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“Se o empreendedor fica mais tempo em eventos e no Facebook do que na empresa, tem algo muito errado”

- 3 de junho de 2016
Juliano Seabra, da Endeavor.

Conversar com Juliano Seabra, 38, é se sentir em casa, pois já no primeiro contato ele te deixa à vontade como se vocês fossem conhecidos de longa data. Talvez este seja um dos talentos essenciais para a posição de diretor geral de Endeavor, a organização que apoia e orienta empreendedores que pretendem ter alto impacto. Formado em Relações Internacionais, Juliano caiu neste universo meio de repente, em 2002, ao assumir a liderança dos projetos de educação empreendedora no Senac São Paulo.

Na Endeavor ele tem a missão de mostrar que o Brasil pode ser um país que cria grandes negócios. A tarefa é árdua. A entidade calcula que hoje existam 35 mil empresas com esse perfil, e quer ajudar a fazer que sejam 100 mil até 2030. Para dar conta disso, Juliano se abastece de um idealismo que tem pé no chão. Ele acredita no potencial do empreendedorismo de mudar a realidade e melhorar uma nação, mas não quer “um oceano de incompetentes motivados”.

Juliano sabe que não há paixão que mantenha um empreendimento de pé. “Às vezes parece que o empreendedorismo é um dom nasce com você e vai fazer o seu negócio arrebentar. Isso não é verdade. Ele é uma competência que precisa ser desenvolvida. As pessoas fecham os olhos para o lado duro de empreender”, diz.

Ele se esforça para seguir o que prega. Diz aprender todos os dias com a sua rede de contatos. Durante a entrevista mostrou também ter um talento cada vez mais raro por aí, o de ouvir. Escuta as perguntas com atenção e toma uns bons segundos para organizar os pensamentos antes de começar a responder.

Pai de uma menina de dois anos e meio, ele diz que a nova função o fez mudar as perspectivas, entender o mundo de um jeito diferente. “É meio clichê, mas acontece mesmo a história de ter outras prioridades e maneira de enxergar a vida.” No caso dele, o plano é arregaçar as mangas para deixar um mundo melhor para os filhos. Na entrevista a seguir, Juliano revela um pouco de como pretende fazer isso.

Qual é o seu desafio como diretor geral da Endeavor?
O desafio é promover um empreendedorismo que dá certo. Temos três grandes missões. A primeira é continuar formando bons exemplos para o Brasil e, quanto mais a situação do país piora, mais difícil fica fazer isso porque um pedaço do ambiente joga contra. Mas só formar bom exemplo não adianta, então temos que espalhar isso para a sociedade, contar essas histórias e aprendizados. Temos também o trabalho de olhar o que mais precisa mudar para que o país possa ser referência em empreendedorismo. O Brasil tem empreendedores que não conseguem se desenvolver por uma série de questões. Estamos no meio do turbilhão do empreendedorismo. As referências estão sendo construídas agora.

Temos organizações como o Sebrae, fundos de investimento e aceleradoras no Brasil. Qual é o papel da Endeavor nesse cenário e onde vocês fazem a diferença?
A primeira frente em que atuamos é o universo de empresas de alto crescimento. Não falta startup nem gente começando, mas falta quem consiga virar o jogo e crescer. Nossa tarefa aí é aproveitar o bom trabalho feito nessas organizações e ajudar empreendedores a manter a rota, pois muitas empresas morrem na praia depois de cumprirem a primeira parte da jornada. Nossa outra frente de atuação tem a ver com o impacto em escala. Aí, não estamos sozinhos e não queremos estar.

A tarefa de construir uma cultura empreendedora não é de curto prazo nem de uma só organização

Acreditamos que toda empresa importante tem potencial para se tornar grande e tentamos soltar esse potencial. É muito legal a gente ver as histórias de empreendedores que resolvem um problema de uma cidade. Mas por que não resolver de duas ou do país inteiro? É um convite ao impacto. Para isso, trabalhamos com as empresas em fase um pouco posterior do que as outras organizações.

