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Saiba como uma jovem mãe em São Paulo transformou a solidão da maternidade num negócio inovador

- 17 de setembro de 2014
Mamusca
Claro, ventilado, simples e cheio de distração para grandes e pequenos. Assim é o Mamusca

Instalado em um sobrado de pé direito alto, paredes de bloco, estruturas de metal, quintal com chão de areia e uma jabuticabeira, o Mamusca é um espaço de convivência para pais e filhos. Nem só para uns, nem só para outros. Lá tem café, tem wifi, tem oficinas, tem cuidadores. E não há obrigação de se fazer nada. Parece óbvio, mas a simplicidade é um alento, e um sucesso, em um mercado tão feroz como o que envolve as jovens mães. “Queria que todos tivessem um espaço, mas sem paranoia de fazer isso ou aquilo”, diz Elisa Roorda, a sócia fundadora.

Elisa tornou-se mãe antes de todas as suas amigas, aos 29 anos. Filha de mãe chilena e pai holandês, ela cresceu andando de bicicleta no então bucólico bairro de Alphaville, na Grande São Paulo. Formada em Publicidade, durante a gravidez trabalhava com marketing esportivo, pedalava, corria e fazia yoga. “Nem o quarto da Nina eu montei antes. Para mim, a maternidade veio depois. Veio forte no parto. Sempre tive muita consciência corporal e ter feito uma cesárea foi muito frustrante. De certa forma, o Mamusca começou aí”, diz ela.

 

Elisa Roorda, mãe de Nina, Sofia e do Mamusca

Elisa Roorda, mãe de Nina, Sofia e do Mamusca

Fragilizada e buscando entender essa impotência, Elisa pesquisou o trabalho das doulas, foi entender como o parto acontece fora do Brasil. Em paralelo, a profissional pilhadíssima que imaginava retomar a rotina de trabalho de onde havia parado já não existia. Quando Nina fez nove meses, Elisa voltou em um esquema de meio período. “Não durou. Falei para mim mesma: gente, eu sou outra pessoa mesmo.” A partir daí, ela pediu demissão e foi começou a planejar o Mamusca. O marido Flavio Vianna, publicitário que por sua vez abandonou o esquema pesado das grandes agências para criar uma menor, a Open Box, apoiou a decisão.

Mas a “outra pessoa” que Elisa se tornou sentia uma solidão enorme. “Eu não tinha amigas com filhos, então minha rotina era praça, parque, casa dos avós. Os outros lugares não eram adaptados pra carrinho de bebê, dar de mamar era um drama. Em São Paulo, eu não tinha para onde ir”, diz ela. O vazio, ela perceberia, também estava no mercado para mães. Até existiam lugares com atividades para as crianças, mas só para elas. “Eu queria me sentir acolhida também, me encontrar com outras mães.”

Uma grande amiga, a designer Janaina Pereira, vivia em Barcelona e era recém-mãe do Joaquin. À distância, ajudava e inspirava Elisa no negócio do qual viria a fazer parte. Focada em pesquisar referências para o seu empreendimento, Elisa visitou não apenas espaços infantis de Barcelona, mas também de Londres, Paris e Roma. E foi aos EUA. “É impressionante, lá isso se chama playspace e é uma categoria de negócios. Foi bom para conhecer o modelo, mas para mim fazia mais sentido a linha mais relaxada dos europeus”, diz ela. Na lista de quem a inspira estão lugares como a Casa Redonda e o Instituto Brincante, e pessoas como André Trindade, Anna Marie Holm, Emmi Pikler.

“Eu não tinha amigas com filhos, então minha rotina era praça, parque, casa dos avós. Os lugares não eram adaptados pra carrinho de bebê, dar de mamar era um drama. Em São Paulo, eu não tinha para onde ir. Queria me sentir acolhida, me encontrar com outras mães”, conta Elisa

Ao mesmo tempo em que curtia um certo relaxamento em sua própria vida (“Eu trabalhava sem parar desde os 17 anos”), Elisa sabia exatamente o que queria criar. “Um espaço bacana para os grandes e os pequenos, para os pais e para os filhos, um lugar de convivência. O café eu nem queria”, conta, aos risos. “Mas hoje vejo que não faria sentido existir o espaço sem ele, o café é o ponto de encontro.” No cardápio tem salgados e pão de queijo, mas também papinhas e pequenas refeições.

Ao iniciar a jornada de empreendedora, Elisa teve que “ir atrás de tudo”: Sebrae, amigos, modelos de negócio. Ela tinha um capital próprio de 500 mil reais e estava empolgada. Em 2012 levaria o primeiro tombo. Alugou uma casa na Vila Madalena que parecia perfeita para abrigar o Mamusca mas, na hora H, o proprietário não autorizou a reforma. “Foi um balde de água fria, achei que ia desistir. Foi quando fiquei grávida da Sofia”, conta.

Tudo voltou à estaca zero, mas aos poucos ela retomou a ideia. O recomeço contou com uma ajuda providencial do pai de Elisa, que topou investir na compra de um imóvel, “desde que pudesse ser reversível para outro uso se o business não desse certo”. Trato feito e, nesses acasos que também chamamos de sorte, encontraram no mesmo bairro um terreno com uma casinha velha. As obras começaram quando Sofia nasceu. “A jabuticabeira do quintal foi ideia da paisagista Camila Vicari, pois queríamos uma árvore que as crianças pudessem subir. Ela foi transplantada já adulta, carregada por quase vinte pessoas”, conta Elisa.

