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“Empreendedores sociais também são obsessivos com sucesso, mas o foco é mudar a realidade das pessoas”

- 13 de junho de 2019
Anamaria Schindler está há 23 anos na Ashoka. Hoje ocupa o cargo de diretora de integração global.

A Ashoka é uma organização sem fins lucrativos fundada há quase 40 anos na Índia pelo americano Bill Drayton. Com escritórios em 36 países, seu trabalho alcança 85 nações e inclui uma rede de aproximadamente 4 mil empreendedores sociais (376 deles no Brasil) em áreas como saúde, educação, meio ambiente e direitos humanos.

Dois ganhadores do Prêmio Nobel da Paz estão entre os líderes mundiais na rede da Ashoka: o conselheiro bengalês Muhammad Yunus (laureado em 2006 e autor de O Banqueiro dos Pobres), e o fellow e ativista indiano Kailash Satyarthi, que dividiu com a paquistanesa Malala Yousafzay o prêmio em 2014 por sua luta em defesa das crianças. No Brasil, o primeiro fellow Ashoka foi o ambientalista Chico Mendes, que entrou para a rede um mês antes de ser assassinado, em 1988.

Ao longo de 23 anos, Anamaria Schindler, 56, socióloga brasileira nascida na Alemanha, passou por diversas posições na organização da qual é hoje diretora de integração global. Lá atrás, sua primeira missão foi criar uma parceria estratégica com a consultoria McKinsey. Dali, tornou-se vice-presidente global em parcerias estratégicas e ocupou a co-presidência mundial de 2003 a 2007.

“Quando entrei na Ashoka, minha família falou desde o primeiro dia: faça tudo que você quiser, menos pedir que a gente se mude para Washington”, conta a executiva, que viveu na ponte-aérea São Paulo-Washington por cinco anos. “Eram duas semanas lá e de quatro a seis aqui.”

A seguir, Anamaria fala sobre filantropia e empreendedorismo social, a ascensão dos negócios sociais, as soluções que a tecnologia oferece para problemas globais e as semelhanças entre empresários que constroem negócios baseados apenas no lucro e os empreendedores sociais — ambos são obstinados pelo sucesso.

 

O impacto positivo na sociedade sempre esteve em seu foco?
Fiz graduação em Ciências Sociais na USP. Já no segundo ano do curso, o sociólogo e professor Sergio Adorno, que depois foi meu orientador de mestrado e doutorado, me convidou para ser assistente em uma pesquisa sobre reincidência penitenciária.

Meu primeiro trabalho foi dentro da penitenciária masculina do Estado, para onde eu ia de três a quatro vezes por semana à tarde, sozinha. Essa foi minha entrada em Direitos Humanos, área em que trabalhei por 14 anos, boa parte desse tempo no Núcleo de Estudos da Violência (NEV), que foi o primeiro think tank em Direitos Humanos no Brasil.

E sua história com o empreendedorismo social, como começa?
Meu mestrado foi sobre a história da filantropia no Brasil e o doutorado sobre filantropia empresarial. Peguei toda a ascensão de institutos empresariais, homens de negócio que estavam começando sua trajetória de filantropos. Fiz parte do GIFE – Grupo de Institutos Fundações e Empresas.

Conheci e entrevistei vários empresários brasileiros naquele momento, como Ricardo Young, que na época comandava a rede de escolas de inglês Yázigi e mais tarde virou presidente do Instituto Ethos e um dos fundadores do Instituto Nossa São Paulo; Guilherme Leal, da Natura; e Jayme Garfinkel, da Porto Seguro Seguros. Todos foram cases da minha tese de doutorado.

Em 1996, fui entrevistar para a tese a então diretora de relações comunitárias da Câmara Americana de Comércio para o Brasil. No meio da conversa ela falou: “Acho que você tem o perfil da pessoa que um amigo procura para um trabalho”.

Nesse ano, especificamente, eu estava só fazendo doutorado. Tinha saído do NEV por causa da minha filha, que hoje está com 26 anos, e tinha sido diagnosticada com uma síndrome neuromuscular séria. Então, entre 1995 e 1996 fui estudar anatomia, fiz curso de todos os tipos de terapia para essa síndrome. Eu fazia o doutorado e cuidava da minha filha. Mas perguntei do que se tratava a vaga e a pessoa disse: é da Ashoka. Saímos do escritório onde estávamos, andamos três quarteirões e fiz minha primeira entrevista na organização, onde estou até hoje. Meu papel, na época, era começar uma aliança estratégica com a McKinsey.

Normalmente, programas de aceleração de startups duram cerca de quatro a sete meses. Na Ashoka, uma vez que o empreendedor entra, não sai mais. Por quê?
A rede é vitalícia. Quando selecionamos um empreendedor, nos três primeiros anos temos um foco muito específico, que hoje é chamado de aceleração: consultoria, programas de desenvolvimento de metodologias de negócio, captação de recursos, marketing, comunicação etc.

