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“Empresas que geram patentes não são necessariamente inovadoras. É preciso ir além”

- 7 de junho de 2019
Paulo Gandolfi, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa 3M do Brasil, fala sobre os desafios da ciência e dos caminhos para avançar com novas ideias e soluções.

“Somos o pescoço.” É assim, de forma pouco ortodoxa, que Paulo Gandolfi, 45, há 22 anos na empresa e diretor de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) da 3M do Brasil desde o começo de 2019, define o papel do departamento na organização. “Fazemos a ligação entre a cabeça e o resto do organismo da empresa. Ajudamos a conectar o pensamento estratégico das áreas de negócios (marketing e vendas) e demais departamentos da companhia, em especial a manufatura”, conta rindo, em um resumo divertido e ilustrativo da complexa atuação do departamento.

Segundo ele, trabalhar com este espírito dentro de uma empresa como a 3M, que tem a ciência como o cerne de sua atuação, é levar a abordagem inovadora para muito além da bancada do laboratório e alcançar todas as frentes de negócios. “Inovação não se dá apenas através de P&D. No fim das contas, não adianta ter uma equipe de pesquisa brilhante se não há formas eficazes de comercializar as novas tecnologias e produtos criados por ela”, diz.

Na entrevista a seguir, o executivo conta como a companhia alimenta a efervescente cultura de inovação, fala dos desafios da ciência e aborda o cenário do ecossistema de P&D no Brasil.

 

Quais são os seus principais desafios ao liderar a área de P&D de uma companhia que tem a inovação na essência?

É importante lembrar que inovação não se dá apenas através de P&D, no laboratório. Meu maior desafio é justamente manter viva esta ideia que vai além da área, tomando o risco apropriado em todos os níveis da corporação e pensando com a agilidade necessária. No fim das contas, não adianta ter uma equipe de pesquisa brilhante se não há formas eficazes de comercializar as novas tecnologias e produtos criados por ela.

E quais são as frentes de inovação que a companhia trabalha?

São três grandes pilares: as áreas de negócio que, para nós, são os departamentos de marketing e vendas, a própria área de P&D e a manufatura. Só o conjunto dessas três frentes de atuação, trabalhando em uníssono e coordenadamente, podem fazer com que tenhamos sucesso em inovação.

O Brasil tem um enorme desafio quando se trata da geração de patentes, com números muito menores do que os registrados em economias maduras. Como isso funciona na 3M? A operação local contribui globalmente com a geração de propriedade intelectual?

Antes de qualquer coisa, enfatizo que inovação vai muito além de patentes. As empresas que geram muitas patentes não são necessariamente inovadoras – e podemos dizer o mesmo de um país.

Você pode ter muita propriedade intelectual e isso não resultar em inovação no mercado e nos negócios.

Segredos tecnológicos, know how e cadeias de valor eficientes e conectadas com o mundo também são elementos importantes para a inovação. Quando olhamos esse conjunto de aspectos no Brasil, comparando, por exemplo, com países que fazem parte da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), vemos que temos grandes desafios ainda.

Nesse contexto, qual é a contribuição global do desenvolvimento científico feito localmente pela 3M?

Temos diversas categorias de estrutura de P&D na organização. Um grupo seleto de países é responsável pelo desenvolvimento tecnológico global mais avançado. São eles para nós: Estados Unidos, Japão, China e Alemanha. O Brasil está no chamado tier dois, ao lado de outras 18 nações, como Inglaterra, México e Coreia do Sul. O papel da nossa área de P&D é trabalhar na aplicação das tecnologias já existentes e modificar ou desenvolver linhas de produtos, bem como achar novas aplicações de produtos já existentes em um determinado mercado.

Em geral, a responsabilidade local está mais no desenvolvimento do que na pesquisa, sempre com foco nos negócios regionais. Dentro desta atuação, temos uma conexão enorme com a matriz e outros laboratórios do mundo e geramos grandes resultados com os recursos disponíveis.

O Brasil tem alguma competência que se destaque globalmente nessa área?

O nosso grande ponto forte é a proximidade com os clientes locais e o espírito colaborativo entre os membros de P&D e outras áreas da companhia. Essa conexão é o princípio do departamento.

Brinco que somos o pescoço. Fazemos a ligação entre a cabeça e o resto do organismo da 3M. Ajudamos a conectar o pensamento estratégico das áreas de negócios, como marketing e vendas, e demais departamentos da companhia, em especial a manufatura.

Quanto às competências locais, a 3M do Brasil gerou expertise ao longo da história em produtos como fitas, adesivos, químicos e abrasivos. Mais recentemente também mostramos que temos muito a contribuir em áreas como injeção de plásticos e fabricação de não-tecidos.

Você avalia que o Brasil tem um ecossistema de inovação maduro?

Temos uma massa crítica de pesquisadores, cientistas e técnicos no Brasil, uma rede de inovação com conhecimento e competência para tal. O desafio que ainda detecto são as universidades concentradas em fazer pesquisas desconectadas da realidade da indústria. Claro que há exceções, há bolsões de competência na indústria nacional em parceria com a academia. Mas precisamos ser cada vez mais capazes de fazer isso, trabalhar com universidades que promovem não só mão de obra qualificada como também pesquisadores que possam atuar com a indústria de forma mais próxima e efetiva.

Você defende que inovação não é só P&D. Afinal, como ela acontece longe da bancada do laboratório?

