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Em quatro anos, a Junta Local cresceu e encontrou um modelo sustentável sem abrir mão dos valores

- 6 de novembro de 2019
Da esq. à dir.: Bruno Moraes, Henrique Negrão e Thiago Nasser fundaram a Junta Local em 2014 e seguem firmes na expansão do negócio.

A Junta Local quer ser parte de um sistema alimentar mais justo e saudável, no qual o pequeno produtor é protagonista e pode se relacionar diretamente com os consumidores. O negócio começou a operar em 2014 por meio de feiras e de uma plataforma de compras online, a Sacola Virtual, pela qual os consumidores escolhem os produtos pela internet, mas pagam e retiram em pontos de coleta espalhados pelo Rio de Janeiro.

Em 2015, contamos essa história no Draft. Na época, os sócios Thiago Nasser, Henrique Moraes e Bruno Negrão promoviam, em média, uma feira por mês. Em 2019, elas ocorrem todos os finais de semana, sendo que em alguns há mais de uma feira simultaneamente.

A Sacola Virtual também cresceu. As entregas, antes quinzenais, agora rolam toda semana. E o número de endereços onde a sacola pode ser retirada aumentou. Além da Comuna, espaço parceiro desde o início do projeto, há entregas em locais como Casa Amarela, na Tijuca; T.E.R.R.A., em Laranjeiras; e Christ Church, em Botafogo.

O número de pedidos da Sacola chega a 200 por semana; já teve, inclusive, épocas melhores, com uns 300 pedidos. “A crise no Rio de Janeiro foi muito grande. Na verdade, ainda estamos em um platô baixo”, diz Thiago.

OS SÓCIOS CRIARAM O FOOD HUB — E DESATIVARAM A PRATELEIRA LOCAL

Para apoiar essa plataforma de vendas, os sócios criaram um novo serviço, o Food Hub, uma espécie de distribuidora para os pequenos produtores. Em vez de entregar os produtos diretamente nos pontos de venda, eles entregam na sede da Junta Local, em Botafogo, e a própria Junta distribui entre os pontos de retirada, conforme a demanda.

As feiras da Junta Local acontecem quase todos os finais de semana no Rio de Janeiro. Na foto, edição realizado no Parque Lage.

“Assim, eles não precisam se deslocar para vários pontos e a gente consegue diversificar a Sacola Virtual”, diz Thiago. Por enquanto, dez produtores usam esse serviço. Eles pagam uma mensalidade, mas o modelo dessa linha de negócio ainda está em teste.

Já a Prateleira Local, uma iniciativa que colocava à venda os produtos de parceiros da Junta em lojas do Rio de Janeiro, deixou de existir. Thiago explica que o trabalho de manter esse projeto acabou se tornando desproporcional ao retorno aos envolvidos:

“Toda a ideia da Junta de ter uma comissão mais baixa é para que o produtor tenha um retorno maior e o produto tenha um preço mais justo para o consumidor. E não dava para manter essas margens dentro do varejo. Além disso, a Prateleira Local era para ser autogerida pelos próprios produtores. Na prática, não funcionou”

Embora tenham apostado na ideia, descontinuá-la não foi uma dor tão grande assim já que a ideia da Junta Local é que o produtor seja o protagonista do sistema alimentar. Se isso não acontece, não há motivos para manter o serviço.

Sem perder de vista a sua proposta, a empresa vem crescendo. Hoje, eles faturam R$ 120 mil por mês e o número de colaboradores fixos saltou de um, em 2015, para seis, além dos três sócios. “Agora o sistema é mais bruto”, brinca Thiago.

A SUSTENTABILIDADE FINANCEIRA VEIO COM UM NOVO “MODELO AJUNTATIVO”

Depois de testar diversos modelos, a Junta local encontrou a sustentabilidade financeira no que eles chamam de “modelo ajuntativo”, regido por uma Carta de Valores e Princípios que norteia tanto a curadoria dos produtores que ingressam no projeto quanto a organização desse grupo.

Segundo Thiago, esse documento (enviado a todos os participantes) nasceu coletivamente, na tentativa de resolver os dilemas que surgiam sobre o que é ser um “ajuntado”. Um exemplo: Como definir quem é um pequeno produtor? Se ele cresce um pouco e passa a ter uma fábrica com alguns funcionários pode continuar na Junta Local?

