SPONSORS:

“Em meio à atmosfera poluída pela obscenidade nos costumes, educar para a cidadania é um desafio”

- 17 de agosto de 2018
Em "É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos", Mílton Jung aborda suas duas missões: ser pai e cidadão.

 

por Mílton Jung

A ideia do livro surgiu da editora. O nome, de um convidado. A coragem, de uma colega. O apoio, de minha mulher e meus filhos. Já as histórias estavam dentro de casa — da minha, das dos meus avós, dos meus pais e de gente conhecida. É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos, meu quarto e mais recente livro, começou em uma conversa de livraria, no café da Cultura, no Conjunto Nacional, na avenida Paulista, em fevereiro, quando a editora Raïssa Castro, da Best Seller, do Grupo Editorial Record, me procurou propondo que eu escrevesse sobre ética e política.

Reticente, como costumo ser diante de desafios que considero grandes demais para mim, desconversei, puxei outros assuntos e imaginei que, entre nós, o café bem tomado já estaria de bom tamanho. Fui vítima de minha própria estratégia, pois ao ouvir minhas histórias de família e da relação com meus pais e meus filhos, a editora retomou o tema inicial, revelou sensibilidade e o adaptou para a minha realidade: “Vamos falar sobre ética e cidadania com nossos filhos!”, disse-me entusiasmada.

Pedi algumas semanas para pensar — tempo suficiente para arrumar uma desculpa e quem sabe deixar esse papo para lá. Ganhei apenas alguns dias de prazo. E não precisava muito mais mesmo: já estava convencido de que a proposta era tentadora e mexeria com os meus instintos mais profundos.

Falar sobre a relação com meus pais e meus filhos em público era assustador tanto quanto emocionante — e nesse coquetel de emoções montei um projeto inicial, rabisquei um roteiro a ser seguido e comecei a escrever

Escrever sempre foi motivo de sofrimento e prazer. Desde o primeiro livro, Jornalismo de Rádio, de 2004, passando pelo Conte Sua História de São Paulo, da mesma época, e do Comunicar para Liderar, de 2015, enfrentei as mesmas reações e embates: internos e externos. Havia prazo para a entrega do livro, prazo para copidesque, prazo para observações, prazo para mudanças, prazo para o prefácio, para a orelha, para as colaborações, para a capa, para a diagramação, para a impressão e para o lançamento. Ao mesmo tempo que os prazos me pressionavam, me desafiavam, isso tende a me ajudar.

“É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” é o quarto livro de Mílton Jung.

Na caminhada, além do apoio da editora, ganhei o incentivo em casa, apesar de eles por aqui não terem ideia das inconfidências que eu seria capaz de cometer. Fui encorajado quando uma das mais respeitadas jornalistas que conheço, Miriam Leitão, aceitou, leu e escreveu o prefácio do livro — e que histórias incríveis compartilhou com os leitores: “Eu tive um pai presente e carinho, e fui uma adolescente rebelde. Meu pai, ao contrário dos pais de várias amigas minhas no interior de Minas Gerais, jamais me disse que o destino da mulher era casar e ter filhos. Pelo contrário, dizia que eu me casaria apenas se quisesse, o importante era fazer um curso superior, ter uma profissão e um sonho. Isso era uma novidade completa na conversa daqueles dias em Caratinga”.

E fiquei fortalecido ao ler o texto que o filósofo Mário Sérgio Cortella, de inteligência impar neste país, me enviou para publicar na orelha do livro: “Mílton Jung recusa a falência da esperança e produz uma narrativa plena de beleza”. Cortella não se conteve e sugeriu — o que foi aceito imediatamente — o nome para o livro. “É proibido calar!” — frase precisa, matadora e chamativa, como devem ser os títulos: “…(Mílton) decidiu agora nos falar sobre o que não podemos não falar com nossos filhos: ética e cidadania”.

 Esta é a primeira vez que me atrevo a escrever sobre missões que escolhi para a vida: ser pai e ser cidadão — até então escrevia com base na profissão que escolhi, o jornalismo

É a partir dessas duas perspectivas que compartilho com o leitor momentos que vivenciei em família. A partir dessas escritas tento mostrar a crença que tenho no papel de pais, mães e toda pessoa que “aceitou o convite que a vida lhe fez de ser o responsável por assegurar a sobrevivência e o desenvolvimento pleno de uma criança”. Somos — e me incluo por ser pai de dois filhos — fundamentais na educação das nossas crianças que tem de estar baseada em princípios e valores éticos. Que não se constroem apenas por palavras, mas, e principalmente, por atos e ações — até porque a ideia do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” faliu. Somos referências para eles e como tais temos de nos comportar.

O livro é lançado agora não por coincidência — sua publicação tem muito a ver com o processo político que estamos assistindo no Brasil às vésperas de uma importante e complexa campanha eleitoral. Indignados, milhares de brasileiros têm negado a política e revelado sua descrença com os acontecimentos registrados no país. Minha proposta é que em vez de deixarmos o espaço público à disposição daqueles que há algum tempo já demonstraram estarem a serviço apenas de seus interesses privados e desistirmos do país, comecemos a desenvolver ações de mudança buscando influenciar aqueles que estão a nosso alcance: nossos amigos, nossos colegas, nossos parentes e nossos filhos — principalmente nossos filhos.