Eu não quero banalizar o termo inovação que, de certa forma, já virou um chavão e dizer que podemos inovar em tudo e em qualquer momento na nossa forma de atuação.

Acredito que a inovação também se dá de fato quando entregamos aos nossos clientes um conjunto de soluções que transformam um produto, por exemplo, comoditizado, em algo de alto valor agregado. Por exemplo, se no lugar de vender uma fita adesiva de empacotamento para a indústria, eu entregar um sistema completo de empacotamento automatizado com um pacote de serviços de manutenção, fiz uma entrega mais inovadora.

Este é apenas um exemplo de como podemos inovar com mais do que somente embarcar tecnologia de materiais no produto.

A 3M é muito conhecida por soluções analógicas, ligadas aos materiais. Na era digital, como a organização trabalha tecnologias como big data e inteligência artificial?

Nós somos definitivamente uma empresa química e de materiais. Nossa essência é esta. Entretanto, há algum tempo temos colocado foco em incorporar elementos digitais em nossos produtos, como sensores, softwares, datamining, análise de imagens, inteligência artificial e outras tecnologias.

Um exemplo bem prático de aplicação destas soluções é justamente o uso de dados para tentar, através de modelos estatísticos, reduzir o processo de tentativa e erro no desenvolvimento de novos materiais. A convergência entre o mundo físico e digital é uma grande oportunidade para a 3M.

A 3M é conhecida pela sua cultura de inovação. Como a companhia alimenta esta estrutura para que ela siga atualizada?

Temos a nossa cultura dos 15%, que permite aos colaboradores usar parte de seu tempo para trabalhar em novos projetos. Também investimos no espírito colaborativo e no que chamamos do nosso ingrediente secreto, que é o Tech Forum, ou seja, um grupo para fomentar troca de informações e conhecimentos, formado pelos membros da própria comunidade técnica global da organização, muito conectado, extremamente colaborativo e abrangente.

Temos também programas que reconhecem os funcionários que fazem inovação incremental a disruptiva. Nossa mais recente aposta está em fomentar essa cultura de inovação entre os funcionários para que eles tomem mais riscos e deem o tempo necessário para que as coisas aconteçam, criando novos produtos e abrindo mercados.

Inovação, para nós, também inclui o esforço em três pilares da sustentabilidade: fazer ciência para economia circular, ciência para o clima e ciência para as comunidades onde atuamos

Está em ascensão no mundo um certo ceticismo sobre a ciência, com o crescimento do debate em torno de temas como a Terra plana. Na sua análise, como a comunidade científica em que a 3M está inserida deve se portar diante deste contexto?

Ciência é a criação, descoberta, verificação e disseminação de conhecimentos sobre a natureza. A ciência se esforça para compreender a evolução do universo. Isto posto, acredito que todos esses casos em que apresentam contestações não-cientificas a temas científicos, como o dos terraplanistas, devem ser acolhidos por especialistas e trazidos para o debate de forma acessível. Precisamos apresentar os fatos, conversar com a sociedade.

A parte bonita da ciência é que ela evolui justamente com base na contestação, mas para refutar algo ainda precisamos nos basear em conceitos científicos

Desfrutar da era digital e das descobertas cientificas tem muito a ver com o acesso econômico. De que forma a ciência pode contribuir para derrubar barreiras sociais e econômicas e, no lugar de afastar, aproximar pessoas?

Ciência e tecnologia por si só não geram uma injustiça social. Ainda assim, há uma série de desafios que, ao meu ver, se relacionam com o controle das liberdades individuais. Vemos esse debate na China, sobre o mapeamento digital das pessoas. Acredito que só existe justiça social se as liberdades individuais forem amplamente preservadas, em um ambiente em que governos e empresas possam gerar e compartilhar avanços tecnológicos, em que o mercado seja competitivo, pouco burocrático e as pessoas consigam trabalhar de forma colaborativa. A justiça social acontece em uma sociedade livre.

Qual é a sua opinião sobre o ambiente para o desenvolvimento científico no Brasil?

A ciência ainda é vista no Brasil como uma responsabilidade das escolas, universidade e Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs) do país. Além de um grupo seleto de empresas que atuam fortemente nessa área. Percebo que o mecanismo de incentivo à pesquisa e tecnologia precisa ser repensado. Devemos buscar um modelo em que a propriedade intelectual possa ser negociada diretamente entre as instituições públicas e as empresas, sem interferência governamental, para facilitar transferência de ciência e tecnologia do mundo acadêmico para o mundo empresarial.

Onde pessoas que não são especialistas podem se informar sobre ciência? O que você recomenda?

Para os não cientistas, além da revista Science, que é uma fonte de grande relevância, gosto da publicação trimestral da revista Economist chamada Technology Quarterly Report. Para quem não é da área há uma série de canais no YouTube, mas precisamos ser cautelosos para não cair em espaços que promovem discussões vazias. Um que eu gosto muito no Brasil e é acessível à maioria das pessoas, inclusive às crianças e os jovens, é o Manual do Mundo. Também acompanho o Real Engeneering e o Smarter Every Day, dos Estados Unidos. Quando pensamos em pessoas que propagam boa informação no Brasil, sugiro o Marcelo Gleiser, que é um físico, astrônomo, professor e escritor brasileiro. Ele fala de ciência de forma muito fluída e acessível.

 

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