SPONSORS:

“Eu conheci o inferno, arranhei a cara no fundo do poço, e sobrevivi para contar”

- 25 de maio de 2015
Marcelo Rovedder, o Bacco: "só quem já foi recolhido de uma sarjeta, em coma alcoólico sabe o quanto o apoio, em vez do julgamento, nessas horas difíceis, pode fazer a diferença entre continuar vivendo e morrer".
Marcelo Rovedder, o Bacco: "só quem já foi recolhido de uma sarjeta, em coma alcoólico, sabe o quanto o apoio, em vez do julgamento, nessas horas difíceis, pode fazer a diferença entre continuar vivendo e morrer".

 

Por Marcelo Rovedder

 

Eis que recebo o convite para redigir um relato nu, sem camuflagem, sobre a minha vida.

Nunca é fácil. Tem coisas que a gente esconde até da gente mesmo. As palavras que eu juntei aqui estão sendo digeridas dentro de mim, aos poucos, há 15 anos.

Excluí nomes, para não expor ninguém. Mas todos os fatos relatados são verídicos.

Nasci em Santa Maria da Boca do Monte, no Rio Grande do Sul, em 1969, e lá me criei. Santa Maria é um centro estudantil. Sempre fui uma pessoa alegre, praticante de esportes – vôlei, natação, tênis. E também sempre gostei de festa. Nunca fui muito ligado nos estudos. Era um garoto dinâmico, inventivo – e avesso às regras.

Comecei a faculdade de Educação Física, já atuando como técnico de natação. Em dezembro de 1996, uns amigos organizaram uma festa universitária e me convidaram para trabalhar na divulgação. A festa foi um sucesso total. Trabalhei muito, além do que meus amigos esperaram, tanto que me pagaram o dobro do combinado.

Para mim foi a glória. Depois das férias de verão, três amigos me convidaram para abrir uma casa noturna. A ideia era criar a melhor balada da cidade. Era tudo que eu queria: trabalhar, me divertir e ganhar dinheiro.

Inauguramos o Café Brasil. E foi um sucesso. Muitos artistas passaram por lá: Pepeu Gomes, Phil Guy, Jota Quest, O Rappa, Ira, entre outros. O Café Brasil era considerado por vários músicos e especialistas como uma das melhores casas de show do estado.

Nós, os quatro sócios, vivíamos como uma família. Ganhamos dinheiro, status (não gosto dessa palavra) e mulheres. Quando você está na vitrine, aparecem 3 000 amigos de uma hora para outra dos quais você não sabe nem o nome – eles, no entanto, sabem até o número do seu CPF. E é claro que fizemos muitas amizades sinceras também, que perduram até hoje.

Nos mantivemos soberanos em matéria de festas. Até que, em 1999, um dos sócios me chamou e contou que estava saindo. Colocamos um novo sócio em seu lugar. Em seguida, os outros dois sócios originais me convidaram para almoçar e me comunicaram que, por motivos particulares, estavam saindo da sociedade também.

Me ofereceram a compra de suas partes no Café Brasil. Combinei com o sócio recém-chegado que compraríamos a casa e ficaríamos com 50% cada um. Estávamos no auge. Acumulávamos três anos de casa lotada. Havia finais de semana em que passavam mais de 5 000 clientes pelo Café Brasil, sempre com shows de qualidade. Minha vida era perfeita e estava ao lado da mulher que havia escolhido para viver.

Até que um dia meu sócio veio até mim e disse: “te prepara para a bomba que está vindo aí.” Não entendi nada. Era de tarde e estávamos a sós no interior da boate. Foi quando de repente vi entrarem pela porta da frente os três antigos sócios, querendo conversar conosco. Eles estavam ali para contar que haviam se juntado e em dois meses abririam uma outa boate na cidade.

Eu estava descapitalizado, pela compra da parte deles, que não tinham assinado nenhuma cláusula de não-competição ao venderem suas cotas – éramos uma “família”, tínhamos acertado tudo de boca. Em suma: eu teria que competir com meus ex-sócios, que abririam uma casa ainda maior e mais bem estruturada que a nossa – numa cidade universitária de 250 mil habitantes.

