SPONSORS:

Os erros e acertos na jornada do Moradigna, que faz reformas de baixo custo em casas insalubres

- 23 de agosto de 2017
Os sócios do Moradigna: Matheus Cardoso, Vivian Sória e Rafael Veiga.
Os sócios do Moradigna: Matheus Cardoso, Vivian Sória e Rafael Veiga.

Por mais de 40 anos, o ajudante de obras Eliseu Martins da Cunha enfrentou um inimigo dentro da própria casa: o mofo. As paredes de um dos dois cômodos da casa em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, eram pretas, cheias de bolor e o cheiro no ambiente, segundo Eliseu, era insuportável. “Só Deus para ter misericórdia da minha casa, era mofo por tudo, estragava até as roupas”, conta. Isso porque a construção é praticamente colada à dos vizinhos – e esse “praticamente” era um dos problemas. No vão de três dedos entre uma parede e outra, a água da chuva ficava acumulada, infiltrando-se nas paredes. Para piorar, não havia janela. Com pouco dinheiro para pagar uma reforma, especialmente após perder o emprego, Eliseu encontrou uma solução para as dificuldades: o Moradigna, uma negócio social que reforma casas em situação insalubre por preços acessíveis (a proposta é bem semelhante à do Programa Vivenda, que surgiu um ano antes).

Por cerca de três mil reais — valor que pode ser parcelado em 12 vezes no boleto —, o Moradigna reformou o cômodo de Eliseu. O piso foi trocado, as paredes receberam novo revestimento e pintura e foram colocadas janelas e uma porta para melhorar a ventilação no ambiente. “Agora chego em casa e tem um cheirinho gostoso”, diz ele, que construiu, com a ajuda do sogro, mais dois cômodos no andar superior e pretende transformar o antigo quarto em sala. “Achei o preço cabível, até porque deram a tinta, que deve custar uns 300 reais, e as janelas, que devem custar uns 700.”

A história de Eliseu não é muito diferente da de Matheus Cardoso, 22, técnico de edificações e engenheiro civil, que em 2014, aos 19 anos, criou o Moradigna. Matheus cresceu no bairro Jardim Pantanal, também na zona leste de São Paulo, e enfrentou a insalubridade debaixo do próprio teto. Às margens do Rio Tietê, alagamentos e enchentes são comuns no local:

“Minha casa vivia em obra, eram reformas e puxadinhos infinitos. Chegamos a perder tudo em uma enchente uma vez”

A experiência serviu para que, ao cursar uma disciplina de empreendedorismo social, no sétimo semestre da faculdade, ele tivesse a ideia de criar uma empresa de “reformas sem dor de cabeça”, lema do Moradigna até hoje. A semelhança com o Programa Vivenda não é à tôa: Matheus foi trabalhar lá para ver de perto como o projeto funcionava. Ele conta: “Eu queria trabalhar com habitação, queria fazer o Moradigna acontecer. Então pedi um estágio para o pessoal do Vivenda justamente para ter essa experiência. Lá, identifiquei o que poderia ou não ser aplicado ao Moradigna, para depois seguir em frente e criar o negócio nos moldes que eu queria”.

O RISCO DE TRABALHAR COM AMIGOS

Com mais de 300 reformas realizadas desde a criação e um faturamento de mais de 1,5 milhão de reais, o negócio deu certo: gera lucro ao mesmo tempo em que melhora a habitação de pessoas de baixa renda. Mas o caminho até lá não foi livre de dores de cabeça. A primeira foi montar uma equipe. No meio de 2014, quando iniciou o processo para abrir a empresa, Matheus recorreu à ajuda de amigos. Ele fala sobre este erro comum a muitos empreendedores:

“Convidei pessoas para trabalhar comigo mais por afinidade do que por habilidade técnica. Deu errado”

Em menos de seis meses, no fim do ano letivo e prestes a começar as primeiras reformas, ele se viu sozinho. O que fazer? No início de 2015, ele teve a ideia de convidar a arquiteta Vivian Sória, 29, que havia sido sua mentora em uma empresa de engenharia, para fazer parte de uma sociedade. Ela topou.

Matheus (à esq.), do Moradigna, entrevista um morador para combinarem a reforma.

Matheus (à esq.), do Moradigna, entrevista um morador para combinarem a reforma.

O passo seguinte, também comum a qualquer jornada empreendedora, era o desafio de conseguir um investimento inicial. Para poder realizar reformas parceladas, uma espécie de concessão de crédito às famílias de baixa renda, era necessário ter o dinheiro antes de começá-las. A solução veio através de um crowdfunding. Em uma campanha online de financiamento coletivo bem sucedida,  Matheus e Vivian arrecadaram 16 mil reais, o empurrãozinho necessário para iniciar as obras.

Pouco tempo depois, em abril de 2015, o Moradigna recebeu outro apoio importante: a passagem por uma das maiores aceleradoras de negócios sociais do mundo, a Yunus Social Business, do economista Muhammad Yunus, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2006. De abril a setembro, tiveram orientações de especialistas das mais variadas áreas de negócios, em uma verdadeira imersão. “Vivemos em cinco meses o que poderíamos levar dois anos para viver”, conta Vivian. A partir daí, define, “a roda começou a girar”, e a empresa ganhou um terceiro sócio: o contador Rafael Veiga, 30, esposo de Vivian, que ajudava o Moradigna de forma extraoficial, passou a fazer parte da sociedade oficialmente, em 2016.

De lá para cá, a equipe também cresceu. Atualmente, dez pessoas trabalham nas áreas de atendimento, vendas e supervisão de obras. Para a execução das reformas (que acontecem somente na zona leste de São Paulo, por enquanto), a empresa conta com uma rede de fornecedores terceirizados cadastrados e contratados por serviço. São feitas de cinco a oito reformas por semana, por um custo médio de 4.800 reais, nos quais estão inclusos o material, a mão de obra e a gestão. A ideia é que tudo fique pronto em até cinco dias, ou seja, nada de reformas infinitas. “É essencial lembrar que nosso foco é combater a insalubridade, não melhorar a estética, embora isso acabe melhorando, é claro”, afirma Matheus. Os serviços mais procurados, diz ele, são as reforma de banheiros.

SEM PARCERIAS, NADA FEITO

Para conseguir realizar as obras com valores acessíveis, o Moradigna conseguiu fechar parcerias com empresas de construção civil. A Votorantim, de cimentos, a Coral, de tintas, e a Vedacit, de impermeabilizantes, a Amanco, de tubulação, estão entre algumas das que apoiam a empresa. Há um acordo diferente para cada uma, desde valores diferenciados ou descontos no material, até o patrocínio ou fornecimento de material gratuito. Além disso, o Moradigna possui uma parceria com o Instituto Phi, ONG que faz a ponte entre pessoas físicas ou jurídicas e projetos sociais. Ele patrocina reformas do Moradigna para famílias listadas no Serviço de Assistência Social à Família da Prefeitura de São Paulo.

Mesmo com as parcerias e os patrocínios, o Moradigna ainda enfrenta o desafio de estabelecer uma forma segura de concessão de crédito. “Muitos dos nossos clientes sequer têm conta em banco”, diz Rafael. Ao mesmo tempo em que se tornam financiadores das famílias e correm o risco de inadimplência, os sócios não podem tomar como base os indicadores tradicionais de crédito e precisam flexibilizar para se adaptar à clientela. Um dos objetivos para o futuro, portanto, é conseguir fechar cada vez mais parcerias — ou mesmo terceirizar o processo de concessão de crédito, para que eles atuem apenas como empresa de reformas de baixo custo, e poderem ajudar ainda mais pessoas. Ou fazê-lo mais vezes. Como Eliseu, o cliente de quem falamos no início desse texto, que já tem planos para quando quitar as parcelas da obra na sala: contratar o Moradigna novamente para reformar, adivinhe? O banheiro de casa. Digno.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Moradigna
  • O que faz: Reformas de baixo custo
  • Sócio(s): Matheus Cardoso, Rafael Veiga e Vivian Sória
  • Funcionários: 10 (incluindo os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 16.000
  • Faturamento: R$ 1,5 milhão desde o início da operação
  • Contato: contato@moradigna.com.br e (11) 3372-9990
Veja também:

Com sede em Porto Alegre, a Diosa não só capacita como oferece trabalho a mulheres “pedreiras”

- 19 de setembro de 2018
5738 1 0

Ensino de programação na periferia e para a periferia. Conheça a trajetória do Jovens Hackers

- 16 de abril de 2018
Arthur, criador do Jovem Hacker, cercado de alunos de Paraisópolis: programação na e para a periferia.

Método suíço de cuidado com bebês para a favela de Paraisópolis? Sim, é o Descobrir Brincando

- 9 de abril de 2018
Ana criou o Descobrir Brincando ao adaptar para a periferia os cuidados com a primeiríssima infância descobertos na Suíça.

O que aconteceu com o “Uber” da periferia paulistana? Conseguiu regularização e, agora, enfrenta o gigante

- 2 de abril de 2018
Alvimar da Silva e a filha, Aline Landim, empreendedores da Jaubra — Uber para a Brasilândia, na periferia de São Paulo.