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Eles queriam cozinhar e inventar. Criaram o Jantar Secreto, com menu surpresa e local revelado só no dia

- 24 de dezembro de 2015
Gustavo e Larissa no quintal de casa. Há um ano, jornalista de gastronomia e chef de cozinha iniciaram o negócio (foto: Luís Simione).
Gustavo e Larissa no quintal de casa. Há um ano, jornalista de gastronomia e chef de cozinha iniciaram o negócio (foto: Luís Simione).

No fim de novembro, ao buscar uma ideia de presente inesquecível para um casal de quem seria madrinha de casamento, ouvi falar bem de uma experiência gastronômica diferente e, mesmo sem saber detalhes do que aconteceria, botei fé que poderia ser um bom presente. Assim, uma noite, eu, meu namorado e o casal fomos levados até um endereço na Vila Madalena por uma amiga que também era madrinha do casamento. Os noivos só sabiam que teriam de estar prontos para a experiência às 20h30, sem atraso. Quando cheguei para encontrá-los numa linda loja de cerâmicas, a Olaria Paulistana, eles já estavam à minha espera, sem entender muita coisa: que lugar era aquele, quem eram aquelas pessoas? Nós íamos participar de mais uma edição do Jantar Secreto. Como é?

Os Jantares Secretos são uma série de eventos envoltos em um certo mistério, onde todos os elementos são uma surpresa, do local ao menu que será servido — tudo é revelado apenas no dia. As reservas são feitas por email e os jantares custam 120 reais por pessoa.

Dadinho de jambu servido no Jantar Secreto (foto: Larissa Januário).

Dadinho de jambu servido no Jantar Secreto (foto: Larissa Januário).

Criadores do projeto, a jornalista especializada em gastronomia Larissa Januário, 36, e o chef Gustavo Rigueiral, 30, estão juntos há seis anos e, desde junho de 2014 começaram a promover os encontros secretos. Ela são, sobretudo, um casal que gosta de comer bem, o que pode ser comprovado a cada prato oferecido.

As escolhas do menu servido no Secreto contam um pouco da história deles e são uma mistura de influências. Se de um lado temos uma cozinha goiana generosa com muito pequi, galinhada, arroz de puta rica e escaldado, de outro temos todo tipo de peixes e frutos do mar, graças à cultura caiçara de Gus, que passou boa parte de sua infância e adolescência em Santos, onde vive sua família. Nada de comida rebuscada por aqui, o que não torna os pratos menos elaborados ou surpreendentes.

Gus, que sempre foi bom de garfo, ingressou na faculdade de gastronomia de Águas de São Pedro aos 18 anos sem saber cozinhar, o que deixou seu pai, Flávio Rigueiral, no mínimo surpreso com a escolha. Desconfiança natural, mas que não atrapalhou em nada a trajetória do filho. De lá para cá, nos últimos dez anos, ele passou por bons restaurantes, como o Chef Vivi, um bistrô localizado na Vila Madalena, em São Paulo. Lá, especializou-se em pães e doces. Mas ele já sentia vontade de investir em suas próprias criações.

Em 2013, Gus colocou em prática um projeto autoral, o Chef- à-Porter, um serviço de eventos e catering personalizado, que leva o chef para onde você quiser com o meu escolhido pelo cliente. Já era um ensaio para o que viria, o Jantar Secreto. Gus conta o que o motivou:

“Eu sentia muita falta de oferecer uma comida autoral, que tocasse as pessoas, mas não tinha dinheiro para abrir um restaurante. Por isso decidimos começar no nosso apartamento”

Ele conta que também se inspirou em algumas experiências como o Please Don’t Tell, de Nova York. Larissa, que tem o blog de gastronomia Sem Medida, relatou por lá como foi o começo desta história: “Era junho de 2014, um mega bode pós-Copa do Mundo. Nesse contexto, eu e o Gus decidimos abrir as portas da nossa casa, a cozinha e o coração para criar os nossos Jantares Secretos. Começamos na sala do nosso apartamento, na nossa mesa para quatro, recebendo amigos. Ainda não sabíamos muito bem o que era nem no que ia dar aquilo”.

Os anfitriões do Jantar Secreto em casa, um dos lugares em que recebem os comensais (foto: Luís Simione).

Os anfitriões do Jantar Secreto em casa, um dos lugares em que recebem os comensais (foto: Luís Simione).

Na fase inicial, eles investiram 15 mil reais das próprias economias para viabilizar o negócio. Um ano e meio de operação e mais de 600 refeições depois, o projeto se consolidou, cresceu e ganhou parceiros como Studio Mixirica, Nespresso, Bier&Wein, Fazenda Maria, Dona Filipa e o Food Pass.

Larissa e Gus tiveram que trocar o apartamento por uma casa, que também serve de espaço para algumas edições do Secreto, e ampliar o número de mesas — agora são três.

