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“O que acontece com o Brasil? Falta pai?”

- 25 de janeiro de 2019
O professor de literatura Luís Augusto Fischer faz uma análise histórica e simbólica do Brasil para responder uma pergunta: falta pai?


por Luís Augusto Fischer

Durante a Copa da Rússia, ano passado, o jornal El País, edição brasileira, deu manchete: “A seleção dos filhos sem pai”. E ofereceu o número: dos 11 titulares, seis cresceram distantes do pai biológico. Breiller Pires, autor da reportagem, citava ainda estudo do IPEA: 40% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres; neste grupo se encontram cerca de 12 milhões de famílias em que essas mulheres são mães sem cônjuge que ajude na criação dos filhos.

Falta pai para todo o lado. Especialmente entre os de baixo, é claro

Qualquer psicólogo com mínima sensibilidade para a dimensão coletiva dos fenômenos saberia dizer os efeitos imediatos dessa carência. Já há especulações sólidas apontando relação entre essa falta e a abundância de crianças e jovens infratores, criados sem a figura paterna, a encarnação tradicional do limite, da lei, quando menos do tabu.

O mesmo psicólogo apontará não o paradoxo, mas a tensão de perversa continuidade entre essa imensa ausência de pais para cuidar dos filhos que fizeram, de um lado, e o Brasil paraíso sexual, decantado pelos agentes de turismo mundo afora e de algum modo realmente existente – à custa de muita exploração vil de meninas e moças pobres, assim como ao preço de fantasias fortemente entranhadas na vida do país, a começar pelo Carnaval. Há diversão rápida e horrores lentos para todos os gostos, nesse campo.

Professores de escolas de periferia e de bairros pobres conhecem bem o fenômeno da gravidez adolescente, buscada pelas meninas como forma simples de sair de casa, em busca de uma imaginada liberdade. Rapazes envolvidos com tráfico ou outras modalidades de obtenção rápida de meios são disputados, porque garantirão a comida para o filho e, na melhor hipótese, também para a mãe do filho. Esses mesmos adolescentes serão, em grande proporção, presos, talvez mortos em disputas entre profissionais do ramo, talvez pela polícia – e crescerá o número de filhos sem pai presente.

No sentido figurado, também faltará pai? Não temos, como os estadunidenses, a figura dos “pais da pátria”. Os agentes da independência ou os dois Pedros imperadores não cabem no papel, ou nunca foram suficientemente encarados como tal – apesar de haver muitas Brasil afora batizadas de “Andradas”, em referência agora totalmente extraviada aos três irmãos de fato importantes no episódio quase bicentenário.

Em compensação ficou na memória o “pai dos pobres”, Getúlio. Tivemos Lula, com imagem paterna embaçada para nós, das classes confortáveis, talvez por ser de origem pobre e não inspirar a confiança burguesa do pai vencedor – o mesmo Lula que reencarnou em alguma medida essa figura getuliana para os de baixo. Ou será coisa de outra ordem.

Lula talvez nunca tenha se livrado da figura do rebelde, que é posição de filho e não de pai. Fernando Henrique, por outros caminhos, também não parece ter desempenhado bem a figura de pai tradicional

Ele, nem na versão da potência do mando, nem na versão da figura confiável e segura no meio de tempestades. Dilma e Temer, por motivos diversos estão fora dessa conta, ela como primeira mulher presidente – o que já não é pouco –, ele como um acusado de crimes desde o primeiro até o último minuto de seu mandato, como um avô metido a galã, mas que não consegue esconder nem de si mesmo o aspecto sepulcral de sua estampa pública.

Como a coisa vai funcionar agora, com o capitão Jair?Embora pai notório de três filhos que ocupam a cena de modo invasivo, e embora também tenha sido militar e esteja voluntariamente cercado por vários oficiais do Exército e, por isso, acrescente outras credenciais de figura paterna, quando se manifesta não inspira respeito filial, seja pelas trapalhadas óbvias dos primeiros dias do mandato, seja pelo ridículo de se referir a seus filhos carnais, um deles senador e outro deputado federal, como “garotos”.

Um pai que não reconhece os adultos em que seus filhos se transformaram não é exatamente um pai, mas um colega, alguém da mesma estatura psicológica

Migremos agora para uma zona mais confortável: a alta literatura brasileira conhece um trio de órfãos de impressionante afinidade. De trás para diante, são eles: Riobaldo, de que tivemos notícia em 1956, em Grande sertão: veredas, romance magnífico de Guimarães Rosa; Paulo Honório, de que soubemos em 1934, em São Bernardo, de Graciliano Ramos; e Blau Nunes, que conhecemos em 1912, a partir dos Contos gauchescos, de Simões Lopes Neto.

Por uma estranha coincidência, esses três clássicos do mundo rural brasileiro – do mundo cujo centro não foi nem o Rio de Janeiro capital do Brasil, nem a São Paulo cidade moderna do século 20, do mundo que se espalhou pelo interior e se fez mais de lusos e ameríndios do que de africanos escravizados –, guardam entre si o intervalo justo de 22 anos.

