• LOGO_DRAFTERS_NEGATIVO
  • VBT_LOGO_NEGATIVO
  • Logo

“Por que criei uma comunidade para mães negras cuidarem umas das outras e se empoderarem juntas”

Thais Lopes - 12 jul 2024
Thais Lopes, CEO da Mães Negras do Brasil.
Thais Lopes - 12 jul 2024
COMPARTILHAR

Preciso começar dizendo que não criei a Mães Negras do Brasil sozinha, e muito menos “do nada”. Por muitas vezes me vi explicando como “nós” estávamos pensando a estrutura do projeto sem saber nomear ou elucidar quem seríamos nós.

Quando tomamos consciência sobre nosso corpo político em um Brasil com 56% da população negra, entendemos que nada se trata apenas de nós mesmas, ainda que o esforço empregado em realizar inicialmente venha de uma mente fervilhando nas ideias.

Eu abracei uma missão. Pode parecer romântico ou clichê, mas não é, pois foram muitas renúncias sobre o imaginário de sucesso alcançado para poder fazer o que me dedico a fazer atualmente.

A LIBERDADE QUE EXPERIMENTEI DURANTE A INFÂNCIA AJUDOU A FORJAR A MINHA VISÃO DE MUNDO

Eu sou mineira de Belo Horizonte e caçula de três, todas mulheres.

Filha de mãe negra e pai branco, fui criada de forma mais livre em comparação às minhas irmãs mais velhas, já que, depois de duas, provavelmente minha mãe já tinha superado desafios e aprendido bastante sobre o que fazer e o que não fazer. Ou simplesmente já estava cansada, vai saber.

Fato é que essa tal liberdade, somada à minha personalidade e às oportunidades de educação que tive, foram fundamentais para o meu desenvolvimento enquanto ser humano e tem total relação com a minha visão de mundo hoje

Estudei em escola pública federal desde a primeira série do ensino infantil, e isso me possibilitou acesso a uma educação de altíssima qualidade e também de muita experimentação.

O Centro Pedagógico da UFMG foi um presente para uma criança que gostava de viver em contato com a natureza, com as artes, e aprendendo coisas diferentes em diferentes formatos.

Nunca me esqueço das aulas de piano, de francês, das aulas de educação física fazendo trilha na mata do campus, das visitas aos laboratórios da faculdade de ciências biológicas e também das aulas de argila, fazendo esculturas de barro que saiam do forno e depois pintávamos.

SER UMA DAS ÚNICAS MULHERES NO AMBIENTE DA INDÚSTRIA ME TROUXE DESAFIOS

Do ensino fundamental em uma escola plural ao ensino técnico profissionalizante no Colégio Técnico da UFMG, me formei como técnica em eletrônica em um espaço majoritariamente masculino, cercada por uma dinâmica educacional bem diferente do que havia experienciado até então.

Para uma jovem menina negra, a experiência de ser adolescente neste espaço foi difícil, mas também necessária para compreender o que viria pela frente

Prestei o vestibular para Engenharia Mecatrônica na Universidade Federal de São João Del Rei, com campus localizado em outra cidade do interior de Minas.

Me formei já trabalhando na Indústria com gestão de processos em uma planta de laminação à quente, cercada por japoneses, franceses e muitos homens diversos.

Em uma gerência composta em 95% por homens, ser uma das únicas mulheres naquele ambiente trouxe mudanças de comportamento e pensamentos que não me são gratos atualmente.

EM SÃO PAULO, MINHA CARREIRA DESLANCHOU, MAS EU TAMBÉM SENTIA UM ENORME VAZIO

Em busca de uma posição de liderança, me mudei para São Paulo em 2017.

Atuei em duas grandes empresas de tecnologia liderando equipes e desenvolvendo estratégias para o desenvolvimento dos negócios.

Estar no ambiente de startups lidando com dinheiro de verdade é algo que está fora da realidade da grande maioria das pessoas, e é uma bolha que quando você entra, fica difícil imaginar sua vida fora dali

Eu me sentia realizada atuando em “great places to work”. Minha carreira deslanchou muito rápido, fiz inúmeras formações e desenvolvi muitos projetos com profissionais altamente qualificados.

Sentia que havia “chegado lá” — mas também senti um enorme vazio.

AO ME VER GRÁVIDA, ME QUESTIONEI SOBRE O TIPO DE REFERÊNCIA QUE EU GOSTARIA DE SER PARA MINHA FILHA

A terra dá, a terra quer. Essa frase é o título de um livro de Antônio Bispo dos Santos (1959-2023), que fala de forma muito simples, mas também profunda, sobre a nossa relação com os ecossistemas e com nós mesmos.

Ao me ver grávida em 2020, logo no começo da pandemia, me vi em um contexto de vulnerabilidade.

Ainda que com todos os recursos disponíveis, eu sabia que algo de muito importante estava faltando, principalmente quando pensava sobre “como” eu iria criar aquela criança — e sobre qual o tipo de referência que eu gostaria de ser para ela

Poderia ser suficiente ser a mãe que ascendeu socialmente e conquistou grandes cargos em grandes empresas, mas ao olhar para como eu me sentia, e sobre o impacto do meu trabalho para o futuro da minha filha, percebi que não poderia se resumir em ter dinheiro suficiente para mantê-la em uma boa casa, em uma boa escola, e com todas as condições para uma vida confortável.

Diante desse cenário, analisei contextos, identifiquei padrões, e foi aí que tomei consciência de que eu e minhas ancestrais fomos atravessadas de forma extremamente violenta pelo racismo estrutural e pelo machismo nas instituições (incluindo a instituição Família).

O SALVADOR PRECISA DO OPRIMIDO PARA EXISTIR

Realizei pesquisas para entender como as minhas contemporâneas estavam vivendo, e se haveria algo que poderíamos fazer para resgatar modos de vida que pudessem nos trazer progresso sem nos violentar, sem extinguir nossa identidade, sem nos transformar em algo que não somos ou nos manter sendo vistas socialmente como apenas vulneráveis.

Ao pesquisar no Google por “Mães negras no Brasil”, encontrei notícias e dados sobre vulnerabilidade social e pouca ou nenhuma solução.

Ao refletir sobre minhas capacidades, percebi que nossas potencialidades não são de interesse público, pois nos manter em posição de sobrevivência e de vulnerabilidade parece ser interessante para manutenção de um sistema que exclui e mata

E isso não é teoria da conspiração. Basta um olhar sistêmico e holístico para entender como são produzidas as políticas públicas e projetos de instituições privadas para ver que as mulheres negras neste tipo de iniciativa sempre estão no lugar de receptoras — as carentes que precisam de um salvador para oferecer para elas as soluções para suas demandas de sobrevivência.

COMO TRANSFORMEI O TRIÂNGULO DO DRAMA EM UM TRIÂNGULO DA EMANCIPAÇÃO

O Triângulo do Drama de Karpman é um modelo social de interação humana que mapeia um tipo de interação destrutiva que pode ocorrer entre pessoas em conflito. Temos em cada uma das pontas o Oprimido, o Opressor e o Salvador.

A partir dessa visão, se buscamos por Mães Negras no Google e só encontramos dados sobre vulnerabilidades, a lógica de solução de problemas nos leva a uma incessante busca por causas, o que nos leva então ao encontro do opressor, que consequentemente desperta os salvadores para a ação.

Portanto, se estou falando sobre tomarmos consciência sobre a estrutura dessas relações e mudança social, é preciso transformar esse Triângulo do Drama em um Triângulo da Emancipação, o qual transforma os papeis de modo que todos atuem de forma benéfica nessas interrelações

Assim, o Opressor se transforma no Desafiador (Challenger); o Oprimido, no Criador (Creator); e o Salvador, no Mentor (Coach).

Trago aqui esta visão pois ela foi fundamental, uma vez que enquanto mãe negra atravessada por esses marcadores sociais eu poderia facilmente me identificar e me manter na posição de oprimida.

Porém, os conhecimentos sobre sustentabilidade e regeneração que nortearam a minha transformação educacional me possibilitaram entender que existe uma lógica funcional para o desenvolvimento de novas soluções emancipatórias que poderia ser benéfico na estruturação deste novo sistema.

COM A MÃES NEGRAS DO BRASIL, SURGE UM NOVO MODELO DE OPERAR

Comecei a realizar pesquisas e iniciar o desenvolvimento de diferentes visões de um ecossistema integrado, que incluísse diferentes perfis de mães negras, com diferentes necessidades e potencialidades, e que tivesse um núcleo que permitisse que todas orbitassem em torno de um propósito comum.

Em modelagem de negócios temos etapas específicas a serem realizadas para definição de persona, produto, entre outros.

Mas, para mim, criar um ecossistema afro referenciado com objetivo de potencializar mães negras só faria sentido se eu pudesse usar todas essas ferramentas de negócios tradicionais de maneira adaptada, sempre respeitando e valorizando o que a comunidade traz

Começamos os testes em março de 2023 com cem mães; em três meses já éramos 300. Atualmente, 15 meses depois, somos mais de 1 300 no Brasil inteiro.

Iniciamos nossas atividades testando a realização de eventos online como mentorias coletivas. Depois, realizamos um programa de Letramento Racial, e hoje já contamos com diversas soluções — não apenas para mães negras, mas também para empresas.

Constantemente sou surpreendida com depoimentos de mães que dizem que sempre sonharam na existência de um espaço como esse. É muito gratificante poder construir algo que eu sei que tem uma enorme complexidade, mas que ao mesmo tempo permite que a gente foque nossos esforços no objetivo comum contando com um espaço seguro para trocas.

Eu passo por inúmeros momentos de dificuldades, dúvidas, medos, mas também de satisfação, honra, amor e entusiasmo.

Não é fácil ser uma empreendedora negra no Brasil, principalmente quando falamos sobre desenvolver uma estrutura que opera em uma lógica organizacional e cultural diferente, mas os resultados seguem comprovando que estamos no caminho certo

O aprendizado é contínuo e necessário. Espero que todas as pessoas consigam conhecer mais sobre nosso negócio de impacto social e que possamos crescer cada vez mais.

 

Mãe de uma menina, Thais Lopes é engenheira mecatrônica, designer de processos regenerativos e CEO da Mães Negras do Brasil. Também atua como consultora, palestrante, mentora, embaixadora do programa Women Techmakers do Google e Multiplicadora B do Sistema B.

COMPARTILHAR

Confira Também: