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“Prestígio não tem a ver com cargo. Tem a ver com a diferença que você faz na vida das pessoas”

- 1 de junho de 2018
Cindy Carbonari conta sobre o período de incertezas e perrengues financeiros que viveu ao largar o cargo de advogada em um banco para trabalhar com projetos de impacto.
Cindy Carbonari conta sobre o período de incertezas e reconstrução da própria história.

 

por Cindy Carbonari

Primeiro, preciso pedir permissão para iniciar meu texto contando um pouco sobre a história da minha mãe. Falar dela é quase que explicar o elo entre o que eu era até maio de 2017 e o que sou agora, um ano depois. Com 17 anos de idade, minha mãe descobriu uma causa que move a vida dela até hoje. E eu, três anos anos depois, nasci bem no meio disso tudo.

Toda semana era a mesma rotina. Ela cozinhava, saía para a rua levando as quentinhas e sentava pelas calçadas batendo papo com os amigos da rua. Isso quando não trazia alguns em casa para tomar banho. Antes mesmo de eu completar 1 ano, ela se divorciou e, sem ter com quem me deixar, passou a me levar junto nas visitas aos amigos da rua. Foi assim que virei um Anjo da Cidade, nome da organização que continua ativa, 30 anos depois.

Crescemos juntas neste projeto e comecei a fazer faculdade de Direito com o objetivo de trazer justiça para o mundo. Mas a vida tem um jeito sutil de apaziguar nossos sonhos de transformação e, quando dei por mim, estava trabalhando no mercado financeiro. Por mais justiça que eu quisesse fazer, a realidade batia à porta e independência – financeira, principalmente – era minha maior missão naquela época. Trabalhar no mercado financeiro – sendo mulher e com apenas 20 anos – me trouxe a esperança de ser independente cedo.

Por seis anos, depositei todas as minhas energias em crescer na carreira e deixei de acompanhar minha mãe no projeto com a população de rua. Anestesiei meu coração

Era gratificante ser promovida, assumir a ouvidoria do banco, fazer pós-graduação e ser respeitada. E eu queria mais. Com 26 anos, fui promovida à advogada sênior e me senti ganhando um troféu. Eu era o orgulho da família e amigos.

Até que um um dia qualquer, em um call já depois das 23h, estava falando sobre os detalhes de um contrato com um advogado e, de repente, começamos a refletir sobre o quanto as nossas vidas tinham se desvirtuado daquilo que a gente acreditava. Ele me chamou para conhecer a Base Colaborativa, uma organização sem fins lucrativos que busca potencializar pessoas e ideias que querem melhorar o mundo.

Aceitei praticamente sem pensar e, na semana seguinte eu estava no projeto Abacaxi (de apoio a pequenos empreendedores nas periferia) para atuar como advogada voluntária no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo.

A partir do trabalho voluntário, comecei a sentir de verdade o que é exercer a profissão de advogada e a entender a razão de todos aqueles anos de estudo

Mergulhei tanto nesse projeto que meu trabalho no banco passou a ser só mais uma dentre as minhas funções. Percebi que a independência não estava no salário alto. Ainda faltava alguma coisa e esse vazio começou a me visitar todos os dias, perturbando meu sono.

Esta inquietação apareceu, inclusive, nos meus exames, quando descobri que o cortisol, hormônio do estresse, estava o dobro dos níveis limítrofes. O dobro! Então, como todo profissional insatisfeito com o que faz, resolvi tirar férias. Passei 15 dias na América Central e esse foi um dos momentos cruciais para a mudança que se mostrava necessária.

A história que eu contava quando me apresentava para as pessoas que conhecia não era, nem de longe, a que eu queria contar. A Cindy que sonhava ver por aí não era a advogada de banco, não ganhava tanto dinheiro, não passava o dia estruturando operações para grandes empresas. Ela era aquela que sentava na calçada com os amigos de rua e que, com seu conhecimento, conseguia arrancar sorrisos do pessoal do Capão Redondo.

Voltei de viagem e, dois dias depois, pedi demissão. Fiz isso sem saber para onde ia, o que ia fazer e muito menos como ia pagar os financiamentos da casa e do carro que tinha.

Quando se resolve jogar tudo para o ar, sem saber para onde ir, é você com você mesmo. É a sua coragem, a sua força e a sua vontade de fazer diferente que vão te manter em pé

Não vai ter família, amigos ou qualquer outra divindade para te confortar. E comigo não foi diferente. Eu sabia que não queria mais ser aquela pessoa. Ao mesmo tempo, não sabia quem eu era. Ficou ainda mais difícil me apresentar e contar minha história.

Mergulhei nos projetos e programas da Base Colaborativa para ocupar meu tempo e uma coisa foi levando à outra. Aprendi a meditar e nesses momentos íntimos com o silêncio conversava comigo mesma e dizia que tudo iria dar certo. Tinha algo em mim que era bom e isso me deu esperanças.

O Rafa Maretti, zelador e fundador da Base, tem um jeito de enxergar o que você tem de melhor e foi um dos pilares nesse meu tempo de incertezas e contas – muitas – para pagar. Quando se está em um período de transição é preciso ter ao menos alguém para se inspirar, e ele foi a minha grande inspiração.

Sem esperar nada em troca, mas como se já tivesse sido escrito, fui convidada para trabalhar na Base Colaborativa em agosto de 2017. Desde aquele momento, minha vida e trabalho se juntaram de um jeito que já não sei dizer se faz sentido existirem duas palavras distintas. Entrei para receber um quinto do que ganhava e, apesar de transbordar de felicidade, as minhas contas colapsaram.

Eu achava que não tinha nenhum problema, só o do dinheiro. Aí, percebi que estava sendo controlada por ele

Para mudar isso, precisei transformar tudo que acreditava sobre ter e possuir. Passei noites em claro fazendo trabalhos paralelos que me mantivessem nesse sonho. Chorava em todas as meditações porque não queria aceitar que talvez não fosse conseguir trabalhar com aquilo que tinha me trazido felicidade genuína pela primeira vez na vida.

Exatamente um ano depois de ter pedido demissão, hoje preciso de muito menos do que precisava antes para viver bem. Reduzi gastos, vendi meu carro e pedi ajuda de pessoas próximas que passaram a me apoiar quando me viam com brilho nos olhos e sorriso no rosto. O dinheiro não é mais meu vilão, mas tornou-se meu aliado e companheiro para que eu continue exercendo a profissão que me traz sentido.

Agradeço todos os dias por ter tomado as decisões que tomei, por ter enfrentado todos os preconceitos e todas as vezes que me chamaram de louca e disseram que meu sonho era utopia. Aquela sensação de perda de prestígio, na verdade, me fez perceber que o que eu achava que tinha não estava relacionado com isso. Prestígio não tem a ver com cargo, tem a ver com a diferença que você faz na vida das pessoas.

Às vezes, você só precisa sair contando a sua história por aí (inclusive para o espelho), e se em algum momento isso não te fizer sorrir, se emocionar ou se arrepiar, é hora de colocar a mala nas costas e ir em busca de um outro caminho.

Hoje, minha história me faz sorrir. Entendi que a lição mais importante que aprendi com a minha mãe foi a de agir com amor. Sabe o que acontece quando você deixa seu coração falar? O medo desaparece. Não é à tôa que coragem (do latim, cuor agire) significa agir com o coração. É assim que eu sigo.

 

Cindy Carbonari, 27, é formada em Direito e trabalhou por seis anos no mercado financeiro. Hoje é empreendedora social na ONG Base Colaborativa e facilitadora do curso de Teoria U.

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