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“Precisamos de uma população que aprenda a discutir, que saiba reclamar. A solução de ontem não vale hoje”

- 21 de dezembro de 2017
Martha Gabriel é escritora e palestrante especialista em marketing digital e inovação.
Engenheira e especialista em inovação digital, Martha Gabriel fala da responsabilidade que as novas tecnologias trazem, do papel da educação no empreendedorismo, de filhos e... de infarte.

Uma das coisas que a entrevistada mais fala em suas aulas, palestras e consultorias sobre tecnologia é que o mundo está mudando em velocidade tão alta que nós, seres humanos, temos de parar para refletir sobre a nossa real função no planeta. Martha Gabriel, 55, é uma das especialistas em inovação mais respeitadas do país, além de ser escritora (com seis livros publicados) e artista digital.

A garota que brincava de decifrar código Morse para encontrar doces pela casa, escondidos pelo pai, apaixonou-se por linguagens e programação desde cedo. Formada em engenharia civil pela Unicamp, foi a primeira aluna da turma — isso em uma época em que mulheres eram ainda mais raras em cursos de exatas. Depois de pegar o diploma, trabalhou na Camargo Corrêa e na Hidroservice Engenharia, entre outras. Pouco antes de se casar, aos 24, abriu uma empresa com o então noivo Nilson. Desde lá, a missão do empreendimento vai se adequando para acompanhar os spin-offs (em sentido literal, derivagens) de carreira a que Martha se propõe.

Especialista em marketing e inovação, ela também tem uma consultoria que presta serviço a grandes empresas e programa viagens pelo mundo para palestrar (já deu mais de 70 aulas no exterior). Desde 2015, Martha é curadora e participante de imersões de empreendedores brasileiros a polos de tecnologia como o Vale do Silício, nos EUA, e Tel-Aviv, em Israel.

Ela se define como “intensa e muito apaixonada pelo que faz”. Depois de sofrer um infarte, há cinco anos, foi obrigada a rever algumas coisas da rotina, mas não diminuiu tanto assim o ritmo. No primeiro minuto de conversa, percebo que a velocidade de raciocínio e de fala de Martha são tão vertiginosos quanto a evolução da tecnologia que ela descreve. Ela brinca e me diz que, mesmo quando está fora do palco do TEDx (deu quatro palestras, entre 2012 e 2013), onde o tempo é cronometrado, deixa os alunos atordoados. Leia, a seguir, os melhores trechos da conversa com Martha Gabriel.

Como é viver nesse ritmo tão acelerado?
Tenho 55 anos e sofri um infarte quando tinha 50. Os médicos se perguntaram como, sem fumar, sem ter colesterol alto e sem ser obesa eu infartei? Não acho que eu tenha uma vida muito estressante. Faço tudo o que faço porque adoro. Uma coisa legal de falar é que quando o digital vem, passamos a ter um monte de possibilidades de fazer tudo que queremos, o tempo todo. Estamos numa era em que a gente pode mais do que a gente quer.

Entrei nisso de viajar, fazer palestra em dois estados no mesmo dia, porque existe demanda. Só recuso quando não dá mesmo. Mas foi por conta desse ritmo que infartei. Foi engraçado porque o médico disse que eu tinha de parar com isso, aquilo e aquilo outro. Respondi que não queria viver como uma berinjela! Disse que continuaria a viver intensamente e me propus a corrigir coisas para isso. Daí, equilibrei.

Desde quando você empreende com a Martha Gabriel Consulting & Education?
Na realidade, isso é um spin-off. Abrimos a empresa, eu e Nilson, em 1986, antes mesmo da gente se casar. É a mesma empresa que foi mudando a área de atuação, ou seja, fazendo uma pivotagem conforme o mercado mudava. Quando vejo que uma área está saturada e que não sou mais líder nela, quando não estou mais fazendo algo que seja o “estado da arte”, eu mudo!

O último spin-off aconteceu há cinco anos. Antes, a empresa não era focada em mim. Não éramos uma agência, mas resolvíamos problemas de marketing e estrutura de outras empresas. Por conta dos livros que lancei, começou a pender muito para o meu lado e valeu a pena fazer a mudança. Hoje, contando comigo e meu marido, somos cinco pessoas. Tenho ainda outros colaboradores pontuais, que aciono quando há demandas maiores.

