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“Em um país onde pai é artigo de luxo, falar sobre paternidade é também falar sobre direitos humanos”

- 15 de março de 2019
Leandro Ziotto foi "adotado" como pai pelo filho de uma ex-companheira. Ele fala da transformação pela qual passou, da percepção do próprio machismo e privilégios. E de que era preciso fazer algo a respeito.

 

por Leandro Ziotto

Sempre me perguntam quando nasceu o Projeto 4daddy. Juntamente com a minha paternidade. Mas, a próxima pergunta é: E quando nasce um pai?

Hoje, sei que a paternidade pode nascer dentro de um homem de várias formas, maneiras e em tempos totalmente diferentes

Na notícia da gravidez, no momento do parto, na primeira conta para pagar do enxoval do bebê, no primeiro grito, choro, febre ou, até hoje, para alguns, infelizmente a paternidade não nasce, mesmo com filhos grandes. Mas isso é assunto para outro momento.

Na minha história, a paternidade nasceu na beira de uma piscina! O Vini não é meu filho biológico. Ele é fruto do primeiro relacionamento da minha ex-esposa, Mariana. Quando nos conhecemos, ele tinha 3 para 4 anos. Hoje ele é um molecão de 11 anos e já calça 39!

No início, repetimos os velhos clichês. Ele teve ciúme da mãe comigo, ela, lógico, teve as suas inseguranças de mãe solo, e eu, a inexperiência de quem nunca cuidou de uma criança, e nunca foi educado para tal. A nossa relação afetiva, minha e do Vini, foi muito natural, e em um ano de relacionamento com a mãe dele, já tínhamos construído um laço de cuidado, carinho e respeito.

Num certo final de semana, estávamos viajando juntos para a praia e fomos ao Sesc Bertioga. Era um dia chuvoso, e muito quente. Aquele típico dia de verão, sol, calor e uma chuva mansa de tarde. Estávamos só nós três e mais uma família, resistentes na piscina, típica família paulistana que mora em apartamento. Eu estava no bar da piscina, de costas para eles, Vini e a mãe estavam na água.

De repente, começo a escutar uma criança gritar incessantemente: “Paaai”, “paaai”. E eu, não familiarizado com o título, nem liguei que era para mim

Mas a criança não parava, e quando me virei pensando: Meu Deus quem é o pai dessa criança? Vejo o Vini acenando para mim de dentro da piscina, com 4 aninhos, e descubro que era ele que gritava e que o pai irresponsável que não respondia a criança era eu! Ali, naquele momento, nasceu o pai Leandro. E o início de toda a minha jornada sobre paternidade, paternagem, cuidados etc.

Diferentemente dos outros pais, eu não tive nove meses para amadurecer a ideia, não tinha me preparado para o título, mesmo compreendendo que estava namorando uma mulher que já era mãe e que eu já tinha me colocado na função de um adulto com a responsabilidade de dar exemplo, cuidar, brincar, educar uma criança.

A paternidade é avassaladora, porque é confusa, cheia de medos, inseguranças, perrengues e crises

E das mais diversas: pessoais, de casal, financeira, entre outras. Mas também vem com amor, afeto, carinho, autoconhecimento, licença poética para voltar a ser criança e sonhar, cheia de esperança e de cura. Essa paternidade aí só veio naquele dia. Sem pedir licença, sem avisar, de supetão. E foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida!

A paternidade para mim, foi a tal “reforma íntima” que tanto se fala e que acho que todos nós buscamos um dia. Para entendermos o que somos, para onde vamos, e para quê servimos. A paternidade mudou minha  forma de enxergar as pessoas, o planeta terra, minha vida e, principalmente, a mim mesmo. E isso me faz, até hoje, buscar um reposicionamento como homem e ser humano.

Então, foi assim que o Leandro, pai, nasceu. Já o projeto 4daddy nasceu de um caso muito engraçado e como consequência dessa paternidade. Quando começamos a morar juntos, era uma dinâmica nova para todos. Casa nova, quarto novo, escola nova, pai novo. Se nós, adultos, analisados, cheio de repertórios e livros lidos, somos resistentes a mudanças e morremos de medo de mudar, imagina uma criança de 4 anos!

Nos primeiros meses morando juntos, o Vini teve MUITA dificuldade para dormir. Tinha medo, acordava várias vezes durante a noite, tinha pesadelos. Depois de meses de insônia, choros, crises, em um momento de total desespero numa madrugada, eu peguei meu celular, entrei no Google e escrevi: “Como colocar uma criança de 4 anos para dormir”. Naquele momento tive noção de uma triste realidade. Fui até a quinta página do Google e não achei nenhuma reportagem, artigo, ou mesmo site que falasse comigo: PAI!

Encontrei ótimos textos, mas todos direcionados para as mães. E ali vi que tinha algo de muito errado. Fazendo uma analogia com o filme Matrix, era como se Morpheus me oferecesse ali as duas pílulas que ofereceu para o Neo, a azul e a vermelha. E sem julgamento do que é certo e errado. Eu escolhi a vermelha!

