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Ele uniu a herança familiar ao amor por esportes de prancha para criar a Drops Móveis e viver de sua arte

- 30 de junho de 2015
Pedro à frente de algumas de suas criações: tudo 100% feito por ele.
Pedro à frente de algumas de suas criações: tudo 100% feito por ele.

Sabe aquela história de que você precisa trabalhar com o que realmente gosta? O Pedro Guglielmi conseguiu chegar lá. Vinte e seis anos, fã de skate e paulistano convicto na luta contra o uso do carro, Pedro é neto de Mario Guglielmi. O avô, um italiano que veio para São Paulo na década de 1950 para escapar dos problemas do pós-Guerra em Nápoles, chefiou uma fábrica e uma loja de móveis na Teodoro Sampaio e outra loja de itens de decoração na rua Lorena.

Com os pais separados, Pedro acabou crescendo entre uma mesa e uma cadeira, entre armários e portas. Mal sabia que, quase 20 anos depois, seria a vez dele de assumir a profissão que já corria na família. Nas mãos de Pedro, pranchas de um skate se tornam prateleiras, aros de pneus de bicicletas rendem mesas de centro e remos de jacarandá acabam como cabideiro de porta. Criar peças de mobiliário a partir de objetos esportivos é o conceito da sua Drops Móveis.

Mas a equação não é tão simples assim. Há outros ingredientes para além da veia familiar e da paixão pelos esportes de aventura. Filho de pais médicos e tendo frequentado boas escolas e vivido no círculo da média da zona oeste paulistana, Pedro não escolheu a marcenaria como primeira opção. Antes veio uma frustrada investida na educação formal. Ele cursou Publicidade e Propaganda na FAAP, fez intercâmbio no Canadá, mas em nada disso encontrava prazer suficiente para abraçar uma carreira. “Como é que você vai ficar quatro anos estudando com as referências que os professores te dão? Você vai ficar limitado, sua criatividade não vai ser sua. Vai ser sempre uma cópia do que já existe. Vai ser só mais um”, diz ele.

Os móveis da Drops são únicos e, por isso, têm falhas — e muita originalidade.

Os móveis da Drops são únicos e, por isso, têm falhas — e também muita originalidade.

Corria o ano de 2011 quando Pedro pisou pela primeira vez em Amsterdã, na Holanda, um sonho antigo. Ali, conseguiu olhar além e perceber que dava para tentar outros caminhos. Que a vida na zona oeste de São Paulo não era tudo. Daquela experiência, nasceu a ideia de fazer uma poupança para poder voltar e se estabelecer na cidade dos canais e das bicicletas. “Comecei as ver as coisas de maneira diferente. Quem tem dinheiro lá não tem TV de plasma. Tem uma biblioteca enorme na casa. É uma cultura diferente. Lá aprendi que o padrão de vida top não é o dinheiro”.

A VIDA TOP NÃO É TER DINHEIRO

Dos 20 aos 22, conseguiu juntar um dinheiro para seu sonho europeu. Fazia freelancers como diretor de arte para agências de publicidade e tocava projetos pequenos de design para levantar a poupança. Já em 2012, ele, agora com 23 anos, tinha 7 mil euros e não via a hora de partir para uma temporada no Velho Continente. Já em Amsterdam, teve o estalo de que poderia se sustentar financeiramente trabalhando com móveis. Acabou aceito num loja tocada por um árabe chamado Abul. “Tem como trabalhar com vocês? Só para ajudar. Se puder me pagar 200 ou 300 euros por mês já está bem.” O pedido, lembra Pedro, foi feito numa mistura entre inglês e gestos. Deu certo.

Depois de alguns meses em Amsterdã, Pedro mudou-se para Haarlen, uma cidadezinha vizinha mais tranquila. Foi lá que, um belo dia, recebeu a encomenda de um skateshop próximo à loja de Abul. Eles precisavam de um banco novo. “Vocês não tem nenhum skate para eu usar?”, perguntou. Para sorte dele, a loja tinha. “Peguei uns shapes velhos que eles tinham e montei o banco!”. Pedro soldou barras de ferro para formar uma estrutura e usou a parte de madeira dos skates como assento. O resultado foi um sorriso enorme no rosto dos clientes holandeses. Dias depois receberia, de um funcionário da mesma skateshop, a encomenda para uma prateleira, dessas que hoje ele faz aos montes.

