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“Para ser empreendedor no Brasil, você tem que ter uma resiliência de atleta de resistência!”

- 3 de agosto de 2018
Bernardinho, líder por natureza e técnico supercampeão: “perder não é fracassar; desistir, é” (foto: Maurício Nahas).

Mais de uma hora antes do combinado, Bernardinho já estava pronto para a sessão de fotos da campanha da Oficina, marca do Grupo Reserva. Disciplina é um dos segredos do sujeito que espalha sucesso por onde passa. Formado em Economia, ele arriscou fazer da paixão pelo voleibol um meio de vida.

Bernardinho é um dos técnicos mais vitoriosos da história do vôlei. Em mais de 20 anos de carreira, liderou as seleções olímpicas feminina e masculina na conquista de dois ouros olímpicos — cada uma! —, somando 32 títulos no total. Seu estilo combina razão com a mais pura emoção. Quem não se descabelou junto ao vê-lo quase fora de si na lateral da quadra, nas finais olímpicas?

Por sua vocação de líder, não é raro ver seu nome cotado para assumir um papel na política. Ele chegou a estudar seriamente a ideia de se candidatar ao governo do Rio de Janeiro. Acabou concluindo que poderia “influenciar mais, incomodar mais” como um conselheiro. Ligado ao Partido Novo, tem trabalhado para engajar as pessoas neste “jogo” do qual todos precisamos participar.

Prestes a completar 59 anos, Bernardinho faz palestras pelo país todo, é sócio de empreendimentos como o restaurante Delírio Tropical e a startup eduK (de cursos livres online), dá aulas de Liderança Empreendedora para alunos da graduação em uma faculdade carioca, é consultor do time do SESC Rio e ainda pratica triathlon. Ufa! Apesar da rotina puxadíssima, achou um tempinho para dar esta entrevista a Phydia de Athayde, editora-chefe do Projeto Draft:

Por que você acha que está na campanha da Oficina?

Me disseram que a marca é de atletas mais veteranos [risos]. A Oficina Reserva me traz uma coisa de inovação, de gente empreendedora, que faz. Me encaixo nesse perfil de trazer novos resultados com coisas novas – afinal, práticas iguais levarão a resultados iguais. Isso não é meu: é Einstein, mesmo, alguém que disse isso. Só estou copiando.

Além de atuar como professor, você experimentou o empreendedorismo. Mas o que é ser empreendedor em um país como o Brasil?

Comecei a empreender muito jovem e tive uma série de lições do quanto é difícil empreender no Brasil. Ao longo desses anos, me incomodou o fato de o Estado ser um peso para tudo o que as pessoas querem fazer; tudo é muito burocrático, lento. Quando o empreendedor arrisca, muitas vezes não dá certo, e esse cara é rotulado como “fracassado”, alguém que faliu – mas quando você aprende, nunca perde. Para ser empreendedor no Brasil, você tem que ter uma resiliência de atleta de resistência! Não pode ser inexperiente. É maratona, mesmo! Um desafio atrás do outro.

No mundo dos negócios, quem seria uma inspiração para você?

Assim como no esporte, não é só um ídolo: é um grande caleidoscópio. Tive a oportunidade, alguns anos atrás, de assistir a uma palestra espetacular, nos Estados Unidos, com o Warren Buffett [investidor, filantropo e CEO da Berkshire Hathaway], um dos maiores investidores do mundo, que acredita nas coisas construídas a longo prazo. No Brasil, costumo brincar que as influências são os “três reis magos”, que são Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira [criadores da Fundação Estudar]. Eles construíram coisas incríveis e foram mostrar para o mundo como fazer. Há milhões de outras pessoas que admiro, que saíram de situações absolutamente adversas e criaram coisas incríveis, com coragem para deixar a zona de conforto. Não há como dar certo se não tiver muita paixão e preparação. Para tudo, é treino, treino e treino.

Você falou de resiliência. Pode destacar alguma vez em que já tenha “transformado um limão em limonada”?

Olha… O que já caiu de “limão” na minha cabeça [risos]!

Tem dois momentos que destaco: um deles, em 1996, quando eu era treinador da seleção feminina em Atlanta. Na semifinal, perdemos por 3 [sets] a 2 de Cuba, o grande time na época. Foi um jogo sofrido. Brinco que as jogadoras quase morreram desidratadas de tanto chorar. E, menos de 48 horas depois, nós jogaríamos pela medalha de bronze.

Como você tira as meninas daquele sofrimento? Sair de lá sem medalha seria terrível, mas o que eu queria era o foco do “limão” de ontem e fazer a “limonada” do dia seguinte. “Esprememos o limão” e veio a tão sonhada medalha de bronze: a primeira do voleibol feminino de quadra.

Anos depois, já na seleção masculina, foi talvez a derrota mais dura, foi uma final olímpica em 2012, em Londres. Estávamos ganhando por 2 a 0 e acabamos perdendo por 3 a 2. Levei quatro anos “catando e espremendo limão”, para que, em 2016, nas Olimpíadas do Rio, conseguíssemos reverter  – e ganhamos um ouro, contra todos os prognósticos. Foi a “limonada” mais dura, mas a mais saborosa que já tomei.

Tem alguma frase a que você recorra para manter o foco e a inspiração?

É aquela história: “Quanto mais eu me preparo, mais sorte eu tenho”. E tem aquela frase que as pessoas usam muito: “Sua vontade de se preparar tem que ser maior que sua vontade de vencer”. Tem outra frase que diz: “A disciplina é a ponte que vai ligar nossos sonhos às realizações”.

Por último, tem um pensamento de um grande líder militar americano [o almirante William H. McRaven], que conta como o processo para se tornar um Navy SEAL [membro da unidade de elite da Marinha americana] é desumano. Da turma dele, 150 jovens se alistaram e trinta e poucos concluíram. Na parte central do centro de treinamento, há um sino que você toca três vezes se quiser desistir. Ele diz: “Os sinos vão estar ali, na nossa caminhada, mas nunca os toque, pois você vai se arrepender”.

No mundo dos negócios, sistemas de cocriação têm ganhado força. Para você, o que conta mais: a capacidade de cocriar ou aquele momento em que precisa ter hierarquia?

O mundo moderno pensa muito em estruturas mais horizontais, como um time. Mas, em qualquer estrutura, lideranças vão surgir e você vai se remeter a elas em algum momento. Na dificuldade, nós olhamos para alguém que nos traga uma luz.

No voleibol, com exceção do saque, nenhuma ação é isolada. É essencialmente um trabalho colaborativo, de time. Não vai ganhar o time que tem os melhores jogadores, mas o que tem o melhor time. Acredito que grandes jogadores são sempre importantes, mas desde que não atrapalhem a construção coletiva.

Você cogitou a carreira política. É possível unir um país tão desiludido com a política, como o Brasil de hoje?

Estamos em um momento em que tem um “sino” enorme à nossa frente. Tivemos, recentemente, eleições no Norte do país e o nível de abstenção foi gigantesco. Isso é desistir. Tem uma frase que a gente usa muito no esporte: “perder não é fracassar; desistir, é.” Gerações como a minha foram criadas com aversão à política, mas se pessoas do bem, competentes, não se envolverem de alguma forma, alguém vai. Um time, uma empresa, só sobrevive se algumas pessoas compartilham valores. Nossas lideranças não respeitam nossos valores.

O projeto que abracei é de gerar o Brasil a partir de valores, que privilegiam o empreendedorismo, a liberdade com responsabilidade do indivíduo, dando condições para as pessoas, tirando esse peso gigantesco do ônus do Estado das costas. Temos visto muitos jovens abandonando nosso país, nosso projeto. Que futuro nós teremos sem eles? Não queremos viver em outro país; nós queremos viver em outro Brasil. Ou nós escolhemos como um time, ou vamos morrer como indivíduos.

Que conselho você daria a alguém que está mudando de carreira – seja por conta de uma demissão ou por iniciativa própria?

Os pilares da motivação são necessidade ou paixão. Quando há necessidade, o cara vai dar o que for necessário por um êxito. O grande conselho é: se há uma necessidade, agarre as oportunidades, se prepare para o novo e se dedique. Não vai ser fácil, nunca é. E se há uma causa que te move, abrace-a.

Trabalhei em um banco de investimentos, até que tive um chamado da Itália para ser treinador. Nunca tinha sido, havia parado de jogar, e tive essa bifurcação na vida. Pensei: “Seria possível viver da minha paixão?”. Para desespero da minha família, eu fui. Minha paixão estava ali.

Com tantos anos de carreira, você consegue identificar o legado que vem construindo?

“Bernardinho” não sou eu. Eu sou Bernardo. Bernardinho é uma equipe de pessoas que trabalharam comigo em projetos incríveis. Nas aulas que eu dou, divido a cadeira com outro professor, e essa questão de você ter a sua volta gente que te enriqueça é muito bacana.

O líder não tem que buscar conveniência, mas fazer a coisa certa. Gostaria que as pessoas vissem, a mim e à minha equipe, como pessoas sérias, que se dedicaram efetivamente a uma causa muito clara: fazer da seleção brasileira uma das mais respeitadas no mundo inteiro.

Um conselho é jamais criminalizar o diverso; parar de falar das pessoas e falar de ideias. A internet é um espaço complexo, de acusações que, às vezes, não têm o menor sentido. Não há debate de ideias se você não confia nas pessoas.

 

Esta é uma das entrevistas que fazem parte da campanha da Oficina. Conheça a marca e leia o bate-papo com os outros empreendedores

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