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Juliana de Faria, do ThinkOlga: a internet como plataforma para o novo feminismo

- 21 de janeiro de 2015
A jornalista Juliana de Faria transformou seu blog num hub de discussão e de projetos sobre a condição feminina
A jornalista Juliana de Faria transformou seu blog num hub de discussão e de projetos sobre a condição feminina

Um espaço para trabalhar pautas sobre mulheres que não eram aprovadas pelas revistas (nem mesmo as femininas). Um espaço para discutir o papel e a imagem das mulheres na mídia e nas demais áreas da vida. Assim nasceu o ThinkOlga, projeto da jornalista Juliana de Faria que nasceu pessoal e que, desde abril de 2013, se transformou num importante representante do novo feminismo brasileiro.

A trajetória de Juliana no feminismo começou com seu interesse em moda. Ela se mudou para Londres, em 2012, e se matriculou em alguns cursos de moda – assunto que sempre lhe interessara. Entre aptidões e inabilidades (ela confessa, rindo, ter sido um desastre nas aulas de styling), Juliana descobriu uma nova paixão – o estudo dos aspectos antropológicos e sociológicos da moda. Ao retornar ao Brasil, em 2013, iniciou seu trabalho como editora de moda, colaborando com revistas especializadas.

Porém, com o olhar voltado para questões ligadas muito mais a quem vestia a roupa do que à roupa em si, muitas das pautas que Juliana propunha não eram aprovadas pelas revistas onde trabalhava. Então ela resolveu criar um espaço online onde pudesse trazer à tona os temas e as discussões que julgava importantes – e que não tinham lugar na grande imprensa.

A campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual sofrido pelas mulheres em espaços públicos, é uma das iniciativas apoiadas pelo ThinkOlga. Em um dos desdobramentos da campanha, o ThinkOlga divulgou os resultados de uma pesquisa online feita pela jornalista Karin Hueck, com quase 8 mil mulheres, sobre o assédio. A pesquisa revelou que 99,6% das respondentes já tinham sofrido algum tipo de assédio sexual ou moral por serem mulheres. Essa é uma das pautas rejeitadas pelas revistas femininas por ser considerada de “politicamente correta” demais.

A pauta rejeitada hoje vem rendendo frutos ao ThinkOlga, como a elaboração de um mapa colaborativo que identifica os locais em que assédios verbais, morais, físicos ou sexuais, envolvendo atentado ao pudor, aconteceram, por meio do depoimento de vítimas ou de testemunhas. Um mapa inédito no país. De uma situação crônica, e por vezes crítica, vivida pelas mulheres em todo o país.

Além disso, uma ação no Catarse arrecadou verba para a concretização de um documentário, que, levando em conta as duas frentes do projeto Chega de Fiu Fiu (a pesquisa e o mapa) pretende estabelecer um diálogo entre a vítima, quem pratica o assédio e especialistas sobre o tema. Quase 60 mil reais foram arrecadados até o dia 16 de janeiro, de uma meta de 20 mil reais solicitada – foram mais de 1 100 doadores.

A viralização e o debate sobre a iniciativa foi tão grande que o ThinkOlga acabou lançando, em parceria com a Defensoria Pública de São Paulo, uma cartilha sobre assédio sexual. “Estamos felizes em saber que, pouco a pouco, estamos conseguindo levar esse debate para dentro do poder público. O que é assédio sexual? Por que é um comportamento nocivo? Como denunciar? Como encaixá-lo na lei? São algumas das perguntas que respondemos na cartilha, distribuída à população“. Além de São Paulo, outras prefeituras do país procuraram o ThinkOlga para também desenvolverem as suas cartilhas.

Outra ação do ThinkOlga foi o 100 Vezes Cláudia, que buscou retrabalhar a imagem da auxiliar de serviços gerais, Cláudia Silva Ferreira, assassinada por policiais militares em operação no Morro da Congonha, em Madureira, no Rio de Janeiro, em 16 de março de 2014, e arrastada pela viatura por 350 metros durante o transporte até o hospital.

Ilustração da artista Amanda Salamanda para o projeto 100 Vezes Cláudia

Ilustração da artista Amanda Salamanda para o projeto 100 Vezes Cláudia, do ThinkOlga

Crítica à forma como Cláudia foi retratada pelos jornais durante a cobertura do fato, como a “mulher arrastada”, Juliana convidou artistas a retratar a figura de Cláudia, com o objetivo de restaurar, ainda que postumamente, a dignidade perdida com o assassinato e a cobertura jornalística feita do caso. Em 24 horas, o 100 Vezes Cláudia atingiu a meta dos 100 retratos e hoje coleciona mais de 200 trabalhos, todos enviados para a família da vítima.

