Ensino de programação na periferia e para a periferia. Conheça a trajetória do Jovens Hackers | Negócios Sociais | Projeto Draft


SPONSORS:

Ensino de programação na periferia e para a periferia. Conheça a trajetória do Jovens Hackers

- 16 de abril de 2018
Arthur, criador do Jovem Hacker, cercado de alunos de Paraisópolis: programação na e para a periferia.
Arthur, criador do Jovens Hackers, cercado de alunas de Paraisópolis: programação na e para a periferia.

Gerar renda e conhecimento na periferia, com professores da periferia e para alunos da periferia. É esse o objetivo do jornalista, programador e educador Arthur Gandra, 29, que em outubro de 2016, com a criação da empresa Jovens Hackers, encontrou uma maneira de empoderar crianças e jovens por meio do aprendizado de programação e ser remunerado fazendo aquilo que acredita. “Quero disseminar o ensino de programação, robótica e cultura maker com a mesma qualidade das grandes escolas do setor, mas com mensalidade acessível e presença nas periferias”, diz, e prossegue: “Todas as escolas que fazem um trabalho parecido com o nosso estão em regiões nobres de grandes capitais. O Jovens Hackers foi criado por e para jovens da periferia.”

Parte da inspiração para sua jornada veio do exemplo de um colega que, na época em que Arthur era estudante de jornalismo, lançou um livro e destinou toda a renda obtida para a universidade onde estudara como forma de retribuir pelos anos de aprendizado. A iniciativa fez com que refletisse sobre a questão do privilégio no ensino. “Tenho duas formações, uma técnica e outra superior, ambas pagas inteiramente com dinheiro público.”

É SOBRE RECONHECER O PRÓPRIO PRIVILÉGIO

Alguns anos mais tarde, em 2013, já formado e bem empregado em uma assessoria de comunicação, começou a sentir que algo estava errado. “Mesmo com um bom salário,  gostando do que fazia e das pessoas com quem convivia, não estava feliz. Resolvi pedir demissão”, diz. Esse primeiro passo em direção ao mundo empreendedor assustou colegas de trabalho, familiares e amigos, mas foram os anos em que atuou como assessor de imprensa freelancer que deram a Arthur espaço e experiência para que descobrisse o que crê ser seu propósito.

Nessa época em que não tinha um emprego fixo e mais tempo, buscava conteúdo para ensinar programação ao seu irmão mais novo e ao sobrinho, com 7 e 6 anos, respectivamente. Foi aí que descobriu o Code Club, uma rede mundial de voluntariado especializada no ensino de programação para crianças. “Logo de cara me apaixonei pela causa e, além de utilizar o material com as minhas crianças, me ofereci para ajudá-los no que precisassem aqui no Brasil”, diz. Foram três anos de envolvimento com a ONG.

A atuação de Arthur começou como assessor de imprensa voluntário e terminou como diretor executivo da organização no Brasil. A paixão pela causa era  gigante, assim como as dificuldades em tocar os projetos por falta de grana. “A premissa básica da organização era o trabalho voluntário. Isso começou a ser um problema, já que os objetivos eram grandiosos, mas a falta de apoio financeiro para realizá-los era um impeditivo muito grande para continuar.”

A TRANSIÇÃO: DE VOLUNTÁRIO A EMPREENDEDOR

Conversando com amigos, conheceu uma alternativa à filantropia: os negócios de impacto social, caminho pelo qual entendeu que poderia aplicar a gestão dinâmica do setor privado a uma iniciativa que também gerasse impacto positivo. Assim, Arthur se desligou da ONG e começou sua empreitada com o Jovens Hackers. “Para a minha surpresa, logo de cara, meu primeiro cliente foi o setor público. Elaborei um projeto para um edital da Prefeitura de São Paulo e fui um dos vencedores”, conta.

A prefeitura paulistana foi o primeiro cliente do Jovens Hackers e permitiu que Arthur formasse 500 crianças no ano passado (foto: Projeto Arrastão).

Com os 30 mil reais do edital, Arthur conseguiu montar a empresa e formar, no ano passado, 500 crianças do Projeto Arrastão, nas regiões de Campo Limpo e Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Seu sonho, no entanto, não é contar somente com recursos do governo, mas abrir escolas privadas nas periferias. Para isso, pretende cobrar uma mensalidade 80% a 90% mais barata do que as de tradicionais escolas de programação, com a vantagem dos alunos não terem gastos como transporte e alimentação para se deslocar até o centro para estudar.