Mamusca

Oficina de Shantala, massagem especial para bebês, prestigiada por pais e mães

Com uma filha no sling (aquele pano que acomoda o bebê no colo da mãe) e outra filha pela mão, Elisa e o arquiteto Vitor Penha garimparam em mil lojinhas as cadeiras, lustres, ferragens antigas que dão um aspecto de “aconchego, resgate das origens, nostalgia” ao lugar. Isso está nas paredes e também no conceito. O Mamusca abriria as portas em maio de 2013 com uma equipe de brincadores, coordenados por uma pedagoga, e uma linha que é a essência do que Elisa intuitivamente definiu: “Respeito pelo brincar, respeito pelo fluxo e processo da criança. Nada muito dirigido, muitas vezes é apenas observar a criança”.

Explicar e produtizar essa oferta foi um desafio. Como cobrar por um tipo de serviço não existia? Inventa-se. O espaço divide o público em “pequeninos” (de 3 a 36 meses), “pequenos” (de 3 a 6 anos), e “adultos”. Para as mães, há curso de cerâmica, ginástica pós-parto e um providencial plantão pós-parto. Para os menorzinhos, oficina de Sensações (colocar a mão, cheirar e sentir mil coisas e melecas), de música e de “brincadeiras e movimento”. Os pequenos podem fazer cursos de yoga, cerâmica e capoeira.

“Nunca imaginei que teria que explicar para os pais o que é ‘brincadeira livre’. Eles queriam pagar uma oficina e reclamavam que a criança não estava fazendo determinada atividade, mas ela estava super entretida brincando na árvore, na areia… Até hoje tenho que explicar bastante”, diz Elisa.

As oficinas custam 45 reais por hora e os cursos 180 reais por mês. Mas talvez a oferta mais representativa do que é o Mamusca seja o “Espaço de Brincar + Ateliê aberto”, por 15 reais por hora, ou 25 reais aos sábados. Basicamente, brincar. “Nunca imaginei que teria que explicar para os pais o que é ‘brincadeira livre’. Eles queriam pagar uma oficina e reclamavam que a criança não estava fazendo determinada atividade, mas ela estava super entretida brincando na árvore, na areia… Até hoje tenho que explicar bastante”, diz Elisa.

Atualmente, a equipe de 5 brincadores dobra de tamanho aos sábados, dia de maior movimento no Mamusca, em que recebe quase 100 crianças. Desde a inauguração, a casa vive cheia e o sucesso surpreendeu a empreendedora. “Calculei mal os gastos, a equipe era menor do que precisava, tivemos muitas falhas no operacional do café”, lembra Elisa. Ainda hoje ela está adaptando e mudando coisas. No momento, uma consultoria externa a ajuda em treinamento de pessoal, operação e atendimento.

“O primeiro ano do Mamusca foi enlouquecedor. A Sofia ficava no sling direto, mas também tem um limite”, conta Elisa. Mais uma vez a necessidade pessoal levou à criação de um serviço que o mercado precisava. Ela criou o “cuidador compartilhado”, um sistema em que mães dividem o custo de um mesmo profissional, que se responsabiliza por até três pequeninos por vez. Essas mães, às vezes solitárias como um dia Elisa foi, acabam ficando amigas.

Mamusca

Na Viradinha Cultural, da prefeitura de São Paulo, brincadores do Mamusca foram até a Praça Roosevelt fazer uma oficina de papelão

No fim de 2013, o Mamusca tinha faturado muito, mas estava no vermelho. “Minha equipe é mais cara que a média, minha estrutura é muito cara”, diz a fundadora. As pessoas adoravam o lugar e, nessa época, começaram a surgir convites para eventos corporativos, que passaram a ser feitos às segundas-feiras, day-off do espaço. A Unilever fechou a casa para fazer uma apresentação para agências internas. A Pepsico fez o mesmo para realizar uma pesquisa sobre o Toddynho. A Danone também lançou produto no Mamusca. Elisa comemora: “Isso é algo que eu não tinha pensado e que está sendo ótimo para eu fechar a conta”.

Desde janeiro deste ano, o Mamusca dá consultoria e faz os eventos voltados à primeira infância para prefeitura: aniversário da cidade, carnaval, Viradinha Cultural e outros. Se os eventos corporativos trazem uma receita mais que bem-vinda ao caixa, a parceria com a prefeitura leva isso a um outro nível. “Públicos que não teriam oportunidade de pagar por esse serviço conhecem a gente. E convidamos os pais do Mamusca para os eventos. Eles vão, saem da bolha, pegam metrô com carrinho de bebê, vivem esse outro contexto e também adoram. É uma surpresa muito bacana, de lado a lado”, diz Elisa.

Nina está com 5 anos, Sofia com 2, e o Mamusca com pouco mais de 1 ano. Elisa, a jovem mãe que sequer preparara o quarto do primeiro filho, converteu-se em uma empreendedora criativa, inovadora e inspiradora. Acorda às 6h para passar a manhã com as meninas, cuidando do Mamusca remotamente. À tarde vai ao espaço, na rua Joaquim Antunes, não muito longe da sua casa. Retorna para o jantar das pequenas, e quando elas dormem, lê aos emails e resolve atribuições de empresária. Muito recentemente, conseguiu voltar a fazer yoga.

O Mamusca, que começou com uma frustração e se alimentou de solidão para germinar, vem provocando uma mudança sutil, mas transformadora, em sua clientela. De certa forma, em um pedacinho da maior metrópole do país: há cada vez mais mães com filhos, em vez de babás a serviço.

draft card mamusca

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