É a partir deles que podemos ajudar a reconstruir uma sociedade justa e generosa. Portanto, temos de assumir a responsabilidade pela criação deles com base na ética, educando as crianças para a vida pública, transformando-as em cidadãs, com direito à felicidade — deles, de suas famílias e de seu país.

Espero que apreciem a leitura do trecho, a seguir, de É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos:

Cidadãos — foi assim que sempre idealizei a criação de meus filhos. Ainda que considerando os contextos filosóficos que tratam essa figura como um ideal de presença em comunidade e participação efetiva no processo político; ainda que considerando que a ética da cidadania estaria restrita à vida pública, conforme o autor que você visitar; na minha concepção — ou na nossa —, o conceito do que é um cidadão resume a ideia do que devemos buscar na construção de uma carreira de vida.

Falamos de alguém que valoriza a razão e a ética; que domina a inteligência e a emoção; que respeita os relacionamentos; que entende seu papel no mundo como o de um ser que está aqui para tornar a vida dos outros melhor por meio de seus atos e comportamentos. Que, por consequência, o fará melhor, também.

Alguém que erra, sim; que tropeça nos modos, porque é humano; que se atrapalha devido às complexidades da vida. Mas que é forte o suficiente para admitir seus erros, humilde para pedir desculpas e resiliente para recomeçar.

Chamo isso de cidadão!

Os estudiosos e precisos talvez prefiram chamá-lo de homem bom.

Esse é um projeto audacioso, sei bem disso.

Estamos falando de uma formação educacional que segue na contramão do que assistimos na sociedade contemporânea, em que a maioria ainda investe em projetos individualistas nos quais o único objetivo é a vitória, custe o que custar.

Nesse cenário competitivo, que pode ser percebido na vida familiar, no setor privado ou na área pública, justificam-se as atitudes violentas, o desrespeito às regras e a falta de bom senso

Como o que interessa é o resultado final, pouco importa o processo. Essa cultura de tolerância para com certos comportamentos considerados indesejáveis, desde que os resultados sejam os desejáveis, pode ser percebida nas mais diversas áreas — a começar dentro da própria família. Acontece quando o pai, ausente e se sentindo culpado por essa ausência, omite-se diante do comportamento impróprio dos filhos. Ou da mãe que assiste à ausência do pai, mas, submissa, cala-se para não gerar conflito no casamento. Aos filhos fica a lição que todo desrespeito é aceitável, e essa lição será replicada nos demais relacionamentos deles, inclusive na escola.

As corporações também são ricas em proporcionar ambientes nocivos à excelência de caráter, quando incentivam seus empregados a usarem de todos os subterfúgios para superar a concorrência.

É comum se criarem metas e se cobrarem resultados. No instante em que os líderes empresarias impõem essas metas e se esquecem de determinar as regras para que os resultados sejam alcançados, passam um recado muito claro aos seus comandados: vale tudo! E, no vale-tudo, é permitido ocultar, forjar e mentir.

É assim que acontece quando o que se busca é apenas o número de carros que a fábrica produzirá, por exemplo. Para vender mais, baixa-se o custo. Para ficar mais barato, eliminam-se dispositivos de segurança e controle ambiental. Sem esses equipamentos, o carro polui mais do que a lei permite. A solução é simples: manipula-se o exame de laboratório e se adultera o resultado. É só ninguém descobrir a fraude, e o dinheiro vai para a conta — dinheiro sujo, mas isso não importa.

Dinheiro sujo se lava em casa, dirá o agente público já tomado pelo vício que distorce seu caráter e se opõe à honestidade. Por se sentir pertencente a essa parcela da sociedade que privilegia o resultado, a despeito dos processos, não vê problema em pedir uma grana extra para liberar a obra. Assim como a autoridade passa a considerar justo receber um favor — que pode vir na forma de maços de dinheiro ou de um apartamento de cobertura — em troca da aprovação de um projeto de lei. Todos saem ganhando, se haverá de pensar. Menos a sociedade — ou seja, todos nós —, porque esta só se desenvolverá respeitando a ética e seus valores.

Em meio a essa atmosfera poluída pela obscenidade nos costumes, educar para a cidadania é um desafio audacioso, sim — e necessário. Porque não será com advogados, juízes, motoristas, frentistas ou coletores que transformaremos a sociedade. Será com pessoas que ajam como cidadãs — a despeito de suas profissões.

 

Mílton Jung, 55, é jornalista, palestrante e escritor. É gaúcho e gremista — e isso conta muito na formação dele. Âncora do Jornal da CBN e do Mundo Corporativo, também apresenta o quadro Conte Sua História de São Paulo, todos na rádio CBN.

Veja também:

Como a rede de abaixo-assinados Change.org Brasil ganhou 12 milhões de usuários e se tornou sustentável

- 24 de maio de 2018
A equipe da Change.org Brasil (da esq. para a dir.): Lucas, Taiana Almeida (programa de doações), Rafael, Livia Camargo (criadora de uma petição), Yahisbel Adames (coordenadora de campanhas) e Larissa Pinho (social media).

Como não ter vergonha de nós mesmos no futuro? O melhor do TEDSummit 2016

- 8 de julho de 2016
4184 0 0