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Não parece, mas dentro deste hotel fica o Trampolim Startup Café, que acolhe nano empreendedores

- 4 de abril de 2018
Dentro do Ibis Budget, na região da Avenida Paulista, funciona o Trampolim, um café para acolher empreendedores sem escritório nem verba pra coworking.
Dentro do Ibis Budget, na região da Avenida Paulista, funciona o Trampolim, um café para acolher empreendedores sem escritório nem verba pra coworking.

É improvável, mas é real. Fica dentro de um hotel, na maior cidade do país, um café que tem como missão “conectar pessoas e fazer a roda do empreendedorismo girar”. Assim se define o Trampolim Startup Café, um espaço que pode servir de coworking (tem mesas adaptadas para servirem a reuniões e apresentações) mas que busca, também, ter como fornecedores nano empreendedores (ou seja, quem está super começando) do ramo alimentício e que contrata, para trabalhar ali, pessoas com dificuldades para entrar no mercado de trabalho.

Esta história começa no hotel Ibis Budget, unidade localizada na rua Consolação, em São Paulo, quase esquina com a Avenida Paulista. É ali que fica o Trampolim, de portas escancaradas para a rua.

ERA PARA SER O CAFÉ DO HOTEL, VIROU UM PROJETO BEM DIFERENTE

“Esse espaço foi erguido com o objetivo simples de servir café da manhã para os hóspedes, mas queríamos transformá-lo em um local mais rentável”, conta Ana Carolina Lisboa, 35, subgerente do hotel e uma das responsáveis pelo café.

Ana Carolina Lisboa, subgerente do Ibis Budget da Paulista e uma das responsáveis por coordenar o Trampolim.

Foi depois de muita discussão interna e uma parceria com parceria a startup de conteúdo Bee Content Club, que em 2017, surgiu a ideia de transformar aquele espaço, projetado pelo Studio ArquitetUras, em um café que serviria de “berço” para novos negócios.

Mas se no início o foco era no cliente com perfil de “empreendedor prestes a dar um salto na carreira”, o plano que entrou em prática foi ainda mais ousado: incluir fornecedores e colaboradores neste networking vivo.

“Nós pensamos: por que não expandir essa ideia para todos os âmbitos do nosso café?”, conta Carolina. “Foi então que decidimos abrir esse espaço para ajudar o nosso entorno, contratando nano empreendedores para fornecer nossos pratos e ajudá-los a se profissionalizar, além de tratar as vagas do café de forma diferenciada.”

MAIS DO QUE UM CAFEZINHO, UMA FORMA DE GERAR IMPACTO

As contratações de candidatos e fornecedores do Trampolim Startup Café acontecem por meio de instituições sociais parceiras da AccorHotels (companhia hoteleira francesa dona da marca Ibis). Entre elas o Centro Social Menino Jesus, a Unibes, o Afrobusiness, a Chance e o Consulado da Mulher. Estas entidades foram as responsáveis pela pré-seleção.

Hoje, o Trampolim Startup Café conta com dez funcionários. Fabiana Caetano, 36, está entre eles e foi contratada para trabalhar na cozinha, abraçando a oportunidade para dar um novo passo na carreira: sair da área de confeitaria, onde atuava há mais de dez anos, para expandir seu conhecimento na cozinha e abrir o leque de possibilidades.

“Eu queria crescer e sabia que tinha potencial para isso, só precisava de uma oportunidade”, fala Fabi, como é conhecida por ali. “Aqui a gente está sempre interagindo, fazendo cursos, criando pratos e vai melhorando cada vez mais. Estou até fazendo um curso de gastronomia internacional e outro de bartender, para agregar conhecimentos.”

Parte da equipe de funcionários do Trampolim, contratada com o apoio e pré-seleção de instituições sociais.

Assim como para Fabi, o Trampolim está servindo de impulso também para personagens que não vieram do ramo alimentício, como Donaldo Syllabe, 23, refugiado do Haiti.

Morando no Brasil há três anos, ele viveu a dificuldade de procurar emprego como refugiado em um cenário de crise. Estava sem dinheiro e morando de favor quando foi indicado pela Chance. “Eu nunca tinha trabalhado em restaurante, mas isso mudou a minha vida”, conta o haitiano que diz ser um “faz tudo” – desde atender as mesas até ajudar na cozinha e o que mais aparecer. “Consegui dividir apartamento com um amigo, voltar a mandar dinheiro para a minha família e estou pensando em fazer um curso no segundo semestre de gestão empresarial ou finanças. As coisas melhoraram muito!”

Muita coisa mudou também para os nano empreendedores que cruzaram o caminho do café, pessoas que tocam o próprio negócio da cozinha de casa vendendo seus produtos nos arredores das comunidades onde vivem.

A subgerente Carolina conta que para fazer negócio com os atuais seis fornecedores foi preciso ir além da seleção e partir para a orientação de como dar os primeiros passos para se tornar um negócio formal. “Tem pessoas que a gente precisa dar um auxílio maior para que ela esteja pronta para o mercado. Nem todos tinham como emitir nota fiscal da forma como a gente precisava, mas mesmo assim abraçamos a causa e ajudamos a fazer tudo para que eles conseguissem atender às exigências legais de fornecer para um restaurante.”