Como sua carreira de engenheira se converteu para a de marketing e inovação?
Ao sair da faculdade, trabalhei em empresas grandes como Camargo Corrêa e Hidroservice Engenharia. Depois, montei a empresa de engenharia com meu marido e começamos a trabalhar com software para barragens. Por conta da engenharia, fui fazer pós-graduação em marketing.

Empreendo desde sempre. Quando tem alguma coisa desafiadora, vou lá e começo a fazer. Quando não sei algo, vou lá estudar

Fomos uma das primeiras empresas no país a fazer desktop publishing (processo que transplantou a tecnologia de composição gráfica para os computadores) no começo dos anos 1990. Foi uma disrupção no mercado porque era bem mais barato. Fazíamos catálogos e revistas. Sempre viajei para fora do Brasil e, em 1995, assisti a um Congresso gigante de Macromedia, em São Francisco. Ali conheci a internet e, imediatamente, quis trazê-la para a empresa. Então, começamos a fazer site, algo que ninguém fazia, numa época em que não havia manual para isso.

Instigada pelo potencial ainda desconhecido da internet, fiz outra pós-graduação na Belas Artes, para entender de Design. Na época, o webmaster precisava saber fazer tudo e meu raciocínio é: o que eu não sei, vou estudar. Em 1996, Mauricio de Sousa nos chamou para desenvolver o site da Turma da Mônica, do qual cuidamos durante quase 20 anos. Fiz o site da HBO, em 1998, mas quando todo mundo começou a fazer site, passei a fazer marketing digital e consultoria. Por fim, quando muita gente começou a falar de marketing digital, disse para mim mesma que não iria brigar pelo espaço onde todo mundo estava. Daí, peguei uma coisa que me encantava e dei um passo acima. Hoje, falo de digital business, disrupção etc.

Você também é autora e artista. Como isso entrou em sua vida?
Meu pai gostava muito de artes. Ele pintava. Foi na Belas Artes que comecei a ver a parte mais acadêmica de mestrado e doutorado e meus professores me incentivaram a escrever e publicar papers acadêmicos. Até que um professor sugeriu de eu criar um trabalho de poesia digital e inscrever em uma mostra. Arrisquei, o pessoal gostou e fui fazendo mais. Eu adorava, mas não tinha coragem de me chamar de artista. Comecei a fazer arte digital, depois fiz mestrado e doutorado em Artes na ECA-USP e, com isso, fui convidada para dar aula. Nesse processo, encontrei muitos pares interessantes nas áreas em que atuo, escrevi livros. No ano que vem farei um pós-doc na Poli, em Inteligência Artificial. Como tenho essa coisa das várias áreas, vou misturando…

Como você divide seu tempo entre consultoria, palestras, arte e sala de aula?
Arte é a área mais sacrificada. No ano passado fiz um trabalho novo, weCYBRID. O que mais me consome tempo são as viagens. O carro chefe da empresa são as palestras. Em segundo lugar vêm os trabalhos de consultoria. Mas faço consultoria butique, umas três por ano. Nelas, não concorro com BCG, McKinsey. Basicamente, faço o diagnóstico com o C-level para propor um projeto e ver a capacitação necessária, porque sem cultura adequada, a empresa vai engavetar o projeto.

E que tal liderar as missões de empreendedores brasileiros? Que aprendizados você trouxe da imersão Digital Mission Israel 2017, por exemplo?
Foi excelente! O Consulado ajudou a fechar a agenda e visitamos três empresas por dia, as principais startups de lá. Esta primeira missão para Israel quase não saiu por falta de quórum. Foram apenas quatro pessoas entre elas o Flávio Horta, CEO da Digitalks, empresa que organiza as viagens. Como eu era a pessoa da área de inovação, as conversas foram muito interessantes e densas.

Na primeira missão ao Vale do Silício, em final de 2015, foram 15 pessoas porque lá já é mais hype, mais conhecido. Aliás, esta é uma crítica que tenho, de maneira geral, ao mercado: primeiro precisamos investir em nós mesmos para depois colher os resultados. Quando se fala em growth hacking penso que primeiro você investe, depois o retorno vem.

Se você não acredita em você, se aquilo não é tão importante a ponto de você colocar seus recursos ali, por que será importante para outra pessoa?

A primeira imersão, em especial, é muito importante porque você faz uma identificação do mercado e as pessoas te recebem com mais atenção, com mais emoção. Eles contaram, por exemplo, que lá o governo tem uma estrutura que possibilita que a pessoa com uma ideia de startup legal receba investimento de 500 mil dólares. Se o negócio der certo, ela paga bem devagar. Se der errado, tudo bem, ou seja, TUDO BEM falhar: faz parte do processo!

O ambiente em Israel é duro. Não existe água natural potável para todo mundo, eles precisam de tecnologia para obtê-la. Eles têm o senso de urgência. Ninguém se distrai com bobagem porque a qualquer momento eles podem entrar em guerra. Por serem um país bem pequeno, que não tem mercado interno suficiente, precisam olhar para fora. Então, competem sempre com o estado da arte no mundo. A gente, aqui, se acomoda porque o mercado interno é imenso.

O que pode ser feito para melhorar o nosso ecossistema?
Como engenheira, digo que para o concreto ser bom, é preciso ter pedras grandes, pedras médias, areia fina, cimento (que é a cola) e água. Se faltar um elemento ou se as quantidades estiverem desequilibradas, não dá certo. Com inovação ocorre o mesmo. No Brasil, temos os blocos grandes, que são os governos, com algumas ações boas e temos os blocos médios, como os polos em: Florianópolis, Maringá, Belo Horizonte, São Paulo e Recife, por exemplo. Temos a areia, que é o pessoal talentoso espalhado pelo país, mas não temos o cimento, que são os pontos de conexão do sistema operacional. E ainda estão faltando mais pedras médias espalhadas pelo país.

A meu ver, o governo deveria ter um plano diretor para assumir o papel de hub e congregar as ações. O mundo é complexo. É complexo para as empresas e também para os governos. O que faz um país ser uma potência mundial? O que realmente faz diferença? O eixo de valor mudou. Hoje, é data capital (capital da informação). Quais serão os novos papéis? Este é o tipo de questionamento que fazemos.

Há tendências que duram décadas, que são as grandes ondas de inovação, e é para elas que temos de olhar. Tudo que fazemos nesse burburinho do agora é para chegar lá mas, se você não tiver um plano, se não parou um dia para pensar e estruturar, não tem como!

A questão é que as pessoas não param para refletir. O mundo de hoje distrai a gente. Por isso, nunca foi tão importante ter a disciplina do foco

Em um mundo em que a gente precisa de resiliência, o que mais tem é mimimi. Resiliência é a mola mestra para atuar em cenários complexos e incertos. Se não deu certo, paciência, vamos de novo! A educação moderna passa muito a mão na cabeça. Com isso, todo mundo acha que tem direito a tudo e ninguém pensa em qual é o próprio dever, em como pode melhorar. Isso me incomoda muito. É muita reclamação e pouca atitude.

E mais: a educação deveria ser discutida nesse ambiente de empreendedorismo, inovação e disrupção. O grande problema é que, hoje, o ritmo não é o da revolução industrial, quando se tinha décadas para o ajustamento. Agora, grandes massas de pessoas perdem o emprego do dia para noite e elas não têm preparo para dar um salto difícil, como usar tecnologia e cognição, por exemplo, para se encaixarem em uma atividade que gere valor na economia criativa ou na inovação.

O estudo World Inequality Report mostra que o gap entre ricos e pobres está aumentando no mundo todo. Hoje, os níveis de diferença são equivalentes aos da época da Revolução Francesa! Chega um ponto em que a pessoa está tão esmagada que não tem mais nada a perder… e a guerra vem daí. Quando dou aula sobre inteligência artificial, digo para as pessoas pararem de pensar na máquina que vai nos destruir. Quem vai nos destruir somos nós mesmos, em função das mudanças de papeis e do distanciamento que farão a gente querer se matar por poder, não por necessidade. Isso a tecnologia não irá resolver porque ela dá poder para quem está próximo dela. A tecnologia não tem preconceito nem predileção por um ser humano ou outro. Quem a estiver usando se beneficiará. E quem tem acesso a ela é quem tem dinheiro ou educação!