“Comecei a ver que tinha um mercado no que eu estava fazendo. Distribuí cartões, passei a frequentar galerias de arte e deixei algumas peças expostas por lá”, conta Pedro. As peças dessa época eram vendidas por 20, 30 ou 50 euros na Holanda, Alemanha e Bélgica. O sucesso abria a possibilidade de voltar a São Paulo com uma boa ideia de negócio na mala. Para o retorno, pesou também a dificuldade em criar raízes fora do Brasil. Ele conta:

“Se você sai do Brasil com 15 anos e não volta mais, tudo bem. Mas é difícil se inserir num meio social quando se chega a um país europeu depois disso”

Pedro voltou e decidiu, ao seu modo, estudar empreendedorismo. Mergulhou no YouTube, na internet e pesquisou a vida de pessoas e cases que o interessavam. “O Felipe Netto começou no quarto dele soltando vídeos e agora é um megaempresário”, diz. Das pesquisas e da bagagem adquirida fora do país nasceu a Drops Móveis, registrada oficialmente ainda nos últimos meses de 2013.

Ouvindo conselhos de amigos, investiu numa conta de Instagram. Pedro precisava expor seu trabalho e mostrar que estava de volta. Deu certo. De 100 para 1 000 seguidores foi um pulo. Daí para chamar a atenção da mídia foi natural.

Pedro é designer e faz, também sozinho, as fotos e  o conteúdo das redes sociais da Drops.

Pedro é designer e faz, também sozinho, as fotos e o conteúdo das redes sociais da Drops.

Depois da participação no programa tocado por Flavio Samelo, no Canal Off, a coisa se encaminhou de vez. “Do dia para a noite, saí de não ter nada para ter 10 emails com peças encomendadas”, conta. Na sequência da participação televisiva veio um convite para evento de sustentabilidade em Florianópolis. O trabalho também começava a circular em revistas especializadas em decoração. Na garupa, surgiria um público que não era esperado, mas a quem Pedro deve boa parte do sucesso da Drops. “Meu trabalho começou a interessar mães, que passaram a comprar as minhas peças para os filhos. Nunca pensei que fosse trabalhar para elas. Mas o skatista de 15 anos não tem 200 reais para comprar um móvel. Com esse dinheiro ele vai comprar um skate”, diz o designer.

Hoje, a Drops Móveis recebe em média um pedido a cada dois dias. Como o trabalho é customizado, e feito quase exclusivamente por Pedro, a faixa de preço varia bastante. As prateleiras em forma de prancha de skate são o carro-chefe nas vendas, com preço médio de 200 reais. Mas ele já recebeu encomendas bem mais polpudas. Um cliente certa vez pediu uma mesa de jantar para uma casa de praia no formato de uma prancha de surfe. Peças assim podem beirar os 2 mil reais. Este fluxo de trabalho permite a Pedro ter uma retirada confortável, lembrando que esta é uma empresa de um homem só, girando em torno de 10 mil reais mensais.

Toda as criações de Pedro são numeradas, assinadas, certificadas e acompanham ainda um adesivo com alusão à arte usada na pintura do móvel. O acabamento é bem variado também. Pode ser a capa de um disco clássico (Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd, por exemplo), estilizada com referências às criações de Van Gogh, Mondrian ou pela cultura pop.

“Não sou fábrica. Uma cadeira minha pode ter uma listra mais para um lado ou mais para o outro. Os clientes sabem disso. Faço um produto específico para cada um. É uma produção única”

Pedro gosta de dizer que está sempre aberto a uma nova proposta. Tudo é pintado manualmente, seja com pincéis e tinta ou com spray e stencil. Mas nem sempre os pedidos são realizáveis. “Um cliente me pediu uma porta para a casa dele inspirada no surfe. O máximo que daria para fazer eram linhas de uma prancha, linhas em stencil. Mas eu não sabia o que fazer”, conta, sobre o pedido que acabou sendo negado.