A Ashoka não financia o projeto, mas dá uma bolsa-salário durante três anos para pagamento de despesas pessoais do empreendedor. Esse valor é variável de acordo com a necessidade da pessoa

Com esse suporte, o empreendedor social vai ter portas abertas e instrumentos para se sustentar sozinho após os três primeiros anos. Cada centavo que a Ashoka investe em empreendedorismo social vem da captação de recursos filantrópicos. São fundações empresariais, fundações filantrópicas e indivíduos que fazem doações.

Em que áreas os empreendedores sociais brasileiros têm tido mais impacto?
Historicamente, as principais áreas sempre foram educação e meio ambiente. Mais recentemente, diversidade, raça, gênero, periferias urbanas e, sem dúvida, a questão da desigualdade ganharam força.

Aí a Ashoka não está falando só de desigualdade econômica, concentração de riqueza – é um abismo o que vivemos nesse sentido no Brasil, é a van de cinco pessoas que detém patrimônio equivalente à renda da metade mais pobre da população do país. Mas estamos falando de uma nova desigualdade agora, das crianças e jovens terem habilidade para esse novo mundo. Por isso estamos trazendo muitos empreendedores sociais que tratam dessas desigualdades: gênero, raça, acesso à informação e à educação.

Um dos exemplos é o da Diane Pereira Sousa, que  foi selecionada no ano passado. Menina negra que cresceu com todo prognóstico de não ser bem sucedida, entrou no mundo do esporte e hoje trabalha com para tirar essas meninas negras do estigma que estão colocadas em periferias urbanas. É a questão da desigualdade racial, no caso dela, sendo trabalhado via o esporte.

Empreendedorismo social é diferente de negócio social?
A filantropia é um processo que vem ocorrendo historicamente nos Estados Unidos, Europa e na América Latina, e parte de uma mentalidade em que os filantropos, indivíduos e suas organizações que atingiram um nível de riqueza grande, têm consciência de que são privilegiados, de que geram desigualdade e querem devolver à sociedade o que ela os deu.

A filantropia é sempre o give back. Se analisarmos historicamente, das famílias católicas mais ricas até a Fundação Bill e Melinda Gates, a mentalidade é a mesma: acumulei muito e estou devolvendo para a sociedade

Hoje se tem uma filantropia estratégica. As fundações buscam impacto social, mudança social sistêmica. Isso começa nos anos 1970, 1980. Até então, a história da filantropia era toda associada com caridade, Igreja. No caso dos Estados Unidos, muito ligada ao protestantismo.

Atualmente há também um setor de negócios sociais. Negócios, portanto, que têm objetivos de impacto social, mas também de retorno financeiro. Na Ashoka sempre apoiamos o desenvolvimento do modelo de negócio social. É algo fundamental. Só não pode haver deturpação desse modelo, em que o objetivo primário acaba sendo o retorno financeiro. Tem que ter o retorno financeiro mas, ao mesmo tempo, impacto social.

Os projetos selecionados pela Ashoka não visam lucro?
A Ashoka não visa lucrar, tampouco apoia empreendedores sociais cujo objetivo inicial é gerar lucro. Há vários empreendedores na rede com modelos de negócios lucrativos, mas usamos o parâmetro do Grameen Bank, do conselheiro da Ashoka Muhammad Yunus.

São dois critérios básicos que os nossos fellows devem seguir. Nos dez primeiros anos, é preciso haver reinvestimento de qualquer lucro; a partir de dez anos, pode haver distribuição, desde que se siga o segundo critério: o empreendedor social não pode ser o majoritário na divisão desse lucro

Pois qual a lógica empreendedorismo social? Ter impacto, chegar nas comunidades, nos grandes problemas sociais da humanidade e ter soluções sistêmicas.

Pode dar exemplos do que você chama de impacto social sistêmico?
O empreendedor social tem uma primeira fase de aprendizagem na qual vai testar modelos. A segunda fase é a da decolagem, quando ele já identificou a solução para o problema social com o qual vai trabalhar e, então, começa a montar uma organização, um movimento, uma estratégia para resolver aquele problema. Essa estratégia é que vai gerar o impacto social. Entende-se impacto aí de diferentes maneiras: número de pessoas atingidas, um milhão, por exemplo, é uma medida de impacto social.

Uma segunda medida é quando começa-se a ter um impacto social sistêmico, ou seja, quando aquela solução vira uma política pública adotada pela cidade, estado ou país. E um terceiro nível é quando aquilo começa a mudar o que chamamos de quadro de referência, o mindset. Mudam-se sistemas de fazer negócio, sistemas financeiros, de regulação. Passa-se de política pública para influenciar algo que vai ser perene na sociedade.