Não entrava na minha cabeça como eu, vinte e tantos anos e pós-graduado não tinha competência para colocar uma criança para dormir. Esse desafio me fez pesquisar, ler e descobrir a cultura machista

Também foi ali que tive o primeiro contato com os meus privilégios e preconceitos mas também um clique de que precisava ter algum lugar, algum espaço onde tivessem reportagens, artigos, materiais e até cursos voltados aos pais. Pois além de não existir repertório e nem referências sobre essa paternidade presente, saudável e humana, ainda temos a cultura de julgar que maternidade e paternidade não precisam ser aprendidas. Ouvimos sempre que ela é natural, é nata!

Vinícius, 11, e Leandro, o paizão que o menino escolheu para si quando tinha 4 anos.

Essa é a maior mentira que contamos uns aos outros. Nos preparamos para os estudos, para o vestibular, para concurso, para nossa profissão e até para os nossos hobbies, mas não dedicamos um tempo sequer e com qualidade para aprendermos a ser humanos melhores, um bom companheiro, amigo, pessoa, pai, mãe, familiar etc. E é necessário tempo e dedicação para isso também.

Na prática, o 4daddy foi nascer anos depois, em um café despretensioso com um amigo, Daniel Paccini, desabafando sobre as intempéries da nossa paternidade. Contei para ele, de brincadeira, da minha ideia de fazer um site sobre paternidade.

Dois dias depois, ele já tinha pesquisado nome, plataforma e ferramentas que viabilizariam a ideia sem custo. Foi o ponta pé inicial do projeto, que começou como um grupo fechado no Facebook e, em 20 dias, já tinha mais de 600 homens participando.

Montamos uma política de participação rigorosa, pois tínhamos medo do grupo perder o controle e virar uma depósito de brigas e compartilhamentos de sacanagens e piadas. Isso não aconteceu. Só uma única vez tivemos que mediar uma postagem, no ano passado, devido à polarização política que vivemos. Fora isso, em quatro anos, o tempo que existe o grupo fechado, nunca tivemos que gerenciar nenhum conflito. O grupo sempre foi um espaço de acolhimento e troca de experiências sobre a paternidade de cada um ali.

Após dois meses de teste no grupo fechado, colocamos no ar a primeira versão do site. Depois, fomos atrás de parceiros que pudessem escrever para nós e tivemos muita aceitação, seja de profissionais liberais como advogados e psicólogos até grandes organizações sociais como o Instituto Alana, a Unicef e outros, que apoiaram a nossa causa e nos incentivaram a continuar e expandir a produção de conteúdo.

Foi aí que tivemos o nosso primeiro contato com o tema políticas públicas e advocacy e percebemos como ainda estamos atrasados referente ao tema paternidade. A convite da nossa querida amiga Adriana, da Unicef, hoje participamos do Grupo de Trabalho (GT) Criança & Adolescente da Rede Nossa SP, e a convite de um outro grande parceiro, Dr. Marcus Renato, integramos também o GT Homens pela Primeira Infância da Rede Nacional Primeira Infância. O objetivo central das duas redes é influenciar políticas públicas sobre temas relacionados à infância, à juventude, aos direitos humanos, ao direito a cidade etc.

Hoje, depois de três anos de projeto formalizado como um negócio social, com mudança de identidade visual, versão 2.0 do site e reformulação de modelo de negócio e impacto social, somos uma plataforma de conteúdo e formação parental. Nossa missão é sensibilizar a sociedade civil (com conteúdo, cursos, rodas de conversa e outras atividades), a iniciativa privada (com palestras, workshops e ações personalizadas) e o Estado (advocacy) da importância da função paterna no desenvolvimento humano e social.

Estamos galgados em dois Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis da ONU. O ODS 5, que trata sobre a equidade de gênero, e o ODS 16, que disserta sobre a criação de uma sociedade mais justa e pacífica.

Não sei quem nasceu primeiro, minha paternidade ou o 4daddy. Mas por meio dos dois tive contato com o machismo estrutural e institucionalizado que mata e mutila mulheres, mas que também aprisiona, castra e mata homens

Vejamos como está em pauta o termo “masculinidade tóxica”, resultado de uma cultura machista que tem como consequências altas taxas de mortalidades de mulheres dentro de casa, suicídio de homens, morte por arma de fogo, violência, entre outros.

Em um país onde “pai” é artigo de luxo, já que dados do IBGE de 2016 mostram que de 70 milhões de famílias com crianças, mais de 12 milhões dessas famílias não têm o pai presente, falar sobre paternidade é também falar sobre direitos humanos, equidade de gênero e desenvolvimento social e econômico.

Por isso acredito que a paternidade ou paternagem, hoje, mais do que nunca, é um ato afetivo, social e político que pode nos ajudar a quebrar paradigmas, vencer desafios e melhorar a relação humana e o mundo em que vivemos.

 

 

Leandro Ziotto, 34, é pai de Vinícius, companheiro de Luisa e fundador da plataforma de conteúdo e formação parental 4daddy. É integrante dos Grupos de Trabalho “Criança & Adolescente” da Rede Nossa SP e “Homens pela Primeira Infância” da Rede Nacional Primeira Infância e do coletivo Imagine2030.

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