Meu sócio logo pulou fora e eu me vi sozinho. Tentei tocar o negócio adiante de todas as formas. Conversei com empresários da noite de Porto Alegre, formei a “Café Brasil Produtora”, em parceria com meus colaboradores, ainda trouxemos alguns shows nacionais. Mas o barco começou a afundar. Enquanto eu tinha que acompanhar o que eles faziam, eles sabiam de cor como o Café Brasil funcionava.

Eu fali violentamente. Meu pai teve que vender todo o seu patrimônio, incluindo a casa onde morava, para saldar as minhas dívidas. Perdemos tudo – menos a nossa palavra, a nossa honra e a nossa honestidade.

Tudo foi embora. Carro, dinheiro, casa, noiva. Não tínhamos dinheiro para nada. A rotina dos oficiais de justiça batendo à minha porta toda hora era um ingrediente tétrico nos meus dias que já tinham cor de chumbo.

(Os próprios oficiais de justiça, à medida que iam conhecendo o caso, e travando contato comigo, deixaram de vir até meu endereço – simplesmente passaram a me ligar do fórum para que eu passasse lá e assinasse os novos processos que iam entrando. Era menos constrangedor para mim do que recebê-los em minha porta e eles me ofereceram esse privilégio – porque sabiam que eu não iria fugir de cumprir com minhas obrigações.)

Dei emprego a muita gente e muita gente me pôs na Justiça. Nunca faltei a uma audiência sequer, mesmo doente. A depressão havia tomado conta de mim. E com ela, ou antes dela, o álcool. É quase impossível viver na noite, e da noite, e não consumir álcool.

Com a bancarrota, a situação só piorou. Eu bebia para esquecer aquele inferno em que minha vida tinha se transformado. Os dias passavam e eu atolado dentro de mim mesmo. Fumava muito, bebia muito, chorava muito, tomava remédio – e rezava.

Vivi assim por mais de dois anos. Esfreguei minha cara no fundo do poço. Até que em 2002, recomecei minha vida como técnico de natação em Joinville, em Santa Catarina.

Dois anos depois, em 2003, nossa equipe sagrou-se campeã catarinense – para estupefação dos próprios atletas, dos pais e dirigentes. Comemorei junto com eles, escondendo o estágio da doença – tomava soro, sangrava muito pela gengiva, não tinha forças para nada.

Pedi dispensa, peguei um ônibus, 14 horas de viagem de Joinville até Santa Maria. Meu pai me pegou na rodoviária me levou direto para o hospital. Passei por vários médicos e por uma longa bateria de exames que nada acusaram. HIV, tuberculose, testaram todas as hipóteses. Fiquei três meses de cama, com suspeita de hepatite. Minha mãe me servia na boca pedaços pequenos de bife de fígado quase cru.

Até que uma infectologista me disse: “quero um pedaço do teu estômago.” E ali descobrimos que eu tinha candidíase, uma infecção de fungos que geralmente aparece na região genital. No meu caso, ela estava alojada no intestino. Meu organismo estava tomado, minha garganta estava fechada. Vieram outros tantos meses de tratamento.

Em 2005, curado, voltei para faculdade de Educação Física. Me formei em 2008, fiz uma pós em Treinamento Desportivo e em 2012 passei no mestrado em Treinamento Desportivo, em Portugal.

Entre 2000, quando caí, até 2012, quando me restabeleci, vivi num buraco. Passei mais de uma década submerso na escuridão da depressão, da falta e dinheiro, da falta de emprego, de algumas vezes não ter o que comer e acordar de manhã com vontade de tomar cachaça e não ter dinheiro nem para isso.

Cheguei a sair de casa, em desespero, e ir até a esquina, e me juntar aos moradores de rua, e mendigar cachaça com eles. Muitas vezes me tomavam por um mendigo. Algumas vezes fui hospitalizado para desintoxicação medicamentosa e alcóolica.

Meu pai, então com 65 anos, num domingo de chuva, não tinha dinheiro para colocar combustível no carro. Saiu na chuva e passou na casa de parentes que faziam seu tradicional churrasco. Recolheu os restos para levar para os cachorros – só que, em casa, selecionou os melhores pedaços para comer.

Esse foi o momento em que eu disse: “eu nunca mais vou beber”. Troquei a vergonha por orgulho – às vezes isso é só uma questão de escolha. E foi assim que comecei a me levantar. É difícil relembrar tudo isso. É difícil relatar tudo isso aqui. Nunca tinha feito essa confissão pública. E talvez nunca tivesse feito essa admissão íntima. É muito duro olhar para esse filme e ver que o protagonista sou eu.

