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“Empreendi fora do Brasil. Vivi o sucesso, experimentei o fracasso e hoje me cobro menos. Eis o que aprendi”

- 5 de outubro de 2018
Thaiza Melo saiu do país achando que teria um emprego convencional. Não deu certo, decidiu empreender e conta o que aprendeu com o sucesso — e a falência — e como hoje ajuda quem está nessa jornada.

 

por Thayza Melo

Sempre me cobrei muito por não ter alcançado algo super hiper blaster incrível. Não sou mundialmente conhecida, não criei uma ideia disruptiva, não inventei algo totalmente inovador, não vendi nenhuma empresa por milhões, nem criei nenhuma fórmula mágica.

Simplesmente fiz um monte de coisas: algumas cagadas, erros bem feios, e outras tantas coisas que acertei e fiz maravilhosamente bem. E, durante todo esse tempo, aprendi muito, na raça mesmo. O aprendizado foi brutal, intenso, acelerado.

Se tem uma coisa que aprendi durante todos esses anos foi: Não seja morna! Seja autêntica, seja decisiva, SEJA algo.

E você pode começar qualquer coisa do puto zero absoluto e conseguir transformar o que você tem em mente em algo palpável, real, possível.

Basta correr atrás do que quer, mas tem que correr atrás de verdade, isso quer dizer, tirar o popô da cadeira e criar as suas oportunidades. Quando não existe uma porta para abrir, significa que chegou a hora de construir a sua própria porta.

Olha eu: cheguei em Madrid, sem nem saber falar espanhol direito, e em três anos estava expondo meus produtos por toda Europa com mais de 80 pontos de vendas. Como consegui isso? Ficando sentada olhando pela janela? Claro que não! Foi abrindo as minhas próprias portas, falando com muita gente, estudando horrores, aprendendo muito, errando, acertando e buscando novas ideias.

Mas vou começar do começo. Contar as aventuras de uma brasileira querendo empreender na Europa. Meu marido é espanhol e casamos no Brasil, em um cartório brasileiro. Para o casamento ser reconhecido pela Espanha, era preciso passar pelo consulado espanhol, onde fomos entrevistados individualmente, em salas separadas, para provar que não era um casamento comprado. Essa foi a primeira parte para a Espanha reconhecer oficialmente que éramos casados.

No Brasil, eu trabalhava há na área de TI com uma carreira em uma multinacional espanhola, um cargo importante, gerenciando uma grande equipe. Quando falei com o meu chefe sobre a ideia de ir morar na Espanha, tudo se encaixou. Naquela mesma época havia uma vaga aberta em Madrid com o meu perfil e, como em um filme com final feliz, o universo conspirava ao meu favor.

Eu estava casando, amando, indo morar na Europa e ainda com uma vaga de emprego na mesma multinacional para a qual eu já trabalhava. Era só chegar lá e começar no mês seguinte. Perfeito né? Só que não!

Para trabalhar eu precisava do RNE. Para ter o RNE, a Espanha precisava reconhecer o casamento. Para reconhecer e liberar o meu RNE, passaram-se oito meses. O que aconteceu com a minha perfeita vaga? Se esfumou.

Sem alternativa, tive que encontrar o plano B. Nesse momento vi a oportunidade de fazer um curso de designer com gestão em moda, algo que eu sempre quis fazer mas nunca tinha tempo. Sai com uma plano de negócio para abrir uma empresa de acessórios. Quase como uma brincadeira do destino, o meu RNE espanhol saiu no mesmo mês, ou seja eu poderia voltar para o mercado de trabalho ou eu poderia empreender. Escolhi a segunda opção e comecei.

Isso era 2007. Eu tinha um pensamento fixo: queria expor minhas peças em Paris. Foram três anos querendo estar em Paris. Três anos querendo estar na feira Eclat de Mode Bijorca. Era caro, continua sendo, mas era um sonho. De lá, eu poderia levar a minha marca de bijouterias para outro nível: conhecer novos clientes, vender para toda Europa, Asia, mundo.

O que eu poderia fazer para conseguir isso?

Primeiro, fui atrás de informação. Muita pesquisa, conversei com outras marcas, troquei ideias, li muitos artigos sobre como pequenas marcas poderiam estar lá. Nessa pesquisa, descobri que a prefeitura de Madrid tinha algumas linhas de apoio a empresas que quisessem internacionalizar. Fui conversar com o setor responsável pela subvenção e fiquei sabendo de todas as regras necessárias para conseguir a ajuda. E comecei a calcular quando seria possível realmente ir para Paris.

