SPONSORS:

“Empatizo com quem não quer (ou não consegue) abrir mão do poder. Isso pode te fazer melhor – mas dói”

- 8 de junho de 2018
Fabi Maia fala de sua jornada em busca de aprender a compartilhar a gestão em sua organização e como isso mudou sua percepção do cuidar e do ser cuidada.

 

por Fabi Maia

Há cerca de sete anos, quando ouvi pela primeira vez o termo “Organizações de Centro Vazio”, me apaixonei  — racionalmente — pelo conceito, pelo nome, pelas crenças que sustentam essa abordagem. Na época, já estava mergulhada na pesquisa da Comunicação Não-Violenta, começando a estudar Dragon Dreaming e, na sequência, vinha o salto com a Sociocracia. Apesar de tudo isso, devo admitir:

Empatizo com quem não quer (ou não consegue) abrir mão do poder. Isso pode te fazer melhor – mas dói

Na época, estava fundando uma comunidade e centro de pesquisa focado na preservação ambiental e regeneração social chamada Terra Luminous e, no começo da operação, eu era o centro cheíssimo da organização. Vinha de duas décadas de consultoria, coaching e psicoterapia, dizendo para os outros como serem melhores líderes. Seguiram-se alguns anos em que eu comandava o espetáculo do negócio, cuidando da gestão geral, finanças (argh!), recepção de hóspedes, cardápio, comercial, gestão de pessoas e, muitas vezes, como facilitadora do retiro. One-Woman-Show!

Estava infeliz, ainda que vivendo o sonho tão querido e tão suado de conquistar. Tinha funcionários e, por mais que fizesse um baita esforço para empoderar os outros e compartilhar poder, ainda vivia em uma sofrida estrutura de comando-controle com pitadas coloridas de autogestão (mera ilusão).

Em 2015, com apoio do Rafael Oliveira, que tinha feito o curso de Sociocracia aqui no Luminous com a Gina Price e estava se aproximando do projeto desde o início, comecei a rascunhar como seria a nossa governança dinâmica, mas sem muito empenho na implantação. Eu ainda estava no centro e o Rafa, envolvido com outros projetos.

No ano seguinte, com a formação de uma comunidade intencional já com cinco integrantes vivendo no Luminous, incluindo o Rafael, e com dedicação quase integral de todos, é que o ritmo acelerou e viramos a chave para sermos uma organização sociocrática, especialmente depois do curso de aprofundamento com James Priest e Lilli David.

Bom, tudo isso é o contexto, mas o que quero compartilhar aqui é a dor que senti ao abrir mão do poder

Parece tão romântico anunciar por aí como é lindo compartilhar poder, que a gestão distribuída é a evolução, que no paradigma da abundância vivemos sem comando e controle, com equivalência nas vozes e assim queremos somente decisões que vibrem no ganha-ganha.

Quem me conhece sabe bem que esse é meu discurso, que realmente acredito nisso tudo. No entanto, quando estava lá no centro do poder, com a autoridade para decidir tudo, com os privilégios de quem comanda e, de repente, virando a chave de um modelo de design organizacional para outro, eu me sentia “perdendo” o direito de dar a primeira e a última palavra. Ai, ai, ai… que dor!

Senti medo, muito medo de não ser mais escutada. Não tinha segurança que minhas preferências, valores e opiniões seriam respeiados

E aí foi se dando uma cura ancestral em mim. Neta de coronel da aeronáutica, filha de engenheiro, empresário e CEO, acessei um aspecto da minha sombra bem pitoresco. Me dei conta de que não tinha segurança de que minha voz tinha valor. Assim, ao longo da vida fui me apoiando no poder estrutural, pois sendo “poderosa” com certeza seria ouvida e os outros fariam aquilo que eu quisesse.

Acesso nesse momento a “criança ferida e carente” que me habita. Percebo, nesse processo dolorido, que acreditava que para ser respeitada as pessoas precisariam ter medo de mim, do meu poder e de como eu o usava. Com as sutis (pero no mucho) punições e recompensas do dia-a-dia, alimentava ainda mais essa sensação.

Ou seja, posso ousar falar ou fazer o que quiser, algo inclusive que não atenda a necessidade de respeito dos outros, que nada de ruim vai acontecer comigo. Existe uma barreira natural na liderança, como a conhecemos nas grandes organizações, pois eu como “líder”estou menos exposta a situações em que minha necessidade de respeito fica desatendida. Em outras palavras, posso desrespeitar os outros e os outros vão engolir suas insatisfações para não me desrespeitar. O dito popular mais nefasto que ilustra isso é: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Uma deliciosa (e perigosa) doce ilusão.

Como tenho preferido as amargas verdades já há algum tempo, me joguei nesse precipício do Poder Compartilhado, desconfiando que tinha algo de valioso para a minha jornada evolutiva. Estava na hora de testar suas abordagens e métodos. Comecei a escutar as frases que vinham da Fabianinha (a criança que me habita ainda bem carente e mimada): ““Xi, nesse caminho você não vai mais ser escutada”, “Isso aqui vai virar outra coisa bem diferente do seu sonho original, até você não reconhecer mais o Luminous”, “Outras pessoas vão tomar o poder e você vai ter que obedecê-las”, “Você não será mais cuidada”.