Por volta de 2009, aos 40 anos, comecei a fazer um tipo de prece, pedindo ajuda para achar um emprego e reequilibrar minha vida. A promessa era que, se um dia eu ganhasse muito dinheiro, montar uma fundação para ajudar crianças necessitadas e dependentes químicos. Era uma iniciativa que eu iria custear – um segredo entre mim e meus santos.

Em 2012, antes de embarcar para o mestrado em Portugal, voltei a ficar doente. Eu havia desrespeitado muito meu corpo e ele apresentava a conta desse abuso. Por pouco não tive que cancelar a viagem de estudos – havia risco de morte. Isso não abalou minha fé – continuava com minhas preces. Nem minha crença em mim mesmo e na minha capacidade de nunca mais beber.

Naquele ano, meu pai chegou em casa, depois do feriado de Páscoa, e disse para mim e para minha mãe: “comprei uma imobiliária pequena para ti e para as tuas sobrinhas. Vai já arrumar as tuas malas e vai trabalhar.” Era em Capão da Canoa, cidade no litoral gaúcho em que eu sempre sonhei morar. Talvez a Páscoa seja mesmo um momento de renovação. Para mim, ao menos, essa regra funcionou à risca.

Tudo que eu queria era uma segunda chance. Uma nova oportunidade para mostrar que tinha capacidade. Havia momentos em que nem eu mesmo acreditava mais em meu potencial. O gesto de confiança do meu pai foi fundamental nessa ressurreição. Aprendi muito com ele – que quebrou junto comigo e que esteve ao lado em todos os momentos. Ele foi uma fonte de coragem e de perseverança ao longo do caminho. Eu o vi saindo a pé na chuva, pedindo comida, exercitando a humildade de um jeito tocante, sem nunca perder a dignidade.

Aprendi que não existe fundo do poço. O que existe é desistência, falta de esforço ou de vontade, falta de amor próprio, de atitude, de fé em si mesmo, falta de otimismo e de entusiasmo pela vida.

Abrimos a pequena Santa Maria Imóveis, em Capão da Canoa, em 2013. Hoje temos duas lojas. As contas ainda estão se ajustando, mas tudo que aprendi, inclusive com a derrocada do Café Brasil, estou conseguindo aplicar aqui.

Tudo é uma questão de tempo, de encarar os obstáculos e de ter estratégias para vencê-los. Aqui em Capão da Canoa ninguém sabe que eu sou o Bacco, o garoto de Santa Maria que subiu aos céus e desceu ao purgatório. (Ao menos até a publicação desse artigo.) Todos só sabem que eu sou o Marcelo, o empresário do ramo imobiliário.

Estamos buscando inovar e aplicar por aqui as melhores práticas digitais do nosso mercado. Estou redescobrindo o prazer de criar, de fazer, de colocar em prática, de ver frutificar. Estamos crescendo aos poucos. Não posso reclamar – aliás, outra coisa que aprendi com meu calvário é que reclamar não leva você a lugar nenhum. Continuamos com as portas abertas há quase dois anos num mercado competitivo. Essa é uma vitória – e um motivo de grande alegria para mim.

Já, já e será hora de começar a pensar em pagar minhas promessas e abrir, com recursos próprios, uma fundação para ajudar seja quem for que estiver precisando. Só quem já foi recolhido de uma sarjeta, em coma alcoólico, como eu, se arrastando pela vida como um indigente, sabe o quanto o apoio, em vez do julgamento, nessas horas difíceis, pode fazer a diferença entre continuar vivendo e morrer.

Hoje, e já há muitos anos, a única bebida que entra em minha boca são 10 garrafinhas de água com gás por dia – porque eu escolhi assim.

E se eu pude fazer tudo isso, e passar pelo que passei, e encarar os lobos internos que encarei, você também pode. Nunca esqueça disso. Nunca.

 

Marcelo Rovedder, o Bacco, 45, é empresário e proprietário da Santa Maria Imóveis em Capão da Canoa, RS.

Veja também:

A Glebba convenceu o setor de loteamentos a apostar no crowdfunding. O duro foi atrair esses investidores

- 29 de novembro de 2018
3116 5 0