… Ele faz uma comparação de seu modo de trabalho atual com o que executava em galerias e ateliês:

“O trabalho do artista requer aperfeiçoamento e não se aprende da noite para o dia. Ele repete ou muda o processo até gostar. E isso de não se apegar à ideia se encaixa perfeitamente em uma startup”

Da formação em Economia, o CEO da Livima aprendeu a reconhecer um modelo no qual pode até não ganhar tanto, mas gasta menos. “Estamos passando no mundo por uma economia em que talvez não tenhamos aumento significativo de salário, porque os recursos são limitados, mas a tecnologia permite que o custo de vida comece a baixar. As empresas que estão liderando esse tipo de movimento, consciente e colaborativo, tendem a dar certo”, acredita.

E o modelo de negócio do avô? “Vai ter por muito tempo, porque ainda tem pessoas que preferem assim, ter quem faça tudo por elas. A Livima apenas abriu uma frente nova”, diz ciente de que tem espaço para todo mudo no mercado.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Livima
  • O que faz: Facilita a venda e locação de imóveis, sem cobrar comissão
  • Sócio(s): Felipe Bogoricin
  • Funcionários: 8 (incluindo o fundador)
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 200.000
  • Faturamento: R$ 30.000 por mês, em média
  • Contato: contato@livima.com.br
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