A Drops Móveis segue sendo uma empresa de um homem só. As ajudas são muito ocasionais (vez por outra um marceneiro faz um extra para ele). Na maioria das vezes, é o neto de Mario quem atua em toda a cadeia produtiva. Do pedido à entrega. Instagram, Facebook e o site da marca também são todos pensados e editados por Pedro. Ele também é responsável pelas fotos de divulgação.

A sede da Drops fica na casa que foi da avó paterna, numa pacata região da Lapa, na zona oeste de São Paulo. “Às vezes corto uma peça sem medir e dá certo. É como se tivesse um tipo de ajuda aqui”. O avô Mario morreu em 1997. Pedro tinha 9 anos. Era muito novo, portanto, para entender mais do negócio tocado pelo nonno. “Pelo o que já ouvi em casa, meu avô não tinha essa coisa do empreendedorismo. Falam que ele tinha o talento, mas não tinha uma relação com o cliente. Ficava dois, três meses para entregar um móvel. Não pensava em marca nem nada. Ele só queria cuidar da família”. Os tempos são outros. E Pedro segue outra linha:

“Fico muito preocupado com o pós-venda. Mando e-mail, converso e ouço o cliente. Tento aprender com os erros do meu avô e ajeitar tudo com o meu jeito”

O nome da marca vem de drop, traduzido como “dropar” por aqui, termo usado para simbolizar o ato de descer uma rampa de skate ou uma onda com a prancha de surf. Mas Pedro quer mesmo é escalar.  Planeja em dois ou três anos abrir uma loja física nos Estados Unidos. Assim como fez para chegar à Holanda, ele já tem uma conta poupança separada para a realização do sonho. “Tenho um público nos EUA que representa 2% das minhas vendas. É muito pouco. Mas olha só a distância. Os americanos pagam bem, não pedem desconto e veem meu trabalho como arte”.

Pedro é o faz-tudo da Drops Móveis, que funciona em uma casa-atelê-show-room.

Pedro é o faz-tudo da Drops Móveis, que funciona em uma casa-atelê-show-room.

É verdade, também, que as cadeiras e os móveis do brasileiro já estiveram numa exposição em Nova York. Mas o provável destino de Pedro deve ser mesmo a Flórida. “Lá é mais latino. Prefiro me adaptar, entender como funciona o país e depois dar o tiro grande. Não dá para chegar direto na Califórnia. Em Miami, vou estar mais em casa”.

Para isso, Romero Britto é a inspiração. “Ele fez uma coisa simples que deu certo. Não precisou ser o Van Gogh para ser reconhecido. Ele usa as cores fortes, é  latino, lembra o Brasil. Ele fez o que as pessoas querem ver. Ninguém quer um brasileiro que pinta igual ao Munch (norueguês autor do quadro O grito)”. Tarsila do Amaral, também pela brasilidade, é outra referência de como ser nacionalista e internacional ao mesmo tempo. “Você é de onde você nasceu. Não tem essa de ‘tenho passaporte italiano’. A gente via Chaves, viajava para o Guarujá. Lá fora eles nem sabem o que é isso”. Se a nova tentativa de sair do país vai dar certo ninguém tem certeza. Mas parte da cura para os problemas que podem surgir, Pedro carrega sob os pés. “O skate alivia. Você se quebra e é só com você. É como se fosse uma luta boxe. E ainda ajuda a criar”, diz ele. E segue deslizando pela vida que escolheu.

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Drops Móveis
  • O que faz: Móveis a partir de objetos esportivos
  • Sócio(s): Pedro Guglielmi
  • Funcionários: 1 (apenas Pedro)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2013
  • Investimento inicial: não houve
  • Contato: (11) 3280-8159
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