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Entenda por que o Canadá está se tornando o novo destino dos empreendedores brasileiros

- 11 de julho de 2018
O Canadá é o segundo país do mundo em densidade de startups e em volume de fundos de venture capital. Entre as cidades de destaque do ecossistema está Toronto.

De todas as regiões ou países que brigam pelo título de “novo Vale do Silício”, talvez o Canadá seja o que esteja mais próximo de alcançá-lo. Não só pela proximidade geográfica da Califórnia, mas pela quantidade de incentivos e de novos empreendimentos que têm aparecido por lá. O corredor Waterloo-Toronto, na região de Ontário, concentra atualmente mais de 15 mil empresas de tecnologia, 5 200 startups e 200 mil profissionais da área de TI. “Já temos a segunda maior densidade de startups do mundo”, diz Luis Otávio Barrionuevo, fundador da consultoria Ideality Pro, que tem sede em Waterloo.

De 2016 para cá, a indústria de tecnologia cresceu 1,1% e a expectativa é de que chegue a 13% até 2021, segundo relatório da empresa de pesquisas MarketLine. É também o segundo país que mais recebe investimentos de venture capital, atrás somente dos Estados Unidos, de acordo com a base de dados PitchBook. Mas o que mais tem chamado a atenção é a abertura do país a estrangeiros. Em tempos de intensificação das barreiras para vistos nos Estados Unidos, o Canadá tem se consolidado como uma alternativa para quem deseja expandir internacionalmente seu negócio — e não só na área de tecnologia.

A começar pelo programa de visto de skilled workers, que dá permissão de residência a todos que comprovarem ter alto nível de educação, experiência de trabalho e conhecimento da língua (francês ou inglês, dependendo da região). Existem algumas profissões que são preferidas, como professores universitários e terapeutas ocupacionais, mas na prática o processo vale para todos. Em mais ou menos três anos, o candidato recebe a resposta e pode se mudar para o país já seguro de que tem permissão para ficar.

Em 2013, um programa de vistos de startups também foi criado e tem se tornado cada vez mais popular. Durante os primeiros anos de teste, empreendedores estrangeiros receberam mais de 3,7 milhões de dólares canadenses em investimentos de companhias nacionais. No início deste ano, o programa foi oficialmente aprovado e passou a ser considerado uma opção de visto para quem quer migrar para o país. Para isso, porém, a empresa já deve estar incubada no Canadá ou recebendo aportes de investidores-anjos ou fundos canadenses. O valor mínimo deve ser de 200 mil dólares canadenses (no caso de venture capital) ou 75 mil (para os investidores-anjos).

O FIM DA BLACKBERRY IMPULSIONOU O EMPREENDEDORISMO NO PAÍS

É claro que nada é por acaso e o Canadá não se tornou um centro de inovação da noite para o dia. Na verdade, o processo começou há mais ou menos cinco anos, principalmente, por causa da queda da BlackBerry. Com sede em Waterloo, a fabricante dos primeiros smartphones não resistiu à concorrência dos iPhones e Galaxys, da Apple e da Samsung, respectivamente.

Na 1ª edição, a Missão Toronto levou dez empresas para conhecer o ecossistema canadense.

Em 2013, a empresa iniciou um plano de reestruturação que incluiu a demissão de cerca de 4,5 mil funcionários, com o objetivo de reduzir os custos operacionais.

O resultado: milhares de profissionais altamente capacitados e já estabelecidos na região procurando recolocação no mercado. Acostumados ao estilo de vida do país, com suas quatro estações do ano bem definidas, alta diversidade de línguas e culturas e o custo de vida muito mais baixo que o do vizinho Estados Unidos, muitos deles decidiram abrir o próprio negócio.

Mas, tirando o caso da fabricante de telefones, até então o Canadá não tinha tradição de empreendedorismo e inovação, como conta Felipe Veras, CEO da Next Level Hub, startup que tem como objetivo criar uma ponte entre empreendedores brasileiros e investidores canadenses: “A cultura de trabalho do canadense ainda é muito conservadora. Eles não gostam de correr riscos e prezam pelo conforto, por aquele trabalho no escritório das nove às cinco”.

O resultado foi uma efervescência no mercado que forçou a abertura das portas para estrangeiros dispostos a correr riscos e com uma mentalidade diferente da dos canadenses. Foi neste contexto que os brasileiros encontraram vantagem, tanto para serem contratados por empresas canadenses quanto para migrarem com seus próprios negócios. “O brasileiro está acostumado a situações difíceis e a sair delas com resiliência e criatividade”, diz Luis Otávio. O fundador da VanHack, empresa de recrutamento de talentos internacionais, Ilya Brotzky também concorda:

“Os brasileiros tendem a trabalhar duro e me parecem muito gratos por todas as oportunidades que lhes são dadas”

Em três anos de existência, a empresa facilitou a contratação de 500 pessoas, das quais mais de 80% eram brasileiras. A Next Level, por sua vez, ajudou 30 empresas do Brasil a se posicionarem por lá em seus dois anos de existência. Não à toa, o Canadá é hoje o principal destino de quem deseja sair do país, escolha de 65% de todos que tentam a vida lá fora.

ESPERE GANHAR CONFIANÇA PARA CONQUISTAR ESPAÇO

Antes de comprar uma passagem só de ida para o Canadá, porém, quem já está por lá aconselha calma. “As portas estão abertas, mas é preciso saber acessar as certas”, diz Luis Otávio. Justamente por ter uma cultura mais conservadora, o canadense leva tempo até sentir confiança em negócios estrangeiros, especialmente, se forem desconhecidos.