“A gente cresceu, mas não tem intenção de aumentar o número de pessoas que recebemos por jantar, em média quinze. Isso porque queremos manter o clima aconchegante e a qualidade”, diz Gus. Eles também preparam jantares para grupos fechados, de no mínimo 10 pessoas, com data pré-agendada.

Além de servirem os jantares em casa, eles também o fazem em ambientes inusitados, como a loja de cerâmica mencionada acima. Eles contam que um dos maiores desafios é encontrar o lugar ideal para os jantares, que ofereçam conforto, estrutura e acessibilidade. Por isso, entre os planos para 2016 está o de criar uma campanha no Instagram que presenteie com dois lugares num Jantar Secreto para quem oferecer a própria casa como espaço.Como o projeto é itinerante, precisamos tomar alguns cuidados, como fazer uma visita técnica prévia, para evitar surpresas desagradáveis, que ainda assim correm o risco de acontecer. E isso também faz parte de sermos um projeto aventureiro”, conta Larissa. Outro desejo do casal é explorar mais o contexto e a história de cada lugar, deixando a experiência ainda mais única.

UMA EXPERIÊNCIA PARA QUEM GOSTA DE COMER

Eles contam que servir comida boa a um preço justo é uma das missões do negócio. A outra é ampliar o paladar de quem se aventura na experiência. “Eu e o Gus aprendemos com nossas famílias a comer de tudo, desde pequenos, mas nem todo mundo teve acesso a um repertório tão amplo”, diz ela, e prossegue:

“Acreditamos que o paladar é um sentido que se desenvolve, que dá para perder o medo do desconhecido. O Jantar Secreto é feito para pessoas abertas e para os fortes”

Apesar da brincadeira, no ato da reserva, é possível enviar uma lista de restrições alimentares, se houver. Eles também já fizeram edições somente para vegetarianos, que “não costumam ser muito bem recebidos por aí”, como diz Larissa. Há, ainda, as edições especiais, chamadas de “Sem Restrição”, nas quais o chef Gus tem carta branca para pirar e usar toda a sua criatividade.

A escolha do menu, que é pensado dois dias antes de cada evento, respeita as eventuais restrições alimentares dos participantes, mas leva em conta principalmente os ingredientes da época. Ou seja, o que não tem na feira naquele dia, não entra no cardápio. Eles contam que têm clientes fieis, que já participaram de muitas edições, como é o caso de uma senhora sul-africana, de 70 anos, que transita pela casa dos dois como se fosse a sua. Tem também histórias de clientes que se conheceram ali e ficaram amigos, gente que se abriu para o novo e desistiu de enviar restrições alimentares. Larissa comemora:

“A curiosidade e a preocupação em se alimentar melhor extrapolou o nicho. As pessoas querem saber de onde vem a comida, como é produzida”

No dia em que participei do Jantar éramos em dezenove. Todos sentados em mesas compartilhadas, o que faz parte da proposta. Entre o wellcome drink e a sobremesa, a experiência durou pouco mais de três horas, tempo suficiente para apreciarmos cada prato, que era apresentado pelo chef Gus, conversar, beber, curtir a trilha sonora (eles têm uma playlist no Spotify) e ser feliz. “Não somos um restaurante, então não estamos preocupados em rodar mesa”, diz Gus.

A noite terminou com sorvete de beterraba, doce de leite e queijo (foto: Larissa).

A noite terminou com sorvete de beterraba, doce de leite e queijo (foto: Larissa Januário).

Naquela noite, degustamos um couvert de pão de grão de bico acompanhado de geleia de cebolas caramelizadas e manteiga de laranja bahia, uma entrada de dadinhos de tapioca, queijo manteiga, chicória do Pará e jambú, que foram servidos com melado de cana do engenho e molhos de pimenta de bode e de cheiro. O prato principal foi um bife ancho servido com falso sorvete de mandioca e bearnaise de pequi, e o grand finale foi uma sobremesa de emocionar: queijo de cabra esfarelado, doce de leite artesanal e sorbet de beterraba.

Além do valor do menu (120 reais), é possível incluir outros 40 reais para a harmonização de cervejas, o que eu recomendo fortemente. Mas há também a possibilidade de levar a sua própria bebida, um vinho, por exemplo. “Tem gente que chega aqui com vinhos caríssimos de 500 reais e outros que compram uma garrafa de 30 reais no supermercado. O que interessa, para nós, é que as pessoas se sintam bem”, diz o chef. Bom apetite!

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  • Projeto: Jantar Secreto
  • O que faz: Jantares itinerantes
  • Sócio(s): Larissa Januário e Gustavo Rigueiral
  • Funcionários: 4 (incluindo os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: junho de 2014
  • Investimento inicial: R$ 15.000
  • Faturamento: NI
  • Contato: [email protected]
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