Ele fala o que espera dessa transição: “Meu maior sonho é estar presente em diversas periferias de todo o Brasil. Para conseguir isso, é necessário que o projeto siga, agora como um negócio de impacto social, e se torne sustentável, não dependendo apenas de subsídios públicos”. E continua:

“Queremos que, assim como em outros países, o ensino de programação seja difundido e receba a devida importância como meio de ascensão social e pessoal”

E este caminho está surgindo diante do empreendedor: o Jovens Hackers acaba de ser selecionado para a primeira edição da Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia, realizada em conjunto pela A Banca, Artemisia e Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV Cenn). Com o investimento recebido no programa, de 20 mil reais, além do suporte em consultoria, Arthur pretende construir um modelo de negócios ainda mais robusto e investir no treinamento de novos professores quando as turmas começarem a se multiplicar.

ATIVIDADE EXTRACURRICULAR E RENDA PARA A PERIFERIA

Assim como no caso dos alunos, ele quer privilegiar a contratação de jovens professores residentes nos bairros periféricos para resolver além da questão de renda, outros problemas dos moradores: “Ao possibilitar que o trabalhador permaneça na sua região, fazemos com que a economia local cresça e contribuímos para a redução de problemas de trânsito, poluição e habitação, pois ele não precisa se deslocar todos os dias da periferia para o centro. O tempo economizado no trajeto pode ser utilizado no consumo de lazer e cultura, dentre outros”, diz. Arthur também pretende investir os recursos da aceleradora na divulgação dos cursos, como conta:

“Enquanto os jovens mais ricos podem escolher diversas atividades extracurriculares, os mais periféricos não têm tanta opção. Queremos mudar isso”

Por isso, afirma: “O maior desafio do negócio é atrair os alunos, que muitas vezes não conhecem as vantagens de nossa metodologia”. Ele também vê no ensino de programação uma forma de contribuir para reduzir as desigualdades no país e nas cidades.

Com o Jovens Hackers, Arthur busca formar nas periferias profissionais de programação. (Foto: Laio Rocha/Projeto Arrastão)

O Jovens Hackers quer ver nascer profissionais de tecnologia nas periferias (foto: Laio Rocha/Projeto Arrastão).

“Diferente de outros trabalhos tradicionais, a tecnologia da informação permite que as tarefas sejam realizadas remotamente de qualquer lugar do mundo, desde que haja acesso à energia elétrica e internet”, diz. Para ele, essa é uma grande oportunidade de colocar os jovens das periferias para competirem em condições menos desiguais com os de outras regiões.

No Brasil, o déficit de profissionais no setor de Tecnologia da Informação poderá ser de 408 mil, em 2020, caso o país não adote medidas para reverter esse quadro, segundo o Observatório Softex (Associação para a Promoção da Excelência do Software Brasileiro). Para contrariar essa previsão é que Arthur investe suas energias: “Acreditamos que todas as crianças e jovens do mundo devem ter as mesmas oportunidades, por isso trabalhamos para difundir o ensino acessível de programação”, diz, cientes de que é preciso também hackear o sistema social para obter os resultados esperado.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Jovens Hackers
  • O que faz: Aulas de programação para crianças da periferia de São Paulo
  • Sócio(s): Arthur Gandra
  • Funcionários: 1 (apenas o fundador)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: Outubro de 2016
  • Investimento inicial: não houve
  • Faturamento: R$ 50 mil (edital da prefeitura e aceleração)
  • Contato: art.gandra@gmail.com
Veja também:

Como o Instituto Auá está fazendo a transição para o status de negócio social – sem deixar de ser ONG

- 7 de maio de 2018
Gabriel Menezes, presidente do Auá, precisou quebrar tabus para mostrar que a ONG poderia entrar no mercado.

Método suíço de cuidado com bebês para a favela de Paraisópolis? Sim, é o Descobrir Brincando

- 9 de abril de 2018
Ana criou o Descobrir Brincando ao adaptar para a periferia os cuidados com a primeiríssima infância descobertos na Suíça.

O que aconteceu com o “Uber” da periferia paulistana? Conseguiu regularização e, agora, enfrenta o gigante

- 2 de abril de 2018
Alvimar da Silva e a filha, Aline Landim, empreendedores da Jaubra — Uber para a Brasilândia, na periferia de São Paulo.