Como resgatar essa população?
Não vejo caminho se o governo não ajudar. Não se faz inovação sistêmica se não vier de cima. Ela precisa ser contaminada, polinizada de cima para baixo e, aí, volto às comparações. Os Estados Unidos são o que são, hoje, porque no século XIX decidiram, via governo, criar estruturas de inovação sistêmica. Assim foi com todos os países que tiveram grandes transformações nos últimos 40 anos. Por exemplo, queriam que a Coreia do Sul plantasse arroz porque eram bons isso. Eles se recusaram, olharam para as diretrizes do novo mundo e se propuseram a ter siderurgia, tecnologia de ponta. Isso foi uma decisão de governo. É por isso que deveríamos ter, no nosso governo, as melhores mentes!

Essa é a diferença de Catar (que vende energia limpa para Inglaterra por meio de uma parceria gigante), Abu Dhabi e Dubai, que deram um salto de desenvolvimento nas últimas décadas, para os demais Emirados Árabes. Observe se isso não é um direcionamento de governo: dos sete Emirados, o rico mesmo é Abu Dhabi, que possui petróleo. O que o príncipe de Dubai fez trinta anos atrás? Viu que precisava achar uma saída fora do petróleo, viu que eram o umbigo do mundo e definiu que se focariam em turismo, que é a grande mola de desenvolvimento deles hoje. O que me sufoca e me deixa desesperada é que se não melhorarmos a educação no Brasil… (pausa angustiada). 

Precisamos de uma população que aprenda a discutir, que reclame, questione e nos coloque em xeque. A solução de ontem não vale mais hoje!

Assisti a uma palestra do Tony Blair (ex-primeiro-ministro britânico), mais de dez anos atrás, em que ele disse: “para competir no cenário atual, nenhum país do mundo pode se dar ao luxo de ter educação de elite só para a elite”. O que faz uma civilização ser valorosa é, justamente, como ela trata os mais fracos, senão, somos como os animais irracionais, que abandonam os que não acompanham o bando. Teríamos de ter começado a “educação máxima”, que incentiva o pensamento crítico, lá atrás. Só que ninguém gosta de pensamento crítico. Filho com pensamento crítico dá trabalho! Se você visse os almoços de domingo na minha casa… Não é fácil porque cada um traz um argumento (risos).

Então, para nortearmos nosso pensar, qual é a próxima fronteira da inovação?
Hoje, olho para cinco áreas: inteligência artificial, robótica, nanotecnologia, internet das coisas e Big Data. Elas estão transformando o mundo em um cérebro tecnológico gigante, com inteligência coletiva. Nesse novo mundo, a inteligência é a mistura da inteligência artificial com a inteligência humana. Os corpos são os dos humanos, melhorados por diversas tecnologias, em variados níveis. Big Data é a memória digital, muito maior que a humana. E IoT são os sensores que conduzem às sinapses. Isso nos leva para um outro estado de humanidade e de civilização, completamente diferente do que vimos até hoje.

Estamos em plena aceleração, no cotovelo dessa virada. Por isso me preocupo em discutir qual o papel do ser humano nesse cenário. Falamos muito de homens brigando com máquinas, mas a questão maior – até para chegarmos no grau de AI do Exterminador do Futuro ou o do Homem Bicentenário – é moral e ética. É importante refletir sobre como garantir que cientistas e equipes multidisciplinares tenham critérios de moral e ética, o que é difícil porque são conceitos culturalmente negociáveis.

As pessoas pensam na tecnologia para servi-las, mas há um paradoxo aí. Se criamos tecnologia para, em algum momento, ela ter consciência, memória, sentimento e dor, ela será outra espécie, que conviverá conosco no planeta. Aí, não seria ético escravizá-la, assim como não deveríamos escravizar cachorros, gatos, pássaros etc. Como não pensar nisso agora se isso vai determinar o futuro?

Nesse cenário um pouco mais distópico, são essas coisas que me preocupam. Por outro lado, em um cenário utópico, imaginando que tudo será lindo, que o ser humano se equacionou, que não precisa mais trabalhar e que as máquinas também são ótimas, estão felizes com o que fazem… O que sobra para a gente?

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