Minha próxima ação foi realmente ir conhecer a feira. Fui como visitante para ver como eram os stands, a qualidade do material, como era a exposição. Conversei com expositoras, com os responsáveis da feira, tirei muitas fotos, fiz uma monte de anotações interessantes. Voltei para Espanha e comecei a traçar meus objetivos.

Comecei fazendo uma lista. Dinheiro, qual o valor seria necessário? Era meio uma conta de padaria ainda, mas eu já tinha um valor em mente. Capacidade de produção, quantas peças eu conseguiria produzir? O conceito da feira é fazer pedidos, ou seja, ir com uma coleção e receber os pedidos dos lojistas e eu tinha a preocupação de ser capaz de entregar o que vendesse lá. (Guarde essa informação porque depois você entender o que houve.)

Eu também teria que pensar como seria a coleção em si, além da decoração do meu stand. Eu tinha 30 anos e pouca experiência como empreendedora, senti necessidade de aprender mais sobre produtividade e gerenciamento. Fui atrás de cursos para melhorar minha capacidade.

Com tudo isso pensando, cheguei a um valor de 7500 euros. Ir para feria custaria isso — e eu não tinha esse dinheiro. Ou seja: precisava fazer dinheiro antes.

Isso já era em 2009 e meu objetivo era chegar à feira em 2010. Era necessário levantar a grana. Tracei uma meta de criar uma coleção e vender para lojas de Madrid e depois para toda Espanha.

Com as minhas primeiras peças em uma malinha, o portunhol melhorado e muita vontade de vender, saí para as ruas. Naquela época não existia Instagram, o Facebook estava só começando e achei uma lista de lojas em um blog. Eram o meu alvo

Fui pessoalmente mostrar minhas peças. O meu cliente ideal eram pequenas lojas que geralmente eram gerenciadas pela própria dona e então eu tive a sorte de quase sempre encontrar a responsável pelas compras na loja quando chegava. Sei que as coisas fluíam porque eu tinha um produto semi artesenal, produzido na Espanha, fofo, super fofo, com qualidade, além de ser uma marca nova.

E assim foi. Na primeira semana eu tinha aberto sete pontos de vendas em Madrid. Estava feliz, vendendo mas não era suficiente para ir para Paris. Precisava mais! Muito mais.

Comecei a procurar lojas em toda Espanha, minha lista era enorme e separei as lojas por região, porque além de tudo, como eu era uma marca pequena e começando, as lojas não queriam que eu vendesse para outra loja concorrente próxima a ela. Então fiz uma lista de loja com o bairro para ter certeza que estava respeitando essa regra.

Lá no topo do funil eu tinha minha lista de lojas: visitantes. Depois eu ligava para todas e conseguia os e-mail para enviar informação: leads. Quem se interessava respondia o e-mail, geralmente pedindo mais informações: oportunidade. A loja fazia a compra: ação. Eu enviava o produto e iniciava um relacionamento com a marca: pós venda.

Eu calculava por instinto a taxa de conversão, de cada X ligações, tantas lojas compram. A conta era fácil, quantas ligações eu preciso fazer para vender o que preciso?

Eu ainda produzia peças aleatórias e isso complicava minha vida. Entendi que era o momento de realmente produzir uma coleção, montar um catálogo com preços e códigos — assim seria mais fácil vender à distância. Ao fazer isso, consegui de cara sete pedidos, que somavam quase 2000 euros. Havia encontrado o caminho, só poderia ser isso, eu havia encontrado o caminho!

Paris não era o fim e, sim, o começo! A primeira feira foi um aprendizado enorme, nosso stand não era o mais bem montado mas ele se superava em delicadeza e isso chamava atenção dos lojistas. Vendi tanto que estourei o melhor cenário que havia pensado.

Eu estava feliz, mas bem assustada porque realmente não tinha capacidade de produzir tudo aquilo naquele prazo. Vender demais em um momento inicial pode ser realmente assustador porque você começa a pensar em um monte de problemas e eu não sabia nem como começar. E pior ainda, o fluxo de caixa da empresa ia ficar vermelho vivo, porque eu tinha uma reserva para iniciar a produção mas não era nem de perto o que iria precisar.

Com a pouca experiência, entrei de cabeça no operacional da empresa. Compras, pedidos, entregas, problemas, logística, aumentar a equipe. Hoje vejo como aquele voo de volta para Madrid, em que vim fazendo planilhas quanto teria que colocar de grana, representou eu entrando no buraco do operacional — e de lá eu só saí quando a empresa começou a dar indícios de quebrar.

O sucesso pode ser um ingrediente para o fracasso.