Exemplo: comércio justo. Temos na rede da Ashoka um empreendedor social africano chamado Ron Layton que criou uma rede de pequenos agricultores de café comercializados dentro dos preceitos do comércio justo. O Ron e seu parceiro de negócio começaram a trabalhar com pequenos agricultores. A partir daí passaram a influenciar governos locais no desenvolvimento de políticas para esses comerciantes dentro de uma equidade econômica.

Disso gerou-se um movimento nacional e mundial de comércio justo, que hoje está presente na cadeia produtiva de cacau, café e frutas inclusive no Brasil. Aquilo que começou lá na África com pequenos agricultores de café hoje virou um modelo internacional.

Ser um empreendedor social, então, não seria algo muito grandioso, quase inalcançável?
Quando entrevistamos o empreendedor social, percebemos que ele tem uma maneira de ver o mundo muito diferente. Ele é tomado por aquela missão. Não quer fazer um projeto que alcance 30 crianças, ou criar uma escola. Os candidatos chegam para nós com um sentido de justiça social e uma solução que vai gerar mudança na vida de muitas pessoas. É quase um obstinado. Empresários bem-sucedidos são absolutamente obsessivos com o sucesso das empresas e o impacto delas. O empreendedor social é igual, mas o objetivo é mudar a realidade das pessoas.

Quais as características buscadas nessas pessoas?
O primeiro critério da Ashoka é uma ideia inovadora. O segundo é criatividade para solucionar obstáculos. Depois, impacto social. Espera-se que essa ideia tenha um alcance nacional e possa influenciar a vida de milhares de pessoas. É escalar, mas em uma escala incremental. Pense no Rodrigo Baggio (fellow Ashoka), que criou em 1995 o Comitê para Democratização da Informática (CDI), levando informática pra favela. Hoje o CDI gerou mudança tecnológica em favelas do mundo todo, não só na Rocinha, no Rio de Janeiro, onde começou.

O quarto critério é a fibra ética. É a questão dos valores que o empreendedor social aplica naquilo que faz, pois ele vai construir um modelo que vai virar referência para milhares de pessoas. Fazemos uma análise sobre a trajetória e valores éticos dessa pessoa por meio de entrevista e checagem de referências.

Como a Transformação digital impacta o trabalho da Ashoka?
Acabamos de lançar uma iniciativa global da Ashoka que se chama New Fields Ashoka para novos campos de transformação social nos próximos dez anos. Estamos montando equipes junto com empreendedores sociais para trabalhar temas ligados não só à questão digital, mas a tecnologias futuras para a sustentabilidade. Inteligência Artificial, novas tecnologias de controle de poluição ou formas de geração de energia estão entre eles.

Tecnologias como robótica e AI podem ajudar a solucionar problemas sociais? Até agora, muito tem se falado nos impactos negativos, com geração de conteúdo enviesado (com discriminação por gênero ou raça)…
O maior impacto é no mundo do trabalho, a substituição do homem pela máquina. Eu comparo muito o que estamos vivendo hoje com o que foi a Revolução Industrial. Muito dos instrumentos e sistemas ainda têm que ser criados.

Faço seleção de empreendedores no mundo todo. Uma das que mais me impactaram ultimamente — só de falar sou capaz de chorar — foi o caso de um rapaz (Hamse Warfe), de menos de 30 anos, nascido na Somália, de onde a família foi expulsa na guerra. Foram morar no campo de refugiados de Dadaab, no Quênia, um dos maiores do mundo. Ele viveu seis anos lá, onde era entregador de mercadorias que chegavam pelas Nações Unidas para serem distribuídas entre as pessoas. Imagina um campo com 800 mil refugiados, é uma cidade. Ele tinha uma moto e fazia as entregas.

Quando a família dele finalmente emigrou para os EUA, onde foram alvo de discriminação intensa, ele desenvolveu um aplicativo para entregadores e comerciantes do campo de refugiados registrarem suas atividades econômicas. Porque o refugiado é apátrida, não tem RG nem identidade econômica: não pode abrir conta em banco, obter cartão de crédito, pagar sua conta de celular. Não tem holerite, não pode comprovar renda.

Esse app, o BanQu (baseado em blockchain), é um tipo de um “econômetro” que vai acoplado na moto do entregador. O cara pôs gasolina, registra no app, e também a quilometragem que percorre entregando mercadorias. É um rastreador que comprova que ele exerce atividades econômicas. É um modelo de identidade econômica para quem não tem identidade econômica. É economia informal? É. Mas existem milhões de pessoas no mundo nessa situação. E tem um refugiado africano que vai para os EUA e monta um sistema tecnológico que permite a milhões de pessoas terem acesso a um sistema econômico.

Os empreendedores sociais, então, vão entrar com as soluções sociais para esse novos sistemas tecnológicos. Vivemos hoje a emergência desse futuro. Muita coisa ainda precisa ser criada. E os sistemas sociais para essas tecnologias vão ter que ser criados também

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