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Gero, ou como a Eunos desenvolveu um “engenheiro digital” para controlar obras

- 21 de fevereiro de 2019
Antônio Rezende e Nelson Linhares criaram o Gero para atender a demanda da própria empresa. Agora, o robozinho começa a andar com as próprias pernas.

Antônio Rezende e Nelson Linhares, ambos de 45 anos, são amigos há mais de 30 anos. Foram colegas de escola e costumavam inventar histórias de que eram irmãos. A amizade virou sociedade em 2015, quando se juntaram para fundar a Eunos, uma gerenciadora de obras, em Belém, que quer “ajudar a mudar o construção civil no Brasil por meio da tecnologia”.

O principal serviço da Eunos consiste em fazer orçamento, planejamento e acompanhamento de uma obra, do começo ao fim. Com isso, os sócios dizem que conseguem de 10 a 20% de economia nos custos das construções. O planejamento é baseado na rede CPM, uma metodologia desenvolvida na década de 1950, que eles buscam sempre melhorar. “A gente tenta apresentar isso de outra forma, automatizando processos e encurtando caminhos, seja na apresentação do relatório, em um modelo de trabalho com o cliente ou no desenvolvimento de novos aplicativos, como o Gero, que é o primeiro engenheiro digital do mundo”, diz Antônio.

Eis o o pulo do gato: a Eunos é uma empresa que atua no ramo da construção civil e que escolheu criar, dentro de casa, a “startup” que automatiza boa parte do serviço — e que um dia poderia lhe roubar clientes. O Gero é, nessa visão, um case de inovação corporativa. Trata-se de uma plataforma web que planeja, orça, acompanha e controla a obra de maneira quase 100% automatizada. Antônio fala: “Não somos um ERP (Enterprise Resource Planning), nem um sistema de orçamentos ou de suprimentos”. Ele prossegue:

“Nossa solução pertence a uma categoria ainda inexistente e complementar a outros softwares presentes no mercado hoje”

O sistema em operação foi pensado para atender as demandas de construções de torres residenciais acima de sete pavimentos, com elevador, e abaixo de 50 pavimentos o que, segundo Antônio, representa 85% das torres existentes no Brasil. Porém, a ideia é que ele evolua para suprir as necessidades de qualquer tipo de obra.

O produto tem três fases. A primeira, que já está em operação, faz a simulação de um orçamento de obra. A partir de sete categorias de informação que o cliente coloca no sistema, ele gera uma planilha com custos diretos e indiretos, prazos, efetivo de funcionários, preço de cada serviço etc. Com isso, a expectativa é melhorar a produtividade em 5%. Ao mesmo tempo, é bom dizer, essa fase inicial é que dará informações precisas que alimentam o banco de dados necessário nas fases seguintes. Por enquanto, o acesso à plataforma é gratuito (a Eunos pede apenas um feedback). A ideia é que quando a segunda e terceira fase — de acompanhamento e controle — estiverem rodando, seja cobrada uma mensalidade dos clientes.

O PRODUTO NASCEU PARA ATENDER UMA DEMANDA INTERNA

Os sócios acreditam que o futuro da construção civil passa pela tecnologia e que as construtoras não mais existirão da forma como são hoje. Antônio diz que o problema de atraso e estouro de orçamentos acontece no mundo inteiro, em obras de todas as proporções — do banheiro de uma casa até uma torre de 50 andares. E isso tem a ver com inúmeros fatores, dentre eles, a falta de planejamento e de acompanhamento rigorosos e assertivos. Por isso, ele e o sócio acreditam que a tecnologia vai ajudar a minimizar esses problemas e melhorar a rentabilidade e produtividade.

A ideia do Gero nasceu, primeiro, por uma necessidade da Eunos. Ao perceber que um engenheiro só conseguia atender com qualidade a quatro obras ao mesmo tempo, eles sentiram a necessidade de automatizar parte do processo e ter a tecnologia como aliada. Antônio afirma: “Ter um engenheiro para cuidar apenas de quatro obras ficava muito caro e não conseguíamos repassar esse custo para o cliente. Então, assumíamos as despesas e a operação ficava com uma rentabilidade muito baixa. Foi quando pensamos em automatizar parte do processo e surgiu a inovação”.

Apesar de ter sido criada como uma solução interna para a Eunos, o produto tem potencial de se tornar independente e ser utilizado por outras empresas. Segundo Antônio, não se trata de um substituto do engenheiro, mas sim de um parceiro:

“Não quero que as empresas demitam seus engenheiros. Quero que as equipes aprendam a trabalhar com uma nova metodologia e que isso traga resultados”

Ele complementa: “Se a gente melhorar a produtividade em 1% das obras, teremos 1,6 trilhão de reais a mais no mercado. Estamos tentando mudar a produtividade em 5% dentro de uma obra. Então, olha o retorno que isso pode trazer para o setor. E, claro, para a nossa empresa também”.