Qual é a maior dificuldade para inspirar e orientar as pessoas nesse caminho do empreendedorismo?
Hoje, muito mais gente empreende por opção pessoal, de carreira mesmo, e o potencial que isso tem de gerar impacto é muito maior. Mas o dilema é que o Brasil não tem histórico de empreendedorismo e há uma idealização, que é um risco enorme. Parece que o empreendedorismo é um dom natural que nasce com você e vai fazer o seu negócio arrebentar. Isso não é verdade. Ele é uma competência que precisa ser desenvolvida. Essa é a verdade não dita do empreendedorismo. Brinco que o risco é a gente cair num oceano de incompetentes super motivados. Sonho e paixão te fazem levantar da cama, mas não te fazem construir um puta negócio

O hype em torno do empreendedorismo, então, ajuda ou atrapalha?
A meu ver, mais ajuda do que atrapalha. O que a gente chama de hype gera massa crítica de gente fazendo. Com o hype, percebemos um monte de gente que quer empreender e não sabe nem em quê. Como o empreendedor que não está apaixonado vai aguentar o dia ruim, as inúmeras porradas que vai tomar? Mas, vamos aproveitar a onda boa para contar um pouco da real, cobrar que os empreendedores tenham consciência de que a responsabilidade vai muito além de abrir um CNPJ. A gente não tem o Mark Zuckerberg brasileiro e não precisamos ter. Temos a história de empreendedores que estão ralando, construindo as grandes empresas, os exemplos brasileiros que vão inspirar as próximas gerações do jeito certo, sem atalho.

Quando um empreendedor gasta mais tempo em evento e no Facebook do que na empresa, tem alguma coisa profundamente errada

Qual é a sua visão sobre a nova economia no Brasil?
O universo da nova economia, assim como o do impacto social, tem um dilema quando encontra o universo do empreendedorismo de alto impacto. É o equilíbrio entre o social ou o criativo e o resultado financeiro. Isso demanda escolhas. Não tem decisão ilegítima, mas é isso que vai definir o impacto. Você pode ter uma puta solução criativa ou resolver um enorme problema da sociedade, mas se não conseguir transformar isso em um negócio que pare de pé, que dê lucro para reinvestir, não tem jeito. Se a empresa vai muito para resultado, detona a missão. Se vai muito para missão, detona o resultado. Tem um equilíbrio fino. Dou exemplos que a gente tem dentro de casa: a Geekie, que é de tecnologia educacional, e a Doutor Consulta, rede de clínicas de saúde para classes C e D. Ambos os empreendedores são formados no mercado financeiro, têm DNA de resultado. Isso permite que as empresas efetivamente equilibrem resultado e impacto.

Tem também o empreendedorismo mais tradicional. Como a Endeavor recebe isso? Qual é o perfil que está crescendo?
Somos super agnósticos, não acreditamos em setor, região ou perfil. Tem muito negócio com alto potencial de impacto em que o empreendedor se prova constantemente alguém que supera os obstáculos e não precisa de muleta, que é outro desafio no Brasil.

Não somos muleta, somos vitamina. Eu potencializo quem tem as coisas razoavelmente postas

Esse raio cai em qualquer setor, em qualquer região, com gente de qualquer idade, gênero e formação. A gente apoia diretamente no Brasil 87 empresas, 170 empreendedores, e eu tenho história de tudo. Tem moradora da favela com a maior rede de salão de beleza do Brasil, o Beleza Natural, amigos de faculdade de classe média alta do Rio de Janeiro que montaram a maior rede de comida italiana, o Spoleto, entre muitas outras. O raio do empreendedorismo cai em qualquer setor.

O Brasil ainda é um mercado de muita franquia e pouca disrupção?
Total. A gente idealizou que empreender é dar uma bica no chefe e trabalhar por conta própria. Empreender não é isso. É construir valor, disruptar um modelo de negócio, a forma como as coisas são feitas, questionar a realidade. A franquia é um jeito bacana para quem quer um pouquinho mais de autonomia com uma segurança bem próxima da que tinha como funcionário. Acho que tem o espaço para isso no Brasil, mas vamos dar nome aos bois: empreendedor é outra coisa, de outra natureza, e são poucos. São eles que vão construir a nova realidade, a nova economia, as novas relações de trabalho e formas de produção.

Você diz que o Brasil ainda não é um país empreendedor maduro. Somos emergentes nesse sentido? Que países são maduros?
Temos núcleos como Israel, Vale do Silício, alguns outros clusters nos Estados Unidos e em cidades como Buenos Aires, por exemplo, que tem um setor de tecnologia bacana. Estamos num ecossistema em maturação.

