SPONSORS:

“Os portugueses não entendem como deixamos as coisas serem como são no Brasil. Nem eu, ó pá, nem eu!”

- 20 de Abril de 2018
Desde pequeno, Marshal Lauzer é apaixonado por mapas e viagens. Vivendo em Lisboa, ele fala sobre o que considera encantar os brasileiros na Europa: uma sociedade mais próxima.

 

por Marshal Lauzer

“Hoje é o dia mais feliz da minha vida!”, disse o guri de seis anos ao se acomodar na poltrona do ônibus da empresa Planalto, que o levaria de Santa Maria para Buenos Aires, em sua primeira aventura internacional. Tinha ares de aventura, pois só lá nos anos 1970 — quando as coisas eram mais humanas — a ida com os pais para embarcar seus avós em uma viagem de turismo, poderia se transformar em uma corrida contra o tempo: tinham três lugares sobrando e o convite, feito ali na hora de partir, se transformou em uma desenfreada correria. A mãe indo arrumar as malas, o pai indo ao banco e ao juizado pegar autorização. Era ou não uma aventura? Era ou não um dia feliz?

Pois cresci assim, com esta ânsia por viajar. Ainda meninote, naquela idade em que astronautas ou bombeiros povoam nossos sonhos de futuro, me perguntaram uma vez: “E então, o que queres ser quando crescer?” E eu, prontamente: “Quero ser bispo”! As gargalhadas amplas ecoam até hoje, quando alguém relembra essa história. Mas ora, se eu passava vendo o dom Ivo, bispo de nossa cidade, uma hora em Roma e outra no Rio de Janeiro, sempre embarcando em um avião… Nada mais lógico que querer seguir seus passos.

Não segui, aliás pelo contrário, sou agnóstico. Na pré-adolescência, meus avós me ensinaram o gosto por colecionar coisas. Selos, moedas. Até hoje gosto de coleções, mas nada obsessivo: não quero nem preciso ser o maior ou o melhor. Mas adoro juntar lápis de museus, bolachas de cervejas, plaquinhas “do not disturb” de hotéis. Nesta seara, lá atrás, nos anos 1980, comecei uma coleção insólita. Sempre que alguém fosse viajar para longe, pedia um singelo regalo: um mapa da cidade.

Sim, naqueles tempos pré-internet e GPS, a gente comprava o mapa da cidade para se encontrar

E aí eu me perdia naqueles mapas de cidades tão fascinantes quanto distantes para mim. Paris, Nova York, Rio de Janeiro. Ficava tão imerso naquelas ruas, bairros e nomes estranhos que, muitos anos depois, quando cheguei a primeira vez na Cidade Luz, posso dizer, sem afetação ou falsa modéstia, que sabia andar seguro pela cidade. Ela era minha velha conhecida de tanto ter viajado em sua cartografia.

Se me arrependo de poucas coisas na vida, uma delas foi não ter sido mais impetuoso ali pelos dezoito ou vinte anos. Muitos conhecidos meus nesta idade se atiraram para o Velho Mundo, lavando pratos ou enchendo copos em Londres, por um ou dois semestres. Voltavam falando inglês e até com umas libras no bolso. Minha família de classe média teria bancado essa odisseia. Mas, segundo uma amiga, sou capricórnio com ascendente em capricórnio, o que me faz — e isso é verdade — muito apegado, para não dizer, acomodado ao lugar onde estou.

Mas eis que estou aqui, prestes a aproveitar os dias mais longos e as temperaturas amenas em Lisboa. Por conta do Doutorado, pude vir passar um semestre nestas bandas. Me era possível ficar até mais, mas sou capricorniano, lembra? E mais, sou de outra época, gosto de onde leciono, gosto das pessoas com quem trabalho. Admiro quem joga tudo para o alto e vai em busca de outros ares, admiro e respeito, mas sou meio old school.

Assim, preferi ajustar minha vinda para o intervalo entre o fim de um semestre e o início do outro, ficando aqui pouco mais de sete meses. E está sendo um período muito interessante. Nesta última década, pudemos, eu e minha querida, anualmente passar períodos de vinte, vinte cinco dias em vários destinos.