Opa, esta última abriu uma porta desconhecida. Quero ver o que tem aí. Começa então um diálogo interno perturbador. Fabi no papel de terapeuta interna: “Como assim Fabianinha, você se sente tranquila e feliz porque é cuidada pelas pessoas que se submetem ao seu poder? Então, quer dizer que as pessoas só te oferecem cuidado porque você tem o poder de puni-las ou recompensá-las?”.

Já perto do fundo do poço, resolvo descer mais um pouquinho. Fabi no papel de terapeuta interna novamente: “O que se passa contigo Fabianinha? Você acha que não merece receber o cuidado espontâneo e voluntário das pessoas? Você não acredita que sem esse poder as pessoas à sua volta vão se interessar pelo seu bem-estar?”.

Um xeque-mate lá dentro. A criança faz silêncio. Imagens de infância começam a passar na tela mental como um filme bem nítido. Localizo as dinâmicas entre eu, meus pais e meus irmãos, e a Fabianinha diz: “É, eu sempre cuidei de todos, desde bem pequena. Os outros precisavam mais de cuidado do que eu”.

E as minhas necessidades? Eu me cuidava bem. Quando precisava de algo, fazia acontecer. Não precisava de ninguém cuidando de mim, e assim cresci acreditando que sou forte (mais forte que os outros, coitadinhos que precisam de ajuda!). E quanto mais acreditava nisso, mas soterrava aquilo que eu precisava, já que os fortes não precisam de nada, se bastam.

Quanto mais eu cuidava bem de mim e não pedia, menos recebia aquela atenção de cuidado e preocupação espontânea

Além disso, como cuidava bem dos outros, muitas vezes adivinhando suas necessidades pulsantes, tinha uma conta corrente emocional sempre positiva. Assim, os outros faziam o que eu “pedia” porque se sentiam em débito comigo, com minha generosidade.

Um pouco atordoada com tamanha revelação, vi um clarão à minha frente, lá naquele fundo de poço. Um “a-ha” com certo abalo sísmico. Fabi no papel de terapeuta interna mais uma vez: “Ok, eu te vejo Fabianinha! Era o que dava para ser naquele contexto com os recursos que já vieram no seu chip. Foi a escolha que você fez para se sentir bem, só que agora essa crença está te fazendo mal, não é? Está na hora de você curar essa ferida e confiar que pode ser cuidada, simplesmente por você existir, respirar e ser integrante de um grupo. Você não precisa cuidar dos outros para merecer ser cuidada. Você merece ser cuidada, independente do poder que exerça. Vamos tentar se entregar e confiar que sem o poder estrutural você será ouvida, respeitada, valorizada e cuidada? E que tudo isso que você receber, nessa nova forma de se relacionar, vai ser tão legítimo que vai te satisfazer muito mais?”

Fabianinha sentiu um calor gostoso como se fosse um abraço materno bem acolhedor. Assim, comecei a compartilhar essas descobertas com o grupo de guardiões do Luminous, percebendo que a cada dia recebia mais ações que abasteciam meu desejo por consideração, respeito, confiança, escuta, valorização etc. E quando o que eu recebia não estava alinhado com tudo isso e gritava lá dentro, trazia esse pedido para o grupo, sempre com muita escuta e acolhimento.

Por exemplo, teve um dia em que o Rafael, ao anunciar a escala de um retiro em uma reunião operacional, não citou meu nome. Eu questionei. Ele disse: “Você pode arrumar os vasos de flores”. Respondi algo gênero: “Ah, agora eu presto só para arrumar vasos de flores? Estou bem sentida, murcha, assim não fico bem. Preciso de inclusão agora e valorização também”. Isso gerou uma conversa bem significativa no grupo.

Escutei quão forte era a minha presença e que para outros se empoderarem eu precisava ficar um pouco longe da operação. E que minha contribuição para o Luminous seria mais valiosa naquele momento se eu escrevesse, cuidasse dos projetos do Instituto, da comunicação e dos assuntos de governança e operacionais. Percebi a perda do poder, da autorização de me meter em tudo. Lá vem aquela dorzinha de novo. Reclamava que não tinha apoio e que era pesado cuidar de tudo, mas tinha um prazer ali. Agora, já era. Me engajei com essa onda de poder compartilhado, gestão distribuída e não-violenta em uma “Organização de Centro Vazio”, então, aceitei que agora sou só mais uma que estou coordenando um dos cinco círculos e pronto.

Um belo chute no ego. Suspeito que essa dor venha desse lugar, talvez esse tal de ego seja a morada da criança ferida. Escolhi (e ainda escolho) seguir firme e forte, me rasgando e vulnerabilizando a cada reunião e a cada conversa.

Estou cada vez mais confiante que compartilhar poder é minha cura e cheia de gratidão a esses caminhantes, que me fazem companhia na jornada e espetam minhas crenças mais aprisionantes

Esse caminho é para quem está disponível para se olhar com as lentes terapêuticas mais ácidas, para quem ousa dialogar com sua criança interna ferida e quer parar de alimentá-la com ilusão. O resultado é uma experiência de libertação e uma cura coletiva mais abrangente do que podemos sonhar!

 

Fabi Maia, 46, é formada em Psicologia pela PUC-RJ e pós-graduada em Psicologia Analítica pela mesma instituição. É cofundadora e presidente do Instituto Terra Luminous, em Juquitiba (SP) e uma das embaixadoras no Brasil da GEN – Global Ecovillage Network.

Veja também: