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“Por que não preparar mulheres em situação de rua em Nova York para ensinar inglês a estrangeiros?”

- 2 de agosto de 2019
A partir da esquerda: o aluno Paulo, a tutora Maggie, Tiago Souza, a tutora Kymalekah e Felipe Marinho, também sócio do Soulphia.

 

por Tiago Souza

Era noite de sexta-feira. Como fazíamos todas as semanas, um grupo de amigos e eu estávamos em um abrigo para pessoas em situação de rua de Nova York servindo refeições para quem, pelos mais variados motivos, foi parar ali. Estima-se que, em todos os Estados Unidos, são mais de 500 mil.

Não nos cabe julgar. Com nosso trabalho voluntário, queríamos levar um pouco de dignidade e, de certa forma, amenizar as consequências dessa dura realidade. Mas, naquela noite, eu estava inquieto. Uma certa tristeza tomou conta de mim.

As refeições que preparávamos semanalmente para diferentes abrigos nova-iorquinos eram uma verdadeira experiência gastronômica. Um dos integrantes de nosso grupo é chef de cozinha e já realizava esse trabalho voluntário, de proporcionar um prato especial para pessoas em situação de rua.

Quando cheguei aos Estados Unidos, há pouco mais de dois anos, vi nesse grupo a oportunidade de continuar engajado em iniciativas sociais, como fazia no Brasil. Mesmo assim, com tudo isso, estava impaciente naquela sexta-feira

Fiquei me questionando, por exemplo, para onde cada uma daquelas pessoas iria depois da refeição: passariam a noite no abrigo? Voltariam para a rua? Se entregariam a algum vício, como álcool ou drogas? E meu grupo de amigos e eu? Cada um de nós entraria em seus carros e voltaria para o conforto de suas casas, para usufruir das conquistas que, com muito esforço, cada um alcançou ao vir para os Estados Unidos, como muitos brasileiros fazem.

A verdade é que fui “provocado”, interiormente, a querer fazer mais pelas pessoas em situação de rua. Senti que precisava colocar minhas habilidades a serviço desses homens e mulheres. Senti ainda que deveria estimular meus amigos a fazerem o mesmo.

Fora o nosso chef de cozinha, nenhum de nós estava utilizando suas habilidades – aquelas adquiridas em nossas formações educacionais e profissionais – para transformar a vida daqueles que sempre encontrávamos nos abrigos

Transformar vidas! Sim, precisávamos fazer algo gerasse oportunidades para aquelas pessoas reconstruírem suas histórias. Nos dias seguintes àquela sexta-feira, fiquei pensando no que poderia ser feito. Depois de considerar mil e uma possibilidades, finalmente, veio o “insight”: esses homens e mulheres falam inglês naturalmente, como uma habilidade única. Afinal, essa é a sua língua nativa! Então, por que não aperfeiçoar essa habilidade natural e prepará-los para ensinar inglês para estrangeiros? Uma demanda global!

A partir desse start, nasceu o Projeto Soulphia, que prepara moradoras de abrigos de Nova York para dar aulas de inglês pela internet

Sim, moradoras. São elas, as mulheres, o público junto ao qual decidimos concentrar nossa atuação. Por diferentes motivos.

Uma vez que a ideia do Soulphia surgiu, apresentei-a ao Felipe Marinho, também brasileiro, engajado em projetos sociais e integrante daquele nosso grupo de voluntariado nos abrigos nova-iorquinos. Ele imediatamente “comprou a proposta” e nos tornamos sócios nessa empreitada.

Fomos em busca de parcerias e uma das primeiras portas nas quais batemos foi a da Columbia University, que nos apoia até hoje com consultoria relativa à metodologia das aulas e à preparação de nossas “tutoras”, como carinhosamente chamamos nossas professoras de inglês. Foram eles que nos sugeriram: se querem fazer algo com as populações de rua, façam para as mulheres.

Assim como acontece em inúmeros países, a disparidade entre homens e mulheres é um problema também existente aqui nos Estados Unidos. Diversas mulheres foram parar nas ruas tentando se livrar de relacionamentos abusivos. Depois de sofrerem violência física e emocional durante anos, não lhes restou outra saída a não ser abandonar suas casas.

Muitas daquelas que compartilham desse histórico são pessoas de mais idade, que não tiveram oportunidades de formação educacional e profissional quando eram mais jovens, pois foram preparadas a vida inteira para serem “do lar”. E mesmo nas ruas, elas continuam expostas aos riscos de abuso e violência. Por todos esses motivos, entendemos que o Soulphia deveria se dedicar a oferecer oportunidades de recomeço para o público feminino.

Iniciamos o projeto piloto do Soulphia no final de 2017, instalando alguns computadores em um abrigo do bairro do Bronx. As primeiras seis tutoras que acolhemos ministraram mais de 500 aulas, para cerca de 40 alunos, que recrutamos via redes sociais. A experiência foi um sucesso!

A caminho de completar dois anos, o Soulphia já preparou 55 tutoras, que hoje ensinam inglês via internet para 470 alunos, tanto do Brasil quanto de outros países, como China, Colômbia e aqui mesmo, dos Estados Unidos

Mas, talvez, você esteja se perguntando: cadê os “perrengues” dessa história? Não houve? Claro que houve! E digo mais: ainda há! No começo, muitos nos desencorajavam. À medida que apresentávamos o projeto, diziam: “sério que vocês vão fazer isso? Para moradores de rua? Continuem só servindo comida…já está bom! Não percam seu tempo com isso!”.

Os próprios responsáveis pelos albergues não acreditavam na nossa proposta. Para abranger mais abrigos, tivemos que recorrer a instâncias superiores, como por exemplo, empresários que mantinham financeiramente albergues, prefeituras, enfim, pessoas e instituições que, de alguma forma, poderiam facilitar o alcance e implantação da iniciativa.

Também enfrentamos problemas financeiros, pois, na maioria dos meses, a conta do Soulphia “não fecha”. Isso tornou necessário, inclusive, algumas renúncias pessoais, como ter que me mudar para uma casa menor, trocar de carro, economizar em diversas contas do dia a dia.

Há ainda a resistência por parte até mesmo de alguns alunos, que muitas vezes não acreditam que uma moradora de abrigo possa dar uma aula de inglês com qualidade

Enfim, as dificuldades são muitas e estão presentes o tempo todo. E por que não desistimos?Continuamos porque acreditamos no potencial transformador desse projeto. Nossas tutoras já têm sido impactadas e isso nos motiva a seguir!

Quando nos deparamos, por exemplo, com o fato de que, das 55 tutoras do projeto, dez já conseguiram uma moradia e as mantém com o que recebem pelas aulas; e que outras, mesmo ainda morando em abrigos, partilham um pouco de seus ganhos com outros projetos sociais, queremos seguir adiante.

Ou ainda, ao perceber que nos tornamos uma verdadeira família para tutoras atendidas pelo projeto e que tinham um histórico de abandono, depressão e outros problemas de convívio social e familiar, isso tudo se transforma em combustível que nos impulsiona a superar os obstáculos e continuar a nossa jornada!

Essa é a essência do Soulphia e que está expressa, inclusive, no significado do nome que escolhemos para o projeto, formado pela junção de duas palavras: Soul – alma em inglês, ou a essência de uma pessoa – e o termo grego Sophia, cujo significado original é Sabedoria.

Somos mais do que um simples curso de inglês pela internet. Nossa meta é transformar as vidas das tutoras que fazem parte do nosso projeto e também o modo de aprender um novo idioma. E ouso dizer: sonho com o dia em que ninguém mais será obrigado a morar na rua por falta de oportunidades. Acredito, firmemente, que iniciativas como a nossa são o caminho para que este sonho se torne realidade!

 

Tiago Souza, 32, é formado em Letras, pela Universidade de São Paulo (USP) e em Farmácia e Bioquímica, pela Universidade Nove de Julho. Também possui MBA em Administração, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). No Brasil, atuou em diferentes empresas dos segmentos farmacêutico e de saúde, além de se engajar como voluntário em diversos projetos sociais, como a ONG Teto. Mudou-se para os Estados Unidos em 2016 e lá, junto com o também brasileiro Felipe Marinho, iniciou o Projeto Soulphia.

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