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“Comprei a revista que mais amo ler para que o título não morresse”

- 28 de setembro de 2018
Luciana Pianaro conta sua trajetória para encontrar um trabalho que fizesse seus olhos brilharem. Este mês, assumiu o cargo de CEO da Vida Simples, atualmente parte de uma editora com o mesmo nome.

 

por Luciana Pianaro

Sabe aquela história de que devemos trabalhar em algo que faça sentido, em que nossos olhos brilhem e que nos entreguemos de corpo e alma? Pois é, eu acredito nisso. Acho que todos deveríamos procurar por um trabalho assim, que nos pareça grandioso e que nos dê a sensação de que estamos fazendo algo importante.

Os mais pragmáticos alegam que isso é difícil e aconselham buscar algo que seja rentável e seguro. Bem, eu até concordo, mas em parte. Acho que é difícil sim. A maioria das pessoas atravessa sua vida profissional, que pode, inclusive, ser muito bem-sucedida, sem ter encontrado seu propósito. E tudo bem, mas tenho a opinião que sempre é bom consultar sua “lista de verdades” e não abandonar seus sonhos.

Eu tinha uma vida assim, pragmática. Uma carreira segura e promissora. Sou de Curitiba, venho de uma família humilde e meus pais, talvez por terem lutado muito, enfrentando dificuldades, me educaram para ser uma boa funcionária, de preferência, em uma grande empresa.

Estudei Administração na Universidade Federal do Paraná, no curso noturno, para poder trabalhar durante o dia. Tratei de aprender línguas, depois fiz um MBA em Finanças na FGV (que seria útil no meu emprego, embora não amasse o tema…). Mais tarde, um mestrado em estratégia na Mackenzie (apesar de duro, gostei muito), e recentemente, um curso de aprofundamento em Empreendedorismo na Babson College, em Boston — apesar de rápido — este foi o que mais abriu minha cabeça.

Durante a faculdade, tratei de fazer estágios. Acreditava (e ainda acredito) que juntar a teoria com a prática é o melhor caminho para aprender de verdade. Comecei abrindo contas-correntes na Caixa Econômica Federal, passei pela New Holland e finalmente cheguei na Volvo, onde o estágio virou convite para ficar. Foi lá que estacionei meu grande caminhão de sonhos por um tempo. Entretanto, este casamento com a empresa não sobreviveu à crise dos sete anos. Precisava sair, respirar outros ares, aprender coisas novas e ter novos desafios.

O conceito de que coragem não é ausência de medo, mas a capacidade de avançar, apesar dele, nunca foi tão evidente como naquele cair de tarde de setembro de 2001. Foi quando chamei meus pais para uma conversa. Eu tinha 26 anos. O italiano de Santa Felicidade, forte, turrão, conservador, e a migrante nordestina que de frágil só tem a aparência, sentaram a convite da filha para ouvir o que ela tinha a dizer. Achavam que alguma novidade vinha por aí, só não imaginavam o tamanho. O que ouviram os deixou paralisados por alguns instantes.

A “filhinha comportada”, que sempre foi bem na escola, funcionária exemplar, a mais velha, que cuidava das irmãs, simplesmente, comunicou que tinha pedido demissão

Além disso, estava saindo de casa e ia se mudar de Curitiba para São Paulo, a fim de morar com o namorado mais velho (que tinha sido seu professor e estava iniciando uma nova carreira de palestrante corporativo). Bem, se o choque foi grande, meus pais simularam bem, pois a reação foi serena e, diria, grandiosa. Sim, o italianão disse: “Vai, minha filha e, se não der certo, volte para casa”. E da alagoana de Arapiraca, eu ouvi que sentiria minha falta, mas ficaria feliz sabendo que eu estava feliz, me abençoando com sua forte fé cristã. Podiam ser mais maravilhosos, meus queridos pais?

E pronto, há dezoito anos moro na Pauliceia e, quando vou à Curitiba, me sinto meio turista. O namorado Eugenio virou marido, teve uma carreira brilhante (e ainda tem), escreveu muitos livros, virou colunista de revistas, fez consultoria empresarial, deu centenas de palestras no Brasil e no mundo. Eu sempre estive ao seu lado, como sócia e empresária, além de apoiá-lo nas pesquisas e na organização dos trabalhos. Aprendemos juntos, viajamos muito, conhecemos o mundo, fizemos diversos amigos. Depois de quinze anos de união, a dupla virou trio. Nasceu o Erik, nossa melhor obra, hoje com três anos de encantamento e travessuras.

Claro que nem tudo foram flores. O começo não foi fácil, não conhecíamos praticamente ninguém em São Paulo, tivemos momentos complicados, finanças restritas, crises da política e da economia e até alguns sustos, como o aneurisma cerebral de Eugenio, felizmente vencido, e que o transformou em um sobrevivente. A jornada só fica boa quando tem alguns percalços, não é mesmo? O que você conta das viagens que fez? Não fica falando só de tudo foi maravilhoso, garanto. Todo mundo conta o que deu errado e como resolveu a parada. Isso é humano

No entanto, voltando para o primeiro parágrafo, por que eu comecei falando de projetos que fazem os olhos brilhar? É que acabo de entrar em um deles. Não que os que fiz até agora não tenham sido sensacionais. Foram e ainda são. Porém…

Sempre quis um negócio para chamar de meu, em que a maioria das decisões dependesse de mim, euzinha tendo que bancar escolhas e riscos

Há algum tempo entrei em uma sociedade ligada à moda que não deu certo. Até hoje analiso o porquê e cada vez me convenço que o problema não estava no negócio, nem na gestão, nem no mercado: estava na relação entre as sócias. Três meninas em momentos particulares da vida, com visões diferentes, com disposições dispares. Três pessoas ótimas, mas que não nasceram para ser sócias. Não adianta, no final, é o fator humano que faz a diferença, para o bem e para o mal. Partimos para outra, cada uma em seu caminho. O que sobrou? Uma grande, imenso, impagável, aprendizado.

E, afinal, qual é o projeto atual? Meu marido costuma contar a história de que ele, às vezes, perguntava onde eu estava indo e eu dizia que ia até a banca comprar uma revista. Sim, gosto de ler, e gosto de revistas de todos os tipos.

Para mim, revista tem que ter a ver com enriquecimento pessoal, ser amiga, agradar, ensinar, inspirar, fazer sonhar. Ainda sou bem old school, gosto de ler no papel, fazer anotações, reler

Acredito que não apenas eu, mas várias pessoas ainda precisam do papel. Naquele dia, meu companheiro de vida fez a mesma pergunta e eu respondi quase a mesma coisa: “Estou indo comprar uma revista”. “Na banca?”, ele questionou. “Não, na editora!”, disse. E assim foi. Comprei a Vida Simples, a revista brasileira que mais fala sobre a essência do ser humano, que traz temas atemporais, que visita todas as dimensões da vida, que fala sobre valores, sobre comportamento, que nos faz pensar, compreender, ter contato com outras perspectivas e que também nos faz acreditar no imenso potencial das pessoas e de nosso papel enquanto transformadores do mundo.

A publicação nasceu e cresceu na Editora Abril. Há quatro anos, com a reestruturação da empresa, foi transferida para a Editora Caras, que agora, como parte de sua estratégia de foco, resolveu vender vários títulos. A Vida Simples nos foi, então, oferecida. Pelo carinho que aprenderam a ter pela revista, queriam que ela ficasse perto de seu primeiro colunista, o Eugenio Mussak, meu marido. A revista completa 16 anos em 2018, sendo publicada mensalmente sem interrupções, com uma legião de leitores, colecionadores e seguidores (são quase 2 milhões nas redes sociais!) e, a partir desta edição, de número 200, passei a ser sua CEO.

Com a mesma maravilhosa equipe, agora ampliada, a publicação passou ganhou um novo projeto editorial e passou a ser de responsabilidade da Editora Vida Simples. Uma editora de um título só, focada, inteira e que valoriza a marca, a preciosa combinação de duas palavras que fazem tanto sentido no mundo complexo em que vivemos: Vida e Simples. Logo virá um portal interativo, um método pedagógico que enalteça os valores humanos na educação, além de produtos e eventos. O sonho é grande, o desafio também, mas a vontade de fazer é ainda maior.

A crença naquilo que a Vida Simples representa permanece a mesma: simplicidade sem simploriedade, consumo consciente, trabalho com significado, valores humanos, ética e estética, progresso e felicidade.

De saída, adotamos um novo slogan: “Ser, conviver e transformar”. Pois, é nisso que acreditamos. Na integridade do ser, na qualidade do conviver, na possibilidade de transformar e colaborar para que seus leitores encontrem um refúgio, esperança e ideias que possam influenciá-los a fazer a diferença e, assim, colaborar com a melhoria de nosso fragilizado, mas maravilhoso país.

 

 

Luciana Pianaro, 43, é casada com Eugenio há 18, mãe do Erik, de 3, e sócia das empresas MSK2, Quarto Grau, EduMedica e, agora, da Vida Simples. É leitora do Draft, desde seu primeiro post!

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