Esse caso específico foi resolvido com o princípio do “Amor pelo Produto e pelo Processo”. Se o produtor tem amor pelo produto, diz Thiago, ele vai ter cuidado com os ingredientes, com a natureza, com o meio social e na relação com o consumidor:

“Como é um produto que ele fez com amor, usando a própria criatividade, não vai tratá-lo como uma mercadoria e não vai querer botar em uma prateleira e vender de qualquer maneira. Ele vai querer estar presente, representando de forma adequada a proposta do trabalho”

A comunidade hoje tem 140 “ajuntados”; cada um desses produtores paga à Junta uma mensalidade de R$ 100. Eles também contribuem com uma porcentagem sobre as vendas: 20% nas feiras e 17% na Sacola Virtual, valores definidos em assembleia com a participação de todo o grupo.

Lá em 2015, quando contamos pela primeira vez a história da Junta, os produtores decidiam, por conta própria, com qual valor gostaria de colaborar. “O modelo ajuntativo foi uma resposta de como a gente poderia se cristalizar sem perder autonomia, nos aproximando ainda mais dos ajuntados”, diz Thiago.

EXPANDIR GEOGRAFICAMENTE É UM DESAFIO AINDA EM ESTUDO

A Praça do Rotary, na Vila Buarque, em São Paulo, foi sede da primeira edição paulistana da Junta Local.

Mais organizada, a Junta Local se aventurou, neste ano, em uma edição paulistana (realizada em agosto, na praça do Rotary, na Vila Buarque, região central). Expandir geograficamente é uma pretensão, até porque ao atravessar essas fronteiras, eles ajudam a multiplicar os sistemas alternativos alimentares. Porém, ainda estão estudando o melhor modelo de transferir o know-how consolidado no Rio para outros municípios.

São Paulo foi uma feira piloto, onde puderam conhecer o mercado local, os produtores e entender como é a dinâmica ao sair do Rio. Uma nova edição paulistana, no mesmo local, está marcada para 30 de novembro. Thiago, porém, ainda é reticente ao falar de expansão:

“Temos uma questão muito delicada com o crescimento. Não queremos a ‘uberização’ do negócio, que seria disponibilizar a nossa tecnologia de relacionamento e da Sacola Virtual para as pessoas usarem sem critério”

Ainda tomando o Uber como paralelo, a ideia da Junta Local, segundo Thiago, seria trabalhar junto com os ‘motoristas’ para criar as melhores condições — mas pensando também em como melhorar o trânsito. “No nosso caso, o ‘trânsito’ é o sistema alimentar.”

“NÃO DÁ PARA USAR O STARBUCKS COMO REFERÊNCIA PARA A JUNTA LOCAL”

Os empreendedores também estão de olho em como manter a essência da Junta Local dentro de um mercado que opera em outra lógica (do consumo, do descarte, do desperdício e da indústria de larga escala).

“O nosso valor é um valor de humanidade, confiança e parceria com os ajuntados”, diz Thiago. “E às vezes é difícil conciliar o crescimento do negócio com a manutenção dos valores. Não é impossível, é só um outro caminho.”

Nessa busca, precisaram repensar algumas parcerias. Thiago cita o exemplo de uma reunião com uma agência de marketing para falar sobre a comunicação da empresa.

“No meio da reunião, alguém deu o exemplo do que a Starbucks fez com relação a experiência do consumidor… Não dá para usar a Starbucks como referência para a Junta Local. O nosso é um processo slow entrepreneur, em que buscamos as soluções que se aproximam dos nossos valores”

A partir desta experiência, eles entenderam que precisavam buscar soluções mais artesanais, mesmo que a respostas fosse mais lenta. Thiago, aliás, diz que ainda não consegue se ver como empreendedor — embora saiba que exerce essa função.

“Eu sei que tenho que cuidar de uma empresa, lidar com gente e pensar em estratégia, mas nunca li um livro sobre empreendedorismo. Ainda tenho dificuldade de me enxergar nesse papel. Acho que sou mais um organizador, mediador e conciliador do que empreendedor”.

 

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