Sobre a comparação com o Vale do Silício, Marcelo Cortes, fundador da Indigo Fair, marketplace que conecta fabricantes ou produtores independentes ao varejo, afirma:

“O Canadá, sem dúvida, é um hub de inovação, mas ainda está engatinhando. O Vale faz isso há muitos anos, investe em ideias malucas, tem esse DNA e cultura já formados”

Por enquanto, o Canadá ainda atua de forma diferente da Califórnia, arriscando menos e levando mais tempo para decidir. Por isso, a dica para quem busca levar um negócio para o Canadá é já ter algo minimamente estabelecido no Brasil. E, se este for o caso, é importante estar disposto a dar alguns passos para trás — buscando novos investimentos e contatos, por exemplo — para depois avançar com mais velocidade.

As experiências de quem está por lá, porém, mostram que o resultado final compensa. “O Canadá tem hoje uma economia muito mais aquecida se comparada ao Vale do Silício”, afirma Felipe. É só ter paciência para encontrar o caminho certo. Veja abaixo (além dos negócios já citados) um pouco da história de outras empresas que apostaram suas fichas no país:

Atoms Integrator

Fundada em 2016 por dois brasileiros, Ewerton da Silva e Rodrigo Rezende, e uma canadense, Tiffany Rezende, a Atoms Integrator é uma plataforma de capacitação de empreendedores para o ecossistema canadense. Funciona como uma espécie de “selo de garantia” para os investidores de que o negócio tem potencial de dar certo.

Na plataforma digital, que usa métodos de gamificação, o empreendedor encontra conteúdos educativos e ferramentas que testam sua capacidade de execução e ganha pontos ao completá-los. Ao atingirem determinada nota, recebem o selo de verificação.

Next Level Hub

Criada por um advogado de Fortaleza, Felipe Veras, a Next Level surgiu no ano passado com o objetivo de ajudar startups, empresas e talentos a se posicionarem no mercado canadense — até agora, foram cerca de 30. Para isso, tem parcerias com empresas e startups canadenses, além de sete das 13 incubadoras vinculadas ao Startup Visa Program.

Entre os principais produtos está o Missão Toronto, um evento para incentivar brasileiros a explorar o ambiente de inovação do Canadá. Na primeira edição, realizada no ano passado, foram mais de mil pessoas envolvidas na programação e dez empresas que tiveram a chance de conhecer o ecossistema canadense. Este ano, o evento ocorre entre 24 e 28 de setembro.

Indigo Fair

O e-commerce inverteu a lógica da Amazon e encontrou um nicho de tecnologia para o movimento “shop local”, vendendo produtos de fabricantes independentes em atacado para lojas e não para o consumidor final. Um dos fundadores, o brasileiro Marcelo Cortes, conta como funciona o sistema: “Para distribuir um novo produto, um fabricante, em geral, tem duas opções, a de sales agents, que aposta em uma frota de vendedores que vão de porta em porta mostrando o produto, algo caro e ineficiente, mas que ainda corresponde a 70% do mercado hoje, ou realizam exposição em trade shows, que corresponde ao restante, mas também é caro e sem tecnologia”.

Na Indigo Fair, o fabricante cadastra o produto, que é testado pelo e-commerce, e um algoritmo encontra lojas que combinam com o produto. Desde a fundação, no ano passado, são mais de 50 mil lojas registradas, mais de mil fabricantes ativos e 100 mil produtos cadastrados. Para rodar a empresa, que atualmente tem 30 funcionários no Canadá e nos Estados Unidos, o negócio recebeu investimentos de cerca de 16 milhões de dólares e, no primeiro ano, faturou 10 milhões na comissão das vendas. Outra inversão de lógica é que a plataforma é gratuita para as lojas e são os fabricantes que pagam pelo serviço. A previsão é faturar dez vezes mais neste ano.

Padoca Pâtisserie Brésilienne

Fora do eixo Toronto-Waterloo, a Padoca está aí para mostrar que nem só de tecnologia vive o ecossistema empreendedor canadense. Criada pela gaúcha Gabrielle Casara Pellin, o negócio surgiu tanto para matar a saudade que os brasileiros em Montreal têm de casa quanto para mostrar aos gringos um pouquinho da culinária do Brasil.

A Padoca Pâtisserie Brésilienne apostou em itens da culinária brasileira para seduzir os canadenses. A queijadinha é um dos campeões de vendas.

“Um dia, uma amiga da Austrália me levou a um café australiano e pediu várias comidas para eu experimentar. Aí, percebi que não poderia fazer o mesmo com ela, pois não existia um lugar assim brasileiro”, conta a chef, que migrou para o Canadá, em 2013, pelo programa de skilled workers.

No início, a ideia era ter uma experiência no exterior, mas a oportunidade de abrir o próprio negócio foi o incentivo necessário para que, em 2014, ela fundasse a Padoca. Em 2015, a empresa ganhou loja própria no centro da cidade e atende em média 70 clientes por dia. “Nunca empreendi no Brasil, só escuto falar que é bem difícil”, diz. “Aqui no Canadá existem vários procedimentos, simples de serem feitos, mas que devem ser seguidos à risca, pois existe um controle grande. Tem que ser organizado e fazer as coisas corretas, porque se falta algo no início, vão ocorrer dificuldades lá no futuro.”

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