O narrador-personagem Blau Nunes conheceu o pai, e isso sabemos logo no primeiro dos contos, quando em desespero ele vê as estrelas e lembra que seu pai, em criança, já as vira. Mas já não era vivo quando ocorre a cena, Blau já adulto. Em 1827, como se lê no sublime conto que é “O anjo da vitória”, Blau tem uns dez anos e vive com seu padrinho, o que sugere não mais ter pai, ainda menino. E depois, morto o padrinho, Blau se vê sozinho no mundo, “gaudério e gaúcho”. É um órfão do mundo rural que toma a palavra para nos contar das coisas da vida.

Mais claramente órfão é Paulo Honório, que abre sua narrativa, também em primeira pessoa, declarando que em sua certidão de batismo não constam nem pai, nem mãe, só padrinhos. Ao contrário de Blau, porém, o protagonista de São Bernardo ascende socialmente, em trajetória inescrupulosa que o leitor conhece bem.

Na geração seguinte, chega a vez de Riobaldo contar sua vida e pensar sobre o ser, e também sobre o nada. Não era um sartreano, claro, mas era um pensador, feito a facão e ao sol e sombra do sertão mas capaz de alcançar alturas e funduras tremendas, acima e abaixo do comum dos mortais. Sua filiação é um dos centros de interesse do romance, bem diferentemente dos dois casos anteriores, em que isso é apenas lateral. Quando articula cronologicamente seu relato, depois de muitas dezenas de páginas de cronologia confusa e muita tensão, ficamos sabendo que, do nascimento até a idade adulta, Riobaldo apenas sabia de sua mãe, cujo nome aponta para o mundo índio: era a Bigrí, palavra que nós leitores reconhecemos na vizinhança de “Bugra”. Só mais tarde é que seu pai biológico, que não o criou, aparece em sua vida, e ao morrer o faz herdeiro: é o poderoso fazendeiro Selorico Mendes.

Na outra parte do Brasil, o litoral, capital Rio de Janeiro, supresa: também não há pai na mais alta narrativa brasileira – mas aqui não é por ausência do homem adulto, e sim por falta de filhos.

Em Machado de Assis, percorremos com surpresa e angústia toda uma galeria de homens sem filho, todos eles convivendo com questões abertas sobre isso

Simão Bacamarte, Brás Cubas, Quincas Borba, Rubião, Bento Santiago, o conselheiro Aires: nenhum tem filho. E acrescentemos o detalhe de alguns quiseram muito ter.

Simão Bacamarte, de O alienista, escolheu sua esposa por lhe parecer ser boa reprodutora, mas ela o desmente nisso. As Memórias póstumas de Brás Cubas chegam ao requinte de falar exatamente neste tema: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. O amalucado filósofo Quincas, na ausência de filhos carnais, tentou doutrinar Rubião, que talvez viesse a ser seu filho espiritual, se entendesse a filosofia do Humanitismo. Que se sabia, apenas uma outra providência lhe ocorreu: legar seu nome a um cachorro. Rubião, coitado, nem esposa conseguiu ter: só conseguiu ser, no fim das contas, guardião do Quincas cão. O casmurro Bento talvez tenha tido filho, mas jamais aceitou o pequeno Ezequiel como tal – e, de resto, Ezequiel morreu ainda jovem, bem antes de seu não-pai começar a escrever suas memórias tortas.

Caso vagamente assemelhado ocorre com o personagem Macunaíma, que “brinca” com uma penca de mulheres, mas não chega a conviver com seu único filho biológico  – apenas nascido, seu filho com Ci morre. (Mas talvez Macunaíma deva ser visto por outro paradigma nesse tema da figura paterna, uma vez conhecida sua clara proposta de representar a experiência amazônica: Mário de Andrade leu viajantes e etnógrafos que conviveram com etnias daquela misteriosa parte do mundo, a Floresta, onde não se deve procurar estrutura ocidental de família, onde Freud deve ser relido e adaptado.)

Há um ou outro caso de figuras paternas fortes na literatura brasileira. O pai do I-Juca Pirama, do poema narrativo de Gonçalves Dias, que recusa a amorosa covardia do filho e o instiga a morrer gloriosamente. O pai do personagem drummondiano de “Viagem”, pai patriarcal mas já sem mais palavra, incapaz de se dirigir ao filho desesperado. Ou ainda, em registro trágico, o pai do narrador de Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, pai que oprime o filho-narrador e toda a família, pai cuja palavra é sempre sentenciosa, incapaz de diálogo.

O melhor Brasil literário encarou o tema da ausência do pai com força e em alto estilo, porque teve a boa intuição e a coragem de enfrentar o enigma enunciando-o, trazendo-o para o centro da mesa de conversas – dando a palavra narrativa aos sem-pai do sertão, para contarem como fizeram para sobreviver, e aos sem-filho machadianos, para lamentarem de público esse vazio.

E daí?

Bem, à literatura não cabe resolver os conflitos e impasses da vida real. Ao apontar essa falta de pai na vida da generalidade do país, nos sertões de Rosa ou na urbe de Machado, a literatura brasileira parece estar nos dando uma triste notícia, uma necessária notícia.

Agora é conosco: enfrentar essa ausência requer olhar a realidade do país sem a fantasia de encontrar aqui a família ocidental organizada. Nem na vida dos jovens de origem pobre, nem na dos personagens do grande romance brasileiro podemos nos esquivar de ver e considerar essa falta.

 

 

Luís Augusto Fischer, 61, é professor de Literatura Brasileira na UFRGS e publicou, entre outros livros, Machado e Borges e Inteligência com dor – Nelson Rodrigues ensaísta, pela editora Arquipélago.

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