O Entreviste uma Mulher é também um filhote do ThinkOlga. Trata-se de um banco de dados, também colaborativo, que reúne o perfil de mulheres das mais variadas áreas de atuação para servirem como fontes em matérias jornalísticas. A ideia veio de uma pesquisa realizada pela Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, em 2013, que analisou 352 matérias publicadas na primeira página do New York Times e descobriu que, dentre os entrevistados, 65% eram homens e apenas 19% eram mulheres (os outros 17% eram fontes institucionais). O projeto Entreviste um Mulher busca facilitar o contato entre jornalistas, editores, repórteres, promotores de eventos, produtoras de TV, entre outros profissionais da mídia, com mulheres inspiradoras e com projetos relevantes nas áreas em que elas são especialistas.

Além dessas iniciativas, o FAQ Jurídico, em que a advogada especialista em Direito Digital, e também consultora legal do ThinkOlga, Gizele Truzzi, tira dúvidas das leitoras do site sobre como agir em caso de revenge porn (vídeos íntimos divulgados na rede como forma de constranger a mulher envolvida), ameaças pelas redes sociais e bullying virtual.

E o ThinkOlga ainda conduziu o Editathon das Minas, que reuniu mais de 30 pessoas, por mais de 8 horas, para editar cerca de 40 páginas da Wikipedia sobre mulheres importantes ao redor do mundo e que ainda não tinham verbetes em português à altura sobre as suas realizações.
Todas essas conquistas do ThinkOlga, entre 2013 e 2014, dão à Juliana a sensação de que o feminismo no Brasil vive um momento importante. “Gosto de ressaltar que o feminismo mudou, como o mundo mudou e, hoje, usa a internet como plataforma. E isso enriquece muito a discussão, porque traz as pessoas para perto e dá voz a quem, muitas vezes, está escondido, com medo de pedir a palavra. O que a gente faz no ThinkOlga é muito colaborativo. Com a força das pessoas que participam, conseguimos detectar os pontos críticos e trabalhar neles”, diz Juliana.

Além do sonho de transformar o ThinkOlga em uma ONG ainda em 2015, Juliana revela outro de seus sonhos: “desejo que todos nós, que nos ocupamos dessas questões, possamos trabalhar juntos para desenvolver uma linguagem que seja mais próxima à realidade da mulher, sem conteúdos estereotipados, e que transforme a cultura do país de modo a qualificar o papel e a representatividade da mulher em nossa sociedade”.

 

DE EMPREENDEDOR PARA EMPREENDEDOR

 

Softwares que você recomenda e usa no seu computador pessoal
O legal da internet é que você pode fazer muito com muito pouco. A nossa iniciativa usa principalmente ferramentas abertas na internet como o WordPress, o Google Maps (que é a base do nosso mapa colaborativo Chega de Fiu Fiu), Google Forms (por onde fizemos a pesquisa da Chega de Fiu Fiu), Google Docs & Drive (onde fizemos uma planilha de Excel aberta com fontes femininas para o Entreviste uma Mulher) e até mesmo PicMonkey, ferramenta de edição de imagem, onde criamos muitas vezes material e conteúdo para nossas redes sociais.

Dica de hardware ou acessórios no seu computador pessoal
Caixa de som com bluetooth.

Qual a sua relação e opinião sobre cloud computing?
Quase tudo que uso é no cloud. Tenho poucas coisas instaladas ou guardadas no meu computador.

Como seria o computador dos seus sonhos?
Leve e rápido – para dar conta de todos os deslocamentos que a vida de empreendedora demanda.

– Quais Apps de produtividade todo empreendedor devia usar?
Google Analytics, Hootsuite, Dropbox e Evernote.

Quais Sites/perfis de negócios e/ou inovação todo empreendedor devia seguir?
Mashable, TechCrunch, Fast Company, Harvard Business Review, Women.

Quais livros de negócio e/ou inovação todos empreendedor devia ler?
Lean In, de Sheryl Sandberg.
GirlBoss, de Sophia Amoruso.

Eventos de inovação e negócios que todo empreendedor deveria frequentar?
SxSW (neste ano, inclusive, serei uma das palestrantes. Vou falar sobre violência online contra a mulher na internet ao lado de Emily May, diretora da ong norte-americana HOLLABACK).

Quais Ferramentas (planilhas, softwares, hardwares etc) que todo empreendedor deveria ter?
Uso quase tudo na nuvem. Crio apresentações, relatórios, documentos e planilhas pelo Google Drive, já compartilhados com parceiros, sócias e colaboradores.

 

AssinaturaHP

 

Com esta série HP/Intel no Draft, vamos falar das ferramentas e tecnologias usadas pelos inovadores. Do lifestyle e dos novos jeitos de trabalhar dos game changers brasileiros. Dos novos espaços de trabalho e dos novos jeitos de gerir dos nossos makers. Do como pensam e como fazem negócios os empreendedores criativos do país.

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