É uma questão de tempo para acontecer algo grande, global, brasileiro, de nova economia ou tecnologia. Não sei quando, mas vai acontecer. Pode ser agora

Sou muito mais otimista do que eu era há 10 anos e o grande desafio pela frente é melhorar o ambiente de negócios. Não adianta só a gente fazer o nosso papel aqui e enxugar gelo enquanto a burocracia é um horror, a regra do jogo muda toda hora e a sociedade não tem a consciência de que o empreendedor é importante.

O que falta para o Brasil alcançar o seu potencial empreendedor?
Faltam as histórias grandes que estão em construção agora. Falta o ambiente de negócios muito mais parceiro, faltam empreendedores mais competentes e conscientes da importância de reunirem essa competência.

Como a crise afeta o empreendedorismo no Brasil?
De dois jeitos. Primeiro, porque atrapalha os planos de quem está empreendendo. Mas muita gente usa a crise como desculpa e não pode ser assim. A pergunta que cada empreendedor tem que responder é:

Você já fez tudo o que deveria ter feito dentro de casa para poder culpar a Dilma ou o Eduardo Cunha? Se não fez, não fale dos outros

Você, como empreendedor, tem uma responsabilidade muito maior de fazer o negócio dar certo do que a crise ou o governo. Por outro lado, a crise, com o desemprego, empurra muita gente para empreender, mesmo meio a contragosto ou mal preparado. E aí podemos gerar uma legião de gente que vai empreender pelos motivos errados ou com competências erradas.

Você disse que o ambiente não é amigável para o empreendedor. O que você propõe para melhorar isso?
Precisamos investir mais no desenvolvimento do empreendedor. Temos que criar programas de apoio a empreendedores baseados no mérito e não na distribuição de benefícios de maneira horizontal. Empreendedorismo tem a ver com dobrar a aposta em quem vai performar. Não dá para fazer justiça social com um universo que precisa ser meritocrático porque não existe isso de que todo mundo vai ser um super empreendedor. Preciso escolher o cavalo. Tem, ainda, as coisas mais evidentes e talvez a maior seja a burocracia. É surreal demorar 200 dias para abrir uma empresa e 2 600 horas no ano para pagar imposto. Você tem que estar focado no seu potencial, não em papelada.

Há espaço para as pessoas inovadoras dentro das empresas?
É cada vez mais evidente que as grandes empresas têm que criar mecanismos para se aproximar dos empreendedores. Elas perceberam que, na estrutura atual, são muito pouco competentes para inovar ou disruptar o próprio negócio. Melhor trazer a inovação para dentro de casa antes que ela mate o seu negócio. O dilema está em abrir os processos para essa inovação. Hoje, poucas empresas sabem fazer isso de verdade. Por isso apostam num outro caminho, que é o de se aproximar de empreendedores, criar programas de mentoria, aceleração, concursos etc. Isso em qualquer setor. A Fischer, uma grande agência, lançou programa de aceleração para atrair empreendedores. A palavra de ordem de alguns anos atrás era open innovation. Hoje já percebemos que talvez o open innovation clássico seja menos efetivo do que um trabalho bem feito de corporate venture.

Qual é a maior virtude e o maior defeito do empreendedor brasileiro?
A grande virtude é resiliência. A plasticidade que o brasileiro tem de se adaptar a mudanças, de ir se moldando, é tremenda. Vivemos um ambiente político e institucional complicado, com uma burocracia terrível. Se você consegue empreender com sucesso nesse ambiente, pode, em tese, fazer isso em qualquer parte do mundo.

Mas tem duas coisas do outro lado que precisamos melhorar. A principal é a falta de ambição. Em todas as pesquisas internacionais de empreendedorismo o Brasil sempre está nas piores posições quando o quesito é ambição para crescer, gerar emprego, inovar, se internacionalizar. Estamos vendo isso timidamente começar a mudar. Junto com a a falta de ambição, vem essa história de que não precisamos nos preparar. Fiz uma palestra para 30 franqueados de uma empresa, empreendedores, pessoas que tocam negócios. Pedi para levantar a mão quem tinha feito algum curso no último ano, só 10% das pessoas levantaram. Tem algo muito errado nisso quando, num momento de crise aguda no país, 90% dos donos de negócio não fizeram nada para se preparar no último ano. É lindo que a gente tenha a nossa plasticidade, mas olha a quantidade de oportunidade que desperdiçamos por falta de ambição ou de preparo.