A INSISTÊNCIA EM INOVAR SAIU CARO, MAS ELES CONTINUAM TENTANDO

A plataforma Gero surgiu em 2017, durante a participação da Eunos no programa de aceleração InovAtiva Brasil. O “robozinho engraçado”, de acordo com os sócios, é uma forma de deixar o mundo da construção civil mais leve e divertido. Mas por trás da cara engraçadinha está um investimento, até agora, de 500 mil reais, de recursos próprios.

Com o Gero, é possível acompanhar a programação da obra, saber quais tarefas precisam ser realizadas, os custos e o prazo máximo para conclui-las.

A primeira tentativa de desenvolver o sistema foi contratar uma empresa de tecnologia — e não deu certo. “O produto ficou superficial e não tinha a inteligência que a gente queria”, diz Antônio.

Eles contrataram, então, uma outra empresa e a levaram para dentro da Eunos — o que também não funcionou. “Aí entendemos que o erro era nosso, de comunicação. Eles não entendiam o que a gente fazia”, conta.

Somente na terceira tentativa, eles decidiram montar uma equipe própria de desenvolvedores que trabalhou lado a lado com o time de engenheiros. Aí sim deu certo. “Conseguimos criar o nosso road map e colocar para funcionar essa primeira fase do produto.”

Agora, eles se preparam para a segunda e a terceira fases do Gero. Para isso, frearam o desenvolvimento com o objetivo de analisar as finanças e os processos. Cogitam, inclusive, terminar o desenvolvimento fora do Brasil. Nesse processo, contam com a ajuda do Okara Hub, um hub de inovação dos segmentos de engenharia, construção civil, desenvolvimento imobiliário e cidades inteligentes; e do Hub SP, iniciativa do Investe São Paulo para desenvolver startups que trazem soluções para desafios dos setores público e privado. “Tem sido ótimo conviver com esse universo das startups e da inovação dentro desses espaços”, diz Antônio, que passa boa parte do tempo em São Paulo, à frente do Gero.

ERRANDO, APRENDENDO E SE APRIMORANDO

Vender uma ideia ou um produto que não existe é um missão difícil, ainda mais em um setor que resiste às mudanças, como a engenharia civil. Os sócios atribuem a continuidade do processo à paixão e teimosia deles. Antônio diz: “Vivemos de inovação. Se a gente fizesse engenharia tradicional, talvez estivéssemos faturando mais, porque obra dá mais dinheiro do que planejamento”.

A Eunos já experimentou algumas formas de apresentar o Gero ao mercado e percebeu que a melhor maneira é a mais sutil. “O mercado de construção civil não quer mudar processos. Esse é o maior desafio. Como convencer que esse robozinho engraçado faz a conta e acerta? Os sócios lembram que ao fazer o orçamento de uma grande empresa, na ordem de 25 milhões de reais, houve uma diferença de apenas 20 mil reais entre o orçamento feito pela empresa da forma tradicional e o feito pelo Gero, um valor considerado muito pequeno para um universo tão grande. “A reunião foi péssima e o diretor de orçamento esculhambou a gente”, conta Antônio, que completa: “Aprendemos que não adianta fazer degustação às cegas porque podemos ofender e mexer com os brios dos engenheiros”.

Com dados como área construída, tipo de pavimento e acabamento, o Gero consegue fazer seus cálculos.

Agora, eles usam uma abordagem mais cautelosa, tendo a Eunos como carro-chefe, já que a empresa, que faturou 4,8 milhões de reais em 2017, já tem credibilidade no mercado. “Com a Eunos dentro da empresa, em um ou dois meses, a gente mostra o valor e, com a confiança, consegue provar que parte do trabalho pode ser feito de forma automatizada com o Gero.”

Enquanto a construção civil ainda reluta para usar a tecnologia, outros setores já começam a ver valor nessa inovação. Uma das demandas veio de um banco de investimento. “Esse banco vai construir uma obra para um grupo de investidores e quer usar nosso sistema para controlá-la e dar satisfação para os investidores. Vamos fazer um processo de customização do Gero para atender ao pedido deles.”

QUEM SÃO OS SÓCIOS

Engenheiro civil com experiência em grandes empresas como Vale e Grendene, Nelson é, segundo Antônio, a alma do negócio. Com personalidades diferentes, eles se complementam. “Ele me mantém no chão e eu faço ele voar um pouquinho”, diz Antônio, arquiteto e designer, com longa experiência na área de construção civil. Sua família teve fábrica de móveis em Belém por 40 anos e foi fornecedora de produtos para a construção civil.

Entre idas e vindas no negócio familiar, ele também atuou como gerente comercial na Ambev e conta que sempre gostou dessa área. Depois de encerrar a empresa da família, Antônio se juntou a Nelson, que havia acabado de encerrar uma sociedade em uma empresa de engenharia, e deu início a Eunos, que em grego significa “bom tratamento dos números”. “Mas a ideia inicial do nome não foi essa. Foi ser uma referência a ‘Eu e Nós’, para mostrar que a empresa vestia a camisa do cliente. Foi um engenheiro que nos falou sobre o significado da palavra em grego.”

Juntos, eles estão decididos a continuar investindo tempo e dinheiro no desenvolvimento do produto. Eles e o Gero.

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