Fugimos do turismo padrão e, mesmo que visitemos os “landmarks”, sempre buscamos o lado B, o mercadinho do bairro, o lugar onde os locais vão. Sempre viajamos juntos. Apesar de morarmos desde sempre em cidades distintas, isto sempre foi tranquilo para nós. Nos últimos anos, estando a 120 km de distância, nossa rotina de duas casas acaba sendo divertida. E podemos contar nos dedos os fins de semana que ficamos longe um do outro.

Nosso dia a dia aí no Brasil é extenuante, então, as semanas passam rápido, o fim de semana também, mas logo tem mais. E aqui, eu sabia que ficaria um tempo que nunca fiquei, longe de quem me completa. Viemos juntos, mas ela retornou depois de quinze dias. Tranquilo, são quatro meses, ela vem para ficar os dois meses finais. Besteira, a gente se fala pelo WhatsApp… Não é bem assim.

Não vim para um intercâmbio, não tenho coleguinhas. A rotina de doutorado, todos dizem e eu confirmo, tende a ser solitária

“Ah, Marshal? Solidão na Europa eu também quero.” Bicho, solidão é igual. E tem mais, não é solidão, é falta.

Estuda-se, bebe-se um vinho, inventam-se seriados. Praticamente não saí daqui, vou deixar para conhecer os arredores quando a Sil estiver na área. Então, está valendo a pena? Cada minuto. Descobrir uma rotina que esbarra em respeito e coletividade, atravessar na faixa de segurança e parar na faixa de segurança, tudo como deve ser.

E lembrar de Porto Alegre, abandonada e perigosa. Lá, entrar na garagem do prédio às 23 h é angustiante. Aqui, primeiro, é estranho andar com celular na mão, abrir o notebook na mesa do bar da calçada sem precisar se preocupar. Depois, parece normal. Mas É NORMAL. Não é deslumbre, não me entendam mal. É algo do tipo de um engasgo.

Uma das paisagens cotidianas de Marshal em Portugal, o entardecer no Tejo.

Os brasileiros por aqui podem ser enquadrados —  generalizando, claro — em dois perfis: aqueles que se jogam, clandestinos, em busca de uma oportunidade, pois existe emprego, não tão fácil quando se imagina, mas existe. Não é o lugar para enriquecer, mas para ser digno.

E existem os mais bem resolvidos financeiramente que fogem da violência, botam 500 mil “Merckels” em um apê ou 3 milhões em um prédio inteiro.

Buscam aqui poder andar sem olhar para os lados, sem blindar o carro, sem aquele medo das nossas capitais. E, claro, também tem os que vêm estudar, tipo eu. Se afastar da rotina do trabalho, dedicar um tempo para reflexão e pesquisas. Meu vizinho é búlgaro, veio para ficar. Simpático, quer saber mais sobre meu país, está feliz em Lisboa. A cidade vive um momento ímpar, destino festejado pelo turismo, queridinha, todo mundo vindo para cá.

Os portugueses são cordiais, cartesianos, educados e querem saber mais do Brasil. Não entendem como deixamos as coisas serem como são aqui. Nem eu, ó pá, nem eu!

Quer dizer… Na verdade, a gente sabe né? Todos temos lá nossa parcelinha de culpa. Enquanto vou refletindo, percebo que gosto muito daqui, de Munique, Madrid, Praga, Milão. Talvez as palavras-chave para quem vem descobrir o Velho Mundo sejam tolerância e coexistência.

Claro que para quem mora no Rio ou em Porto de Galinhas, a presença de estrangeiros residentes é mais corriqueira. Mas em Curitiba ou Porto Alegre, tu até vê o cara da multinacional, o gringo de passagem. Aqui, o que pega é ir ao restaurante italiano e o garçom ser italiano. Pegar um Uber, conversar com o motorista, que é chinês, mora aqui há 19 anos. E tem esposa chinesa, pois “adolou” namorar uma brasileira, mas para casar, a “cultula é importante, né?”.

E isso me traz uma coisa que penso não termos aí no Brasil — falando precisamente do Sul. Temos os imigrantes que vieram e se assentaram, mas não temos tanto essa multiculturalidade. OK, aguardo as pedradas dos meus queridos paulistanos. Lembro uma vez que me levaram para o Bom Retiro em uma rua que, se não me avisassem, jurava eu estar na Coréia. Falo do meu mundinho, do Sul que habito, junto com estas impressões de terras lusas.