Como você se informa no dia a dia? Onde busca seus insights e inspiração?
Sou bastante conectado. Faço as minhas leituras em veículos de comunicação brasileiros e vejo coisa fora também. Sigo as pessoas que estão na minha rede de empreendedores, ouço muito deles. Sou relativamente ativo em redes sociais, mas acho que aprendo muito mais na interação com as pessoas. A vantagem de estar em uma rede como a da Endeavor é que todo dia aprendo alguma coisa nova com alguém que se atualizou e tem outra visão.

E como é a sua relação com tecnologia? Quais são os seus aplicativos e gadgets preferidos?
Sempre gostei de tecnologia e fui early adopter. Estou muito no celular. Não acho que tenho nenhum aplicativo muito diferente do que a média das pessoas. Às vezes vou contra a corrente, como agora que uso o Outlook, o novo, que ficou muito bom e tenho tentado avisar as pessoas (risos).

Pensando na sua história, o que você entende ter sido um grande acerto?
Me orgulho muito de ter abraçado a ideia de trabalhar com empreendedorismo quando tive a oportunidade. Me formei em 1999 em Relações Internacionais pela PUC. Fui convidado para ser trainee do Senac. No primeiro momento torci o nariz, pensei que não fazia sentido um cara da minha área no meio de formação profissional. Mas eu gostava de educação e gostei das pessoas. Depois de seis ou sete meses lá, fui chamado para pensar no que seria o Senac na área de educação para empreendedorismo. A coisa que mais me orgulho é ter abraçado isso, ter topado uma coisa que não tinha muito a ver com a minha profissão mas, por alguma razão, confiei nas pessoas que me fizeram o convite e fui me contagiando. Foi a coisa mais importante da minha trajetória porque definiu todo o resto.

E qual foi a escorregada, a pior decisão?
Acho que duas. Me arrependo porque, quando passei na faculdade, entrei em Relações Internacionais na PUC e em Direito na USP e podia ter feito as duas, mas escolhi não cursar Direito. Talvez eu não desenvolvesse outras coisas, mas poderia ser um profissional melhor, mais completo. O outro erro, que foi um super aprendizado, é que em 2013 a Endeavor realizou um evento grande aqui no Brasil, o Congresso Global de Empreendedorismo. Foi um sucesso de público, mas um fracasso do ponto de vista financeiro. Ali foi um momento em que aprendi muita coisa: como me controlar, não cair no embalo do “vamo que vamo”, ter mais a barriga no balcão. São coisas que a gente fala para os empreendedores e acha que nunca vai fazer. Foi um processo muito difícil, um puta erro que teve uma super utilidade para mim e para a Endeavor.

Qual é o seu propósito? O que te move de verdade?
Desde que fui picado por essa coisa do empreendedorismo sinto que meu propósito é permitir que outras pessoas possam desenvolver seu potencial. É muito bom ver gente se desenvolvendo e impactando, mudando as formas como as coisas são feitas.

A gente fala muito de ir morar fora, mas se todo mundo que é bom desencanar do Brasil, o que vai sobrar aqui?

Vivo esse dilema muito forte na minha vida. Tem um monte de oportunidade fora do Brasil, mas ao mesmo tempo tem tanta coisa que dá para melhorar aqui, onde nasci, onde está a minha família. Não sei se vou viver aqui para sempre, mas gosto da ideia de que parte do meu propósito é mudar o país.

E o que você quer deixar de legado?
Na Endeavor acreditamos muito que qualquer ONG tem que trabalhar para deixar de existir. O Brasil poderia ter muito mais empreendedores impactando o mundo. O maior legado que a gente pode construir é um dia fechar e comemorar porque as empresas estão fazendo o papel delas, as universidades estão fazendo o papel delas, o governo e os bancos também. O maior legado que a gente pode construir como causa é dar uma festa de encerramento da Endeavor.

E isso é uma coisa que você abraça pessoalmente?
Sim. Não tenho nenhuma pretensão de ser lembrado individualmente. Se a Endeavor conseguir construir essa história eu vou ficar super feliz de ter feito parte. Depois, vou encontrar outra coisa que mantenha essa lógica de impactar pessoas e transformar a realidade. Não conseguiria trabalhar com algo que não me envolvesse dessa forma.

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