Isso aconteceu comigo, vender demais não foi a melhor coisa naquele momento. Eu era inexperiente, não entendia muito bem de gestão, planejamento, estratégias de crescimento, fazia tudo na intuição. Eu voltei quatro vezes para Paris, expus em Londres, Copenhagen, vendi para o Japão.

Mas, com tanto sucesso, porque eu fali? Falta de visão, de olhar para fora, fatores externos e decisões erradas.

A crise europeia tinha se instalado e os lojistas que eram meu clientes começaram a fechar as portas, todo mundo sentiu a crise. Até as feiras diminuíram de tamanho e com tudo isso as vendas começaram a cair, despencar.

Junto com isso, o meu período na incubadora acabou e tive que sair e então veio a transferência do meu marido para o Brasil. Eu estava lá com uma empresa capenga, mal pagando as contas, tive que demitir 80% da equipe. Precisava tomar uma decisão.

Fechar era uma punhalada no meu coração, porque a gente AMA o que a gente CRIA. Eu ainda tenho coisas da Santa Mistura guardadas em um guarda móveis de Madrid, acho que agora, depois de seis anos, consigo me desfazer. Desapegar das coisas é um aprendizado.

Tentei trazer a marca para o Brasil, fui para feiras em São Paulo, mas o produto não encaixava com o mercado e eu não tinha grana para fazer um investimento em marketing.

Fechei.

Na feira de São Paulo, percebi que as pessoas gostavam muito dos desenhos mas não curtiam as bijoux. Isso me deu um estalo, vou usar a ideia e aplicar em outro tipo de material.

Um tempo depois nasceu a Happy Things, uma “papelaria criativa”, era um recomeço. Comecei em casa, cresci, aluguei um espaço, cresci, mudei para um maior, cheguei a vender para Fnac e muitas lojas do Brasil. Foi outro grande aprendizado na minha vida e uma paixão menos apegada que a primeira empresa.

Nesse mesmo período, comecei a gerenciar um grupo para mulheres pequenas empreendedoras no Facebook. O grupo cresceu muito rápido e nem eu e nem as outras meninas que estavam comigo sabíamos como monetizar tudo aquilo. Fechei a Happy para me dedicar a essa ideia porque me fez bem trabalhar com mulheres.

Conseguimos um espaço em um shopping, em Curitiba, o Mueller. Sem grana para montar a loja, a sacada foi criar um espaço colaborativo, onde as empreendedoras traziam seus produtos, pagavam uma taxa mensal mais a comissão de vendas e testavam seus produtos no shopping. Mas eu queria mais: queria ajudar aquelas mulheres.

Então criei uma programa de formação para quem estava expondo na loja. Todo mês eu fazia uma reunião com cada empreendedora, calculava preços, fazia planejamento com elas, analisava o que estava funcionando e assim vi muitas empreendedoras crescendo. Ajudar essas empreendedoras, mostrar possíveis erros, ajudar a criar marcas me mostrou que eu acumulava um conhecimento que nem eu sabia que tinha. Nossa loja colaborativa ganhou o prêmio Abrasce de 2017.

Por divergências com algumas pessoas do grupo, resolvi sair. Para mim, empreender tem que ser algo feliz, pois já tem muito problema para ainda por cima trabalhar sem sintonia.

Queria algo novo, focado, inspirador, queria inspirar, incentivar as mulheres. Eu vi que existia muito potencial e os erros que as empreendedoras cometiam eram muito parecidos com os erros que eu já tinha cometido. Depois de alguns meses nasceu a Ladies DO! um movimento para inspirar, incentivar e apoiar as mulheres.

Começou com uma newsletter com curadoria de notícias e cresceu para um plano assinatura mensal, a Ladies Academy, no qual as empreendedoras se inscrevem e têm acesso a conteúdo prático. Em resumo: transformei todo o meu conhecimento, erros, acertos, cagadas e triunfos em aulas para guiar as mulheres no empreendedorismo.

Em três meses de vida, a Ladies Academy já tem 63 alunas inscritas. É realmente emocionante ver a diferença que o conhecimento faz na vida das pessoas. Eu queria ter tido uma Ladies Academy quando comecei o meu plano de ir para Paris, e é com alegria que ofereço isso ao mundo.

 

 

Thayza Melo, 41, é formada em Análise de Sistemas e já fez cursos de designer, moda e marketing digital. Empreendedora, gosta de inspirar as pessoas. É brasileira por nascimento, espanhola por opção, cidadã do mundo. Mudou muitas vezes de lugar e se reinventou outras tantas.