Quanto menor o empreendedor, mais minucioso se torna o trabalho da equipe de gestão do Trampolim. A sorte, diz Carolina, foi ter a AccorHotels por trás para dar todo o suporte legal necessário. “O centro financeiro da Accor já ajudou alguns dos pequenos empresários a emitir nota fiscal e uma empresa de nutrição que atende a gente também abraçou a causa e auxiliou quem precisava fazer a etiquetagem correta das entregas, conforme exigido pela Anvisa.”

Todo este trabalho não trouxe apenas mudança para a vida desses pequenos empreendedores, mas também para quem está do outro lado do projeto, como fala a subgerente, que atua há três anos na rede hoteleira:

“Ter contato com pessoas tão diferentes, que dão duro para produzir e entregar com amor mesmo com tantas dificuldades, fez minha visão do empreendedorismo mudar”

Ela continua: “Na hora de escolher a equipe, me senti privilegiada por compartilhar suas histórias e veio a responsabilidade de inserir e formar estas pessoas para o mercado”.

QUANDO O CARDÁPIO CONTA A HISTÓRIA DE PESSOAS

A grande maioria dos itens oferecidos no cardápio do Trampolim Startup Café vem dos nano empreendedores: desde a “fatia de bolo indiano da Márcia” ou o “brownie da Josi” (como estão nomeados no cardápio) até os pratos de refeição completa.

Mesmo Fabiana, que é funcionária, tem sua chance de oferecer receitas e também ter seu nome estampado no menu, como é o caso do “pudim de paçoca da Fabi”, já famoso em outros hotéis da rede Accor. “Esse pudim está na rede desde que eu fiz um curso no Centro Social Menino Jesus e o meu professor gostou tanto que levou para o restaurante do hotel Pullman e, depois, quando eu vim trabalhar aqui, veio para cá também”, diz a cozinheira, sem esconder o orgulho.

O “pudim de paçoca da Fabi”, receita criada pela funcionária e que está no cardápio do Trampolim e no de diversos hotéis da rede Accor.

Claro que esse modelo de negócio só funciona assumindo custos maiores e lucros menores — pelo menos no início, conta Carolina:

“Estabelecemos uma margem menor nos nossos pratos porque sabemos que esses fornecedores não têm estrutura de grande empresa e vão ter custos maiores”

Hoje, a margem de lucro do café gira em torno de 8% do valor investido inicialmente, que foi 450 mil reais, já incluindo salários, aluguel do espaço, energia e outros custos operacionais. E é assumindo parte dos custos dos nano produtores que o Trampolim consegue oferecer opções por preços que estão dentro da média da região.

Um prato quente como o “Nhoque de batata doce ao molho sugo” sai por 22 reais, enquanto uma refeição com filé de tilápia ou alcatra fica por 28 reais. Já um lanche rápido, como uma “fatia de torta da Debinha” ou a famosa “fatia de bolo indiano da Márcia”, ficam entre 7 e 10 reais. “Continuamos girando o café porque colocamos um preço justo para que o cliente venha e saiba que tem um custo que dá para frequentar e, com isso, conseguimos abraçar os dois lados da moeda”, diz Carolina.

O Trampolim oferece diversos recursos para as reuniões dos clientes, como o espaço para a gravação de vídeos da foto acima.

Além de incentivar nano empreendedores, a arquitetura do espaço foi pensada para atender às necessidades de clientes que, além de tomar um cafezinho, precisam de um lugar para fazer reuniões de trabalho.

O Trampolim oferece internet de graça e recursos multimídia, até mesmo para gravações de vídeos para as redes sociais. Os cartões de visita têm lugar de destaque em um varal logo na entrada do estabelecimento. “O mercado de trabalho mudou e a tendência é que as pessoas não fiquem mais dentro de um escritório. Então, conseguimos rentabilizar o espaço e, ainda, ajudar as pessoas em todos os âmbitos do nosso negócio”, diz a subgerente. Ela conta que o café não cobra taxa pelo uso do espaço, mas a ideia é que os clientes consumam pelo menos um cafezinho durante ou após a reunião, de preferência com uma “fatia de bolo indiano da Márcia”, porque ninguém é de ferro.

As telas de LED, que podem ser usadas pelos clientes para apresentações, também servem para contar a história do Trampolim para quem quer que esteja ocupando as mesas: “Queremos que o nosso público sente aqui e não veja só um brownie ou um pudim, mas a Fabi preparando o pudim e a Josi saindo da casa dela para entregar o brownie”, diz Carolina.

O café segue em busca de fazer com que a roda do empreendedorismo continue girando e as portas abertas para novas oportunidades, como diz Carolina: “Se alguém chega aqui hoje e fala ‘está aqui o meu cartão, faço torta para vender e tem uma que faz o maior sucesso na região onde eu moro’, a gente abraça também. Por que não?”. O mesmo trampolim pode, afinal, impulsionar muita gente.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Trampolim Startup Café
  • O que faz: Café com espaço para coworking
  • Sócio(s): AccorHotels (Ibis Budget Paulista)
  • Funcionários: 10
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 450.000
  • Faturamento: R$ 36.000 (em 2017)
  • Contato: (11) 3123-7755
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