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“Empreender em negócios de impacto é bem mais difícil do que eu imaginava”

- 8 de março de 2019
Guilherme de Almeida Prado, empreendedor social, fala das dificuldades do setor e de como superou a impressão de que “esse tal de propósito” era apenas uma desculpa para continuar gastando dinheiro.


por Guilherme de Almeida Prado

Tive o privilégio de vir de uma família empreendedora. Meu pai, meus avôs e meus dois irmãos são empreendedores em ramos completamente distintos. Por conta disso, sempre tive vontade de empreender.

No último ano da faculdade, comecei uma empresa de comunicação com meu irmão e mais um sócio. Iniciamos do zero. Sem capital algum. Eram dois computadores para nós três e uma mesa de futebol de botão para entreter quem estava sem computador. Conquistamos clientes na raça, aprendemos quase tudo do zero. A empresa se tornou uma agência de promoção e eventos relevante no setor. Depois de 13 anos à frente do negócio, resolvi que era hora de mudar.

A agência era rentável, os processos estavam estabelecidos, mas, para mim, faltava algo. Sentia que estava muito distante de ajudar na solução dos problemas do Brasil, um país tão desigual.

A questão da desigualdade sempre me incomodou — mas eu nunca tinha feito nada relevante a respeito. Estava com 35 anos, achei que era hora de focar meus esforços nisso

Era pós-governo Lula e início do governo Dilma. As classes sociais mais baixas estavam com mais renda e acesso ao crédito, entretanto, não necessariamente com acesso a uma vida financeira melhor. Resolvi que o foco, então, seria ajudar essas pessoas nas suas decisões financeiras.

No final de 2011 anunciei minha decisão; em março de 2012 sai do dia a dia da empresa para fundar a Konkero, um site de comparação de produtos financeiros e finanças pessoais com o objetivo de ajudar as pessoas a tomar melhores decisões financeiras. Konkero significa “conquista” em esperanto. Acredito que as pessoas só vão buscar melhorar as próprias vidas financeiras se tiverem uma conquista em mente.

Em 2013 fui selecionado pela Artemisia, aceleradora de negócios de impacto social pioneira no Brasil nesse conceito. Foi uma experiência inesquecível. Lá, conheci o termo “negócios de impacto social” – que são negócios privados com objetivo de dar lucro e, ao mesmo tempo, ter impacto social. Naquele momento ficou claro para mim. Era exatamente isso que queria fazer da minha vida. Só não sabia quão duro seria…

Empreender no Brasil é muito difícil. Empreender negócios de impacto é ainda mais complexo. No geral, acertar o modelo de negócio acaba tomando mais tempo do que o de um negócio tradicional. Além disso, ao focar na base da pirâmide as margens costumam ser menores – o que exige escala para superar esse problema. Aí é que está o grande desafio. Como atingir a escala necessária para o negócio parar de pé.

Testei diversos modelos de negócio da Konkero até acertar.

Fiquei quatro anos, de 2012 a 2016, tendo prejuízos e investindo do próprio bolso. Foram vários erros e aprendizados ao longo do caminho

O maior erro, talvez, tenha sido iniciar o site quando praticamente inexistiam clientes. Poucas empresas estavam buscando clientes de serviços financeiros de forma online, em especial os de classe média e baixa. Isso viria a mudar com o surgimento de diversas fintechs. Por diversos momentos pensei em desistir. Sem dúvida, ter um propósito maior me ajudou a insistir mais. No entanto, ao mesmo tempo, me perguntava se “esse tal de propósito” não era apenas uma desculpa para continuar gastando dinheiro.

No segundo semestre de 2016, finalmente atingimos o break-even (quando a empresa passa a se pagar) e a partir daí estamos tendo um lucro crescente. Em um passo adiante, lendo um artigo, conheci o conceito de company builder, adotado por alguns empreendedores dos Estados Unidos. São empresas que criam negócios em série. Elas têm um time que origina a ideia, cria o piloto, testa, faz ajustes até acertar o modelo e, quando acertam, iniciam a expansão.

Resolvi que ia criar uma company builder de negócios de impacto social chamada Venture Studio. Parecia – e ainda parece – meio louco focar esforços em várias iniciativas de negócios de impacto ao mesmo tempo. De novo, tive momentos em que quis desistir.

Chegava em casa e não sabia se estava insistindo por teimosia, se era por conta do “tal do propósito” ou se estava me autoenganando

Foi, então, que as coisas começaram a tomar forma no ano passado. Hoje, temos quatro empresas gerando impacto. A Konkero se consolidou como maior portal de comparação de produtos financeiros e finanças pessoais do Brasil com mais de 1,8 milhão de visitas por mês. Lançamos, em março de 2017, a Central da Catarata (que oferece cirurgias de catarata a preços mais acessíveis em clínicas de qualidade). Já ajudamos a realizar mais de 600 cirurgias. As histórias de cada paciente são inspiradoras. Vários são os relatos de idosos que voltaram a ser ativos após a cirurgia.

Depois no ano passado, lançamos o projeto Iniciativas Empreendedoras, um sistema de cursos por WhatsApp no qual já treinamos mais de 7 mil pessoas. Os cursos são bancados por empresas e oferecidos gratuitamente a pessoas em condições vulneráveis. Incentivamos Fernando, um adolescente, a plantar árvores em uma cidade do interior da Bahia; Marcele a montar um sistema de venda de produtos de agricultura familiar; e Catarina, uma jovem de 16 anos, a criar cursos profissionalizantes para alunos de ensino médio. Tudo por WhatsApp! Em dezembro de 2018, lançamos a KeroGrana, um site de empréstimo online que em janeiro já recebeu mais de 100 milhões de reais em pedidos de empréstimo.

Esses anos têm sido os mais extenuantes e, ao mesmo tempo, os mais gratificantes da minha carreira. Começar empresas do zero exige esforço dobrado, desapego para mudar o modelo de negócio diversas vezes e acreditar muito que dias melhores virão.

Mas, quem falou que ia ser fácil? A despeito de todos os desafios, permanece o sonho de conseguir criar negócios de impacto em série; empresas que melhorem a vida de milhões de brasileiros. Ainda há muito por fazer, mas estamos no caminho.

 

 

Guilherme de Almeida Prado, 42, é empreendedor de negócios de impacto social serial. Fundou a Konkero, a KeroGrana e a Central da Catarata. O especialista em finanças pessoais é graduado e mestre em Administração de empresas pela EAESP-FGV.

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