Para finalizar, acho que o que mais me salta aos olhos aqui é a falta de distâncias entre nós. Explico. Claro que existe uma “aristocracia” em Lisboa, os donos das grandes marcas, os grandes tubarões. Evidentemente, a gente não tem contato com essa turma. Nem a mídia faz deles celebridades. Mas o que fica mais forte — o que talvez seja mais determinante para tu gostares ou não daqui — é que estamos todos na mesma.

No Brasil, a classe média criou barreiras, visíveis ou não, para que um certo apartheid (sei que a palavra é dura, mas assumo o risco) se criasse. Vive-se cada vez mais em bolhas e é fácil não ter contato com um Brasil que dá medo, dá tristeza, dá dor. Claro, falo dos grandes centros urbanos.

A gente acaba se alijando de um país que é nosso, mas que parece fadado a ficar na periferia – não só geográfica — mas na periferia das nossas almas

Aqui, se vê uma sociedade mais próxima. Todo mundo se sente próximo. Se tu tens um padrão financeiro maior, o sujeito mais humilde tem dignidade igualzinha. Pois tem mais que estudo ou cultura, tem educação e senso de coletividade. E é aí que a coisa fica bonita de ver.

Estamos juntos, somos parte do todo. Se em Poa minha rotina não me permite andar de busão — para isso tenho um carro, só pela correria diária — aqui a coisa flui. E no “autocarro” (ônibus) ou no metrô, convivem e coexistem o refugiado e a madamezinha, o engravatado e o cara do skate. O chinês, o indiano, o angolano e o brasileiro. Cada vez mais os brasileiros, aliás. Lisboa e Portugal estão virando uma espécie de eldorado, um ponto de fuga.

Entendo, ao mesmo tempo que me dói. Pois gosto muito do meu Rio Grande, cheio de errinhos lá e cá. Sinto falta da Santa Maria em que cresci, juntando mapas de cidades velhas, latas de cervejas do mundo todo. Meu lugar? Mesmo não sendo nômade, gostando de estar lá e cá pelo mundo, não sei se viveria para sempre por estas bandas.

Acho que gosto de voltar. Voltar para poder partir novamente. Estranho que vivo em Porto Alegre há mais de vinte anos mas não me sinto local. Parece que sempre estou visitando, que não sou dali. Meu apartamento parece transitório. Sempre tem uma dúzia de quadros para pendurar. Não penso em fugir, mas também não tenho vocação para assimilar a barbárie. Queria mais era ver as coisas melhorarem. Por isso volto em breve. Humildemente ou cheio de pretensões, tentar fazer minha parte. E, depois, voltar a partir. Tem tanto lugar neste planetinha azul para descobrir.

 

Marshal Lauzer, 46, é formado em Desenho Industrial pela UFSM e mestre em Design pela UFRGS. Trabalha como professor universitário e vive, atualmente, em Lisboa por conta de um doutorado.

Veja também:

“Cheguei a São Paulo como refugiado. Tinha 16 anos e não sabia uma palavra em português. Foi só o começo”

- 25 de Maio de 2018
Steve Kikudi é congolês e veio para o Brasil como refugiado político, aos 16. Ele fala como foi descobrir o novo país, as angústias em relação ao futuro da África e o sonho de trabalhar com Direitos Humanos.

“Sempre achei que minha carreira evoluiria escada acima. Não podia estar mais enganada”

- 27 de Abril de 2018
Depois de viver o luto pela mãe, Fernanda Sigilião partiu em busca do emprego perfeito. Ainda não o encontrou, mas compartilha seu passo a passo de como abrir caminhos — na Europa ou em qualquer lugar.

“O que de pior já me aconteceu se transformou no melhor de mim”

- 2 de Fevereiro de 2018
Manuela em Darling Harbour, um dos ícones icônico da Australia.

“Conviver com a pressão interna de fazer dar certo meu novo estilo de vida foi o mais complexo da equação”

- 24 de novembro de 2017
Ian Borges tem 30 anos e narra sua transição do mundo corporativo para o nomadismo digital. Fala da pressão que é mudar de vida e de como foi a adaptação da namorada e da família à nova rotina.

“Eu não pude hackear o tempo. Minha única saída foi seguir em frente”

- 16 de dezembro de 2016
Rodrigo Bardin conta o que aprendeu no hiato de dois anos — em que ficou aprisionado ao sonho de morar fora, mas não tinha visto — tentando hackear o tempo (foto: Olivier Ramirez).